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terça-feira, 21 de outubro de 2025

Me Ajude a Esquecer os Domingos

Existem domingos? Quatro ou cinco vezes no mês?

Existiram, existiam; não mais. Aquelas vinte e quatro horas que se esticam entre escuros já não vivem em mim.

Não me chame; não ouse. Me ajude a esquecer os domingos.

Tomo um porre de espumante, desligo sem memória; congelo; entro em coma desassistido. Outra vez.

Espero um hiato; uma ponte sobre um rio poluído, um caldo de imundícies a correr sob os meus pés – esqueletos de ferro, para-lamas em carne escura, volantes forrados com veias.

Astronauta em suspenso no espaço, aguardo a chegada do último segundo. Até lá, deixe-me neste escuro, sideral; esqueça-me no alívio do tempo do nada.

Não se aproxime; nem tente. Me ajude a esquecer os domingos, que eu nasço ao raiar de outros dias.

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    • Texto produzido a partir do desafio Me ajude a salvar os domingos, da oficina Escrita Matinal, em 06/10/2025
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    terça-feira, 30 de setembro de 2025

    Fragmentos de um Monólogo Amoroso

    ...

    (tira o espelhinho redondo da bolsa, estica os lábios, verifica o batom)

    Cadê você, Tom? Meu Deus, será que aconteceu alguma coisa: bateu com o carro?, tomou um tiro?!, a cidade tá violenta... Calma, não pira, notícia ruim chega logo, daqui a pouco ele vê as mensagens, diz que já vem, que pegou um engarrafamento, atrasou pra sair do trabalho, coitado...

    (pega o copo, dá um gole, faz uma careta)

    Chopp quente ninguém merece.

    - Garçom!

    Será que eu marquei com ele às 6 e meia, ou foi 7 horas?

    (rola apressadamente as mensagens no celular)

    Ele que marcou a hora, e o lugar, e eu batendo palma pra tudo que o Tom quer: no Aurora o chopp não ia estar quente assim..., veio com aquele papinho: o Bar do Alto é mais tranquilo, menos gente, só faltou dizer que é mais romântico. Eu não devia ter chorado no último encontro, homem não gosta de mulher melosa... é culpa minha; se eu chorar aqui ninguém vai notar, o casal mais próximo deve estar a um quilômetro de distância.

    (inspira o ar, solta com força pela boca)

    Tô meio tonta, um aperto no peito, deve ser sede:

    - Garçom!

    (apoia os cotovelos na mesa, sustenta a cabeça nas mãos)

    É sina, pra mim é sempre assim, não adianta, praga de mãe: você não tem sorte, nunca teve, a voz fanhosa nos meus ouvidos: rosas não nascem pelo simples querer..., meu querer é fraco, o meu braço então, força nenhuma pra bater na cara de quem me azucrina, quem levou nas fuças fui eu, sempre.

    (arruma a coluna, mexe a cadeira, fica bem de frente para a entrada)

    Três meses?, é, três meses de Personal e não vejo diferença, braço mole, bunda mole, perna fina..., a Ju ficou sarada com bem menos tempo, vou pedir o contato pra ela, e se for mais caro?, vou ter que gastar, paciência. O Tom teve coragem de me chamar de mão de vaca..., na hora eu ri, burra, devia ter mandado ele pastar. Isso é coisa que se diga? Isso é coisa que se diga pra mulher com quem ele tá saindo? Ou será que era um toque?, um alerta sobre eu estar mesmo apegada ao dinheiro? Ele é um grosso, mas tem cuidado comigo...

    (abana o rosto com o guardanapo, seca as têmporas, afrouxa a gola do vestido)

    Nem ar-condicionado tem aqui, um calor do cão, parece o carro do Tom quando ele cisma de deixar as janelas abertas: tá tão fresco lá fora, fresco só se fosse nos Alpes, mas no Rio de Janeiro?! O que é que eu fiz pra merecer isso? 

    Eu já prometi, vou mudar

                                                              desamar

                                                                                      desamarrar

    em julho viajo pro Sul e chuto o Tom pro Deserto do Saara, é tão fresquinho lá...

    (penteia a franja com as mãos, puxa o comprimento dos fios num coque)

    Viajar sozinha? nem pensar, chamo a Claudinha, ai não, ela é chaaaataaaa..., a Lu, isso, a Lu é boa companhia, deu certo no Atacama, mas se ela cismar de chamar a Marta, ferrou, as duas não se largam; melhor eu entrar num grupinho desses de excursão, melhor pra quem, minha filha, só se for pro grupinho da excursão, que decadência, senhor! Com o Tom...

    (roda o anel de pedra azul no dedo, raspa com a unha a parte descascando)

    Merda de homem que tem bom gosto: anel, rasteirinha nude, buquê de rosas, eu amei...,

    ele me ama... ama?

    me amou?

    (vira o braço, faz tilintar as pulseiras, consulta mais uma vez o relógio)

    Quanto tempo é atraso pra você, mulher? Uma hora? Duas horas tá de bom tamanho? Merda de encontro, bosta de lugar,

    (circula o olhar pelo ambiente)

    quantos gatos tem aqui? Um, dois,... seis, sete. Sete?! Todos pretos! Foi de caso pensado, pra me jogar na cara que nunca viria aqui, tem pavor de gato preto, além de supersticioso é covarde. Burra, muito burra, só eu não vi; você é míope, sua louca, enxergar como? defeito de nascença, no olho e na alma, juntou com a falta de sorte, deu nisso... Mais um abandono, menos um, que diferença faz?, a pele sangra, mas cicatriza, vira couro; isso, Tom, faz como todo mundo; rosas não nascem pelo simples querer...

    meu querer é fraco, eu só sei ficar.

    (pega a bolsa pendurada na cadeira, estica o indicador para o alto)

    - Garçom!

    ...

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    Com um olho em Roland Barthes e outro em Aline Bei (metafórica e literalmente porque acabei de operar a catarata no olho direito; os dois olhos ainda não se acertaram), e estimulada pelo dispositivo O Ato da Espera (Escrita Matinal, 22/09 ), costurei as ideias neste novo texto.  

    segunda-feira, 7 de abril de 2025

    Quanto vale o fim de um amor?

    Durval empurra a porta de vai-e-vem da cozinha e grita:

    - Batista, suspende o fechamento do turno. Chegou um casal e parece que vai jantar!

    O cozinheiro está à beira da bancada, um pano encardido pendurado no ombro, panelas espalhavam-se pelo mármore gasto. Com a notícia, deixa escapar das mãos a concha de molho de tomate. A concha repica no chão e quase derruba o balde que apara o vazamento debaixo da pia.

    - A essa hora? Sem condições! Não sou escravo do patrão, não – reclama, recolhendo o objeto.

    - Também quero ir embora. Passei o dia todo andando de lá pra cá, e só consegui juntar uma merreca de gorjeta. O dia tá fraco!

    - E você quer encompridar um dia fraco, Durval? Ficou lelé da cuca! – resmunga sem levantar os olhos e já lavando as travessas.

    - É que o casal é distinto, principalmente o homem, com um casaco preto nos trinques. Vi quando chegou. Ah, se eu tivesse um casaco daqueles, Batista! Sabe a Soninha, aquela branquinha e bunduda que vive rondando os fundos do restaurante? Pois ela anda me esnobando, dizendo que eu sou mal ajambrado. Se eu vestisse um casaco daqueles, ia dar uma coça naquela danada.

    - Coça? Ah, entendi... – sorri com o canto dos lábios. – Só não sei como é que eu entro nesta história de casaco e Soninha. Você vai roubar o homem enquanto ele janta distraído com a mulher?

    - Claro que não, não tenho vocação para bandido! Mas uma pila graúda, acho que eu consigo arrancar. Crio uma dificuldade pra vender caro uma facilidade. É assim que faz todo mundo que se dá bem.

    - A dificuldade você já tem, hoje eu não cozinho nem mais um pinto.

    - Fechado, Batista. Você não tem que mover uma palha e eu me dou bem com o cavalheiro. Me passa a cesta de pão e dois copos. Copos limpos, viu. E pães pelo menos mornos. Se o serviço for de merda, babau tutu.

    Durval volta para o salão. Em cima do balcão do bar pega uma garrafa; na falta de bandeja, equilibra o vinho embaixo do braço. A cestinha e os copos seguem nas mãos, entre os dedos e um guardanapo. Dirige-se à mesa encostada ao muro e quase às escuras. Sem pressa, aproxima-se do casal: “Acho que a cozinha já está fechada, cavalheiro. Queriam jantar?”

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    - Batista, eu sou um gênio; você é um gênio! – entra na cozinha às gargalhadas. - Foi moleza trazer uma notinha direto para o meu bolso. Cheguei logo com o lero-lero:” já está tarde, senhor; deve estar fechada, senhor...;” insinuando que sempre se dá um jeitinho. E o homem parece que quer terminar logo este encontro: se sacode o tempo todo na cadeira, não sabe se pega o isqueiro, se larga o maço de cigarros. Senti até uma pontinha de pena.

    - Pena, Durval? Cascata. Agora mesmo estava querendo roubar o casaco do homem.

    - O que é isso, meu chapa? Sou honrado, só quero um din-din pra comprar uma roupa elegante e ficar boa pinta. Eu te falei, a Soninha...

    - Sei, a Soninha... – abandona a esponja na pia, pega a escova de arame e ataca a panela maior, grudada com molho de carne. As travessas estão lavadas e emborcadas no escorredor.

    - Sabe o que eu ouvi quando estava chegando na mesa: “Que juízo você faz de mim, Alice? Eu te amei.” – arremeda a voz do homem. Te amei, entendeu? No passado. E a mulher lá, com cara de coitada, fazendo um drama pra ver se o infeliz ama de volta.

    - Nos meus tempos de garçom, cansei de ver a cena. Daqui a pouco ela chora, diz que foi enganada, que ele não pode ir embora assim - abre a torneira ao máximo, posicionando o panelão embaixo da ducha forte.

    - Neste caso de hoje, tem mais um probleminha... – fala em tom de segredo, aproximando as mãos em concha do ouvido de Batista.

    - Desembucha logo, Durval, ou te ponho para limpar o chão.

    - A mulher é coroa, daquelas que querem parecer mais novas, sabe? E deve ser barraqueira. Pegou logo a garrafa de vinho, disse que queria beber; pelo olhar assustado do homem, já deve ter dado vexame.

    - E eu não sei? Mas não entendo bulhufas destas mulheres; se metem com homem mais novo, com idade pra ser filho delas, e depois querem fidelidade eterna. Piada. Nem se a dona for rica, cheia do ouro! A falta de carne nova e durinha fala mais alto – abre e fecha os dedos no ar como se apalpasse uma peça de alcatra do cardápio.

    - Tá certo, Batista, certíssimo! É por isso que eu acho que um coroa namorar uma menininha dá muito mais jogo; se o homem for rico, então, perfeito. As mulheres se contentam com umas migalhas de amor e uns presentes caros, nem fazem tanta questão de sexo.

    - Já nós, meu camarada, damos no couro até os noventa!

    - Ainda estou longe desta idade, mas chego lá. Enquanto espero vou dar uma circulada no salão - ri da própria piada - Se o homem não me vir por lá, é capaz de chamar o gerente. Não divido com ninguém os meus cinquenta cruzeiros!
                                                                                                            
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    - Batista, hoje é nosso dia de sorte! Mais sorte que a da seleção tricampeã. Quer saber pra onde o casal está indo? Vem, é só chegar aqui – pega o cozinheiro pelo braço e o dirige à janela da cozinha.

    - Durval, não sou fofoqueiro, não – estica o pescoço na direção indicada, alcançando com a vista a nesga de jardim e a fonte seca no centro dele.

    - Eu fingi que estava atendendo outras mesas – sussurra o garçom ao lado da janela - passei bem longe deles pra não ter que dar nenhuma explicação. O homem parecia tão chateado que convidou a mulher para dar uma volta. Vieram nesta direção.

    - Dá pra ver direitinho. Bem que você disse que Alice era coroa... Ah, meu Deus, agora já era. Não abraça ela, meu senhor. A mulher vai entender tudo errado!

    - Fala baixo, Batista, não vai estragar o nosso camarote. Olha só, agora deu a doida. Tá beijando ele todo, e de língua.

    - Eu avisei, eu disse. Se não fosse essa música alta, dava até pra ouvir a conversa.

    - Eu te amo, eu te amo – Durval representa, olhando para Batista, que gosta da brincadeira:

    - Me larga, Alice! Acabou! – responde Batista, sacodindo o colega e sem consegui conter a risada.

    - Espera, que pena, acabou o showzinho, estão voltando pra mesa. Vou ter que aparecer por lá.

    - E qual vai ser a sua desculpa pro jantar não ter saído?

    - Fácil! Que o cozinheiro está de ovo virado – responde enquanto empurra a porta para o salão com força.

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    - Batista, fecha a cozinha, finalmente vamos embora.

    - E você só me aparece agora que já está tudo limpo e arrumado? Tá me devendo, ouviu?

    - Devo e não nego, mas pago nesse instantinho mesmo. Quer saber como terminou a historinha de amor?

    - Não sou fofoqueiro, eu disse. Vai, me conta, já esperei tanto!

    - O homem chama Eduardo, vi no cheque com que pagou o vinho; ele deu no pé, escafedeu-se, largou a mulher na mesa.

    - Dá-lhe, Eduardo! Assim é que se faz.

    - Encontrei com ele em frente ao bar, acertou as contas e pediu pra eu arranjar um taxi pra mulher. “Claro, claro!,” - fiz uma reverência respeitosa.

    - Quanto cinismo.

    - Depois segui em direção a Alice na mesa, ela com a maior cara de choro. Perguntei, jogando um verde: “A madama está se sentindo mal?”

    - E ela?

    - Disse que tinha sido uma discussão, mas que estava bem. Só de sacanagem, falei :“Também discuto com a minha velha, mas mãe tem sempre razão”. Mãe, manjou, Batista?

    - Que maldade, Durval! Ela ficou grilada? – pergunta enquanto fecha os armários e pega a mochila.

    - Não, até me elogiou, disse que eu era um moço muito bom, acredita? E se foi a pé mesmo, não quis táxi nem nada!

    - Apaga a luz aí perto de você, Durval, por hoje chega. Até amanhã!

    - Amanhã é minha folga, esqueceu? Vou comprar o meu casaco maneiro e abafar com a Soninha. Ela que me aguarde...

    Durval tranca a porta da cozinha e segue Batista até o ponto do ônibus. De longe, veem a mulher descendo lentamente a rua.

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    • Texto produzido e revisado no Grupo de Escrita, do curso de Formação de Escritorescoordenado por Bruna Tessuto. O desafio foi fazer a reescrita do conto "A Ceia", de Lygia Fagundes Telles, modificando o foco narrativo.
    Na Rede:
    Leia A Ceia - Alice e Eduardo encontram-se num restaurante para, mais uma vez, conversarem  sobre o término do romance que viveram durante anos.


    domingo, 23 de março de 2025

    Circo Estelar

        A temporada foi um desastre! Na plateia, meia dúzia de filhos de Deus; no caixa, uns caraminguás que não cobririam nem o deslocamento para aqueles confins de Minas Gerais. Eu reconheci na cara esbranquiçada de Lord Orion a preocupação com os destinos do show, já a tinha visto antes. Aliás, ultimamente ele tem precisado de muita maquiagem para disfarçar a palidez, e doses de conhaque ao encarar as contas. A cartola e a varinha não lhe têm sido úteis.
        
        Embora ninguém esteja animado com a situação, não damos o braço a torcer. A esperança costuma se renovar ao longo de cada viagem, para a próxima cidade, e a seguinte. Partiremos daqui a pouco com destino ao vilarejo de Vale Alegre. O nome, com certeza, há de nos trazer sorte: as cadeiras estarão lotadas, e os nossos bolsos também. “Amém”, parece completar Andrômeda, depois de se benzer com leveza de gestos, e beleza das mãos. Andrô é meu amor platônico, a deusa bailarina que completa o meu interior. Sem ela não vou nem até a esquina! Quem sabe um dia me declaro?

        Eu estou acomodado na carroceria do caminhão maior. Pólux e Castor são os encarregados de dobrar as minhas vestes, de organizar a minha estrutura de modo que sobre espaço para as caixas da companhia: roupas, cenários, equipamentos, utensílios e víveres. Lorde Orion diz que os irmãos acrobatas fazem o serviço com organização e rapidez, mas vez por outra ele cede às reclamações dos dois e preciso conviver com Sirius e sua má vontade para o trabalho. Nunca se viu um engolidor de espadas mais arrogante e preguiçoso. Além de ser um péssimo motorista.

        No caminhão menor, segue o restante da trupe. Na boleia, Lord Orion, Andrômeda e Pégaso - pela baixa estatura, o palhaço não consegue se equilibrar no chacoalhar da carroceria. Atrás, protegidos por uma lona bege, e mal acomodados nos bancos de madeira, viajam Antares e seus sete instrumentos, as barracas do acampamento, e Vega, um jovem fugido de casa que se juntou a nós quando perambulávamos pelo Nordeste.

        A caravana avança, Vale Alegre se aproxima, posso ver da minha posição privilegiada. O letreiro com letras garrafais instalado na frente do caminhão maior e a buzina, insistentemente tocada por Lord Orion, chamam a atenção do povo nas ruas. As pessoas param, acenam. Chegamos à praça central. Me animo pelas condições do lugar, espaço fabuloso, bem no meio do ir e vir da cidadezinha. Todos descem, e a alegria dura pouco. Ouço Andrô comentar que o dono da mercearia em frente não quer baderna ali. “Baderna?! Ôxe! Que cabra abestado”, grita Vega. Confusão formada, nos empurram para um terreno lá no final do comércio, depois das moradias. O lugar é até agradável, eu vejo. Tem uma matinha do lado esquerdo com patas-de-vaca floridas; a área aberta é gramada; do lado direito cruza um riacho, facilitando a vida do acampamento. Mas, e ao fundo? Estico minhas hastes para identificar melhor a parte de trás do terreno. Custo a acreditar no que vejo. Não sou o único a perceber nosso infortúnio. Com passadas curtas, Pégaso chega esbaforido da sua excursão. Dá a notícia aos berros: “Estamos cercados por defuntos!”.

