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quinta-feira, 22 de março de 2018

Bye Bye, America

O nome oficial é United States of America, mas toda a grandeza da nação cabe em uma única palavra. Em qualquer conversação, basta referir-se a AMERICA para que a ideia de país impregnada nestas quatro sílabas seja imediatamente compartilhada: Here in America…; By the way, it’s America; God bless America! Parece óbvio que generalizações como esta ocorram no campo da linguagem, eu sei! Acontece que nos primeiros dias da viagem, enquanto buscava pescar uma ou outra palavra conhecida no mar de sons e significados estranhos, era fisgada pela sonoridade familiar e logo me sentia incluída: 
- America? Presente! Eu sou América da cabeça aos pés. Let’s talk about ourselves. 
No instante em que compreendi que, para os americanos, a South America não está no mesmo patamar linguístico, consegui estancar a sucessão de mal entendidos. Quem me salvou foi o Trump, veja só! Quando pairava alguma dúvida, corria a rememorar o slogan da campanha presidencial – Make America Great Again – pra constatar que não, definitivamente, eu e meu interlocutor não falávamos sobre a mesma América. Uma simplificação necessária a fim de me garantir um pouco mais de intimidade com a língua inglesa, já que, mesmo em um trivial bate-papo, sinto-me tão confortável quanto um faquir em sua cama de pregos.

Depois da visita às montanhas, começamos a nos despedir de America. Os três últimos dias do percurso foram frenéticos: mil quilômetros a dirigir e mais duas cidades a conhecer, antes de fechar o nosso círculo geográfico. Ao final de cada longa jornada, me recriminava por ter planejado lugares demais pra tempo de menos, sentimento que, felizmente, Charleston e Atlanta fizeram o favor de espantar.

À beira mar, Charleston concentra todo o peso da tradição sulista temperado com uma atmosfera arejada e praiana. No centro histórico não faltam referências ao passado escravocrata e à Guerra Civil - ruas com calçamento de pedra, construções inspiradas nas grandes fazendas algodoeiras, estátuas dos generais vitoriosos e até bandeiras dos Confederados – ao lado de lojas de grife, renomados restaurantes, antiquários e galerias. Os ares da modernidade também estão nos barcos e marinas, nas grandes avenidas e nas pontes cruzando o emaranhado de rios que desembocam no oceano. Tem água, muita água, em toda a região. Tanta água que transbordou do céu, em uma forte pancada na manhã da nossa visita. A chuva ajudou na seleção dos programas que coubessem no calendário apertado: nada de praia ou grandes passeios ao ar livre. Com isso, o dia inteiro que passamos em Charleston até que foi suficiente, mas a cidade merece pelo menos mais 24 horas de reconhecimento. Antes de voltar ao hotel, passamos no Melvin’s pra devorar um legítimo barbecue – pork ribs, BBQ sauce, green beans, cornbread. Ambiente simples e comida muito gostosa.

No dia seguinte, malas prontas, pé na estrada mais uma vez. A fim de otimizar o roteiro, o pernoite em Savannah teve que ser cortado, mas, no caminho para Atlanta, demos uma passada pelo centro da cidade. Pelo que vimos, a alteração não foi uma grande perda, embora uma chuva forte tenha caído justamente durante o passeio e, talvez, tenha comprometido o nosso julgamento. Pra tirar a dúvida, só mesmo voltando por lá...

Depois de mais um estirão dentro do carro, chegamos à última parada: Atlanta, a capital da Geórgia. Uma cidade movimentada, entrecortada por eixos rodoviários que facilitam a circulação e o acesso aos bairros mais distantes. Quer um exemplo pra entender a importância econômica de Atlanta? Adivinha onde fica a sede da Coca-Cola? E a da Delta? Sem falar na AT&T, CNN... Mesmo poderosa, Atlanta foi bastante afetada pela crise de 2008 e os altos níveis de desemprego ainda não foram totalmente revertidos. Numa tarde, procurando vaga pra estacionar o carro e ir a uma cervejaria, acabamos passando numa região repleta de moradores de rua, gente em pobreza extrema que parecia aguardar por algo. O garçom do bar nos explicou que aquelas pessoas seriam atendidas por um abrigo, teriam acesso à comida e a um teto provisório. Na avaliação dele, a capital vinha se recuperando gradualmente, e, com a população melhorando de vida, já não eram necessários tantos abrigos quanto em anos anteriores. Não deve ter sido coincidência o fato de, em toda viagem, apenas em Atlanta termos sido abordados por pedintes, pessoas comuns que alegavam ter fome. 
Se a luta atual da população é pelo resgate da economia, a batalha mais emblemática, encarnada por Martin Luther King, foi contra o segregacionismo racial e pelos direitos civis dos negros. A visita ao bairro onde nasceu o pastor, transformado em área histórica, é uma experiência forte. Há um centro de exposições com detalhes da vida, da morte e da luta de King; pode-se adentrar a igreja batista onde ecoam as suas principais pregações; ou circular pela vizinhança e conhecer as casas do início do século XX que compunham o cenário da sua infância. Além da emoção de ouvir o belo discurso “I Have a Dream” sentados nos bancos de madeira da Ebenezer Church, ficamos especialmente tocados por estarmos lá exatamente num 28 de agosto, o mesmo dia da Marcha de Washington em 1963, quando Martin Luther King convocou America a sonhar com ele. Cinco décadas depois de sua morte, é necessário reconhecer que, entre avanços e retrocessos, há ainda muito o que sonhar, e lutar, para que pessoas de todas as nações, de diferentes Américas, tenham direito à igualdade, à liberdade e à paz. 












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Todo mundo sabe que quem conta um conto, aumenta um ponto... Eu, pelo tempo que levei pra contar um passeio de 14 dias, devo ter aumentado vários pontos! Mas juro que a minha intenção com os toques ficcionais, as ênfases subjetivas, os enfeites aqui e ali foi tornar mais colorido e sonoro o relato de nossa aventura. E, claro, conquistar mais alguns leitores para o Blog! 😇😇
Espero que estejamos juntos em outras crônicas. Até lá.

Para ver outras imagens, clique aqui: Galeria de Fotos - Bye Bye, America
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Na Rede:

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Great Smoky Mountains

Pra quem conhece Yosemite Park (na California), The Great Smoky Mountains não são lá uma Brastemp. Os bosques e trilhas do parque nacional (na divisa entre Tenessee e Carolina do Norte) são bonitos, mas falta a exuberância das águas e árvores, além do relevo pedregoso que confere imponência a outros santuários americanos. O adjetivo “smoky” vem da constante bruma nas áreas mais altas, compondo um ecossistema antigo, com espécies raras da flora e da fauna. Tudo bem que a presença da neblina dê um toque misterioso às montanhas, mas achei providencial que ela só tenha aparecido para nós por poucas horas da manhã, favorecendo bastante a visibilidade nos principais pontos turísticos.
Apesar de, em um dia de passeio, não termos exclamado muitos Ohs! e Uaus!, testemunhamos a boa organização do lugar. Há centros de visitantes com funcionários solícitos em diferentes áreas; não faltam jornais, mapas e guias informativos; guardas florestais cuidam dos locais mais movimentados, instruindo as pessoas e zelando pela segurança do ambiente. Quando estávamos subindo a trilha para Clingmans Dome, o ponto mais alto nos “Smokies”, ouvimos um zumbido forte e constante. Pensei serem as abelhas que voavam por ali, mas logo alguém reconheceu o som: “é um drone!” A palavra, e o zumbido, despertaram os mais primitivos instintos de proteção no guarda que conversava a nossa frente. Com sangue nos olhos, subiu a trilha aos pulos, em direção ao infame invasor. Sem conseguir acompanhá-lo na subida, imaginei que, chegando ao topo, encontraria o dono do drone algemado e imobilizado, o equipamento aos pedaços a seus pés. Os poucos minutos de corrida ladeira acima devem ter trazido o policial à razão, pois, ao invés da cena imaginada, encontrei-o recomposto, explicando pacientemente a um rapaz os malefícios do veículo voador para a fauna local. Meio a contragosto, o jovem recolheu seu brinquedinho e a paz voltou a reinar entre os animais, e entre os guardas florestais.


O principal habitante do parque, no entanto, é bem mais difícil de encontrar do que as abelhas. Embora 1.500 ursos negros vivam na reserva ecológica (segundo o Smokies Guide), só conseguimos ver um deles de relance, bem de relance mesmo, na área eleita por nós como a mais bonita: Cades Cove. O vale ensolarado e tranquilo tocou fundo o coração de Ana Paula, fascinada com os tons do céu em composição com o verde da pradaria. Enquanto escolhia os ângulos para fotografar cada detalhe, não se cansava de dizer o quanto estava feliz. Talvez em outras vidas tenha estado por lá, talvez relembrasse as cores e sons de um campo ancestral, ou antevisse um tempo futuro... O fato é que a estradinha em loop de Cades Cove, com veados e ursos, além de casas e igrejas rústicas dos primeiros moradores dos Apalaches, fechou com emoção e simplicidade nosso único dia na região.
Consultando o material de divulgação, encontramos muitas atividades bacanas para quem fica uma estadia mais longa: pesca, camping, passeios a cavalo e de bicicleta, observação de animais, passeio à aldeia Cherokee, além de cursos com especialistas de Ciências, História e Artes. Esta variedade de possibilidades deve ser um dos motivos que tornam The Great Smoky Mountains o parque mais visitado do país. Mas eu aposto que a proximidade a duas cidades pitorescas contribui bastante para atrair a enxurrada de interessados. Numa das principais entradas da reserva está Gatlinburg, um conglomerado de hotéis, restaurantes de grandes redes, cervejarias, parques de diversão, pistas de Kart, teleférico e milhares de lojinhas de souvenir. À noite, a rua principal (e quase única da pequena localidade) ferve com as famílias divertindo-se aqui e ali. 
Esgotadas as possibilidades em Gatlinburg, basta dirigir por uns 20 minutos e encontrar a cidade mais desvairada que já conheci - Pigeon Forge, uma mistura de Disneylândia com Las Vegas, às margens de uma longa avenida. Os estabelecimentos, letreiros luminosos piscando para capturar a atenção dos passantes, fazem referência ao cinema de Hollywood (King Kong, Titanic) e aos mitos americanos como Elvis, Marilyn e John Wayne. E ainda oferecerem experiências temáticas com os caipiras da família Buscapé ou numa casa-brinquedo simulando a ação de um tornado. As excentricidades de Pigeon Forge estão longe do nosso gosto turístico, mas não deixamos de parar o carro para fotografar, e rir muito, a cada surpresa no caminho. Mais fotos da aventura podem ser acessadas no link no final da postagem. Vale a diversão!

Para ver outras imagens, clique aqui: Galeria de Fotos - Great Smoky Mountains
Para saber mais sobre a viagem, leia também: Entre Luz e SombraChattanooga Choo-Choo; Alegria e Música em Nashville e Enfim, o Eclipse.

domingo, 19 de novembro de 2017

Enfim, o Eclipse

Ainda era cedo naquela segunda-feira de agosto - dez da manhã, se tanto. Havíamos saído de Nashville com antecedência, movidos por uma soma de ansiedades – a nossa, trazida desde o Brasil, e a que piscava incessantemente nos painéis luminosos espalhados pela cidade, avisando sobre prováveis engarrafamentos no dia do eclipse.

A viagem de quarenta minutos até a cidadezinha de Gallatin, tantas vezes ensaiada no Google Maps, durou, vejam só, exatos quarenta minutos. E não foi difícil encontrar um lugar para parar o carro, apesar dos pontos oficiais de estacionamento no parque já estarem tomados por americanos ainda mais precavidos. Orientados pelo pessoal do evento, estacionamos num grande descampado gramado, no qual as fileiras de automóveis iam rapidamente se formando. De posse de nossas modestas tralhas (três cangas, garrafinhas de água mineral e algumas frutas), seguimos a pé até o ponto central do Triple Creek Park, acompanhando as famílias que levavam seus incríveis equipamentos de camping – cadeiras e mesinhas dobráveis; geladeiras com rodinhas; tendas tamanho XGG, entre outros apetrechos considerados totalmente indispensáveis para um dia ao ar livre.

