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domingo, 8 de janeiro de 2023

Um Ano Novo Levinho

Conheci o Hugo na Praça Mauro Duarte, em Botafogo. Eu e ele fazemos parte do projeto "Adote 1 Aluno", fundado pelo professor Silvério Moron. Funciona assim: quem tem algo a ensinar senta em um banco da praça e divulga a sua matéria. Quem quer aprender é só se chegar e começar as aulas. Trabalhei, e fui feliz, no “Adote” de 2018 ao início de 2020, quando puf!... o mundo parou!

Retornei em maio deste ano, e encontrei o Hugo, um menino cheio de ideias, super-inteligente, mas com algumas dificuldades na escola. Meu objetivo era ajudá-lo a canalizar toda a sua energia para as atividades de Português, especialmente as que envolviam escrita. Os assuntos que o interessavam viraram argumento para as redações que trabalhávamos em um passo a passo: leitura de imagens; definição de personagens; escrita de frases; até chegarmos à montagem do texto propriamente dito. Depois revisar e complementar se fosse necessário; todo esse processo a fim de que percebesse a natureza viva, e interessante, dos escritos.

Avançamos nesse sentido, as notas subiram um pouco, mas, nos últimos dias de aula, a professora da escola em que ele cursa o 5º ano avisou que ele teria que fazer uma prova extra. Desta nota dependeria a sua aprovação. A notícia nos surpreendeu: Hugo ficou arrasado, e eu inconformada com uma avaliação tão drástica. Só me restava acalmá-lo, reafirmar a minha confiança nele e pedir que desse notícias logo que saísse da escola.

O WhatsApp apitou logo depois das 5 da tarde e, num áudio, Hugo me explicou: “Professora Ana Beatriz, fiz uma redação levinha e passei de ano!" Me alegrei pela aprovação, mas vibrei mesmo com o adjetivo usado. Então, agora, uma redação poderia ser levinha, algo que não pesa, não sobrecarrega, um aconchego?! Uma sementinha lançada no cimento da praça, nascendo aos poucos...

Por enquanto a nossa experiência termina assim, ano que vem continuaremos a conversar, ler e escrever, aprendizagem em mão dupla. Inspirada pelo que aprendi com o Hugo, resolvi escrever esta história, e finalizá-la com a minha mensagem de boas festas. Desejo a vocês, parentes e amigos, um Natal de amor suave, e que 2023 seja um ano muito, muito LEVINHO!


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Texto postado em 24/12/2022, no Instagram @anabiap12, e posteriormente acrescentado ao Blog. 

domingo, 2 de agosto de 2020

O Caso do Zé Armênio

Vem, minha filha, senta aqui pertinho de mim, mas antes chama os meninos, que eu quero contar uma história que aconteceu há muito tempo, eu ainda não era nascida, nem a minha mãe. Foi o meu bisavô que ouviu dizer sobre as aventuras de Zé Armênio, e contou pro meu avô, que contou pra mim quando eu era criança. A gente sentava em volta da fogueira e ele dizia: hoje eu vou contar a história do escravo mais tinhoso e retinto da fazenda.
Olha, agora faz de conta que eu acendi o fogo aqui bem no meio da sala, está ficando mais quente, sentiu? Foi assim que o menino nasceu, junto ao crepitar do carvão em uma noite escura, numa beira de rio perto da senzala. E foi o bebê escapulir da barriga da mãe, arregalar os olhos e começar a berrar um choro dos infernos. O pai, aflito com o chororô (pois se o sinhô acordasse...), banhou o menino nas águas do rio pra ele se acalmar. Dizem que foi a correnteza mansa que operou o milagre e, ao mesmo tempo em que o menino calou, sentiu o gosto pelo livre viver, sem que nenhum ferro o prendesse, sem que nenhuma gente o alcançasse, sem que nenhum tempo o escravizasse. 

Zé Armênio cresceu solto pelas terras da fazenda e ninguém podia com suas diabrites. Mamava nas cabras; subia até o último galho das árvores; usava estilingue pra azucrinar os cavalos; escondia a enxada e a foice dos trabalhadores – era arteiro como o próprio Saci-Pererê, só que completo das pernas. E também tinha a esperteza do Curupira, sumia das vistas do capataz que vivia atordoado atrás dos seus rastros. E nunca, nunquinha, chegou a trabalhar, nem na mais simples tarefa. 

