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quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Canção Insana

Minha terra tem secura
Nenhum sabiá a cantar
Palmeiras foram embora
Mesmo assim quero voltar

Minha terra está triste
Só fumaça se vê lá
Bicho não come nem cresce
Mesmo assim quero voltar

Foi tanta queimada forte,
Tanta cinza, labareda,
Que fugi esbaforido
Procurando me salvar

Aqui dei com os costados, consegui me acalmar
Vejo estrelas, cheiro flores, tenho tido até amores
Mesmo assim (como explicar?)
Sonho com o que deixei lá.

Só pode ser mau-olhado,
Feitiço de Curupira, travessura de Saci
O fato é que eu vivo aqui
Pensando em estar por lá

Faço prece, ajoelho,
E começo a jejuar
Peço a Deus que eu não morra
Sem que eu volte para lá

Sem que eu invente as palmeiras,
E cultive sabiás
Das cinzas, farei estrelas
Sou louco por acreditar?

Foto Rodrigo Baleia / Greenpeace

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A paródia surge a partir de uma nova interpretação, da recriação de uma obra existente e, em geral, consagrada. Escrever uma crônica-paródia de Canção do Exílio, de Gonçalves Dias, foi o mais recente desafio do meu curso. Penei com a métrica e as rimas, mas, como gostei do novo contexto que criei para a terra idealizada, decidi publicar. E hoje recebi a avaliação do Rubem Penz, que deu o empurrão final para a postagem no Blog.

Parodiar Canção do Exílio não é proposta nova, muitos escritores de grande importância literária já o fizeram. E muitos aprendizes também se lançaram na empreitada. Quem quiser checar algumas destas produções, é só seguir o link:   Blog do Jeff Rossi - 15 paródias

domingo, 27 de janeiro de 2019

Outra Vez?!

Mário lê em voz alta a notícia que acabou de ser publicada num site. Corro para o computador e abro o Google Maps. O nome da localidade onde aconteceu a tragédia me soara familiar. Olho a geografia mineira com atenção e logo descubro a estrelinha indicando o ponto exato da pousada em que estivemos em 2016. Em linha reta, e a pequena distância, confiro no mapa, encontra-se a Mina da Vale em Córrego do Feijão. No alto do morro, o reservatório de rejeitos de minério de ferro que acabara de se romper. Avalio a probabilidade da pousada ter sido atingida pela lama desgovernada. Para cada evidência, contraponho uma esperança: “é muito perto”, mas “a quantidade de resíduos foi menor em Brumadinho do que em Mariana, não vai se espalhar muito”; “as sirenes não tocaram”, só que “devia ter pouca gente na pousada no horário, assim é mais fácil organizar a fuga”... 

Fico sabendo que a área administrativa da empresa foi atingida, e a vila no entorno, também. As imagens não escondem a agonia da catástrofe que se repete: vidas perdidas, comunidades destruídas, ambiente em degradação. Outra vez?! Sim, outra vez! 

Além da revolta pela negligência dos responsáveis, uma incredulidade triste me invade. Relembro a nossa estada na região, cercada de alegria e arte, tranquilidade e autodescoberta. Em Inhotim, vive-se a potência, e a beleza, da atividade humana. 

Recordo-me, porém, de ter estranhado a estrada de terra que dava acesso à pousada. Era larga, sem buracos, bem batida, e com tráfego intenso de caminhões. Imaginamos que alguma grande empresa, por usá-la em sua produção, fizesse a manutenção da estrada (olha que beleza!, pensei ingenuamente), e só me preocupei com a possibilidade da poeira atingir as instalações nas quais ficaríamos hospedados. Como a pousada estava livre da poeira, esqueci a estrada, os caminhões, a produção em grande escala, e nem fiquei sabendo que a tal empresa era a Vale. Só agora, estas lembranças fazem um melancólico sentido. 

A tarde segue, a confirmação chega: a Pousada Nova Estância não existe mais, engolida pela lama desgovernada. Rendo-me às evidências: era perto, a quantidade de resíduos foi grande, não deu tempo de organizar a fuga.

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Foi com a viagem a Minas Gerais, em 2016, que inaugurei as publicações no Blog, o que me faz ter uma relação muito especial com as cidades visitadas. Para ler os textos em que registro esta viagem, siga os links abaixo: