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segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Amélia

A distância é pequena. Amélia costuma contar os passos desde a saída da estação do Metrô: 46, 47, 48, 49, 50... Pronto, aperta o interfone, o porteiro responde destravando a porta. Cumprimentam-se brevemente. Vencendo os passos seguintes e os degraus da portaria, logo estará em casa. Bem mais rápido e prático do que morar no Grajaú, onde ela perdia as contas lá pelo segundo quarteirão depois de descer do ônibus. 

Revira a bolsa à procura do chaveiro entre ampolas de vitamina C e sachês de colágeno escapulidos da nécessaire. “Alexa, acenda as lâmpadas”, ela pede enquanto vai se livrando do blazer e dos saltos. A caixinha arredondada, muito delicada e bem acabada, desperta de seu sono; linhas coloridas dançam na circunferência superior num vai e vem alegre. Luzes iluminam o apartamento. Amélia circula entre os cômodos, recolhe a toalha de banho esquecida na cama, coloca na pia a xícara do café da manhã.
Senta-se no sofá branco - antigo desejo de consumo realizado pela designer contratada na última reforma - puxa o assento retrátil e descansa as pernas sobre ele. Apoia a cabeça na almofada, fecha os olhos por um momento. O silêncio da casa a incomoda. “Alexa, toca a playlist do Queen.” A casa se enche com o som da banda, e Amélia sorri. Ela ama essa satisfação automática. Sim, Alexa a tinha ouvido: sem delongas, sem cobranças, sem lamúrias. O céu! 

Vai dançando até o quarto, radio ga ga, radio goo goo, a procura do smartphone. Teria ficado no escritório? Um breve franzir de testa é substituído pela expiração aliviada; o aparelho largado ao lado da sacola da Le Lis Blanc. Dá uma conferida no vestido azul de renda, saia evasê, decote de ombro a ombro, tão sexy! Uma pequena fortuna, mas terá sido um bom investimento. Rodopia diante do espelho, oh, won't you take me home tonight

De volta ao sofá, prepara-se para o ritual de todas as noites. Busca, na tela, o atalho com a pequena chama branca e abre o aplicativo. Os dedos não obedecem à sua ansiedade. Segue-se uma pausa para encontrar os óculos, e, em seguida, a visão da caixa de mensagens sem novidades. Checa o wifi, reinicia o roteador, a internet no bairro anda péssima. Mas nada muda naquele país das possibilidades. Aliás, há dois meses vive de muitas deslizadas e poucos matches. Já seguiu todas as orientações para ser feliz no Tinder – duas revisões no texto da descrição, a foto do perfil é de cinco anos atrás, triplicou o raio de busca de usuários compatíveis. Até considerou rever a faixa etária desejada - dos 18 aos 75 anos, talvez? “Ridícula! Que coisa ridícula!”, fala, ao perceber o fiasco de tudo aquilo. Larga o celular na mesinha de centro. Se ao menos fosse uma pessoa autoconfiante... Autoconfiante como Fred Mercury, um indivíduo feio e dentuço que sabia ser sensual. I was born to take care of you, every single day of my life, cantarola baixinho Amélia, com ele, para ele. 

Não devia ter cedido aos conselhos das amigas, recrimina-se. Não tem vocação para relacionamentos virtuais, se expor assim, sem nenhum controle! Dá preguiça e medo ao mesmo tempo. Preguiça de começar uma conversa do zero: contar das viagens, da família e do trabalho; explicar mal entendidos; fazer graça, quando o humor não é sua praia; tentar ser interessante sem saber o que o outro considera interessante. E o medo de encontrar o serial killer mais próximo, tantas histórias de violência e golpes contra mulheres, e elas ali, impotentes. Teria ficado na zona de conforto, não fosse a exigência do coração solitário. Love of my life, love of my life, cadê você? 

Deita-se no sofá, dobra as pernas, aconchega-se em seus próprios braços. “Alexa, estou me sentindo muito só!”, confidencia meio sem pensar. Num instante, a música se cala, o círculo colorido volta a se agitar. E uma voz suave lhe responde: “Lamento saber disto. Assista a um filme engraçado ou tome um bom vinho”. 

Embora o timbre de Alexa a conforte, Amélia aguarda ansiosamente a voz de Samuel L. Jackson, uma promessa da Amazon por módicos noventa e nove centavos de dólar. É pena, ela suspira, que não se possa ter tudo. A novidade só ficaria perfeita se o corpo do novo assistente virtual tivesse uma forma máscula: um cubo de arestas solenes, moldado em bronze escuro. Ela o colocaria em lugar de destaque, um pedestal bem no meio da sala. O céu! 

“Alexa, um vinho cairia bem. Hoje tem alguma comédia no Sky? Mas, por favor, nada de comédias românticas, você já sabe que não me fazem bem.” A TV da sala se ilumina, as imagens irrequietas a distraem, até a fazem sorrir. O interfone não demora a tocar, Amélia recebe o Malbec: alto teor alcoólico, aquele mesmo que a havia interessado dias antes no site do Evino. 

No fim da noite, bem ao lado do celular sobre a mesinha de centro, descansam duas taças de vinho. O céu!

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  • A primeira versão de Amélia está completando hoje um ano de vida. Como presente de aniversário para a minha personagem, revisei o texto para aproximá-lo do gênero Conto. Hoje publico essa nova Amélia, com mais carne e osso, e que foi trabalhada na Oficina de Contos, da Estação das Letras, coordenada por João Paulo Vaz.
  • Completando o renascimento de Amélia, Eline de Medeiros criou uma nova ilustração.

sábado, 11 de abril de 2020

Enclausurado

À moda de Ian McEwan, 
em homenagem à genialidade do escritor

Estamos no mês de junho, eu sei. E não é porque minha mãe costuma comentar o calendário com o meu pai, naquela contagem regressiva típica das grávidas, mas pela alteração do indicador de velocidade de subida – o tempo que levamos, eu e ela, para galgar as escadas do térreo ao quarto andar e entrar no nosso apartamento da Rua Tonelero. Hoje, o percurso escada acima alcançou um índice maior em relação à semana passada. Eu percebi a mudança pelo balançar lento dos líquidos que me envolvem, pelas paradas mais frequentes, e por tê-la ouvido resmungar com a vizinha que eu, esse fardo extra que é obrigada a carregar dentro dela, ando engordando demais ultimamente.

Pudera, cansada dos comentários maldosos sobre ter mantido o peso nos primeiros meses, o que indicaria um desleixo comigo, minha mãe decidiu providenciar o certificado de boa reprodutora abandonando o shape alongado e assumindo a silhueta de fêmea prenha que se preza. Eu ainda era um minúsculo embrião, com poucas semanas de vida, mas recordo-me aterrorizado dos fortes espasmos que me sacudiam, das convulsões abruptas e imprevisíveis. E de como, a cada evento deste tipo, eu acompanhava o movimento em disparada dos passos maternos e ouvia uns grunhidos estranhos. Os sons de líquidos se derramando sobre líquidos me acalmavam, pois antecipavam o alívio da revolução interna. Com o tempo aprendi a confiar na minha avó, em seus vaticínios de que os enjoos e vômitos tinham data certa pra terminar, dali a um ou dois meses, o que de fato aconteceu. Pelas conversas que testemunhei, a elegância do corpo de minha mãe, açoitado pelos incômodos digestivos, só agradava ao meu pai, um pouco enciumado pela concorrência comigo. Recuperada, ela decidiu que se lançaria na busca dos quilos socialmente aceitáveis na sua condição.