Quando o rapaz fez treze anos, começou a se sentir preso naquele território cercado da fazenda. Abriu a porteira e botou o pé no mundo. Os pais não estranharam o sumiço do filho, com certeza ele ouvira o chamado da correnteza que o batizara. Souberam que ele andava pelas terras vizinhas como mascate, vendendo panelas, cortes de tecido e sabão em barra. Mas muita gente dizia que, só pra se divertir, roubava de uns e vendia pra outros, e gastava todo o dinheiro na taberna mais próxima. Foi neste tempo de atrevimento que conheceu as três mocinhas com quem se amasiou, tendo tido casa com cada uma delas, e gerado treze filhos, todos devidamente batizados nas águas dos rios da região. E os filhos, como o pai, seguiram livres por aquelas terras. 

Os anos correram e Zé Armênio, adiantado na idade, começou a se sentir aprisionado naquele corpo de homem velho. Entendeu que, desta vez, de nada ia adiantar abrir a porteira e sair pelo mundo. Resolveu, então, encurtar o mundo, condensar o mundo no seu menor tamanho. Entocou-se numa caverna e lá passou a viver sem que nenhum ferro o prendesse, sem que nenhuma gente o alcançasse, sem que nenhum tempo o escravizasse. 

Homem e caverna se entrelaçaram de tal modo que já não se reconheciam em separado. E embora Zé Armênio benquisesse cada um de seus dias, em qualquer estação do ano, eram as noites que o faziam sentir-se em total harmonia com a sua natureza de bicho livre. Acostumara-se ao escuro: distinguia as sombras, ouvia a presença dos morcegos, farejava o orvalho que adentrava pela boca de pedra. Tateava as paredes e as considerava como seu próprio corpo. Sabia que, em meio às trevas, ninguém seria capaz de invadir a casa. A exceção eram as noites de lua cheia, aquele imenso farol desnudando suas entranhas. 

Foi numa dessas noites que ele pressentiu o perigo: um leve deslocar dos ares, talvez um bater de asas; um cheiro ácido que desconhecia orvalho; um vulto claro-escuro a espreitar o espaço. Zé Armênio não demorou a reconhecer a feroz inimiga de sua liberdade e, apavorado, se encolheu num canto. Um formigamento estranho lhe alcançou os pés, subiu-lhe devagar as pernas, tornou-se quente ao encontrar o ventre, ao espalhar-se às costas. O homem levantou-se num ímpeto, mas se viu sem pés, sem pernas... e sem ar. Uma sufocação tomou-lhe o peito; cambaleou entre as pedras e caiu de borco. Chegou a imaginar os verdes e os amarelos das plantações, vislumbrou os rebanhos brancos e marrons, mas, por fim, as cores foram se perdendo, uma a uma, no sumidouro da inconsciência. Zé Armênio quedou-se inerte, flácido, e deixou-se levar pelo vulto claro-escuro. 

Naquela noite, houve quem jurasse ter passado perto da caverna e visto a morte, tal qual uma pietá macabra, carregando o velho em direção ao rio. E que os dois desapareceram tragados pelo clarão de uma das luas mais lindas já vistas por aquelas bandas. 

O meu avô sempre terminava a história pedindo pra gente olhar em volta, além do clarão da fogueira, pra descobrir os rastros do Zé Armênio, pois, com certeza, o homem conseguira se livrar da morte e andava livre pelas matas, amigo do Saci-Pererê, comparsa do Curupira. 

Então, vem, minha filha, segura na mão dos meninos e vamos ao encalço do escravo mais esperto da fazenda. Faz de conta que a gente achou.