Enquanto caminhávamos, fomos percebendo que o parque, que nos parecera, em visitas pelo Street View, um local ermo e sem atrativos, tinha sido transformado para receber os visitantes. Voluntários davam as boas vindas, distribuíam informativos sobre as atrações do encontro e ofereciam óculos especiais para a observação do eclipse. Reforçamos o estoque de água mineral, distribuída gratuitamente, localizamos a área de banheiros químicos e nos instalamos à sombra de uma fileira de árvores, nossas canguinhas estiradas providencialmente no gramado.
As duas horas de espera até que o eclipse começasse passaram aos pulos, no ritmo da nossa felicidade. Eu não esperava me sentir tão envolvida, mas o clima alegre das pessoas ao nosso redor, a música (James Taylor, Bob Dylan e afins) ao vivo no palco, o céu praticamente sem nuvens, a organização e o cuidado com os detalhes do encontro, foram me fazendo dar graças por poder estar ali. E o Mário, sorriso brilhando, andando de lá pra cá no meio de lunetas e telescópios poderosos, falando com gente apaixonada por astronomia, vinda, de perto e de longe, para ver o espetáculo do dia.

Depois que a lua começou a sombrear o sol, não arredamos mais pé do nosso ponto de observação. Olhos colados no céu, acompanhamos as mudanças na natureza e a reação das pessoas:
 - Não tira os óculos, pode cegar! - Acho que a sombra já está na metade, vê só! - Tá ficando mais fresco, né?- Pode me emprestar o seu binóculo? - De onde vocês são? ... Brasil! Tão longe!


Escureceu quando o eclipse total se desenhou, e ouviram-se palmas e cigarras cantando, e vozes em alvoroço. Olhos livres e corajosos, assim como as câmeras fotográficas, procuravam capturar os 2 minutos e 40 segundos de círculo negro. Foi uma beleza o clarão que anunciou o final da sobreposição perfeita! Lua e sol se despediram, e continuaram em seus caminhos plenos de luz, assim como nós. 
No retorno para o estacionamento, seguimos as famílias que, além da emoção e dos equipamentos de camping, levavam também o lixo que produziram. Ao fim da tarde, deixamos o parque lá atrás, de volta à sua essência: um local ermo e sem atrativos, mas, definitivamente, o mais marcante da nossa viagem.



Para ver outras imagens, clique em Galeria de Fotos - Eclipse
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Na Rede:
  • Eclipse MegaMovie Project - promovido por uma associação entre a Astronomical Society of the Pacific, a Universidade da Califórnia em Berkeley e o Google. O objetivo do projeto foi produzir um vídeo a partir de imagens coletadas por fotógrafos voluntários ao longo do caminho do eclipse. O resultado, que inclui uma foto feita pelo Mario 😊😊, pode ser visto em https://eclipsemega.movie/
  • Dentre os vários vídeos produzidos durante o The Gallatin Eclipse Encounter, selecionei este que, apesar de não ter boa resolução nas imagens do eclipse propriamente dito, mostra bem a reação emocionada das pessoas no parque na hora H.  https://youtu.be/4IXg3aPLHaw

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Alegria e Música em Nashville

Nashville estava em festa naqueles dias que antecederam o eclipse. O forte calor do mês de agosto impulsionava a multidão para as ruas. No centro da cidade, quarteirões em torno da Broadway fervilhavam de moradores e forasteiros. Em meio aos espigões plantados próximos ao rio Cumberland, prédios baixos, com seus tijolinhos aparentes, enfeitavam o ir e vir humano. Letreiros luminosos nas fachadas e terraços decorados complementavam o clima de alegria e liberdade. 

A presença ostensiva de policiais e as grades protetoras nas calçadas destoavam um pouco do astral relaxado. Os guardas talvez pensassem em tiroteios ou atentados – o que agora, depois dos episódios de Las Vegas e Nova York, parece bem pertinente - mas toda aquela gente estava decidida a se divertir em segurança. Famílias em seus últimos dias de férias escolares circulavam por lojas, restaurantes e sorveterias, desfilando os pares de botas e os chapéus recém-comprados. Jovens acotovelavam-se nas portas dos bares aguardando o próximo show ao vivo. Turistas embarcavam para um passeio nos mais variados veículos: carruagens e charretes, ônibus temáticos, além de inusitados bares ambulantes impulsionados pelas pedaladas dos consumidores, enquanto, é claro, estes estivessem sóbrios para dar conta do esforço.
Em meio ao alvoroço, grupos de moças uniformizadas chamavam a atenção. Inúmeras noivas e suas amigas comemoravam despedidas de solteira, e andavam de bar em bar, entre animadas e eufóricas. Pela quantidade de turmas diferentes, pelas risadas e cochichos, logo imaginamos uma Convenção Estadual de Noivas Nervosas acontecendo em Nashville naqueles dias. ;)
Para completar a agitação do centro turístico, as ruas ficaram coalhadas de camisas azuis e brancas, as cores do Tennessee Titans, time de futebol americano que acabara de vencer, em casa, uma partida preparatória para a temporada.