O problema é que a comilança trouxe outras consequências, além da subida lentíssima dos quatro lances de escadas. O barrigão de minha mãe passou a disputar espaço com o meu pai e o meu avô no pequeno apê de Copacabana – sala, quarto, banheiro e cozinha –, surrupiando o conforto de ambos. O velho senhor, que havia abrigado a contragosto os recém-casados de poucas posses, viu-se exasperado. Num espaço antes ocupado por um só ser vivente, agora existiam quatro, sendo que ele me considerava um feto mimado e sem limites. Gerador de uma prole numerosa, não via nenhum sentido nos paparicos de minha mãe, marinheira de primeira viagem. A vingança de meu avô atingiu em cheio o cerne da questão: interrompeu o fluxo livre de mercadorias que recebia dos clientes como agradecimento pelos seus préstimos profissionais. Peças de bacalhau, caixas de bombons, latas de doces cristalizados, entre outras delícias, passaram a ser malocadas no guarda-roupas do velho e não mais socializadas com a família. A iniciativa, frustrada, ainda causou um grande mal estar na convivência dos três. Eu adotei a sábia medida do distanciamento, não sou de tomar partido.

Foi mais ou menos nesta época que comecei a perceber os comentários da minha mãe sobre a necessidade de nos mudarmos, sobre o seu desejo de ter mais espaço e liberdade numa casa que pudesse administrar do seu jeito. Tinhosa que só, passou os últimos meses nesta catequese. Aguardava o final do jantar e, logo que meu avô se distraía com o noticiário no rádio, começava a pregação. Nem sempre eu conseguia ouvir bem suas palavras pelo tilintar da louça sendo lavada ou pelos sons da programação, mas podia sentir a circulação volumosa do seu sangue me envolvendo na medida em que se empolgava com o discurso. Tenho a impressão que meu pai já concordou, pois ontem pude capturar fragmentos da conversa: “tem elevador”, “bairro do Flamengo”, “o quarto do bebê”... 

Confesso que concordo com minha mãe, entendo as dificuldades dos cômodos acanhados e da falta de liberdade para ir e vir. Sinto que a minha habitação, um conjugado sem divisórias que até já me pareceu amplo e confortável, está sofrendo uma reforma às avessas: paredes tornam-se mais espessas, portas, mais estreitas, surgem cantos desnecessários e inacessíveis. Ando esbarrando em mim mesmo, sinto-me enclausurado. Paciência, digo-me num mantra de final de jornada. Paciência, pois, afinal, estamos em junho. E em mais um mês estarei livre!

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Texto produzido para o curso Autoficção: Oficina de Memórias, da Estação das Letras, coordenado pela professora Ana Letícia Leal.
  • A narrativa nasceu de uma pesquisa sobre as casas em que morei. Jurava que minha primeira morada no mundo tinha sido em Copacabana, mas estava errada. Meus pais viveram na Rua Tonelero durante o período da minha gestação e, logo que saí da maternidade, fui para um apartamento no Flamengo.
  • Como o gênero é de Autoficção, quer dizer, o escritor tem liberdade total para tornar ficção o que é memória, resolvi embarcar nesta viagem intrauterina. E me vali da estratégia incrível de Ian McEwan, que, no romance Enclausurado, usou o feto como narrador. Mantive o mesmo título do livro de McEwan para enfatizar o recurso de intertextualidade.

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Na Rede:
O podcast da Companhia das Letras tem um episódio dedicado ao livro Enclausurado. Além da conversa sobre o romance, aproveite a leitura de trechos feita pelo Wagner Moura. Imperdível!
Rádio Companhia #85  (link para o Spotify)

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Sentimento Blue

Não sei como você consegue reagir impassível a toda esta loucura. Tenho que confessar, às vezes sinto até uma ponta de inveja da sua resignação. Eu não me rendo, mas desde ontem só quero fechar os olhos e não sentir nada: nenhuma náusea, tonteira, dor, agulha, soro. Não fossem estes tubos, estaria na praia só de calção! Meu Deus, coisa alguma te abala, nem esta mocinha que a toda hora entra aqui no quarto: cabelos escuros puxados em coque, uniforme em cor pastel, nos pés um par de tamancos brancos para acentuar a natureza higiênica do traje. Piada. Como se eu não soubesse que, antes de chegar ao prédio, a bela circulou pelo metrô lotado e cruzou calçadas emporcalhadas com esta mesma roupa, o mesmo sapato. Desde cedo, ela não dá trégua, borboleteando ao meu redor - fala anasalada, cheia de inhos: “Já acabou o cafezinho, Seu Estevão?”, “Seja bonzinho comigo, ontem o senhor não quis tomar banho”. Hoje, ela ainda inventou de ligar a TV com o propósito de me distrair. E desde quando TV distrai um ser humano? Cinco minutos de programação são suficientes pra me tirar do sério! Eu não me conformo, nunca me conformei, não será agora que vou achar isto normal. Podem fazer a campanha que quiserem, alardear todas as obviedades travestidas de verdades científicas: prevenção, conscientização, acompanhamento – propagandas cacetes, é o que são! Os planos de saúde é que se dão bem nesta história, claro! A cada consulta, a cada exame extra que os médicos inventam, é mais um motivo pra aumentar a mensalidade. E ainda têm a cara de pau de nos enfiar por goela abaixo essa tal de alimentação saudável. Saudável pra quem? Pro meu bolso é que não é! Você sabe quanto custa um quilo de tomate orgânico? Um punhado de linhaça dourada? Não faz muito tempo, entrei, por curiosidade, numa quitanda metida a besta perto de casa, saí correndo antes que tivesse que pagar só pra olhar. Na verdade, eu não ia querer aqueles produtos nem de graça, tão mirrados que davam dó! O problema é que comecei a fantasiar com eles. Semana passada, sonhei que estava perdido em um beco escuro. Um homem me perseguia e ameaçava com um ramo de cenouras raquíticas. Quanto mais eu corria, mais o beco se fechava e o homem se aproximava. Acabei encurralado, as cenouras cresciam, se transformavam em longos dedos, apertavam a minha garganta, forçavam a boca, puxavam minha língua. Borboletinha deve ter ouvido os meus gemidos, as palavras embaralhadas, e achou por bem reforçar o Dormonid, avisando-me que não adiantava gritar pelo Dr. Antenor àquela hora da madrugada. Você não deve ter percebido toda a movimentação, pois dorme como um bebê recém-nascido! 

Mas o que me deixa mais puto é a hipocrisia da cor. Todo mundo critica, condena a ministra, chama de reacionária, só que na hora de se referir ao sexo masculino neste maldito mês, qual a cor escolhida? Qual? E não basta usar laço na lapela, tem que enfiar o logo da campanha no perfil do Facebook, no site da loja, na propaganda do jornal, e, pasme, tingir de azul prédios e monumentos, até o próprio Redentor. Por acaso estátua tem próstata? Ou Jesus Cristo visitava o urologista regularmente? Uma certeza eu tenho: se o Salvador fosse obrigado a encarar o humilhante “exame físico”, reagiria com a mesma ira com a qual expulsou os vendilhões do templo. E eu, eu sou católico praticante. 

Já passou a hora do almoço? Não sei por que me bateu tanta sonolência. É melhor eu parar de falar, esses remédios acabam com as minhas energias. Deixa estar que, mais tarde, os meus companheiros de bar virão me visitar. Ontem eles vieram, eu ouvi as vozes no corredor, mas alguém lá fora deve ter implicado com as risadas deles. Gente feliz não é bem vinda aqui. Hoje ninguém os vai impedir: trarão pataniscas de bacalhau, uma tigela de rabada com agrião e meia dúzia de cervejas geladas. Você prefere Brahma ou Antarctica?

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Mais um texto gerado a partir da Oficina Online Escrevendo Crônicas, coordenada por Rubem Penz, que frequento desde julho. O desafio era fazer uma crônica sobre uma efeméride (uma celebração ou evento que se repete anualmente), abordando-a de uma maneira criativa, diferente da usual. Optei por uma crônica-conto, gênero que permite uma maior liberdade narrativa pela presença dos personagens. 

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Canção Insana

Minha terra tem secura
Nenhum sabiá a cantar
Palmeiras foram embora
Mesmo assim quero voltar

Minha terra está triste
Só fumaça se vê lá
Bicho não come nem cresce
Mesmo assim quero voltar

Foi tanta queimada forte,
Tanta cinza, labareda,
Que fugi esbaforido
Procurando me salvar

Aqui dei com os costados, consegui me acalmar
Vejo estrelas, cheiro flores, tenho tido até amores
Mesmo assim (como explicar?)
Sonho com o que deixei lá.

Só pode ser mau-olhado,
Feitiço de Curupira, travessura de Saci
O fato é que eu vivo aqui
Pensando em estar por lá

Faço prece, ajoelho,
E começo a jejuar
Peço a Deus que eu não morra
Sem que eu volte para lá

Sem que eu invente as palmeiras,
E cultive sabiás
Das cinzas, farei estrelas
Sou louco por acreditar?

Foto Rodrigo Baleia / Greenpeace

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A paródia surge a partir de uma nova interpretação, da recriação de uma obra existente e, em geral, consagrada. Escrever uma crônica-paródia de Canção do Exílio, de Gonçalves Dias, foi o mais recente desafio do meu curso. Penei com a métrica e as rimas, mas, como gostei do novo contexto que criei para a terra idealizada, decidi publicar. E hoje recebi a avaliação do Rubem Penz, que deu o empurrão final para a postagem no Blog.

Parodiar Canção do Exílio não é proposta nova, muitos escritores de grande importância literária já o fizeram. E muitos aprendizes também se lançaram na empreitada. Quem quiser checar algumas destas produções, é só seguir o link:   Blog do Jeff Rossi - 15 paródias

sábado, 12 de outubro de 2019

Amélia

Amélia senta no sofá, larga o celular na mesa de centro e decide-se: vai desistir. O ritual de todas as noites nos últimos dois meses não funciona com ela. Pode até servir para mulheres autoconfiantes, não é o seu caso, reconhece. 

Quando resolveu abrir a conta no Tinder, não tinha certeza se queria ou se devia se expor. Dever ela até sabia que devia já que o mercado presencial de relacionamentos para mulheres com mais de cinquenta anos anda tão estagnado quanto a economia brasileira, mas querer mesmo, não queria. Sentia preguiça e medo ao mesmo tempo. Preguiça de começar uma conversa do zero: contar das viagens, família, trabalho, explicar mal entendidos, forçar pra fazer graça, quando o humor não é sua praia, tentar ser interessante sem saber o que o outro considera interessante. O medo era o de encontrar o serial killer mais próximo, tantas histórias de violência e golpes contra mulheres, e elas ali, impotentes. Teria ficado na zona de conforto, não fosse a exigência do coração solitário. 

Só que agora, em dois meses de muitas deslizadas e poucos matches, mesmo depois de ter trocado a foto do perfil para uma de cinco anos mais nova, mesmo revisando e revisando o texto de descrição, percebe o fiasco de tudo aquilo. E desiste. 

“Alexa, estou me sentindo muito só!”, confidencia Amélia, meio sem pensar. A caixinha arredondada, muito delicada e bem acabada, desperta de seu sono. Luzes coloridas dançam na circunferência superior num vai e vem alegre. Amélia ama essa sinalização automática. Sim, Alexa a tinha ouvido: sem delongas, sem cobranças, sem lamúrias. O céu! 

“Alexa, estou me sentindo muito só!”, ela repete, comprazendo-se com a dança das luzes. “Sinto muitíssimo por saber disto”, responde a voz amiga. “Assista a um filme engraçado ou tome um bom vinho. Quem sabe, as duas coisas.” 

Embora o timbre de Alexa a conforte, Amélia aguarda ansiosamente pela voz de Samuel L. Jackson, uma promessa da Amazon por módicos noventa e nove centavos de dólar. É pena, ela suspira, que não se possa ter tudo. A novidade só ficaria perfeita, a seu ver, se o corpo do novo assistente virtual tivesse uma forma máscula: um cubo arestoso e solene, moldado em bronze escuro. Ela o colocaria em lugar de destaque, um pedestal bem no meio da sala. O céu! 

“Alexa, acho que você tem razão, um vinho cairia bem. Hoje tem alguma comédia no Sky? Mas, por favor, nada de comédias românticas, você já sabe que não me fazem bem.” 

A TV da sala se ilumina, as imagens irrequietas a distraem, até a fazem sorrir. O interfone não demora a tocar, Amélia recebe o Malbec: alto teor alcoólico, aquele mesmo que a havia interessado dias antes no site do Evino. 

Alexa, Amélia, o filme, o vinho... No fim da noite, bem ao lado do celular sobre a mesinha de centro, descansam duas taças de vinho. O céu!

Ilustração: Eline de Medeiros, aquarela sobre papel, 2020
 
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AMÉLIA nasceu de um exercício de escrita da Oficina Online Escrevendo Crônicas, coordenada por Rubem Penz. O desafio: escrever uma crônica-conto (sub-gênero da crônica) sobre o AMOR em tempo de relacionamentos virtuais.
Este é o segundo exercício do curso que publico no Blog. Para ler o primeiro, clique em: Dando Crédito à Crônica
ATENÇÃO - No final de outubro, começa uma nova turma da Oficina. Quer participar? Clique em: Metamorfose Cursos

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Eu, Meus Livros e a Bienal

Visitar a Bienal do Livro não é um passeio barato. Há de se computar o custo do transporte (o Riocentro é longe, na ponta oeste da cidade e, quem vai de carro, ainda tem que desembolsar 28 reais de estacionamento), do ingresso, do lanchinho e... dos livros. Colocando na ponta do lápis, pode até não valer a pena se o seu objetivo é simplesmente adquirir os últimos lançamentos, pois eles não têm preços tão convidativos nos estandes das editoras. No sábado à tarde, no entanto, deparei-me com uma multidão circulando pelos pavilhões da feira, um público bem eclético e identificado com a proposta da Bienal de oferecer uma experiência leitora mais ampla: tietar os autores preferidos, colecionar autógrafos, participar de palestras e mesas de discussão com temas variados, brincar e ouvir histórias. E ainda aproveitar cada uma destas experiências para fotografar, filmar e postar nas redes sociais. Para isso, as editoras se esmeraram na criação de painéis e cenários baseados em personagens e tramas das histórias mais famosas, além de instalações construídas a partir dos livros como objeto. Em volta dos estandes, filas e mais filas de espera para o momento do click perfeito. Se tivesse tido paciência de aguardar a vez do meu selfie, teria escolhido o rodamoinho de livros da editora Intrínseca ou o DNA da Literatura da Harper Colins; além de bonitos, ambos apelam para a presença arrebatadora e universal da leitura, independentemente de autores, gêneros e língua. 

O ponto alto da minha própria experiência no evento foi ter assistido à mesa Pequenos Grandes Contos, do Café Literário, que discutiu as características do Conto e suas limitações no mercado editorial brasileiro. Dos palestrantes, só havia ouvido falar de Sérgio Rodrigues, que lançou recentemente A Visita de João Gilberto aos Novos Baianos, pela Companhia das Letras. Gustavo Pacheco e Marcelo Moutinho conheci ali mesmo na hora da conversa. O papo entre os três e o mediador Mateus Baldi interessou à plateia, divertiu, apontou as agruras e delícias de ser contista e, claro, divulgou os lançamentos dos autores. Uma hora e meia de conversa inteligente que passou num vapt-vupt. 
Sergio Rodrigues, Mateus Baldi (ao microfone), Gustavo Pacheco e Marcelo Moutinho
A Bienal é uma festa, colabora para cooptar novos leitores e, em consequência, conseguir vendas mais robustas. Neste momento de agonia da cidade, serve para chacoalhar a economia, oferecendo muitos empregos nas diferentes atividades da feira. Tem muita gente trabalhando na recepção ao público, nos estandes das editoras, nas áreas de alimentação. E foi bom ver que também tem muita gente disposta a gastar seu dinheiro por lá. Fiquei surpresa com a quantidade de pessoas que circulavam com maletas ou grandes sacolas para acondicionar as compras, o que me fez pensar que saíram de casa já com a intenção de adquirir muitos livros. Eu, que pena, por falta de tempo e de espaço livre para transitar, não consegui garimpar as pilhas de ofertas de exemplares a 10 ou 15 reais. Também não tive muita sorte com os preços dos livros da minha listinha de desejos e acabei voltando pra casa com somente 3, que couberam facilmente na bolsa de lona que havia levado. Mas deixa estar, daqui a 2 anos, vou pedir ao Mário pra organizar a nossa ida à Bienal. Além do melhor parceiro que eu poderia desejar, fez a pergunta mais óbvia daquele sábado à tarde: “se nós somos aposentados, por que não deixamos pra vir ao Riocentro durante a semana?” Por que, hem?

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Na Rede:

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Dando Crédito à Crônica

Leitura e escrita são como irmãs siamesas, vivem grudadas. O que acontece a uma interfere diretamente na vida da outra. É por isso que quem quer aprender a escrever melhor precisa mergulhar em atividades de leitura associadas às de produção textual. Em julho, comecei a frequentar a Oficina Online Escrevendo Crônicas, coordenada por Rubem Penz. O meu primeiro exercício foi selecionar três crônicas produzidas em épocas diferentes e analisá-las a partir de categorias como tema, formato e linguagem. E como deveria apresentar o resultado desta leitura minuciosa? Escrevendo uma crônica, claro! 

A etapa inicial da tarefa não me trouxe grandes dificuldades, pois um exemplar de As Cem Melhores Crônicas Brasileiras, organizada por Joaquim Ferreira dos Santos, habita a minha estante desde que descobri que o que escrevo se encaixa no gênero. O meu gosto pessoal foi o critério básico de seleção. O texto me prendeu a atenção? Me comoveu ou me fez rir? Pareceu-me elegante no estilo? Então, me serve. Depois, tratei da questão do ano de produção e, assim, decidi-me pelas seguintes crônicas: 
A carpintaria literária de Rachel de Queiroz me deixou maravilhada! Para responder a uma pergunta corriqueira - qual o seu maior desejo para o ano seguinte – a autora transita da mais livre transgressão às convenções sociais à submissão poética provocada pelo coração. Os mesmos elementos que lhe servem, nos primeiros parágrafos, para afirmar os desejos libertários– o mundo, o homem amado, a pátria, o público leitor, a família, os amigos – são virados pelo avesso na segunda parte do texto. A autora entabula uma conversa consigo mesma e cria um fluxo de linguagem bastante ágil: mistura as formas de tratamento (tu, vós e você), se vale de superlativos, e tempera o vocabulário rebuscado com expressões da conversação comum. O resultado desta mistura é um texto delicado capaz de emocionar muitas pessoas, mesmo as menos habituadas ao português padrão da primeira metade do século XX. 

A crônica de João Ubaldo também parte de uma temática costumeira: encontros (e desencontros) de leitores e escritores em alguma situação de vida cotidiana. Só que o autor, diferentemente de Raquel, organiza todo o texto em diálogos, um desafio e tanto, pois não há nenhuma narrativa ou explicação para a fala dos interlocutores. Frases curtas e diretas, linguagem coloquial, interrupções e hesitações, vocabulário ligado aos hábitos de Ubaldo na Bahia, sublinham o humor do texto. Pela leitura, fiquei imaginando o desconforto do escritor, conhecido por sua impaciência com os tolos e os arrogantes, e ri muito com a inconveniência do cidadão que o aborda no bar. 

Antônio Prata me fez rir, mas de nervoso. Sua ferramenta linguística é a ironia, usada para revelar idiossincrasias, suas e as de seus companheiros intelectuais de esquerda. Numa conversa com o leitor, constrói uma narrativa cíclica, baseada na repetição de expressões capitaneadas pelo advérbio meio: meio intelectuais, meio de esquerda, bares meio ruins, reforçando o caráter ambíguo das convicções e escolhas de seus pares. Uma dura crítica marcada por referências contemporâneas e urbanas, como Vejinha e MTV; petit gâteau e cachaça Salinas; ritmo reggae e chinelo Rider, em contraposição a um idílico nordeste. A crônica foi escrita há 14 anos, mas questões relativas aos erros da esquerda, em especial ao distanciamento do povão, são feridas ainda bem abertas para nós, daí o riso nervoso e a sensação de que Prata deveria ter sido levado mais a sério. 