        “De-de-funtos?!”, gagueja Lord Orion, buscando o conhaque na bolsa de viagem. Além da máscara branca, o corpo confirma o baque. Está curvado, mãos apoiadas nos joelhos, a garrafa largada aos seus pés. Andrômeda corre a confortá-lo: “Mortos não se importam com a música alta, nem com gritos da plateia! Vai ser até bom, viu?”. Sirius reage aos argumentos femininos e recruta os colegas para uma expedição de reconhecimento; Pégaso, ressabiado, indica o caminho. Eu fico esquecido, dobrado, imóvel na carroceria, as hastes no máximo da capacidade de observação. Aguardo o retorno da trupe.

        Na volta, a conversa em torno do caminhão me põe a par dos fatos. Sim, há um cemitério nos fundos daquela área; o lugar parece bem cuidado – mato capinado, grades de ferro e portão em perfeito estado. Mas é Pólux que mais se sente incomodado com um fato estranho: as lápides das sepulturas estão simplesmente apagadas, nenhuma marca antiga ou indício de que tenham, um dia, existido. Uma sensação de ameaça vai nos contaminando pouco a pouco. Onde andarão estas almas? Sem um endereço determinado, um nome incrustado na pedra, se sentiriam à vontade para vaguear por aí? Viriam em nossa direção? Ou pior: assustariam o nosso público?

        As perguntas circulam no ar acompanhando a roda de conversa e ninguém se dá conta de uma figura que se aproxima. “Nunca tivemos um circo por aqui”, diz a mulher, entre aborrecida e aflita, ao ler a placa de divulgação. Pelos buracos da minha lona, consigo ver, de costas, uma senhora em carne e osso, não me parece assombração. Antares se aproxima da visitante, leva a flauta em uma das mãos. Apresenta a trupe, suas habilidades fantásticas, fala sobre o espetáculo jamais visto em toda a Terra. Aproveita o momento de conversação para chegar bem perto e investigar-lhe o rosto. Percebe os olhos avermelhados, e brilhantes da senhora. Um tremor percorre o corpo do músico. Ele empunha a flauta e começa a tocar uma melodia aprendida há milhares de anos. O efeito é imediato, não em mim, é claro. Andrômeda e a mulher se movimentam lentamente; braços seguindo o alongado das notas sopradas por Antares. Em seguida, Pégaso, Pólux e Castor fazem corrupios em torno de si, cabeças balançando a cada trinado mais agudo. Vega e Lord Orion dão-se as mãos, rodopiam e cantam largas vogais: aaaaaá, oo oo, oooó. E Sirius encolhe-se como se estivesse em um casulo, oscilando ao sabor de uma brisa mansa. A cena é bonita de ver. Quisera eu poder acompanhá-los neste transe musical.

        Mas é justamente pelo meu estado de consciência que consigo reparar nos vultos atraídos pelo flautista. Saindo da matinha de patas-de-vaca, das margens do riacho, chegam jovens, velhos, meninos e meninas, homens e mulheres, dançando coreografias inventadas. Aos poucos se juntam a Antares e ao corpo de baile original. “Viemos parar em Hamelin?”, me pergunto. Os olhos avermelhados e brilhantes da gente que chega me dizem que não.

        Sinto uma aragem a propagar-se pelo descampado, um bailado ascendendo por trapézios transparentes. O ar ondulante atinge minhas vestes, desdobrando-as uma a uma. Flutuo. E pairo colorido sobre o gramado, acima das cabeças dos dançarinos. Ali, num tempo guiado pela música, seres sem passado se unem aos que não querem ser esquecidos.

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    • Texto produzido e revisado no Grupo de Escrita, do curso de Formação de Escritorescoordenado por Bruna Tessuto. O desafio foi construir uma história a partir de três imagens bem díspares: uma lápide sem inscrições, uma senhora e um mágico. Quando li a proposta, pensei: "Que coisa mais sem noção!" Depois que escolhi o narrador,  a tarefa fez mais sentido. Encarei, e gostei de elaborar esse conto inspirado na fantasia dos espetáculos circenses.

    sábado, 6 de julho de 2024

    Carla e Dalva

    Já são quase dez da noite quando Carla senta-se em frente ao computador para mais horas de trabalho. A rotina sempre apertada - atividades na agência de publicidade, cuidados na educação dos filhos – e agora os prazeres e pressões com os prêmios e recordes de vendagem, vão empurrando o ofício da escrita para cada vez mais tarde. Não chega a ser um problema para uma workaholic assumida, embora, às vezes, uma pontinha de cansaço, um incômodo nos ombros a façam desejar que, em vez de um rio caudaloso, sua vida seja um lago de águas tranquilas, onde possa soltar o corpo e deixar-se simplesmente boiar.

    Abre o arquivo do capítulo mais recente. A narrativa em construção a instiga; para ela escrever é expressar-se em liberdade, é tornar-se amiga, aliada das palavras. Carla interrompe a escrita justamente onde uma palavra lhe escapa. Sabe que é preciso ter paciência com os sentidos, persistir nas possibilidades, até que uma ideia se instale, soberana. Como ela se instalou, há anos, neste escritório no andar térreo de sua casa em Belo Horizonte – espaço de trabalho e criação, só dela, sem que ninguém a incomode. Pelo menos, não até esta noite calorenta de inverno, imensas janelas abertas descortinando o jardim. O som de folhas secas pisadas, uma melodia suave de ninar, a voz afinada de uma mulher, vão ocupando devagar o recinto. Carla fica de pé, estica o pescoço; um vulto aparece por detrás do ipê roxo em flor no canto do terreno. Enquanto a figura se aproxima, pisando a grama recém aparada, Carla dirige-se à janela, tentando reconhecê-la: talvez pela postura esguia, ou pelo pisar decidido. Quem sabe chegando mais perto, possa lhe ver a face em detalhes. Não demora, estão frente a frente:

    - Dalva?! É você?

    - Sim, sou eu, Carla.

    Dalva não espera convite e adentra o escritório.

    - Por um momento, duvidei. Seus cabelos grisalhos, um pouco mais lisos... Mas os olhos, os olhos de jaboticaba, molhados e grandes como eu descrevi, me levaram a você.

    - Envelheci, continuei meu caminho. Deus voltou para mim, como você anunciou ao colocar o ponto final do romance, mas ainda tenho tantas dúvidas. Eu não me conformo. Eu preciso que você me diga por quê?

    - Pergunte, você tem todo direito, uma personagem não há de ter melindres com seu criador.

    - Por que você escolheu a mim para tanto sofrimento? Por que me envolveu em uma paixão sem tamanho e me desamparou diante da dor?

    - Era o seu destino. Filha de Antônio e Aurora, cercada de amor, e música, só você teria a chance de ressignificar o ciúme, o mal, a violência...

    - Destino, não, sina! Queria que você soubesse disto. Olhe, num capítulo, num só capítulo, você me levou do casamento, de um gostar de muitos verbos, a uma dor desumana de perder tudo: meu homem, meu filho, minha fé!

    - Tudo lhe foi devolvido, Dalva, embora entenda a sua revolta. Escritores não são confiáveis.

    - Ardilosa, é o nome que me vem à cabeça agora para defini-la. Tudo tão encadeado, os fatos arrumadinhos para aquele final. Sabe os desatinos que andam falando sobre mim quando a leitura acaba? Eu preferia que você tivesse me matado.

    - Não sei se te consola, também escuto críticas, algumas são tão... tão...

    - Tão injustas! Tão cruéis! Será que quem lê não percebe que somos falíveis: você, eu; todas as personagens e seus criadores, todos somos frutos da mesma humanidade.

    - Quem vê de fora sempre acha que faria arranjos melhores, mas é de dentro que o não dar conta ocupa tudo - recita Carla - pensei que eu tinha sido clara quando escrevi esta frase.

    - Se você tivesse permitido, eu poderia ter ido embora, mas fiquei sentenciada a uma eterna avaliação. E agora, para piorar a minha situação, ainda teve esse prêmio em Portugal. Soube ontem da novidade num clube do livro. Precisei comparecer porque meu nome foi muito pronunciado. Era Dalva isso, Dalva aquilo... Culpa sua, de raiva nem lhe trouxe o tabuleiro com empadas que tinha acabado de assar.

    - O que acontece depois da última página não me cabe definir, Dalva. Deixei o caminho aberto para você e Venâncio. Você, ele, seus filhos pertencem agora aos leitores - à imaginação deles, aos desejos e limitações de cada um deles. Por isso, os destinos são, serão indefinidamente múltiplos. Agarre-se às pessoas que se emocionaram, se identificaram com as tramas de vocês, estas são muitas; deixe de lado os autoritários, os conservadores.

    - É tão difícil, não sei se consigo...