O eclipse, as férias escolares, o amor e o futebol tiveram lá o seu quinhão de importância no fervilhar da cidade naqueles dias. Mas estávamos em Nashville, the Music City!! A força da música, principalmente da country music, se faz presente em cada canto, atraindo artistas (os famosos e os em busca da fama) e o grande público. Visitamos o emblemático Ryman Auditorium, um teatro que nasceu como igreja em 1892 e ainda mantém a arquitetura e os bancos corridos típicos de um templo religioso. Nas primeiras décadas do século XX, já unicamente como casa de shows, o Ryman foi gerenciado por uma mulher (Viva!), uma das raras empresárias da época. A fama do teatro, nacionalmente conhecido como “Mother Church of Contry Music”, é atribuída ao trabalho competente e visionário de Mrs Naff. Tudo isso é contado num vídeo super bem feito que, por ter imagens projetadas nas 4 paredes da sala de apresentação, acaba fazendo com que os espectadores se sintam parte dos fatos narrados.
Por fim, enfrentamos uma fila quilométrica pra conhecer o Country Music Hall of Fame, um museu sobre a história dos diferentes gêneros da música country. As bem montadas exposições reúnem arquivos sonoros, fotografias e vídeos, painéis e objetos de gerações de intérpretes e compositores, de Willie Nelson, Dolly Parton e Johnny Cash a Carrie Underwood e Blake Shelton. A última sala do tour é o Hall da Fama propriamente dito, adornado com as placas dos artistas que receberam a honraria pelo sucesso de vendas dos seus discos.

Todos estes momentos em Nashville alegraram a nossa viagem, mas, para mim, o ponto alto foi o show The Grand Ole Opry, um programa de rádio que é transmitido desde 1925 e reúne, em cada apresentação, vários artistas do sertanejo americano. O show tem um locutor, um senhor elegante, com voz empostada (e muito engraçada), que lê os anúncios dos patrocinadores. Alguns dos intérpretes da noite se revezam na recepção aos colegas e na condução do programa, oferecendo à plateia um repertório bem diversificado - ótimo para quem não é expert no gênero, como era o nosso caso. Nós ouvimos canções românticas, números instrumentais e até um conjunto bem tradicional (Riders In The Sky), com velhinhos vestindo ternos bordados e cantando músicas em homenagem aos seus cavalos. Eles foram um espetáculo à parte, reforçando o tom folclórico e o humor, capturando a atenção do teatro lotado. 
Um dos convidados, no entanto, passou a fazer parte da minha playlist. Vira e mexe abro o YouTube pra ouvir Flatt Lonesome, uma banda de irmãos que capricha nos vocais e na performance dos instrumentos. Quer ouvir?  É só clicar no link lá embaixo Na Rede, e sair cantando - You’re the one, you’re the one...




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Para saber mais sobre a viagem, leia também: Entre Luz e Sombra; Chattanooga Choo-ChooEnfim, o Eclipse e Great Smoky Mountains
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Na Rede:

domingo, 22 de outubro de 2017

Chattanooga Choo-Choo

De Atlanta a Chattanooga são 2 horas de viagem pela Interstate 75, uma rodovia larga, com muitas faixas de rolagem (em alguns trechos são 6 faixas, mas nunca menos de 3), asfalto bem cuidado e, maravilha!, sem cobrança de pedágio - fato raro em outros estados. Uma fileira de árvores se alinha às suas margens, o que deixa o trajeto bem mais agradável e fresco, mas, imagino, que este anteparo verde também seja importante como proteção acústica para os moradores das redondezas.