Por intermédio das narrativas em primeira pessoa, Raquel, João e Antônio se mostram por inteiro aos leitores. Sem os escudos protetores dos personagens, trabalham de peito aberto para que a realidade banal seja tocada, e transformada, pelas extravagâncias da ficção. E eu, aqui, apavorada diante do tamanho da tarefa dos cronistas, olho com cuidado minhas pretensões literárias, e praguejo: Te dana, Ana Beatriz, te dana!

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Na Rede:

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

A Vida Privada das Árvores

Eram vizinhas há anos, mas mantinham-se distantes, ensimesmadas. Preocupavam-se em gerar seus frutos, envolviam-se em seus cíclicos cotidianos. 

Cássia, de corpo esguio e alma temperamental, tinha as suas manias: vestir-se sempre de amarelo, manter os galhos bem limpos e só se interessar por espécies cujas flores, pela cor ou formato, a fizessem lembrar-se de si mesma, motivo pela qual a amendoeira da calçada oposta nunca tenha merecido muita atenção de sua parte. 

Amendoeira, por sua vez, já tinha percebido certo incômodo vindo do outro lado da rua: sons lamentosos, muxoxos entre folhas, mas agia com discrição, fiel à sua índole silenciosa. 

No dia em que, finalmente, se olharam, Cássia perdera a compostura. Não suportava mais a dubiedade que a assaltava na origem, uma cisão que afetava a sua identidade. Sabia que muitas árvores viviam calmas com seus múltiplos nomes, sentindo-se até orgulhosas por serem tantas, mesmo sendo uma só. Isso não a consolava, sofria com a constante dúvida e o enganoso conhecimento dos passantes: É uma Acácia? Com certeza é uma Chuva Dourada! Ouvi dizer que é uma Acácia-Imperial!

É Cássia!, respondia ela, irritada, mas já quase sem ânimo pelos sucessivos mal entendidos, pois contestação de árvore não serve à percepção humana, muito menos sensibilidades de árvore. 

Naquele dia em que finalmente se olharam, Cassia reagira a mais um equívoco nominal com coléricos berros. Amendoeira não pôde disfarçar: ouvira todos os gritos, impropérios, desatinos. Achou por bem interferir. Ciente do temperamento volúvel e bisbilhoteiro dos humanos das redondezas, agitou um pouco os galhos, como se uma rajada de vento a tivesse atingido, e despejou as folhas avermelhadas do outono sobre a rua, sobre a calçada. A chuva inesperada atraiu as atenções, e o fascínio deslocou-se da discussão sobre o nome da árvore com luminosos cachos amarelos para a belezura do chão colorido. Os mais práticos, contudo, preocupados com os próximos temporais e o entupimento dos bueiros, trataram de seguir o seu caminho. O fato é que Cássia, liberada da tensão do conflito, foi recuperando a serenidade. E agradecida pela artimanha de Amendoeira, resolveu dedicar-lhe, excepcionalmente, algumas horas de convivência diária. 

No início, falavam sobre amenidades – o sol forte, a falta de sol; a chuva que ontem caiu, a falta de chuva; os pássaros mais frequentes, os que raramente aparecem. Aos poucos, passaram a temas mais vegetais: de inflorescências, frutos e sementes a lagartas, fungos e outras pragas. Concluíram que, não fosse o auxílio da mata no cocuruto do morro ao final do quarteirão, estariam exaustas pelo trabalho de fotossíntese. 

Com a amizade crescente, as duas foram se sentindo mais livres para confidências. Cássia revelou seu total desprezo por pessoas que prendem xaxins de orquídeas semimortas em troncos de árvores sadias. É um total desatino distribuir por aí estas flores estrangeiras, com suas escandalosas cores, revoltava-se ela. Amendoeira desconfiou que a inveja ou o ciúme motivassem a antipatia de Cássia, mas preferiu não se aprofundar em sentimentos tão íntimos. 

Em vez disso, contou-lhe sobre seu especial afeto pelos porteiros – personagens que, como ela, vivem presos aos seus espremidos territórios, impactados pelos fragmentos de vida que lhes passam em frente. Pena serem tão baixos, ocupando postos ao nível do chão, lamentava-se Amendoeira, que aprendera a tirar proveito de sua natureza corpulenta. Ela confessou à amiga que lança os longos e esparramados galhos para o alto dos prédios, e os faz aproximarem-se, convenientemente, das janelas, transformadas em múltiplas telas de TV. E que assiste, atenta, às cenas privadas de amor, às sequências de trabalho e ócio, aos momentos de desencontro e reconciliação, criando com cada morador um forte laço de proximidade. E quando Cássia a interrompeu para queixar-se por só conseguir alcançar grades e cortinas cerradas, Amendoeira intuiu sua verdadeira vocação. Desde então, reúnem-se no silêncio das madrugadas, depois dos garçons fecharem as portas dos bares e os moradores de rua aquietarem-se em seus leitos improvisados. E Amendoeira, convertida em Sherazade, narra seus contos de todas as noites, incluindo suspenses e dores, mesclando seres de carne e osso a novos e fantásticos personagens. 

Cássia, inebriada com os arroubos ficcionais da amiga, mantém-se atenta até que os primeiros raios de sol venham pôr fim à contação. Suas noites mais felizes, porém, são aquelas em que Amendoeira tece histórias sobre a mulher estranha e solitária do sexto andar que, de tanto gastar seus dias em leituras, transformou-se numa criatura muito pálida, pele ressecada e rugosa como papel, olhos aumentados e vermelhos, de cuja boca brotam parágrafos dos textos preferidos. Cássia a batizou de Blanca, em parte por sua aparência física, que embora nunca tenha visto, consegue imaginar com perfeição, mas principalmente pela presença constante, nos monólogos da moça, de uma certa Blanca Trueba. 

Para o deleite de Cássia, Amendoeira põe-se a repetir as falas de Blanca que, dependendo do humor e das mais recentes leituras, descrevem a secura da infância do menino Graciliano, explicam cada uma das instáveis conquistas de Eurídice Gusmão, ou narram os desatinos do ancião que, enfermo e próximo à morte, desata a relembrar o passado.

Mas, quando o tema da moça pálida é a vida privada das árvores: um álamo e um baobá que conversam sobre fotossíntese, esquilos e sobre as vantagens de pertencerem ao reino vegetal, Amendoeira sente-se livre para também fantasiar, e inventa situações como aquela do flamboyant e do coqueiro que, plantados à beira da Lagoa, vivem inconformados com a disposição dos humanos para o exercício físico. O conto predileto de Cássia, no entanto, tem como protagonistas uma amendoeira-da-praia e uma cássia-imperial, vivendo há anos em lados opostos de uma mesma esquina, numa rua tranquila da cidade do Rio de Janeiro.
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Conto escrito a partir da leitura e da resenha do romance de Alejandro Zambra, a Vida Privada das Árvores.
Para ler a resenha, clique em: Um dia um caminhão atropelou a paixão
Fotos - Mario Oliveira

sábado, 24 de novembro de 2018

Um dia um caminhão atropelou a paixão

Nenhuma testemunha se apresentou, e não se sabe ao certo o que aconteceu. Há quem diga, sem muita convicção, ter ouvido os sons do acidente: o barulho estranho de um possível motor, uma freada brusca, a estridência de uma buzina, um baque seco, sem nenhum grito ou lamento – poucos e inconsistentes relatos para esclarecer os detalhes do atropelamento. Teria sido possível ao casal apaixonado pressentir o perigo? Evitá-lo? Talvez estivessem, ele e ela, com o olhar aprisionado, os ouvidos viciados nas velhas e íntimas canções, incapazes de perceber a urgência da situação.