Fogueira - Foto de Clara Pereira 

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Exercício de escrita do curso Texto Puxa Texto
da Estação das Letras, coordenado pelo professor Juva Batella.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

O Quarto das Tias

Psiu! Ei, você aí! É, você mesma, menina! 
Venha cá, eu quero te contar uma história que habita a minha memória há tempos. É uma história feita de imagens animadas, como se fossem vídeos bem curtinhos e embaralhados. Para ela virar uma história de verdade, que tenha pé e cabeça, e seja boa de ouvir, preciso emendar as imagens com palavras. As palavras são como fios coloridos de lã, elas tecem memórias e criam enredos tão belos e necessários como sapatinhos de tricô ou mantas de crochê. Sei que você, como eu, é apaixonada pelas palavras. Uma tagarela desde pequenina, as mãos repletas de novelos imaginários. Ajude-me, então, a montar o tear das ideias e a entrelaçar todos os sentidos que pudermos imaginar. E a minha história vai se transformar num tapete multifacetado e completo.

A história que quero te contar aconteceu quando eu ainda era criança, devia ter mais ou menos a idade que você tem agora, e costumava passar férias na fazenda do meu avô. Ele morava lá com duas irmãs, os três trabalhavam muito pra manter tudo funcionando: a casa, o curral, a lavoura, o pomar, o galinheiro.

Eu gostava de visitar o quarto em que as minhas tias dormiam, um espaço pequeno e simples. Era pra lá que eu corria pra pedir alguma coisa: um biscoito, um carinho, um conselho. Era pra lá que eu ia quando queria descansar numa cama macia e cheirosa enquanto ouvia os causos da família que elas sabiam tão bem contar.

Uma tarde, pretendia encontrar as tias para uma conversa, mas elas já estavam ocupadas na cozinha. Saí pelo corredor com a intenção de voltar a brincar no terreiro, mas, no caminho, notei algo muito estranho: a porta do cômodo seguinte ao delas estava entreaberta. Aquele era um quarto sempre trancado, praticamente proibido para os habitantes da fazenda, menos pras minhas tias, claro. Elas se revezavam no controle do aposento, e sempre andavam com a chave presa na cintura. Criança nenhuma entrara lá. Nunca.

Fiquei curiosa, muito curiosa, curiosíssima! Disfarcei, fingindo estar amarrando o cadarço do tênis, e olhei em volta. Ninguém! Fui entrando devagar no compartimento desconhecido e pouco iluminado. As janelas, venezianas de madeira verde e vidro na parte superior, estavam fechadas. Aos poucos, fui percebendo o espaço quase vazio. Dei mais uns passos... e vi, de relance, uma imagem na parede. Tomei um baita susto e por pouco não gritei. Logo percebi a minha própria imagem refletida no espelho do único móvel do quarto. Pude me ver ali na porta do armário: tronco inclinado, olhos arregalados, rosto afogueado pela travessura. Outro susto! Agora, por descobrir que o que eu sentia por dentro, podia ser contemplado por fora: no corpo, na face. Achei bem incômoda esta transparência, mas nem pude continuar a pensar sobre o assunto porque a porta do armário estalou bem alto e, enquanto rangia, começou a se abrir devagarinho. Uma luz alaranjada e bem forte vazava do seu interior.

Eu me senti como Ali Babá diante da caverna dos quarenta ladrões, e nem tinha precisado usar a palavra mágica. O armário, que por fora parecia um móvel sem graça, de madeira escura e formas retas, transformou-se num verdadeiro baú de tesouros. Não sei se você vai concordar comigo, pois o significado de tesouro pode variar bastante de pessoa pra pessoa, mas aqueles objetos me pareceram muito valiosos. Bisbilhotando as prateleiras, encontrei embalagens decoradas com os mais cheirosos sabonetes; frascos de refrescantes colônias; cortes de seda e cetim para os vestidos mais belos e macios; caixinhas de música com bailarinas rodopiantes; pacotes com novelos de linha e lã de todas as cores.