As ótimas condições da estrada garantem a segurança de todos e ajudam a escoar o pesado tráfego de caminhões. É impressionante a quantidade de imensos, e lindos, veículos circulando: cabines com design arrojado, cores vibrantes, carrocerias adaptadas às mais variadas mercadorias. O fenômeno da onipresença dos caminhões se repetiu em todas as rodovias em que transitamos, uma demonstração da importância do transporte sobre rodas para a economia do país.
Já se vão décadas em que é possível chegar rapidamente a Chattanooga de automóvel, mas, no final do século 19, a cidade fez parte de um importante eixo ferroviário, ligando o norte ao sul do país. O primeiro trem de passageiros a circular no caminho de ferro foi apelidado de Chattanooga Choo-Choo, numa alusão ao nome da cidade e ao apito da Maria Fumaça. A antiga estação, reformada, virou ponto turístico, com museu, hotel e casa de shows. Quem quiser uma hospedagem temática pode reservar uma suíte em um dos vagões estacionados nas plataformas.
Como preferimos os B&B, escolhemos uma pousada nas montanhas que ladeiam a cidade. Além de ser um lugar lindo - com bosques, casas incríveis (morro de inveja das casas americanas) e caminhos bucólicos - Lookout Mountain reúne algumas das principais atrações da região. 
Fomos a pé do Chanticleer Inn (nosso hotelzinho) a Rock City – um parque pedregoso, com trilhas, vegetação natural e belas vistas do vale de Chattanooga. Não chega a ser uma cidade de pedras, como o nome sugere, mas os proprietários valorizaram a experiência incrementando os espaços com sinalização e informação adequadas, e criando um clima especial para cada canto visitado. Fadas, gnomos e bandeiras, além de veadinhos e pássaros, coabitam no parque, num tom meio kitsch, mas divertido

Outra atração da nossa vizinhança é o The Incline, um plano muuuito inclinado em que dois vagões puxados por cabos, num sistema de peso e contrapeso, fazem o percurso da base ao cume da montanha. Os últimos metros da subida trazem emoção à viagem tal a posição quase vertical do terreno. É até difícil ficar de pé e sair do vagão no ponto de desembarque. A estação é pequenina, mas, enquanto esperávamos a hora da volta, visitamos a casa de máquinas e acompanhamos a história do local por uma exposição fotográfica.
O passeio que mais fez sucesso na família, no entanto, foi a visita a Ruby Falls – uma cachoeira subterrânea, a 340 metros de profundidade. Mais uma vez constatei o tino dos americanos para os negócios. Um elevador leva confortavelmente os visitantes às profundezas, os guias são afiados nas informações sobre os pioneiros na descoberta das cavernas, luzes coloridas destacam as formações nas rochas ao longo do percurso e ainda tem a performance do “grand finale”. Após um suspense no escuro dentro de uma das cavernas, luzes são acesas e ooh!! é possível ver a bela queda d’água.
Descendo o morro, chegamos à área urbana, espalhada em torno das curvas do rio Tennessee. Em cartazes distribuídos pelo centro, se lê: City of Chattanooga: Clean, Green & Pet Friendly! Pelo que vimos, não é propaganda enganosa – há estímulo ao uso de bicicletas e carros elétricos; as regras para os proprietários de animais de estimação são bem definidas; tem muita gente jovem se exercitando nas ruas (apesar do calor infernal que fazia na tarde em que caminhamos por lá). Museus, galerias e centros de cultura estão reunidos em um bairro inteirinho voltado para as artes, e ainda encontramos restaurantes e bares aos montes.
Antes da viagem, pelo que pesquisei, eu já esperava gostar da cidade, mas, conhecendo a região, ao vivo e a cores, eu simplesmente adorei! 
Deu vontade de ficar por lá! Dá vontade de voltar! Um dia, talvez, quem sabe?!

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Para saber mais sobre a viagem, leia também: Entre Luz e Sombra;
Alegria e Música em NashvilleEnfim, o Eclipse e Great Smoky Mountains
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Na Rede:
  • Chattanooga Choo-Choo é também o nome de uma canção sobre uma viagem de trem. Gravada pela orquestra de Glenn Miller para o filme Sun Valley Serenade, fez muito sucesso na década de 1940. O link abaixo mostra a cena do musical, com direito a show da Big Band e incrível número de sapateado.  https://www.youtube.com/watch?v=V2aj0zhXlLA
  • E tem também a versão da música em português no filme Springtime in the Rockies, interpretada por Carmem Mirandahttps://www.youtube.com/watch?v=d56jNWozP6k

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Tiros em Las Vegas

Para dar continuidade aos relatos de viagem, que prometi na publicação passada, este texto deveria ser sobre Chattanooga, a primeira cidade visitada no Tennessee. Mas, de repente, sem nenhum aviso, a realidade se sobrepôs ao meu desejo. Acordei ontem com a notícia do atentado em Las Vegas durante um show de música country: 59 mortos e mais de 500 feridos!