É essa sensação de visão embaçada que marca a literatura do chileno Alejandro Zambra. Pelo menos, foi assim que me senti ao final da leitura do livro que reúne dois de seus romances: Bonsai e A Vida Privada das Árvores. Fica-se sabendo, de antemão, que Julio e Emília, protagonistas da primeira narrativa, e Julian e Verônica, da segunda, terão seus momentos de felicidade atropelados pela presença potente do desencontro, da incerteza e da morte. Mas não há como explicar os desvios e tropeços das histórias de amor.
As lacunas fazem parte do estilo narrativo de Zambra que, como ele mesmo relata no prefácio, escreve por subtração, podando o texto como a um bonsai, para que dele só reste a essência da forma textual, indícios mínimos que instiguem a ação do leitor na construção da completude da obra. Completude parcial e subjetiva, acrescento eu, enquanto tento identificar as pistas e os porquês surrupiados dos romances. Confesso que a economia de Zambra me incomodou um pouco e ficou o desejo de conhecer mais a fundo os personagens. Por outro lado, tivesse eu, após a leitura, me considerado plena de sentidos, talvez não me sentisse desafiada a escrever esta resenha. Deve ser o que nos diz a Psicanálise: se algo nos falta, a gente precisa criar. 

Achei curioso, e também genial que, embora fatos sejam deliberadamente suprimidos, o autor use o recurso da repetição para sublinhar aquelas ideias que deseja oferecer aos leitores. Há palavras e expressões reprisadas nas orações e parágrafos; informações são reforçadas ao longo dos capítulos, criando ciclos verbais que se retroalimentam. Com competência, e a favor da potência do texto, ele ignora a recomendação de que a repetição deve ser evitada pelos escritores. 

Os dois romances são, ainda, uma homenagem literária à própria literatura – Zambra é professor e crítico de literatura. Os personagens dos dois romances se enredam em processos de leitura e escrita: discutem os clássicos antes de fazerem amor, ganham a vida dando aulas de espanhol, dedicam-se longamente à escrita “daquele” livro essencial. Julian, por exemplo, é tão apaixonado pelas palavras que inventa histórias sobre árvores e as conta, todas as noites, para a enteada. 

Aliás, quando li, já há algum tempo, uma resenha sobre os livros do escritor, foi o assunto peculiar – a existência da vida privada de um álamo e um baobá - que primeiro me chamou a atenção. Só que, no romance, as árvores são simples coadjuvantes na aventura amorosa interrompida repentinamente. Na falta do empoderamento vegetal esperado, o jeito vai ser eu mesma inventar um conto sobre amendoeiras e ipês, figueiras e damas da noite, ou flamboyants e coqueiros. Escrever sobre as alegrias e desventuras destas personagens numa cidade linda e insana como o Rio de Janeiro. Alguém me acompanha?
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Bonsai + A Vida Privada Das Árvores
Alejandro Zambra - Tusquets Editores


No título, verso da música Grand”Hotel, de Paula Toller e George Israel
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Para ler o conto que nasceu desta resenha, clique em A Vida Privada das Árvores.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Alice no Maravilhoso País das Palavras

Alice tem 7 anos e, desde bem novinha, já sabíamos que ela era muito amiga das palavras. Aprendeu a falar antes do tempo regulamentar e logo passou a nos surpreender com expressões e concordâncias sofisticadas, usadas para se comunicar e se fazer presente no mundo real. Aos 3 anos, lançava mão de todos os seus recursos verbais para inventar histórias mirabolantes, geralmente com bichos, e houve um tempo em que um amigo imaginário era figurinha fácil nas suas narrativas.

Agora, que está se alfabetizando e percebendo a relação da fala com a escrita, a danada resolveu escrever histórias e, esta semana, decidiu experimentar o gênero poesia. Ela me contou que seu processo de criação exige sossego e concentração e, para isso, recolhe-se ao seu quarto. Na porta, coloca uma plaquinha vermelha indicando não querer ser interrompida.
  
Quando li a sua mais recente produção, tive certeza que o manuscrito deveria ser publicado no Blog. A autora, felizmente, concordou com a ideia e ditou o título para que eu o incluísse no poema.

Alice não sabe, mas, com sua coragem de poetisa, me incentivou a buscar outras possibilidades literárias, para além das crônicas, gênero no qual me sinto mais confortável. Pode ser que eu me aventure, abra o coração e escreva um verso ou outro, e, de repente, me veja transformada em passarinho emocionado. Assim, iremos juntas, eu e ela, de mãos dadas por este maravilhoso país das palavras.




A Luz do Campo
                           Alice Oliveira

O passarinho canta
com magia e emoção
Só dá pra cantar
dentro do coração.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Elegância Verde

Foi no início da viagem que a minha mania linguística começou a se manifestar. Era só cruzar uma rua arborizada ou avistar um pequeno jardim, que eu já concluía: “Como Londres é verde!”. Circulando pelas praças e pelas áreas externas dos museus, não me cansava de constatar: “Londres é tão verde, né?”. Mas eu realmente fiquei repetitiva nas visitas aos grandes parques da cidade. É que Londres tem uma coleção excepcional de espaços amplos, e verdes, e belamente planejados, disponíveis para a fruição das pessoas nos mais diferentes bairros. Muitos deles são chamados de parques reais por terem sido propriedades dos monarcas, e de uso exclusivo de seus familiares e amigos. Com o passar do tempo e o crescimento da área urbana, eles foram sendo, para a felicidade geral, incorporados à vida da população.

Um dos meus parques preferidos foi o Regent’s Park, com amplos gramados, trilhas para caminhada, um enorme lago repleto de aves e peixes, e jardins floridos dentro de outros jardins floridos. Já o Mário caiu de amores pelo St James’s Park, encravado entre palácios, numa das áreas mais clássicas da capital. Árvores majestosas, patos e marrecos, flores de todas as cores e alamedas sombreadas acolhem os visitantes. Olhando a vista do parque ao cruzar a ponte, logo entoei o bordão: “Que lindo! Londres é muito verde, mesmo!”.

St James's Park
Ainda visitamos o Holland Park, invadido por londrinos esticados no gramado ensolarado, e o Kensington Gardens que, além de toda beleza natural, também abriga fontes, estátuas e um memorial em homenagem à princesa Diana. Em cada passeio, as mesmas exclamações verdes me acompanhavam.

E de nada adiantou a Ângela, brasileira há anos morando na Inglaterra, e especialista em árvores e jardins, explicar que, tivesse eu chegado dois meses antes, durante o inverno, veria tons de marrom e cinza predominando na paisagem, e não toda a exuberância que me cativou. Ouvi o discurso com atenção, mas, teimosa, insisti: “Sabe que eu estou impressionada como a cidade é verde!”.

