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quinta-feira, 2 de agosto de 2018

ZDP

- Lembra o que eu te expliquei sobre a zona de desenvolvimento proximal? – pergunto assim, sem mais nem menos, ao Mario, sentado na poltrona ao meu lado. 

- Ahn?? - retruca ele, afastando o fone de um dos ouvidos, mas sem tirar os olhos da telinha em frente. 

- Zo-na de de-sen-vol-vi-men-to pro-xi-mal, - repito pausadamente - um dos conceitos de Vygotsky que mudou a minha cabeça de pedagoga... Lembrou? 

- Ah! Tá! - digna-se ele a responder, para logo em seguida reacomodar o fone e voltar toda a sua atenção para a sequência de imagens animadas na TV. 

Na falta de interlocutor, e aproveitando o tédio das longas horas de viagem no avião, dediquei-me a investigar por que a teoria do Vygotsky havia assim, sem mais nem menos, assaltado meus pensamentos. Relembrei os estudos no mestrado em Educação na PUC e o quanto as contribuições do psicólogo russo me valeram como professora e supervisora pedagógica na Educação Infantil. Em especial o tal conceito de zona de desenvolvimento proximal (ZDP): a distância entre o nível de desenvolvimento real da criança, medido pelos conhecimentos que ela domina com independência, e o nível potencial, aquilo que está prestes a aprender, mas só consegue realizar com a colaboração de um adulto ou de um colega mais capaz. Assim, a maior alegria que Vygotsky me proporcionou - tratando-se não só das crianças, mas de qualquer indivíduo aprendiz - foi a compreensão do aspecto social da aprendizagem, da importância do outro como mediador da aquisição de novos saberes. E, como consequência, o fim da necessidade de se fazer silêncio e aprender tudo sozinho, princípios, até então, inquestionáveis da educação tradicional. A aprendizagem, como a vida, é a arte do encontro. 

Pronto! Está aí o fio que me reconecta ao devaneio do início do texto. Em nenhuma outra viagem foi tão marcante a presença de companheiros mais capazes a nos orientar, a simbolicamente deixar as marcas no chão e nos dizer: vão por aqui, o caminho é mais bonito. Pessoas que, carinhosamente, se desdobraram para compartilhar experiências de vida, na Inglaterra e na Escócia, e rechear a nossa própria viagem com momentos que, sozinhos, não teríamos condições de vivenciar.
Londres é uma cidade que proporciona caminhadas muito boas – escreveu-nos Marcelo na sua carta-depoimento de ex-morador, incluindo dezenas de pistas sobre como desbravar a capital inglesa. Seguindo os seus passos, cruzamos a pé os bairros de Kensington, Mayfair e Marylebone, acompanhamos o Tâmisa em Southbank e nos encantamos, como vocês já sabem, nos passeios pelos parques verdes. Para ouvir boa música, e a preços não tão salgados, a dica era a programação da igreja St Martin-in-the-Fields. E lá fomos nós, num anoitecer de sábado, apreciar Vivaldi e suas Quatro Estações, além de conhecer outras peças para violino de Bach, Mozart e Pachelbel. No quesito refeições, as sugestões ajudaram a nos manter bem alimentados sem abalar substancialmente as finanças. Côte Brasserie tornou-se a nossa rede de restaurantes predileta, com a facilidade de encontrarmos uma filial em qualquer lugar da cidade. Embora não estivesse presencialmente conosco, Marcelo foi lembrado a cada nova experiência como um indispensável mentor.
Mais que companheiros de viagem, Ângela e John foram nossos “pares mais capazes” em incontáveis situações. Uma das mais marcantes pra mim foi caminhar, nos arredores de Oxford, por campos floridos, entre criações de ovelhas e plantações de canola para, ao final do trajeto, jantar no pub The Nut Tree. Sem eles, nem saberíamos que os proprietários de áreas rurais são obrigados a deixar trilhas livres para pedestres e teríamos, com certeza, receio de cruzar as porteiras do caminho.

Será que teríamos tido coragem, e competência, para nos hospedar em um chalé-moinho no meio das Trossachs – cadeia de montanhas separando as Terras Altas das Terras Baixas na Escócia? Aprendendo junto e trabalhando em colaboração, abastecemos a lareira, dominamos o aquecimento elétrico, cozinhamos, comemos e bebemos, ouvimos diferentes histórias, fizemos muitas perguntas e demos boas risadas.
E o que dizer dos piqueniques nos mais aprazíveis e improváveis lugares? Das proximidades da muralha de Adriano às margens dos lagos escoceses; com o lanche arrumado nas tradicionais mesinhas de madeira ou displicentemente disposto na toalha xadrez inspirada nos tartãs escoceses.
Foram tantas as experiências de aprendizagem nas quais a nossa zona de desenvolvimento proximal foi acionada nesta viagem que é impossível condensá-las num só texto. Não sei se o Moska, compositor carioca, conhece a teoria de Vygotsky, mas hoje escutei uma antiga música dele que, numa interpretação livre, explica de modo poético a nossa vivência. “Gosto quando olho com você o mundo. E gosto mais do mundo quando posso olhar pra ele com você”.

Obrigada, Ângela, John e Marcelo, por nos emprestarem o olhar.