    - Vamos tentando, Dalva, vamos tentando. Mas agora sente-se aqui e me conte as novidades. Você e Venâncio se acertaram? Como está o Vicente? Apegou-se ao pai depois de tanto tempo de separação? E o João, conseguiu compreender por que tem duas mães?
     
    E as duas conversam até de manhazinha, esclarecendo os fatos, aparando as arestas, trocando confidências. Carla registra na memória e no coração o rumo daquela prosa: adubo para novas histórias, fermento para outras personagens. Escritores não são mesmo confiáveis.
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    • Texto produzido e revisado no Grupo de Escrita, do curso de Formação de Escritorescoordenado por Bruna Tessuto.

    quinta-feira, 27 de junho de 2024

    Encontro com João

    Fábio atravessou a rua com pressa, o sinal verde de pedestres piscando e exigindo cuidado. Se não fosse a cliente de última hora, experimentando, e rejeitando, todos os sapatos que ele apresentava, não teria que correr. Deu mais uma conferida no relógio e constatou que chegaria a tempo. Alguns passos no mesmo ritmo e avistaria a entrada. O vigilante o cumprimentou com a cabeça, já o conhecia de outras oportunidades. Embora faltassem alguns minutos para o fechamento dos grandes portões de ferro, ninguém o questionou sobre o motivo da pressa e a intenção da visita.

    Seguiu pelo calçamento de pedras e entrou na aleia principal. A visão das construções de mármore e das figuras esculpidas que ladeavam o caminho, o silêncio crescente do ambiente, as árvores frondosas acentuando as sombras do final da tarde, tudo contribuía para recuperar seu bem-estar. Afrouxou a respiração e sorriu com a ironia: bem ali no centro do bairro de Botafogo, entre engarrafamentos de carros e gentes, encontrara o seu oásis, e em torno deste oásis, um deserto de pessoas. O medo é um sentimento tão limitador, concluiu ele, um pouco antes de alcançar o objetivo daquele dia.

    Tinha sido bem ali, no final da aleia principal, que, na semana anterior, se detivera a reparar nos detalhes de uma edificação de frente retangular revestida com pedras e sem janelas. Pequenos rasgos na parte superior da fachada e na lateral permitiam a entrada de luz. Além da porta em folha dupla vazada, chamava a atenção a hera verde avançando pelas paredes.

    Dirigiu-se à entrada bem a tempo do compromisso marcado, seu recente amigo deveria estar à espera. Logo distinguiu o cavalheiro que se aproximava – chapéu coco, terno escuro bem cortado, luvas e bengala com ponteira de metal. O homem saudou-o, efusivo:

    - Ora, ora, senhor Fábio Aguiar! Eu aqui já estava a imaginar que não honrarias a tua palavra e deixar-me-ia a ver navios.

    - Não, de maneira alguma. Para mim, trato é trato, Senhor Paulo Barreto. Nosso primeiro encontro me impressionou demais! Até queria me desculpar por minha reação. Devo ter parecido um idiota, gaguejando sem parar.

    - Não te preocupes, foi realmente uma situação inusitada, aconteceria com qualquer um. A semana me custou a passar, ansioso que estava para retomarmos a conversação. Tantas dúvidas sobre o que começaste a me contar...

    - Senhor Paulo... ou posso lhe chamar de Senhor João?

    - O que é um nome para definir um ser humano? Um carimbo insuficiente, nada mais. Só não compreendo como ficaste sabendo do meu gosto pelos pseudônimos.

    - Acho que fui indiscreto, mas não consegui me segurar: pesquisei sobre sua obra - as crônicas e reportagens -, seus gostos e desgostos. Não queria acrescentar “ignorante” às minhas características...

    - Pois orgulho-me de ser múltiplo, dependendo da situação e da minha curiosidade. Se o assunto de nossa conversa for política, nomeie-me José Antônio; se falarmos sobre Paris e as belezas da belle époque, pode me chamar de Claude; no entanto, serei João se quiseres retomar o diálogo sobre a quantas anda esta cidade que amei e conheci tão profundamente.

    - Então, não há dúvida, Senhor João, ou melhor, Senhor João do Rio! E agora que nos conhecemos melhor, seria bom deixar de lado as formalidades. Posso chamá-lo de você? É como os amigos se tratam atualmente...

    - Trate-me como quiser, senhor Fábio, só não espere que eu adote comportamento tão coloquial. O que vem de berço marca-nos por toda a vida.

    - Combinado! Mas hoje vim lhe fazer um convite especial: que tal andarmos por aí, como você costumava fazer nos áureos tempos? Poderia rever a cidade, em vez de ouvir sobre ela.

    - Convite aceito, preciso mesmo mudar de ares. Vejo que fizeste uma pesquisa cuidadosa sobre os meus hábitos, deves ter folheado páginas e páginas da “Gazeta de Notícias”. Ou foi de “O Paiz”?

    Fábio não se conteve, a visão de si mesmo dentro de uma biblioteca afogado em exemplares de jornais provocou-lhe uma sonora gargalhada.

    - O caro amigo poderia me dizer o motivo da graça? – perguntou, batendo o cabo da bengala na palma da mão.

    - Ah, João – falou, tentando controlar-se – hoje em dia todas as publicações do mundo podem ser consultadas da própria casa, usando um computador ou um celular, são equipamentos para ler e escrever, calcular, se comunicar...

    - Não me diga, então sou mesmo um sujeito genial! Inventei máquinas assim em uma de minhas crônicas mais famosas. Queria vê-las fora da ficção.

    - Olhe, trago aqui um celular no bolso, posso lhe mostrar como funciona, mas vamos deixar a lição para mais tarde. Se não sairmos agora, os portões serão fechados. No seu caso, não haveria problema, mas eu teria que pular as altas grades, e esportes nunca foram o meu forte.

    Começaram a caminhar em direção à saída. Fábio quis saber por que tinha sido o escolhido, dentre outros visitantes, para a aparição de João.

    - Eu já o observava há tempos. Entre muitos que choram, rezam e sofrem saudades, caminhando em procissão, eu o via passear tranquilamente, usufruindo da paz e da beleza do lugar, deixando-se levar pelos detalhes: flores frescas, flores artificiais, nomes, datas... Lembrei-me de mim mesmo, e do prazer que flanar por aí me proporcionava.

    - Meu Deus, agora fiquei emocionado!

    - Também não é para tanto. Confesso que o tédio andava a me consumir; se não fosse a tua visita na semana passada, juro que teria me manifestado ao primeiro sacripanta que aparecesse.

    - Bem, agora já sei que não sou tão especial assim...

    - Pois deixa de choramingos e ouça-me! Como deves estar informado, cheguei aqui aos 39 anos, praticamente um bebê, e lá se vão mais de cem. Inicialmente, vivi numa morada exclusiva, como desejava a minha querida mãezinha, mas atordoou-me o silêncio, a falta de companhia. Busquei abrigo junto aos meus colegas das Letras, naquela construção em que nos encontramos.

    - Por que, então, se sentiu entediado se estava cercado de acadêmicos? – perguntou, enquanto guiava João pelo braço para que não interrompessem a jornada.

    - Esperava um pouco de animação, de modernidade, mas que nada... Estes senhores, à medida que acordam do sono original e percebem que o título de imortal é uma grande balela, contentam-se em reunir-se num eterno falatório. Estou farto destas ideias bolorentas, do chá das cinco, do mofo e das infiltrações nas paredes.

    - Sei como é; trabalho no comércio, e os clientes me deixam louco; há dias em que nem quero sair da cama... – interrompe a fala por um instante, olhando a ponta dos sapatos, e em seguida completa - mas vamos ao que interessa, por onde começaremos o nosso passeio?

    João explicou que desejava rever o palacete no qual morara na rua Vieira Souto, não tinha tido tempo de se despedir da casa refinada, do areal que a cercava, da vista do morro do Corcovado. Ipanema, entretanto, mudara, nada de palacete ou areal; entre um prédio ou outro, talvez a visão do Corcovado. Seria um baque para o escritor. Fábio tentou demovê-lo da ideia:

    - Ipa-pa-nema?!... Que tal irmos à La-pa? - gaguejou como no primeiro encontro.

    - Por que o nervosismo, meu caro amigo? Por acaso desejas me ludibriar?

    Antes que tivesse de inventar alguma desculpa, chegaram à saída: o vigilante já a postos ao lado dos grandes portões, chaves nas mãos. Apressaram o passo. Na calçada, João voltou à carga:

    - Eu lhe peço, senhor Fábio, que não me poupe de nenhum infortúnio. Estou preparado, sempre estive. Sou, quer dizer, fui repórter, acostumado a circular dos mais pobres recantos aos mais requintados, nada há de me surpreender. Sigamos.

    Fabio assentiu, João exigia um mergulho sem retoques no Rio de Janeiro. Enquanto aguardavam o Uber que os levaria à Ipanema, ainda puderam notar um rebuliço por detrás dos portões. Um funcionário chegou na correria, e se benzendo:

    - Cruz credo! Valha-me Nossa Senhora! A porta..., a porta está aberta, escancarada! Eu que não volto naquele mausoléu. Nem morto!
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    • Texto produzido e revisado no Grupo de Escrita, do curso de Formação de Escritores, coordenado por Bruna Tessuto.
    Na Rede:
    Crônica de João do Rio citada no texto: O dia de um homem em 1920 

    terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

    Noélia

    Noélia caminha pela areia sem atenção, tropeça nos pés descalços, a barra do vestido lambendo os morrotes fofos. No ambiente, nada a atrai – movimentos, cores, sons – nada! Olha para si mesma, corpo em concha, o mundo interior em preto e branco. Lá fora o mar tranquilo; por dentro, ondas de ressaca. Pudera! Não anunciaram que o tempo mudaria por estes dias? Forte calor, frente fria... 

    Tinha acabado de constatar, um pouco antes de bater a porta da casa e sair atordoada, que o amor detesta mudanças, que ele só se sente bem com temperaturas constantes, em condições ideais de umidade, na mais completa calmaria. Raios e temporais?! Malditos sejam, esconjura o amor. Malditos sejam, repete a mulher, a voz vibrando dentro da própria concha. Um amor abalado cisma em morrer, morte súbita. Resta espanto, e agonia.

    Noélia está só; a praia vazia, olhada de soslaio, confirma a sensação. Melhor assim... De que adiantaria um ser vivente ao seu lado se é impossível partilhar o incomunicável? Não basta soletrar “dê-ó-erre” com toda a minúcia ortográfica, ou dividir as sílabas de “so-frri-menn-to” reforçando as ênfases individuais. Palavras não bastam diante da morte do amor. Por isso, se cala - estática, estátua.

    Se ela movesse um pouco o corpo, se erguesse a cabeça na direção do horizonte, veria um pássaro se aproximar: voo elegante no céu, asas e vento em parceria, a cauda-leme apontada para o único lugar habitado na areia. Se pelo menos abrisse os olhos, se permitisse que a luz inundasse as suas retinas, experimentaria um momento fugaz de comunhão. Mulher e pássaro unidos na sombra projetada a sua frente: o corpo dela, esteio; nas asas dele, anseios. Mas Noélia amarra-se em si, cobre o rosto com as mãos, não se entrega à luz. O pássaro, indiferente aos limites da mulher, segue livre o seu destino.
    Conto Noélia nascido do trabalho com o grupo Escrita Matinal. Texto inaugural da promessa de 2024.
    Imagens: @oszvaldnoell

    segunda-feira, 12 de outubro de 2020

    Amélia

    A distância é pequena. Amélia costuma contar os passos desde a saída da estação do Metrô: 46, 47, 48, 49, 50... Pronto, aperta o interfone, o porteiro responde destravando a porta. Cumprimentam-se brevemente. Vencendo os passos seguintes e os degraus da portaria, logo estará em casa. Bem mais rápido e prático do que morar no Grajaú, onde ela perdia as contas lá pelo segundo quarteirão depois de descer do ônibus. 

    Revira a bolsa à procura do chaveiro entre ampolas de vitamina C e sachês de colágeno escapulidos da nécessaire. “Alexa, acenda as lâmpadas”, ela pede enquanto vai se livrando do blazer e dos saltos. A caixinha arredondada, muito delicada e bem acabada, desperta de seu sono; linhas coloridas dançam na circunferência superior num vai e vem alegre. Luzes iluminam o apartamento. Amélia circula entre os cômodos, recolhe a toalha de banho esquecida na cama, coloca na pia a xícara do café da manhã.
    Senta-se no sofá branco - antigo desejo de consumo realizado pela designer contratada na última reforma - puxa o assento retrátil e descansa as pernas sobre ele. Apoia a cabeça na almofada, fecha os olhos por um momento. O silêncio da casa a incomoda. “Alexa, toca a playlist do Queen.” A casa se enche com o som da banda, e Amélia sorri. Ela ama essa satisfação automática. Sim, Alexa a tinha ouvido: sem delongas, sem cobranças, sem lamúrias. O céu! 

    Vai dançando até o quarto, radio ga ga, radio goo goo, a procura do smartphone. Teria ficado no escritório? Um breve franzir de testa é substituído pela expiração aliviada; o aparelho largado ao lado da sacola da Le Lis Blanc. Dá uma conferida no vestido azul de renda, saia evasê, decote de ombro a ombro, tão sexy! Uma pequena fortuna, mas terá sido um bom investimento. Rodopia diante do espelho, oh, won't you take me home tonight

    De volta ao sofá, prepara-se para o ritual de todas as noites. Busca, na tela, o atalho com a pequena chama branca e abre o aplicativo. Os dedos não obedecem à sua ansiedade. Segue-se uma pausa para encontrar os óculos, e, em seguida, a visão da caixa de mensagens sem novidades. Checa o wifi, reinicia o roteador, a internet no bairro anda péssima. Mas nada muda naquele país das possibilidades. Aliás, há dois meses vive de muitas deslizadas e poucos matches. Já seguiu todas as orientações para ser feliz no Tinder – duas revisões no texto da descrição, a foto do perfil é de cinco anos atrás, triplicou o raio de busca de usuários compatíveis. Até considerou rever a faixa etária desejada - dos 18 aos 75 anos, talvez? “Ridícula! Que coisa ridícula!”, fala, ao perceber o fiasco de tudo aquilo. Larga o celular na mesinha de centro. Se ao menos fosse uma pessoa autoconfiante... Autoconfiante como Fred Mercury, um indivíduo feio e dentuço que sabia ser sensual. I was born to take care of you, every single day of my life, cantarola baixinho Amélia, com ele, para ele. 

    Não devia ter cedido aos conselhos das amigas, recrimina-se. Não tem vocação para relacionamentos virtuais, se expor assim, sem nenhum controle! Dá preguiça e medo ao mesmo tempo. Preguiça de começar uma conversa do zero: contar das viagens, da família e do trabalho; explicar mal entendidos; fazer graça, quando o humor não é sua praia; tentar ser interessante sem saber o que o outro considera interessante. E o medo de encontrar o serial killer mais próximo, tantas histórias de violência e golpes contra mulheres, e elas ali, impotentes. Teria ficado na zona de conforto, não fosse a exigência do coração solitário. Love of my life, love of my life, cadê você? 

    Deita-se no sofá, dobra as pernas, aconchega-se em seus próprios braços. “Alexa, estou me sentindo muito só!”, confidencia meio sem pensar. Num instante, a música se cala, o círculo colorido volta a se agitar. E uma voz suave lhe responde: “Lamento saber disto. Assista a um filme engraçado ou tome um bom vinho”. 

    Embora o timbre de Alexa a conforte, Amélia aguarda ansiosamente a voz de Samuel L. Jackson, uma promessa da Amazon por módicos noventa e nove centavos de dólar. É pena, ela suspira, que não se possa ter tudo. A novidade só ficaria perfeita se o corpo do novo assistente virtual tivesse uma forma máscula: um cubo de arestas solenes, moldado em bronze escuro. Ela o colocaria em lugar de destaque, um pedestal bem no meio da sala. O céu! 

    “Alexa, um vinho cairia bem. Hoje tem alguma comédia no Sky? Mas, por favor, nada de comédias românticas, você já sabe que não me fazem bem.” A TV da sala se ilumina, as imagens irrequietas a distraem, até a fazem sorrir. O interfone não demora a tocar, Amélia recebe o Malbec: alto teor alcoólico, aquele mesmo que a havia interessado dias antes no site do Evino. 

    No fim da noite, bem ao lado do celular sobre a mesinha de centro, descansam duas taças de vinho. O céu!

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    • A primeira versão de Amélia está completando hoje um ano de vida. Como presente de aniversário para a minha personagem, revisei o texto para aproximá-lo do gênero Conto. Hoje publico essa nova Amélia, com mais carne e osso, e que foi trabalhada na Oficina de Contos, da Estação das Letras, coordenada por João Paulo Vaz.
    • Completando o renascimento de Amélia, Eline de Medeiros criou uma nova ilustração.

    quarta-feira, 23 de setembro de 2020

    Futuro do pretérito

    Não sei por que ainda me assombro. É a mesma cor exagerada, são os mesmos cachos que se repetem há décadas. Todo mês de julho. Desde quando me sento aqui apreciando o caramanchão do bouganville? Desde que pude dar os meus primeiros passos? Não, não; devo ter precisado de mais tempo para me livrar dos braços dos adultos e ter vontade própria, se bem que vontade própria mesmo não tenho até hoje, e também não sei se alguém é capaz de tê-la. A vontade própria se desmancha na propriedade da vontade dos outros, numa cadeia sem fim de desejos e resignações. Sorte tem o bouganville, exerce o seu direito inalienável e cíclico de ser. Como concorrente, apenas a moita de alamandas que, vez em quando, em seu amarelo pálido, se arvora em rival. Patética! Contra o solferino dos cachos em julho não há ser vegetal, nem animal, a bem dizer nem humano, que lhe faça frente. Se me ouvisse agora, Maíra riria, achando essa minha afirmação um exagero, menos, mãe, menos... 

    Riria... Riríamos... 