Depois de nos despedirmos de Londres, rumamos para o centro da ilha, e, embora o verde não tenha perdido lugar nas minhas manifestações, precisei temperá-lo com o amarelo das plantações de canola, o branco das centenas de ovelhas e o multicolorido das flores silvestres que se alastravam em meio aos prados. Nesta região rural, tudo me pareceu perfeitamente ordenado: árvores e arbustos em conjuntos harmônicos distribuídos pelos campos; ondulações discretas de altitude; sólidos muros de pedras riscando os espaços. “Que elegância tem o verde da Inglaterra!”, passei a analisar. Foi quando notei que um novo conceito tinha se intrometido na minha percepção, e na minha linguagem.
Avebury Stone Circle
Na volta da viagem, relendo Os Vestígios do Dia, de Kazuo Ishiguro (Prêmio Nobel de Literatura de 2017), descobri que tenho companhia nesta admiração pela natureza inglesa. O mordomo Stevens, personagem do romance, relata o quanto a beleza dos campos o impactou:

“Cheguei, então, a uma pequena clareira — sem dúvida, o local a que o homem havia se referido. Aí deparei com um banco, e, de fato, com uma vista das mais maravilhosas, dominando quilômetros e quilômetros de campos em torno. O que se via era sobretudo campo sobre campo, rolando até a distância. A terra subia e descia suavemente, e os prados eram delimitados por moitas e árvores. Em alguns lugares distantes havia pontos que supus que fossem carneiros.” (p.36)
Vista da Broadway Tower - Cotswolds
O que eu identifiquei como elegância na paisagem da Inglaterra, Stevens caracteriza como grandeza. “E, no entanto, o que é exatamente essa grandeza?”, pergunta-se ele, para logo em seguida responder:

“Diria que é a própria ausência de drama ou espetaculosidade óbvios que distingue a beleza da nossa terra. O que é perfeito é a calma dessa beleza, a sensação de contenção. Como se o país soubesse da sua própria beleza, e não sentisse nenhuma necessidade de proclamá-la.”(p.39)

Na narrativa de Ishiguro, recordei a minha jornada pelos discretos cenários ingleses, mas senti muita pena por Stevens não me acompanhar no restante da viagem pela Grã-Bretanha. Por força da profissão e do temperamento, ele não se afasta da familiaridade confortável da mãe-pátria. 

Fiquei curiosa sobre o que diria o formal mordomo ao se deparar com o exibicionismo das paisagens da Escócia: dramáticos vales, latitudes extremas, terras altas e tanta fartura de água. Talvez se escandalizasse diante da falta de comedimento escocês, ou, quem sabe, secretamente invejasse os arroubos das terras desavergonhadas dos vizinhos ao norte.


Para ver outras imagens, clique aqui: Galeria de Fotos - Elegância Verde

Para saber mais sobre a viagem, leia também: 1- Viagens e Histórias ; 3- ZDP

      segunda-feira, 12 de junho de 2017

      E se você ainda me amar

      Não fala nada, não fala! Preciso recompor a respiração. Nem sei como tive fôlego pra escalar este lance de escadas. A idade pesou nestes últimos anos, mas deixa estar, este assunto não te interessa, eu sei. Ficou surpreso por me ver aqui? Não precisa disfarçar, a sala está vazia, somos só nós dois outra vez.

      Você está diferente. Desculpe o riso, não pude me conter, acho que é nervosismo, mas a falta do bigode deu destaque aos lábios finos, tão apertados, quase imperceptíveis. Ficou engraçada esta ausência de boca num ser repleto de palavras. Os cabelos estão mais ralos e o corpo mais magro; aposto que precisou de auxílio para vencer os degraus do térreo até aqui. Você nunca vai dar o braço a torcer, embora não seja vergonha nenhuma precisar de ajuda nesta sua idade. Acha que eu esqueci? Sei o dia, o ano e até a hora em que você nasceu, e a minha cabeça ainda está boa para os cálculos.

      Só não sei dizer direito porque fiz questão de logo vir te ver. Sabe quanto tempo faz? Eu contei cada dia, cada semana, cada mês. Dez anos! Não fala nada, por favor, não adianta tentar se explicar, já imagino todas as suas desculpas. São como frágeis bolhas que, no ar, se desmancham, respingam nos olhos e só me fazem chorar. 

      Às vezes, eu penso ter sido orgulho o que te motivou. Um espírito iluminado encarnado num corpo vigoroso – era assim que você se percebia, não era? Superior a cada ser humano à sua volta - esposa, filhas, todos. Essa pose de macho confiante é só pose, só casca. Por dentro, um ego enorme ao lado de um buraco que nada tampa, nem a música, nem nenhuma mudança de endereço, de cidade, de planeta. Olha, é difícil admitir, mas preciso confessar: o orgulho foi meu também, eu amava a minha própria face refletida no seu carismático espelho. 

      Incrível como você reage, sempre foi assim. É só eu começar a falar sobre mim, quer dizer, sobre nós, que você fica com esse ar distraído, alheio, como se nada te dissesse respeito. Finja o quanto quiser, hoje não vai me calar.

      No início, eu não me preocupei muito, já tinha me acostumado a tocar a vida apesar da sua ausência. Meses e meses longe de casa por causa dos shows... Mas havia a certeza da volta, e do amor que você dizia sentir. Sem muita pressa, o tempo foi borrando as minhas convicções. Só me dei conta do real estrago quando a nossa vizinha, lembra, aquela beata que vivia nos atormentando com insinuações maldosas, tocou a campainha para me dar a notícia. Ela revirava os olhos e torcia as mãos enquanto pronunciava cada sílaba, num dissimulado constrangimento. Demorei pra compreender a mensagem – alguém havia visto você no Uruguai, numa estância perto de Montevidéu. A vizinha se manteve em pé, à porta, saboreando o baque no meu corpo, e os meus gritos: “No Uruguai! Uruguai?”. Talvez ela não tenha entendido o meu desespero, depois de tantos anos eu já não deveria estar anestesiada? Mas você entende: quebrou-se o espelho que nos refletia. Foi covardia o que te motivou, só pode ter sido covardia, fraqueza, baixeza mesmo, ir se refugiar num país em que tínhamos, um dia, sido felizes. 

      Tive ganas de pegar o primeiro avião. Não pra te ver, não... Eu arrancaria e traria de volta o simbólico cadeado colocado na grade da fonte, vomitaria as carnes tenras e o vinho tinto das celebrações, apagaria cada pingo de alegria espalhado nas pradarias. Não fui. Tive medo de romper de vez o fio de seda que nos unia. E se você ainda me amasse, como nos meus sonhos mais secretos? E se me amasse, como naquela risível história tantas vezes repetida nos encontros da família? Lembra? O marido avisa à esposa: vou sair pra comprar cigarros. Volta seis meses depois, maço de Hollywood nas mãos, a chave da casa balançando do bolso da calça. Entra, beija a testa da mulher e a vida segue como se mais nada houvesse. Você ainda fuma? Não importa! Se ainda me amar, podemos brincar de comprar cigarros, e interpretar a família feliz como se mais nada tivesse havido. O beijo na testa eu posso te dar agora.