As imagens divulgadas na tevê me impressionaram pela desproporção do poder do atirador – protegido no alto do prédio e com armamento pesado – em relação à posição indefesa do público, usufruindo do momento em campo aberto. Correria, caos, medo e morte em mais um massacre nos Estados Unidos. Como nos eventos anteriores, em que pessoas foram atingidas em atividades cotidianas, e diante da impossibilidade de compreender a lógica (ou loucura) dos matadores, voltou com força o debate sobre o controle da venda de armas no país.

A salvo na minha sala de estar, fiquei me perguntando se, para se defender, como prevê a constituição e desejam muitos americanos, a população civil precisa de fuzis e metralhadoras de alto poder letal que, nestes massacres, têm sido usados justamente contra a tão almejada segurança individual. 

Ao mesmo tempo, tentei me lembrar de momentos da viagem em que tivéssemos esbarrado na cultura das armas, em sinais do apreço do povo por revólveres e afins. Concluí que só em duas situações nos deparamos com o tema, mas pela via da restrição ao uso. Tanto na visita guiada à destilaria Jack Daniel, quanto no teatro Grand Ole Opry, fomos avisados que armas não seriam aceitas no interior dos estabelecimentos. Isso apesar da viagem ter se concentrado no sul do país, região tradicionalmente mais conservadora e republicana. Tennessee, Carolina do Sul e Geórgia elegeram Trump com margem folgada de votos.

É claro que uma estada curta, como turista, não me faz uma expert na sociedade americana, só me credencia a falar a partir do meu ponto de vista, uma abordagem parcial e intransferível. Feita a ressalva, digo que esta foi uma das viagens em que me senti mais segura e tranquila ao circular por ruas, parques, casas de shows e bares, de dia ou à noite. Não vi ninguém portando armas, não ouvi tiros nas ruas, nem discussões ou nervos à flor da pele. Ao contrário, a população usufrui de espaços públicos com gentileza e organização, as casas são ajardinadas, sem grades ou muros, e as mochilas circulam tranquilamente nas costas de seus donos. No dia do eclipse, no parque repleto de espectadores de todo o país, ninguém parecia preocupado com seus pertences ou com os equipamentos (binóculos, máquinas fotográficas, telescópios) caríssimos. Uma paz invejável!

Paz que também me invadiu quando, já anoitecendo no Centennial Park, em Nashville, encontramos um senhor tocando o seu instrumento à beira do lago. O som do violoncelo transformou-se, para mim, na trilha sonora da alegria de viver. Torço para que, mesmo diante da maldade e da morte, o povo americano (re)encontre o seu hino de esperança e felicidade.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Entre Luz e Sombra

No início do ano, eu e Mario nos convencemos que não dava pra perder a oportunidade. Em território brasileiro, a chance só viria em 2045, quando eu, com muita, muita sorte, estaria completando 85 anos! Se não fosse em 2017, talvez não tivéssemos mais disposição, ou saúde, ou os dólares necessários, para sair pelo mundo caçando a combinação perfeita entre luz e sombra. Ainda havia tempo para planejar a viagem e estar, no dia 21 de agosto, no local e hora exatos para apreciar um fenômeno pouco comum: olhar para o céu e ver a lua eclipsar totalmente a luz do sol – um deleite para quem se interessa por astronomia e fotografia, como o Mário, que, por tabela, me ensinou a gostar também. Foi, portanto, a sombra da lua em seu trânsito pela Terra que orientou nossas escolhas e resultou nesse roteiro original para brasileiros visitando os Estados Unidos.
Coube ao Mario selecionar, dentre os melhores locais de observação (eclipse total com mais tempo de duração), aqueles que também tivessem algum potencial turístico. Ele mergulhou na infinidade de conteúdo produzido sobre o eclipse – publicações de institutos científicos, guias astronômicos, dicas fotográficas, divulgação de eventos, diários de viajantes – e, por fim, ficou decidido que nossa base astronômica seria Nashville – um eclipse em ritmo de musica country. A escolha se mostrou perfeita logo que descobrimos que as férias da faculdade de Ana Paula - fã incondicional da cultura sertaneja “all over the world”- coincidiriam com a viagem e que a família estaria completa na aventura.