Para ver outras imagens, clique aqui: Galeria de Fotos - ZDP
Para saber mais sobre a viagem, leia também: 1- Viagens e Histórias; 2- Elegância Verde

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Elegância Verde

Foi no início da viagem que a minha mania linguística começou a se manifestar. Era só cruzar uma rua arborizada ou avistar um pequeno jardim, que eu já concluía: “Como Londres é verde!”. Circulando pelas praças e pelas áreas externas dos museus, não me cansava de constatar: “Londres é tão verde, né?”. Mas eu realmente fiquei repetitiva nas visitas aos grandes parques da cidade. É que Londres tem uma coleção excepcional de espaços amplos, e verdes, e belamente planejados, disponíveis para a fruição das pessoas nos mais diferentes bairros. Muitos deles são chamados de parques reais por terem sido propriedades dos monarcas, e de uso exclusivo de seus familiares e amigos. Com o passar do tempo e o crescimento da área urbana, eles foram sendo, para a felicidade geral, incorporados à vida da população.

Um dos meus parques preferidos foi o Regent’s Park, com amplos gramados, trilhas para caminhada, um enorme lago repleto de aves e peixes, e jardins floridos dentro de outros jardins floridos. Já o Mário caiu de amores pelo St James’s Park, encravado entre palácios, numa das áreas mais clássicas da capital. Árvores majestosas, patos e marrecos, flores de todas as cores e alamedas sombreadas acolhem os visitantes. Olhando a vista do parque ao cruzar a ponte, logo entoei o bordão: “Que lindo! Londres é muito verde, mesmo!”.

St James's Park
Ainda visitamos o Holland Park, invadido por londrinos esticados no gramado ensolarado, e o Kensington Gardens que, além de toda beleza natural, também abriga fontes, estátuas e um memorial em homenagem à princesa Diana. Em cada passeio, as mesmas exclamações verdes me acompanhavam.

E de nada adiantou a Ângela, brasileira há anos morando na Inglaterra, e especialista em árvores e jardins, explicar que, tivesse eu chegado dois meses antes, durante o inverno, veria tons de marrom e cinza predominando na paisagem, e não toda a exuberância que me cativou. Ouvi o discurso com atenção, mas, teimosa, insisti: “Sabe que eu estou impressionada como a cidade é verde!”.

Depois de nos despedirmos de Londres, rumamos para o centro da ilha, e, embora o verde não tenha perdido lugar nas minhas manifestações, precisei temperá-lo com o amarelo das plantações de canola, o branco das centenas de ovelhas e o multicolorido das flores silvestres que se alastravam em meio aos prados. Nesta região rural, tudo me pareceu perfeitamente ordenado: árvores e arbustos em conjuntos harmônicos distribuídos pelos campos; ondulações discretas de altitude; sólidos muros de pedras riscando os espaços. “Que elegância tem o verde da Inglaterra!”, passei a analisar. Foi quando notei que um novo conceito tinha se intrometido na minha percepção, e na minha linguagem.
Avebury Stone Circle
Na volta da viagem, relendo Os Vestígios do Dia, de Kazuo Ishiguro (Prêmio Nobel de Literatura de 2017), descobri que tenho companhia nesta admiração pela natureza inglesa. O mordomo Stevens, personagem do romance, relata o quanto a beleza dos campos o impactou:

“Cheguei, então, a uma pequena clareira — sem dúvida, o local a que o homem havia se referido. Aí deparei com um banco, e, de fato, com uma vista das mais maravilhosas, dominando quilômetros e quilômetros de campos em torno. O que se via era sobretudo campo sobre campo, rolando até a distância. A terra subia e descia suavemente, e os prados eram delimitados por moitas e árvores. Em alguns lugares distantes havia pontos que supus que fossem carneiros.” (p.36)
Vista da Broadway Tower - Cotswolds
O que eu identifiquei como elegância na paisagem da Inglaterra, Stevens caracteriza como grandeza. “E, no entanto, o que é exatamente essa grandeza?”, pergunta-se ele, para logo em seguida responder:

“Diria que é a própria ausência de drama ou espetaculosidade óbvios que distingue a beleza da nossa terra. O que é perfeito é a calma dessa beleza, a sensação de contenção. Como se o país soubesse da sua própria beleza, e não sentisse nenhuma necessidade de proclamá-la.”(p.39)

Na narrativa de Ishiguro, recordei a minha jornada pelos discretos cenários ingleses, mas senti muita pena por Stevens não me acompanhar no restante da viagem pela Grã-Bretanha. Por força da profissão e do temperamento, ele não se afasta da familiaridade confortável da mãe-pátria. 

Fiquei curiosa sobre o que diria o formal mordomo ao se deparar com o exibicionismo das paisagens da Escócia: dramáticos vales, latitudes extremas, terras altas e tanta fartura de água. Talvez se escandalizasse diante da falta de comedimento escocês, ou, quem sabe, secretamente invejasse os arroubos das terras desavergonhadas dos vizinhos ao norte.


Para ver outras imagens, clique aqui: Galeria de Fotos - Elegância Verde

Para saber mais sobre a viagem, leia também: 1- Viagens e Histórias ; 3- ZDP