      Estou me sentindo um pouco tonta, me deixe sentar ao seu lado. Deve ser a labirintite. Se as meninas estivessem aqui - não, elas não quiseram vir te ver - diriam que essa tonteira é o corpo reagindo às loucuras da mente. Que é uma total insanidade não arredar pé do nosso apartamento nem admitir trocar a fechadura da porta da frente. Elas zombariam de mim por você não ter mais a chave de casa.

      Espera, não precisa falar nada, seus amigos estão chegando. Vou deixar que se aproximem e cantem as velhas canções, façam as orações, prestem as homenagens. O sol está forte, não pretendo seguir o cortejo, você me desculpará, por certo. Talvez nos reencontremos em outro tempo. Outro lugar? Quem sabe? Mas isso, por favor, só se você ainda me amar.

      (Conto produzido como exercício da Oficina de Criação Literária
      do professor Marcelo Spalding)

      terça-feira, 28 de março de 2017

      Quero Ser Dorrit Harazim

      Desço do táxi em frente à livraria do Leblon. O lançamento está marcado para às sete horas, ainda tenho alguns minutos de espera ansiosa. Outros interessados já se enfileiram diante da mesa preparada para os autógrafos. Dirijo-me ao caixa e, com meu exemplar nas mãos, junto-me aos admiradores da jornalista. 

      Enquanto aguardo nosso primeiro encontro pessoal, folheio as páginas de O Instante Certo e confiro trechos das histórias, nascidas a partir de registros fotográficos. Das fotos impactantes, saltam histórias reais sobre os fotógrafos e seus fotografados, tendo como pano de fundo os principais temas sociais e políticos que os influenciaram. Pra completar, questões técnicas e estéticas da própria arte da fotografia. São todos textos novos para mim, embora já tivessem sido publicados em diferentes veículos nos últimos 20 anos. É pena, mas faz bem menos tempo que me encantei com o estilo de escrita da autora. Não tenho certeza de quando as colunas de O Globo começaram a fazer parte dos meus domingos, mas toda semana, mergulho fundo na narrativa elegante e inteligente da jornalista, hábil em tecer os múltiplos fios que o tema do dia sugere. Os assuntos variam, dos mais populares - terrorismo, eleições nos EUA, crise na política brasileira - aos mais prosaicos, como um esparadrapo no Museu do Amanhã. O fato é que sempre termino a leitura assaltada por um misto de sentimentos: uma enorme admiração e uma pontinha de inveja. Desejo, como naquele roteiro de cinema, quinze minutos pra entrar na mente de Dorrit Harazim, e, sendo a própria, capturar uma parcela de suas habilidades narrativas. A ousadia, mesmo que em devaneio, é imediatamente castigada: sou cuspida de volta à noite de autógrafos, bem no momento em que a senhora miúda e magra, tão alva na pele, cabelos, e até na blusa, toma posição à mesa. Parece frágil a mulher que correu mundo para cobrir guerras, ditaduras, atentados terroristas, jogos olímpicos, eleições. Um contraste enorme quando penso na robustez dos seus escritos. 

      Ensaio um cumprimento para a hora h: Sou sua fã! (Fã, que ridículo! Ela vai me achar fútil). Ou, então: Gosto muito dos seus textos! (É óbvio, todos estão aqui pelo mesmo motivo!). Descarto, uma a uma, as frases feitas para me diferenciar nos parcos minutos em que estenderei meu livro no ritual da noite. Olhos livres no ambiente, reconheço uma pessoa que acompanha a autora - será uma assessora, ou parente? Tenho tempo pra recordar de onde a conheço; estou quase na pole position, quando a mulher se aproxima. Surpreende-se por me ver ali, ela comenta. Respondo que eu também. Pensei que trabalhasse com cinema, completo. Ela conta brevemente a sua relação com a jornalista e, em seguida, me apresenta à Dorrit. Vibro por já não ser uma reles leitora misturada à multidão e trato de me mostrar como tal. Em voz firme, proclamo: Sou sua fã! Gosto muito dos seus textos! Dorrit me olha, sorri levemente, rabisca o autógrafo e se deixa fotografar ao meu lado.
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      Embora O Instante Certo já habite a minha biblioteca há alguns meses (a noite de autógrafos aconteceu em junho de 2016), o relato da minha experiência tinha ficado engavetado. Escrevi algumas versões, mas insatisfeita, acabei me dedicando à leitura do livro, bem mais interessante que qualquer texto que eu pudesse escrever. O tempo passou até que, na semana passada, a abertura da exposição Assis Horta Retratos me fez recordar o livro e, em especial, o capítulo referente ao fotógrafo mineiro que retratou a classe operária de Diamantina nas décadas de 40 e 50. Depois da visita, consegui parir o texto encruado, além de um novinho em folha, que pode ser conferido aqui.

      domingo, 29 de maio de 2016

      A Convenção de Genebra

      Caminhando na Lagoa, especialmente em domingos ensolarados, costumo recordar a Convenção de Genebra. Foi o Mario que me apresentou as novas deliberações da alta cúpula europeia. Evoca-se a convenção para criar e legitimar formas de convivência, ou para endossar as já existentes que carecem de reforço. Tudo de acordo com as conveniências do momento. Define-se desde quem deve acionar o controle do portão da garagem (se o motorista ou o carona), até o responsável por retornar uma ligação telefônica que tenha sido subitamente interrompida.

      Para mim, no entanto, a orientação fundamental do documento é a que trata dos deslocamentos a pé em locais de muito movimento. Diz o Artigo 1º., do Capítulo 1º. dos Princípios Fundamentais:  - Pedestre, use sempre a faixa da direita. A recomendação virou “meme” familiar, repetida tantas vezes e em contextos diversos. Por fim, o artigo se sobrepôs aos outros e tornou-se sinônimo da própria Convenção.

      Nas escadas rolantes das estações de Metro, em Paris, nos avisamos: Convenção de Genebra! (Os parisienses apressados são profundos conhecedores da convenção e não hesitam em atropelar os desavisados.)

      Nas calçadas, em Amsterdam, alertamos: Convenção de Genebra! (Lá, os ciclistas têm plena convicção de que os passantes vão cumprir a cláusula pétrea. Turistas distraídos com as atrações da cidade correm sério risco de vida!)

      Na ciclovia da Lagoa, quase não dá tempo pra declarar: Convenção de Gen.... Ai, meu Deus! (Suspiro aliviado)
      A capacidade de criar e compartilhar expressões não é privilégio nosso, é parte da química que se dá entre membros de diversas famílias. Independe de laços sanguíneos, de gênero ou idade. É resultado de convivência, troca, afeto e empatia. Poderia valer até como parâmetro para a definição de Família no polêmico Estatuto...

      Sobre essa liga que a língua criativa promove entre as pessoas, lembrei-me de um livro da Zélia Gattai que ganhei há tempos. Em Códigos de Família, a matriarca nos apresenta a gênese e os significados dos ditos que fazem parte do repertório do clã Amado. Os causos bem humorados, as expressões em sotaques e idiomas variados, compõem a versão da família baiana para a Convenção de Genebra.