Eu estava nesta função agradabilíssima de caçadora de tesouros, alisando caixas e tecidos sob a luz alaranjada, quando ouvi uns passos atrás de mim... Gelei, e nem foi preciso olhar no espelho pra imaginar a minha cara de medo e de vergonha, por estar onde não deveria estar. Virei-me, já pensando no problemão que teria que enfrentar. Seria castigo na certa. Minhas tias tinham entrado juntinhas no quarto secreto. Tentei ler os rostos e corpos delas, julgando que a tal transparência devesse atingir a todos, e não gostei nada das sobrancelhas cerradas e dos narizes franzidos. As mãos na cintura, então, péssimo sinal! Gaguejei umas desculpas esfarrapadas e nada elegantes: o tênis desamarrou; uma luz forte; a culpa é do meu irmão... E sobrou até pro pobre do cachorro: tive que tirar o danado do Amendoim de dentro do quartinho! 
Minhas tias foram desarmando a carranca, e eu me alegrando por elas acreditarem no meu lero-lero. Como sou esperta, pensei comigo mesma. Por um momento percebi um certo riso no ar, mas não cheguei a ouvir o que conversaram baixinho. Tive sorte! Em vez de me castigarem, as duas resolveram contar detalhes do aposento-caverna-mágica, e de cada tesouro do armário.

Como eram muito amadas pelos familiares, e por morarem longe do comércio, recebiam muitos presentes. Foram tantos os mimos que lotaram o quarto de dormir. E o jeito foi transferir tudo para outro ambiente. Mas por que manter a porta trancada, perguntei. Para que pudessem, nos momentos de solidão ou tristeza, se refugiarem sob a luz alaranjada e, tendo nas mãos um objeto querido, imaginar reinos, viajar por mil e uma noites, emendar sentidos e palavras. Sem que ninguém as interrompesse. Claro que concordei em manter este segredo, o nosso segredo. Naquele dia, ganhei de presente um novelo de lã, amarelinho bem claro. Acho que devem ter percebido que eu, como elas, seria feliz como tecelã de memórias.

Hoje, quando sinto saudades das tias e da fazenda, apelo pra imaginação, que é como uma caverna mágica, e dou pra inventar histórias, como esta que você me ajudou a contar. Eu já separei pra você, do meu armário de presentes, um sabonete de baunilha, uma colônia cheirosa e a mais bela caixinha de música. Falta o novelo de lã. Vamos escolher a cor?

Ilustração: Angela Cotrim, óleo sobre tela, 2020
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Nova produção do curso Autoficção: Oficina de Memórias, da Estação das Letras, coordenado pela professora Ana Letícia Leal.
  • A produção deste texto me encheu de alegria. Foi minha primeira incursão na Literatura Infantil, gênero que eu adoro ler, mas que me amedrontava como escritora. E ainda rendeu uma parceria incrível com uma das minhas mais queridas leitoras. Angela Cotrim pintou as memórias e sensações despertadas pela história e o seu quadro é agora parte indissociável da minha narrativa.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Alice no Maravilhoso País das Palavras

Alice tem 7 anos e, desde bem novinha, já sabíamos que ela era muito amiga das palavras. Aprendeu a falar antes do tempo regulamentar e logo passou a nos surpreender com expressões e concordâncias sofisticadas, usadas para se comunicar e se fazer presente no mundo real. Aos 3 anos, lançava mão de todos os seus recursos verbais para inventar histórias mirabolantes, geralmente com bichos, e houve um tempo em que um amigo imaginário era figurinha fácil nas suas narrativas.

Agora, que está se alfabetizando e percebendo a relação da fala com a escrita, a danada resolveu escrever histórias e, esta semana, decidiu experimentar o gênero poesia. Ela me contou que seu processo de criação exige sossego e concentração e, para isso, recolhe-se ao seu quarto. Na porta, coloca uma plaquinha vermelha indicando não querer ser interrompida.
  
Quando li a sua mais recente produção, tive certeza que o manuscrito deveria ser publicado no Blog. A autora, felizmente, concordou com a ideia e ditou o título para que eu o incluísse no poema.

Alice não sabe, mas, com sua coragem de poetisa, me incentivou a buscar outras possibilidades literárias, para além das crônicas, gênero no qual me sinto mais confortável. Pode ser que eu me aventure, abra o coração e escreva um verso ou outro, e, de repente, me veja transformada em passarinho emocionado. Assim, iremos juntas, eu e ela, de mãos dadas por este maravilhoso país das palavras.