    Ela, cheia de convicções, nunca se admirou com folhas ou flores; sempre preferiu os pelos e as peles, as patas e as asas; tudo que se movesse por vontade própria. E eu? Mãe insegura, a não ser por uma única certeza: por mais desbotada que fosse a minha vida, raios de luz, como um arco-íris, se lançariam ao futuro, colorindo da frente para trás o meu caminho. Uma das pontas seria a minha existência antes da maternidade, e a outra, o destino de Maíra, seus atos, seus passos; até que também ela lançasse adiante a minha extremidade do arco-íris, e assim seria em continuidade, num movimento perfeito e permanente. 

    Seria... Seríamos... 

    Certezas costumam se esvanecer assim, de súbito, com um telefonema, ou uma mensagem de texto. Ninguém pensaria em cores, em potes de ouro prometidos, numa noite escura e opressora. Eu, sim; pensei em meio ao breu, em meio aos ferros retorcidos e às manchas de sangue. Pensei no meu arco lançado ao futuro, futuro do pretérito, cambaleando no céu sem elegância, e desabando bem longe do pé do bouganville. Daquele momento em diante, faltaria um desenho no céu. Sofri por mim, pela minha finitude, pela possibilidade morta de me perpetuar neste mundo. Eu acabei ali. 

    Acabei. Acabamos.


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    Texto finalizado na Oficina de Contos, da Estação das Letras, coordenada por João Paulo Vaz.

    domingo, 2 de agosto de 2020

    O Caso do Zé Armênio

    Vem, minha filha, senta aqui pertinho de mim, mas antes chama os meninos, que eu quero contar uma história que aconteceu há muito tempo, eu ainda não era nascida, nem a minha mãe. Foi o meu bisavô que ouviu dizer sobre as aventuras de Zé Armênio, e contou pro meu avô, que contou pra mim quando eu era criança. A gente sentava em volta da fogueira e ele dizia: hoje eu vou contar a história do escravo mais tinhoso e retinto da fazenda.
    Olha, agora faz de conta que eu acendi o fogo aqui bem no meio da sala, está ficando mais quente, sentiu? Foi assim que o menino nasceu, junto ao crepitar do carvão em uma noite escura, numa beira de rio perto da senzala. E foi o bebê escapulir da barriga da mãe, arregalar os olhos e começar a berrar um choro dos infernos. O pai, aflito com o chororô (pois se o sinhô acordasse...), banhou o menino nas águas do rio pra ele se acalmar. Dizem que foi a correnteza mansa que operou o milagre e, ao mesmo tempo em que o menino calou, sentiu o gosto pelo livre viver, sem que nenhum ferro o prendesse, sem que nenhuma gente o alcançasse, sem que nenhum tempo o escravizasse. 

    Zé Armênio cresceu solto pelas terras da fazenda e ninguém podia com suas diabrites. Mamava nas cabras; subia até o último galho das árvores; usava estilingue pra azucrinar os cavalos; escondia a enxada e a foice dos trabalhadores – era arteiro como o próprio Saci-Pererê, só que completo das pernas. E também tinha a esperteza do Curupira, sumia das vistas do capataz que vivia atordoado atrás dos seus rastros. E nunca, nunquinha, chegou a trabalhar, nem na mais simples tarefa. 

    Quando o rapaz fez treze anos, começou a se sentir preso naquele território cercado da fazenda. Abriu a porteira e botou o pé no mundo. Os pais não estranharam o sumiço do filho, com certeza ele ouvira o chamado da correnteza que o batizara. Souberam que ele andava pelas terras vizinhas como mascate, vendendo panelas, cortes de tecido e sabão em barra. Mas muita gente dizia que, só pra se divertir, roubava de uns e vendia pra outros, e gastava todo o dinheiro na taberna mais próxima. Foi neste tempo de atrevimento que conheceu as três mocinhas com quem se amasiou, tendo tido casa com cada uma delas, e gerado treze filhos, todos devidamente batizados nas águas dos rios da região. E os filhos, como o pai, seguiram livres por aquelas terras. 

    Os anos correram e Zé Armênio, adiantado na idade, começou a se sentir aprisionado naquele corpo de homem velho. Entendeu que, desta vez, de nada ia adiantar abrir a porteira e sair pelo mundo. Resolveu, então, encurtar o mundo, condensar o mundo no seu menor tamanho. Entocou-se numa caverna e lá passou a viver sem que nenhum ferro o prendesse, sem que nenhuma gente o alcançasse, sem que nenhum tempo o escravizasse. 

    Homem e caverna se entrelaçaram de tal modo que já não se reconheciam em separado. E embora Zé Armênio benquisesse cada um de seus dias, em qualquer estação do ano, eram as noites que o faziam sentir-se em total harmonia com a sua natureza de bicho livre. Acostumara-se ao escuro: distinguia as sombras, ouvia a presença dos morcegos, farejava o orvalho que adentrava pela boca de pedra. Tateava as paredes e as considerava como seu próprio corpo. Sabia que, em meio às trevas, ninguém seria capaz de invadir a casa. A exceção eram as noites de lua cheia, aquele imenso farol desnudando suas entranhas. 

    Foi numa dessas noites que ele pressentiu o perigo: um leve deslocar dos ares, talvez um bater de asas; um cheiro ácido que desconhecia orvalho; um vulto claro-escuro a espreitar o espaço. Zé Armênio não demorou a reconhecer a feroz inimiga de sua liberdade e, apavorado, se encolheu num canto. Um formigamento estranho lhe alcançou os pés, subiu-lhe devagar as pernas, tornou-se quente ao encontrar o ventre, ao espalhar-se às costas. O homem levantou-se num ímpeto, mas se viu sem pés, sem pernas... e sem ar. Uma sufocação tomou-lhe o peito; cambaleou entre as pedras e caiu de borco. Chegou a imaginar os verdes e os amarelos das plantações, vislumbrou os rebanhos brancos e marrons, mas, por fim, as cores foram se perdendo, uma a uma, no sumidouro da inconsciência. Zé Armênio quedou-se inerte, flácido, e deixou-se levar pelo vulto claro-escuro. 

    Naquela noite, houve quem jurasse ter passado perto da caverna e visto a morte, tal qual uma pietá macabra, carregando o velho em direção ao rio. E que os dois desapareceram tragados pelo clarão de uma das luas mais lindas já vistas por aquelas bandas. 

    O meu avô sempre terminava a história pedindo pra gente olhar em volta, além do clarão da fogueira, pra descobrir os rastros do Zé Armênio, pois, com certeza, o homem conseguira se livrar da morte e andava livre pelas matas, amigo do Saci-Pererê, comparsa do Curupira. 

    Então, vem, minha filha, segura na mão dos meninos e vamos ao encalço do escravo mais esperto da fazenda. Faz de conta que a gente achou.

    Fogueira - Foto de Clara Pereira 

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    Exercício de escrita do curso Texto Puxa Texto
    da Estação das Letras, coordenado pelo professor Juva Batella.

    segunda-feira, 6 de julho de 2020

    Deve ter sido

    Deve ter sido a canção do Gil que perturbou a faxina na cozinha. Mirna estava ocupada com produtos e técnicas de limpeza, resolvera testar a sugestão de Rosa: ao invés da vassoura, usar o aspirador em todos os cômodos da casa. Funcionara – muito mais prático que o abaixa-levanta para alinhar a pá de lixo e o pique-pega com os arredios tufos de poeira. Os versos da canção a fizeram recordar o restante da conversa com a amiga na noite anterior. Falaram-se por WhatsApp sobre as descobertas domésticas da quarentena, a falta que as diaristas fazem, a compulsão de uma pelo chocolate, o vinho que seduzia a outra. Ao final, concluíram: “Tá difícil, né, amiga?”, “É, tá difícil pra caralho. Pra ca-ra-lho!”.

    Deve ter sido o palavrão, ou a ênfase, que colocou Mirna em alerta. Rosa sempre fora educada e contida nas revelações. Observou-a pela câmera do celular: cabelos desalinhados, vestido estampado de malha retirado do fundo do armário, nenhuma bijuteria - o modelito típico das mulheres em isolamento social, não fossem os olhos irrequietos e o pescoço virando repetidas vezes para a porta, como se controlasse a entrada de alguém. Mirna decidiu ser direta e perguntar logo sobre o casamento com Daniel. Tinha presenciado tantas brigas durante o Carnaval...

    Deve ter sido a franqueza da pergunta que desatou em Rosa a urgência da resposta: sentia-se sozinha, mais velha, mais flácida, menos amada; sentia-se tão cansada quanto inútil; sentia-se uma ingrata já que o marido até ajudava nas tarefas, coitado, só não gostava de limpar o banheiro ou lavar as panelas. Contou como abrira mão das lives da Teresa Cristina para acompanhar Daniel nas maratonas do Netflix; e de como restringira suas aulas de yoga pelo YouTube para que a música zen e as mensagens relaxantes não o irritassem durante o home office.

    Deve ter sido a conexão ruim que fez a conversa travar justamente ali. Mirna ainda tentou uma nova ligação, mas Rosa teclou que Daniel tinha chegado. Falariam no dia seguinte, sem falta. Mirna completou: “Se cuida! Se precisar, me liga”.