A Luz do Campo
                           Alice Oliveira

O passarinho canta
com magia e emoção
Só dá pra cantar
dentro do coração.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Elegância Verde

Foi no início da viagem que a minha mania linguística começou a se manifestar. Era só cruzar uma rua arborizada ou avistar um pequeno jardim, que eu já concluía: “Como Londres é verde!”. Circulando pelas praças e pelas áreas externas dos museus, não me cansava de constatar: “Londres é tão verde, né?”. Mas eu realmente fiquei repetitiva nas visitas aos grandes parques da cidade. É que Londres tem uma coleção excepcional de espaços amplos, e verdes, e belamente planejados, disponíveis para a fruição das pessoas nos mais diferentes bairros. Muitos deles são chamados de parques reais por terem sido propriedades dos monarcas, e de uso exclusivo de seus familiares e amigos. Com o passar do tempo e o crescimento da área urbana, eles foram sendo, para a felicidade geral, incorporados à vida da população.

Um dos meus parques preferidos foi o Regent’s Park, com amplos gramados, trilhas para caminhada, um enorme lago repleto de aves e peixes, e jardins floridos dentro de outros jardins floridos. Já o Mário caiu de amores pelo St James’s Park, encravado entre palácios, numa das áreas mais clássicas da capital. Árvores majestosas, patos e marrecos, flores de todas as cores e alamedas sombreadas acolhem os visitantes. Olhando a vista do parque ao cruzar a ponte, logo entoei o bordão: “Que lindo! Londres é muito verde, mesmo!”.

St James's Park
Ainda visitamos o Holland Park, invadido por londrinos esticados no gramado ensolarado, e o Kensington Gardens que, além de toda beleza natural, também abriga fontes, estátuas e um memorial em homenagem à princesa Diana. Em cada passeio, as mesmas exclamações verdes me acompanhavam.

E de nada adiantou a Ângela, brasileira há anos morando na Inglaterra, e especialista em árvores e jardins, explicar que, tivesse eu chegado dois meses antes, durante o inverno, veria tons de marrom e cinza predominando na paisagem, e não toda a exuberância que me cativou. Ouvi o discurso com atenção, mas, teimosa, insisti: “Sabe que eu estou impressionada como a cidade é verde!”.

Depois de nos despedirmos de Londres, rumamos para o centro da ilha, e, embora o verde não tenha perdido lugar nas minhas manifestações, precisei temperá-lo com o amarelo das plantações de canola, o branco das centenas de ovelhas e o multicolorido das flores silvestres que se alastravam em meio aos prados. Nesta região rural, tudo me pareceu perfeitamente ordenado: árvores e arbustos em conjuntos harmônicos distribuídos pelos campos; ondulações discretas de altitude; sólidos muros de pedras riscando os espaços. “Que elegância tem o verde da Inglaterra!”, passei a analisar. Foi quando notei que um novo conceito tinha se intrometido na minha percepção, e na minha linguagem.
Avebury Stone Circle
Na volta da viagem, relendo Os Vestígios do Dia, de Kazuo Ishiguro (Prêmio Nobel de Literatura de 2017), descobri que tenho companhia nesta admiração pela natureza inglesa. O mordomo Stevens, personagem do romance, relata o quanto a beleza dos campos o impactou:

“Cheguei, então, a uma pequena clareira — sem dúvida, o local a que o homem havia se referido. Aí deparei com um banco, e, de fato, com uma vista das mais maravilhosas, dominando quilômetros e quilômetros de campos em torno. O que se via era sobretudo campo sobre campo, rolando até a distância. A terra subia e descia suavemente, e os prados eram delimitados por moitas e árvores. Em alguns lugares distantes havia pontos que supus que fossem carneiros.” (p.36)
Vista da Broadway Tower - Cotswolds
O que eu identifiquei como elegância na paisagem da Inglaterra, Stevens caracteriza como grandeza. “E, no entanto, o que é exatamente essa grandeza?”, pergunta-se ele, para logo em seguida responder:

“Diria que é a própria ausência de drama ou espetaculosidade óbvios que distingue a beleza da nossa terra. O que é perfeito é a calma dessa beleza, a sensação de contenção. Como se o país soubesse da sua própria beleza, e não sentisse nenhuma necessidade de proclamá-la.”(p.39)

Na narrativa de Ishiguro, recordei a minha jornada pelos discretos cenários ingleses, mas senti muita pena por Stevens não me acompanhar no restante da viagem pela Grã-Bretanha. Por força da profissão e do temperamento, ele não se afasta da familiaridade confortável da mãe-pátria. 

Fiquei curiosa sobre o que diria o formal mordomo ao se deparar com o exibicionismo das paisagens da Escócia: dramáticos vales, latitudes extremas, terras altas e tanta fartura de água. Talvez se escandalizasse diante da falta de comedimento escocês, ou, quem sabe, secretamente invejasse os arroubos das terras desavergonhadas dos vizinhos ao norte.


Para ver outras imagens, clique aqui: Galeria de Fotos - Elegância Verde

Para saber mais sobre a viagem, leia também: 1- Viagens e Histórias ; 3- ZDP

      quinta-feira, 22 de março de 2018

      Bye Bye, America

      O nome oficial é United States of America, mas toda a grandeza da nação cabe em uma única palavra. Em qualquer conversação, basta referir-se a AMERICA para que a ideia de país impregnada nestas quatro sílabas seja imediatamente compartilhada: Here in America…; By the way, it’s America; God bless America! Parece óbvio que generalizações como esta ocorram no campo da linguagem, eu sei! Acontece que nos primeiros dias da viagem, enquanto buscava pescar uma ou outra palavra conhecida no mar de sons e significados estranhos, era fisgada pela sonoridade familiar e logo me sentia incluída: 
      - America? Presente! Eu sou América da cabeça aos pés. Let’s talk about ourselves. 
      No instante em que compreendi que, para os americanos, a South America não está no mesmo patamar linguístico, consegui estancar a sucessão de mal entendidos. Quem me salvou foi o Trump, veja só! Quando pairava alguma dúvida, corria a rememorar o slogan da campanha presidencial – Make America Great Again – pra constatar que não, definitivamente, eu e meu interlocutor não falávamos sobre a mesma América. Uma simplificação necessária a fim de me garantir um pouco mais de intimidade com a língua inglesa, já que, mesmo em um trivial bate-papo, sinto-me tão confortável quanto um faquir em sua cama de pregos.

      Depois da visita às montanhas, começamos a nos despedir de America. Os três últimos dias do percurso foram frenéticos: mil quilômetros a dirigir e mais duas cidades a conhecer, antes de fechar o nosso círculo geográfico. Ao final de cada longa jornada, me recriminava por ter planejado lugares demais pra tempo de menos, sentimento que, felizmente, Charleston e Atlanta fizeram o favor de espantar.

      À beira mar, Charleston concentra todo o peso da tradição sulista temperado com uma atmosfera arejada e praiana. No centro histórico não faltam referências ao passado escravocrata e à Guerra Civil - ruas com calçamento de pedra, construções inspiradas nas grandes fazendas algodoeiras, estátuas dos generais vitoriosos e até bandeiras dos Confederados – ao lado de lojas de grife, renomados restaurantes, antiquários e galerias. Os ares da modernidade também estão nos barcos e marinas, nas grandes avenidas e nas pontes cruzando o emaranhado de rios que desembocam no oceano. Tem água, muita água, em toda a região. Tanta água que transbordou do céu, em uma forte pancada na manhã da nossa visita. A chuva ajudou na seleção dos programas que coubessem no calendário apertado: nada de praia ou grandes passeios ao ar livre. Com isso, o dia inteiro que passamos em Charleston até que foi suficiente, mas a cidade merece pelo menos mais 24 horas de reconhecimento. Antes de voltar ao hotel, passamos no Melvin’s pra devorar um legítimo barbecue – pork ribs, BBQ sauce, green beans, cornbread. Ambiente simples e comida muito gostosa.

      No dia seguinte, malas prontas, pé na estrada mais uma vez. A fim de otimizar o roteiro, o pernoite em Savannah teve que ser cortado, mas, no caminho para Atlanta, demos uma passada pelo centro da cidade. Pelo que vimos, a alteração não foi uma grande perda, embora uma chuva forte tenha caído justamente durante o passeio e, talvez, tenha comprometido o nosso julgamento. Pra tirar a dúvida, só mesmo voltando por lá...

      Depois de mais um estirão dentro do carro, chegamos à última parada: Atlanta, a capital da Geórgia. Uma cidade movimentada, entrecortada por eixos rodoviários que facilitam a circulação e o acesso aos bairros mais distantes. Quer um exemplo pra entender a importância econômica de Atlanta? Adivinha onde fica a sede da Coca-Cola? E a da Delta? Sem falar na AT&T, CNN... Mesmo poderosa, Atlanta foi bastante afetada pela crise de 2008 e os altos níveis de desemprego ainda não foram totalmente revertidos. Numa tarde, procurando vaga pra estacionar o carro e ir a uma cervejaria, acabamos passando numa região repleta de moradores de rua, gente em pobreza extrema que parecia aguardar por algo. O garçom do bar nos explicou que aquelas pessoas seriam atendidas por um abrigo, teriam acesso à comida e a um teto provisório. Na avaliação dele, a capital vinha se recuperando gradualmente, e, com a população melhorando de vida, já não eram necessários tantos abrigos quanto em anos anteriores. Não deve ter sido coincidência o fato de, em toda viagem, apenas em Atlanta termos sido abordados por pedintes, pessoas comuns que alegavam ter fome. 
      Se a luta atual da população é pelo resgate da economia, a batalha mais emblemática, encarnada por Martin Luther King, foi contra o segregacionismo racial e pelos direitos civis dos negros. A visita ao bairro onde nasceu o pastor, transformado em área histórica, é uma experiência forte. Há um centro de exposições com detalhes da vida, da morte e da luta de King; pode-se adentrar a igreja batista onde ecoam as suas principais pregações; ou circular pela vizinhança e conhecer as casas do início do século XX que compunham o cenário da sua infância. Além da emoção de ouvir o belo discurso “I Have a Dream” sentados nos bancos de madeira da Ebenezer Church, ficamos especialmente tocados por estarmos lá exatamente num 28 de agosto, o mesmo dia da Marcha de Washington em 1963, quando Martin Luther King convocou America a sonhar com ele. Cinco décadas depois de sua morte, é necessário reconhecer que, entre avanços e retrocessos, há ainda muito o que sonhar, e lutar, para que pessoas de todas as nações, de diferentes Américas, tenham direito à igualdade, à liberdade e à paz. 












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      Todo mundo sabe que quem conta um conto, aumenta um ponto... Eu, pelo tempo que levei pra contar um passeio de 14 dias, devo ter aumentado vários pontos! Mas juro que a minha intenção com os toques ficcionais, as ênfases subjetivas, os enfeites aqui e ali foi tornar mais colorido e sonoro o relato de nossa aventura. E, claro, conquistar mais alguns leitores para o Blog! 😇😇
      Espero que estejamos juntos em outras crônicas. Até lá.

      Para ver outras imagens, clique aqui: Galeria de Fotos - Bye Bye, America
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      Na Rede:

      quinta-feira, 14 de julho de 2016

      A Cerimônia do Chá

      (releitura do conto A Lei do Silêncio, de Victor Giudice,
      exercício do curso de Introdução aos Gêneros Literários)
      Casei por amor.
      Você não acredita? Quanto preconceito! Uma jovem pobre, órfã de pai e moradora de uma pensão no Catete não poderia se enamorar de um refinado homem de meia idade?

      Pois fique sabendo que casei por amor!
      Amor, sim, pelas reais possibilidades de ascensão social que aquele senhor representava. Amor pela concretização de um sonho cuidadosamente acalentado desde a meninice tão escassa de prazeres.
      Quer maior demonstração de amor próprio?

      Do início do namoro ao casamento, me vali de algumas artimanhas e, claro, de minha boa aparência. O porte esguio, a pele clara e os olhos azuis foram as credenciais para que circulasse sem constrangimentos no ambiente esnobe da futura família. No entanto, de nada teriam adiantado não fosse o conveniente acidente que nos aproximou. Atravessava distraída a rua e não percebi a aproximação do Cadillac vermelho. Por sorte, o motorista conseguiu desviar e, nem eu, nem o Cadillac, sofremos maiores danos. Foram os astros! Só mesmo o Sol em conjunção com Júpiter pra o nosso encontro acontecer, e o motorista logo, logo, virar meu marido.