    Deve ter sido a voz rouca do Gil se espalhando pela cozinha – o seu amor, ame-o e deixe-o ser o que ele é, ser o que ele é - que interrompeu os devaneios de Mirna, para, em seguida, ouvir o interfone. Era o porteiro, avisando que um policial queria falar com ela. “É sobre uma mulher, Rosa Junqueira, a senhora conhece?”

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    Texto produzido para o curso Texto Puxa Texto, da Estação das Letras, coordenado pelo professor Juva Batella.

    Na Rede:
    O Seu Amor, canção de Gilberto Gil. Clique abaixo para ouvir:

    terça-feira, 16 de junho de 2020

    Eu, Izaltina de Almeida Guimarães Modesto

    O meu nome soa pomposo, isso eu sei. Não duvido nem quando estou um pouco fora de mim, como agora, num limbo sem tempo nem lugar. Gosto de repeti-lo devagar e bem baixinho. Falo comigo mesma, pois já não há ninguém a impressionar com sobrenomes de fazendeiros de outros tempos. Quem se importaria com a viúva do filho do barão do café quando já se vão mais de sessenta anos que o ouro verde se derramou? Acaricio os sons do meu nome. As sílabas ostentosas escandidas em cantilena me fazem bem, é como rezar um terço, repetir uma oração pedindo proteção, e coragem.

    O galo no terreiro já começou a função, empurrando com seu canto as galinhas para fora do poleiro, como em todos os dias. Devo seguir os sinais da natureza e levantar-me da cama, embora hoje desejasse uma trégua, algumas horas apenas de descanso e devaneio. Raios de sol entram pelos vidros da janela e pelas frestas da madeira envelhecida, combinam-se com os grãos de poeira que dançam no ar. Eles dançam, eu continuo imóvel. 

    Desenhados com o pó das memórias, bailam os móveis de palhinha da sala de estar, o retrato do barão, os castiçais, a mesa de jantar. Chego a escutar o relógio batendo as horas, o rebuliço das crianças, o vaivém dos empregados, as rodas das carroças circulando do cafezal para o terreiro de secagem bem em frente à varanda principal. Lembranças que saltitam pelos espaços vazios do quarto. Mas de que me valem, hoje, as lembranças? Mudarão a penúria em que me encontro, a falta de esperança, esse vazio?
    É triste ter que viver restrita à antiga ala de serviço, espremida nos cômodos adaptados à vida simples – alpendre; saleta e quarto; fogão a lenha instalado no quintal para não fumaçar a habitação. Seu Eleutério ficou de vir ver o telhado da casa-grande, me garantiu dar jeito nas cumeeiras corroídas pelo tempo e pelos cupins. Não deve haver remédio para aquela carcaça podre, mas me iludo. 

    Nunca fui à escola, deve ser por isso que eu não entendo bem como cheguei nesta situação. A pobreza veio vindo pé ante pé, disfarçando as consequências, levando para longe um filho de cada vez, até que só me sobrasse Salomé. Eu e Salomé a calejar as mãos, eu e Salomé a empurrar a vida, silenciosamente. O que seria de mim não fosse a presença dela? E ainda que o Velho Titonho tenha decidido continuar na propriedade, trabalhando por casa e comida, o homem é de pouca valia, quase tão desgastado e desiludido quanto eu. 

    Lanço mais um olhar para os raios de sol na janela, admiro o balé de poeira que já vai se dissipando, me viro na cama com cuidado para não prejudicar os costados. Percebo os sons da fazenda invadindo o aposento. Não se conformam com a minha desatenção, cobram a minha presença no curral, no galinheiro. Até as árvores do pomar andam a clamar por mim. Também pudera, é para hoje a encomenda de Sinhá Maria: sequilhos de araruta, compotas de goiaba e tabletes de doce de leite para os sobrinhos que chegam do Rio de Janeiro. 

    Respiro fundo, reúno o que me resta de forças e levanto-me. Diante do pequeno oratório, ajoelho-me. Aperto os dedos - polegar e indicador acariciando as contas do terço -, e sigo repetindo a oração: i-zal-ti-na-de-al-mei-da-gui-ma-rães-mo-des-to; i-zal-ti-na-de-al-mei-da; gui-ma-rães-mo-des-to; gui-ma-rães-mo-des-to... Amém.

    Ilustração: Angela Cotrim, aquarela e grafite sobre papel, 2020

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    Texto finalizado no curso Texto Puxa Texto, da Estação das Letras, coordenado pelo professor Juva Batella.

    sábado, 11 de abril de 2020

    Enclausurado

    À moda de Ian McEwan, 
    em homenagem à genialidade do escritor

    Estamos no mês de junho, eu sei. E não é porque minha mãe costuma comentar o calendário com o meu pai, naquela contagem regressiva típica das grávidas, mas pela alteração do indicador de velocidade de subida – o tempo que levamos, eu e ela, para galgar as escadas do térreo ao quarto andar e entrar no nosso apartamento da Rua Tonelero. Hoje, o percurso escada acima alcançou um índice maior em relação à semana passada. Eu percebi a mudança pelo balançar lento dos líquidos que me envolvem, pelas paradas mais frequentes, e por tê-la ouvido resmungar com a vizinha que eu, esse fardo extra que é obrigada a carregar dentro dela, ando engordando demais ultimamente.

    Pudera, cansada dos comentários maldosos sobre ter mantido o peso nos primeiros meses, o que indicaria um desleixo comigo, minha mãe decidiu providenciar o certificado de boa reprodutora abandonando o shape alongado e assumindo a silhueta de fêmea prenha que se preza. Eu ainda era um minúsculo embrião, com poucas semanas de vida, mas recordo-me aterrorizado dos fortes espasmos que me sacudiam, das convulsões abruptas e imprevisíveis. E de como, a cada evento deste tipo, eu acompanhava o movimento em disparada dos passos maternos e ouvia uns grunhidos estranhos. Os sons de líquidos se derramando sobre líquidos me acalmavam, pois antecipavam o alívio da revolução interna. Com o tempo aprendi a confiar na minha avó, em seus vaticínios de que os enjoos e vômitos tinham data certa pra terminar, dali a um ou dois meses, o que de fato aconteceu. Pelas conversas que testemunhei, a elegância do corpo de minha mãe, açoitado pelos incômodos digestivos, só agradava ao meu pai, um pouco enciumado pela concorrência comigo. Recuperada, ela decidiu que se lançaria na busca dos quilos socialmente aceitáveis na sua condição.

    O problema é que a comilança trouxe outras consequências, além da subida lentíssima dos quatro lances de escadas. O barrigão de minha mãe passou a disputar espaço com o meu pai e o meu avô no pequeno apê de Copacabana – sala, quarto, banheiro e cozinha –, surrupiando o conforto de ambos. O velho senhor, que havia abrigado a contragosto os recém-casados de poucas posses, viu-se exasperado. Num espaço antes ocupado por um só ser vivente, agora existiam quatro, sendo que ele me considerava um feto mimado e sem limites. Gerador de uma prole numerosa, não via nenhum sentido nos paparicos de minha mãe, marinheira de primeira viagem. A vingança de meu avô atingiu em cheio o cerne da questão: interrompeu o fluxo livre de mercadorias que recebia dos clientes como agradecimento pelos seus préstimos profissionais. Peças de bacalhau, caixas de bombons, latas de doces cristalizados, entre outras delícias, passaram a ser malocadas no guarda-roupas do velho e não mais socializadas com a família. A iniciativa, frustrada, ainda causou um grande mal estar na convivência dos três. Eu adotei a sábia medida do distanciamento, não sou de tomar partido.

    Foi mais ou menos nesta época que comecei a perceber os comentários da minha mãe sobre a necessidade de nos mudarmos, sobre o seu desejo de ter mais espaço e liberdade numa casa que pudesse administrar do seu jeito. Tinhosa que só, passou os últimos meses nesta catequese. Aguardava o final do jantar e, logo que meu avô se distraía com o noticiário no rádio, começava a pregação. Nem sempre eu conseguia ouvir bem suas palavras pelo tilintar da louça sendo lavada ou pelos sons da programação, mas podia sentir a circulação volumosa do seu sangue me envolvendo na medida em que se empolgava com o discurso. Tenho a impressão que meu pai já concordou, pois ontem pude capturar fragmentos da conversa: “tem elevador”, “bairro do Flamengo”, “o quarto do bebê”... 

    Confesso que concordo com minha mãe, entendo as dificuldades dos cômodos acanhados e da falta de liberdade para ir e vir. Sinto que a minha habitação, um conjugado sem divisórias que até já me pareceu amplo e confortável, está sofrendo uma reforma às avessas: paredes tornam-se mais espessas, portas, mais estreitas, surgem cantos desnecessários e inacessíveis. Ando esbarrando em mim mesmo, sinto-me enclausurado. Paciência, digo-me num mantra de final de jornada. Paciência, pois, afinal, estamos em junho. E em mais um mês estarei livre!