      Jura? Você não crê em astrologia? Eu também não! Mas uma explicação romântica é muito conveniente pra quem se casa por amor, certo?

      Mudamos para um enorme apartamento num elegante prédio da Praia do Flamengo, um pouco antes da inauguração do Aterro. De lá pra cá, dediquei-me, em êxtase, às viagens à Europa, às roupas alinhadas, aos objetos de luxo. Tenho especial apreço pelo aparelho de chá de Limoges, disposto delicadamente na cristaleira da sala, de modo que possa usá-lo sempre que necessário.

      Sou uma mulher realizada, e até poderia dizer que alcancei a felicidade não fosse um pequeno desvio. Todas as noites, após o jantar, enquanto meu marido prepara a sua xícara de chá, desato a recriminá-lo por adoçar em demasia a bebida. E tanto falo, e repito, sobre os malefícios do açúcar que o homem chega a se exasperar. Eu não recuo, continuo a irritante lengalenga até que ele aceite, goela abaixo, o amargor da nossa cerimônia do chá.
      Você deve estar comovido com os meus cuidados de esposa! Que tolo! Nesse jogo verbal diário convivem prazer e desprezo, ilusão e cinismo... Um jorro incontrolável de palavras cuspidas entredentes! Meu marido percebe... e joga também.

      Mas hoje, quando me virei com o açucareiro nas mãos, vi-o empunhando o Colt e apontando em minha direção. Num flash, a situação me lembrou um duelo de faroeste: dois personagens, cada qual com sua arma em posição de tiro. Pousei delicadamente o açucareiro sobre a mesinha chippendale e aguardei que a cena se desenrolasse com elegância cinematográfica. Um ou dois tiros, poucos danos aos objetos da sala, nenhuma algazarra que perturbe a lei do silêncio... É como eu faria. 

      domingo, 29 de maio de 2016

      A Convenção de Genebra

      Caminhando na Lagoa, especialmente em domingos ensolarados, costumo recordar a Convenção de Genebra. Foi o Mario que me apresentou as novas deliberações da alta cúpula europeia. Evoca-se a convenção para criar e legitimar formas de convivência, ou para endossar as já existentes que carecem de reforço. Tudo de acordo com as conveniências do momento. Define-se desde quem deve acionar o controle do portão da garagem (se o motorista ou o carona), até o responsável por retornar uma ligação telefônica que tenha sido subitamente interrompida.

      Para mim, no entanto, a orientação fundamental do documento é a que trata dos deslocamentos a pé em locais de muito movimento. Diz o Artigo 1º., do Capítulo 1º. dos Princípios Fundamentais:  - Pedestre, use sempre a faixa da direita. A recomendação virou “meme” familiar, repetida tantas vezes e em contextos diversos. Por fim, o artigo se sobrepôs aos outros e tornou-se sinônimo da própria Convenção.

      Nas escadas rolantes das estações de Metro, em Paris, nos avisamos: Convenção de Genebra! (Os parisienses apressados são profundos conhecedores da convenção e não hesitam em atropelar os desavisados.)

      Nas calçadas, em Amsterdam, alertamos: Convenção de Genebra! (Lá, os ciclistas têm plena convicção de que os passantes vão cumprir a cláusula pétrea. Turistas distraídos com as atrações da cidade correm sério risco de vida!)

      Na ciclovia da Lagoa, quase não dá tempo pra declarar: Convenção de Gen.... Ai, meu Deus! (Suspiro aliviado)
      A capacidade de criar e compartilhar expressões não é privilégio nosso, é parte da química que se dá entre membros de diversas famílias. Independe de laços sanguíneos, de gênero ou idade. É resultado de convivência, troca, afeto e empatia. Poderia valer até como parâmetro para a definição de Família no polêmico Estatuto...

      Sobre essa liga que a língua criativa promove entre as pessoas, lembrei-me de um livro da Zélia Gattai que ganhei há tempos. Em Códigos de Família, a matriarca nos apresenta a gênese e os significados dos ditos que fazem parte do repertório do clã Amado. Os causos bem humorados, as expressões em sotaques e idiomas variados, compõem a versão da família baiana para a Convenção de Genebra.