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    Texto produzido para o curso Autoficção: Oficina de Memórias, da Estação das Letras, coordenado pela professora Ana Letícia Leal.
    • A narrativa nasceu de uma pesquisa sobre as casas em que morei. Jurava que minha primeira morada no mundo tinha sido em Copacabana, mas estava errada. Meus pais viveram na Rua Tonelero durante o período da minha gestação e, logo que saí da maternidade, fui para um apartamento no Flamengo.
    • Como o gênero é de Autoficção, quer dizer, o escritor tem liberdade total para tornar ficção o que é memória, resolvi embarcar nesta viagem intrauterina. E me vali da estratégia incrível de Ian McEwan, que, no romance Enclausurado, usou o feto como narrador. Mantive o mesmo título do livro de McEwan para enfatizar o recurso de intertextualidade.

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    Na Rede:
    O podcast da Companhia das Letras tem um episódio dedicado ao livro Enclausurado. Além da conversa sobre o romance, aproveite a leitura de trechos feita pelo Wagner Moura. Imperdível!
    Rádio Companhia #85  (link para o Spotify)

    quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

    Sentimento Blue

    Não sei como você consegue reagir impassível a toda esta loucura. Tenho que confessar, às vezes sinto até uma ponta de inveja da sua resignação. Eu não me rendo, mas desde ontem só quero fechar os olhos e não sentir nada: nenhuma náusea, tonteira, dor, agulha, soro. Não fossem estes tubos, estaria na praia só de calção! Meu Deus, coisa alguma te abala, nem esta mocinha que a toda hora entra aqui no quarto: cabelos escuros puxados em coque, uniforme em cor pastel, nos pés um par de tamancos brancos para acentuar a natureza higiênica do traje. Piada. Como se eu não soubesse que, antes de chegar ao prédio, a bela circulou pelo metrô lotado e cruzou calçadas emporcalhadas com esta mesma roupa, o mesmo sapato. Desde cedo, ela não dá trégua, borboleteando ao meu redor - fala anasalada, cheia de inhos: “Já acabou o cafezinho, Seu Estevão?”, “Seja bonzinho comigo, ontem o senhor não quis tomar banho”. Hoje, ela ainda inventou de ligar a TV com o propósito de me distrair. E desde quando TV distrai um ser humano? Cinco minutos de programação são suficientes pra me tirar do sério! Eu não me conformo, nunca me conformei, não será agora que vou achar isto normal. Podem fazer a campanha que quiserem, alardear todas as obviedades travestidas de verdades científicas: prevenção, conscientização, acompanhamento – propagandas cacetes, é o que são! Os planos de saúde é que se dão bem nesta história, claro! A cada consulta, a cada exame extra que os médicos inventam, é mais um motivo pra aumentar a mensalidade. E ainda têm a cara de pau de nos enfiar por goela abaixo essa tal de alimentação saudável. Saudável pra quem? Pro meu bolso é que não é! Você sabe quanto custa um quilo de tomate orgânico? Um punhado de linhaça dourada? Não faz muito tempo, entrei, por curiosidade, numa quitanda metida a besta perto de casa, saí correndo antes que tivesse que pagar só pra olhar. Na verdade, eu não ia querer aqueles produtos nem de graça, tão mirrados que davam dó! O problema é que comecei a fantasiar com eles. Semana passada, sonhei que estava perdido em um beco escuro. Um homem me perseguia e ameaçava com um ramo de cenouras raquíticas. Quanto mais eu corria, mais o beco se fechava e o homem se aproximava. Acabei encurralado, as cenouras cresciam, se transformavam em longos dedos, apertavam a minha garganta, forçavam a boca, puxavam minha língua. Borboletinha deve ter ouvido os meus gemidos, as palavras embaralhadas, e achou por bem reforçar o Dormonid, avisando-me que não adiantava gritar pelo Dr. Antenor àquela hora da madrugada. Você não deve ter percebido toda a movimentação, pois dorme como um bebê recém-nascido! 

    Mas o que me deixa mais puto é a hipocrisia da cor. Todo mundo critica, condena a ministra, chama de reacionária, só que na hora de se referir ao sexo masculino neste maldito mês, qual a cor escolhida? Qual? E não basta usar laço na lapela, tem que enfiar o logo da campanha no perfil do Facebook, no site da loja, na propaganda do jornal, e, pasme, tingir de azul prédios e monumentos, até o próprio Redentor. Por acaso estátua tem próstata? Ou Jesus Cristo visitava o urologista regularmente? Uma certeza eu tenho: se o Salvador fosse obrigado a encarar o humilhante “exame físico”, reagiria com a mesma ira com a qual expulsou os vendilhões do templo. E eu, eu sou católico praticante. 

    Já passou a hora do almoço? Não sei por que me bateu tanta sonolência. É melhor eu parar de falar, esses remédios acabam com as minhas energias. Deixa estar que, mais tarde, os meus companheiros de bar virão me visitar. Ontem eles vieram, eu ouvi as vozes no corredor, mas alguém lá fora deve ter implicado com as risadas deles. Gente feliz não é bem vinda aqui. Hoje ninguém os vai impedir: trarão pataniscas de bacalhau, uma tigela de rabada com agrião e meia dúzia de cervejas geladas. Você prefere Brahma ou Antarctica?

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    Mais um texto gerado a partir da Oficina Online Escrevendo Crônicas, coordenada por Rubem Penz, que frequento desde julho. O desafio era fazer uma crônica sobre uma efeméride (uma celebração ou evento que se repete anualmente), abordando-a de uma maneira criativa, diferente da usual. Optei por uma crônica-conto, gênero que permite uma maior liberdade narrativa pela presença dos personagens. 

    sábado, 12 de outubro de 2019

    Amélia

    Amélia senta no sofá, larga o celular na mesa de centro e decide-se: vai desistir. O ritual de todas as noites nos últimos dois meses não funciona com ela. Pode até servir para mulheres autoconfiantes, não é o seu caso, reconhece. 

    Quando resolveu abrir a conta no Tinder, não tinha certeza se queria ou se devia se expor. Dever ela até sabia que devia já que o mercado presencial de relacionamentos para mulheres com mais de cinquenta anos anda tão estagnado quanto a economia brasileira, mas querer mesmo, não queria. Sentia preguiça e medo ao mesmo tempo. Preguiça de começar uma conversa do zero: contar das viagens, família, trabalho, explicar mal entendidos, forçar pra fazer graça, quando o humor não é sua praia, tentar ser interessante sem saber o que o outro considera interessante. O medo era o de encontrar o serial killer mais próximo, tantas histórias de violência e golpes contra mulheres, e elas ali, impotentes. Teria ficado na zona de conforto, não fosse a exigência do coração solitário. 

    Só que agora, em dois meses de muitas deslizadas e poucos matches, mesmo depois de ter trocado a foto do perfil para uma de cinco anos mais nova, mesmo revisando e revisando o texto de descrição, percebe o fiasco de tudo aquilo. E desiste. 

    “Alexa, estou me sentindo muito só!”, confidencia Amélia, meio sem pensar. A caixinha arredondada, muito delicada e bem acabada, desperta de seu sono. Luzes coloridas dançam na circunferência superior num vai e vem alegre. Amélia ama essa sinalização automática. Sim, Alexa a tinha ouvido: sem delongas, sem cobranças, sem lamúrias. O céu! 

    “Alexa, estou me sentindo muito só!”, ela repete, comprazendo-se com a dança das luzes. “Sinto muitíssimo por saber disto”, responde a voz amiga. “Assista a um filme engraçado ou tome um bom vinho. Quem sabe, as duas coisas.” 

    Embora o timbre de Alexa a conforte, Amélia aguarda ansiosamente pela voz de Samuel L. Jackson, uma promessa da Amazon por módicos noventa e nove centavos de dólar. É pena, ela suspira, que não se possa ter tudo. A novidade só ficaria perfeita, a seu ver, se o corpo do novo assistente virtual tivesse uma forma máscula: um cubo arestoso e solene, moldado em bronze escuro. Ela o colocaria em lugar de destaque, um pedestal bem no meio da sala. O céu! 

    “Alexa, acho que você tem razão, um vinho cairia bem. Hoje tem alguma comédia no Sky? Mas, por favor, nada de comédias românticas, você já sabe que não me fazem bem.” 

    A TV da sala se ilumina, as imagens irrequietas a distraem, até a fazem sorrir. O interfone não demora a tocar, Amélia recebe o Malbec: alto teor alcoólico, aquele mesmo que a havia interessado dias antes no site do Evino. 

    Alexa, Amélia, o filme, o vinho... No fim da noite, bem ao lado do celular sobre a mesinha de centro, descansam duas taças de vinho. O céu!

    Ilustração: Eline de Medeiros, aquarela sobre papel, 2020
     
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    AMÉLIA nasceu de um exercício de escrita da Oficina Online Escrevendo Crônicas, coordenada por Rubem Penz. O desafio: escrever uma crônica-conto (sub-gênero da crônica) sobre o AMOR em tempo de relacionamentos virtuais.
    Este é o segundo exercício do curso que publico no Blog. Para ler o primeiro, clique em: Dando Crédito à Crônica
    ATENÇÃO - No final de outubro, começa uma nova turma da Oficina. Quer participar? Clique em: Metamorfose Cursos