A segunda fase do planejamento ficou sob a minha responsabilidade. As duas semanas de agosto precisavam ser recheadas com outras atrações. Recorri, como sempre, ao site Viaje na Viagem e encontrei um relato do Fernando Mihalik que ajudou na definição do roteiro pelos estados de Tennessee, Carolina do Sul e Geórgia. Pra minimizar os riscos, descartamos a Flórida por causa da temporada de furacões na região. No dia 21, o céu até poderia ficar nublado, o que atrapalharia a visão do eclipse, mas nada nos impediria de estar a postos no local e hora definidos! (Agora sabemos que a decisão se mostrou totalmente acertada já que uma sequência de furacões vem afetando o Golfo do México desde o final de agosto.) 


O mapa registra as cidades visitadas de carro pelos três estados, tendo Atlanta como ponto inicial e final do percurso. O imenso Dodge Durango, alugado na Alamo, e que acomodava sem aperto as nossas malas, nem pareceu tão grande em meio aos parrudos veículos americanos: picapes turbinadas, muitas vezes com trailers acoplados, utilitários esportivos, motorhomes e incríveis caminhões. No total, rodamos 2.800Km e, sorte a minha, não precisei dirigir nem 100 metros. Essa é uma tarefa para os “fortes”, seres que se dispõem a desbravar, cheios de coragem, automóveis recém-conhecidos, incertos caminhos e diferentes práticas de trânsito.


Apesar de adorar a liberdade que as viagens de carro proporcionam, fujo do assento do motorista e me sinto bem mais confortável como copiloto, mesmo que, às vezes, tenha um pouquinho de dificuldade na leitura do navegador.
- Vamos virar à direita – informo ao motorista da vez.
- Já nesta rua? Ou na próxima?
- Deixa eu ver... (pausa) Entra agora, agora, nesta rua!
Guinada brusca à direita.
- Ops! Acho que me enganei... Era pra entrar na próxima. Agora tá recalculando...

Felizmente, meus companheiros de viagem me levaram por cada milha americana com carinho e em total segurança. Voltei sã e salva, e com disposição para contar, aqui no Blog, os momentos luminosos, sombreados, coloridos, musicais, e de muito aprendizado, que experimentamos nestes 14 dias de agosto. 
O problema é que tem me faltado um pouco de disciplina para escrever. Tudo me distrai, dos eventos felizes aos mais preocupantes acontecimentos. As ideias vão ficando de lado e demoram a virar textos para serem compartilhados. 



Mas, daqui pra frente (juro, dedos em cruz, beijo, beijo), vou me empenhar pra agilizar a atualização do Blog e não deixar os próximos relatos de viagem se transformarem em material pra pesquisa histórica.
Torçam por mim, por favor!









Para saber mais sobre a viagem, leia também: Chattanooga Choo-Choo; Alegria e Música em Nashville ; Enfim, o Eclipse e Great Smoky Mountains

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Tempo de Halloween

Halloween não é, como eu imaginava, uma festa restrita ao dia 31 de outubro. É um estado de espírito que atinge boa parte da população americana, um clima divertido e colorido que se espalha pelas cidades por praticamente todo o mês. Enfeites, fantasias, festas e paradas contagiam crianças e adultos, e até os pets participam.  Como chegamos a Nova York, primeira etapa da viagem, no dia 15 de outubro, pudemos conviver com várias destas comemorações.

As pumpkins dominam a decoração de Halloween, onipresentes nas portarias dos prédios, em vitrines de lojas e entradas de restaurantes. Geralmente, são colocadas em bonitas composições com vasos de flores e detalhes em palha, e marcam a adesão dos moradores às festividades. O mercado de abóboras é promissor nesta época do ano!

Esqueletos seguem em segundo lugar na tradição decorativa dos americanos. Eles aparecem, principalmente, nos jardins das casas, em cenas bem corriqueiras: tomam sol em espreguiçadeiras, dirigem tratores, aguardam os visitantes no portão. Os personagens são de horror, mas o contexto inusitado torna tudo muito engraçado!

Há também os cenários horripilantes e soturnos, compostos por fantasmas, bruxas horrendas, caveiras e teias, além de machados e cordas. É o que predomina em Salem, região famosa por, no século XVII, ter sido palco de episódios de intolerância e histeria, com a perseguição e condenação de pessoas acusadas de feitiçaria. O legado de “Cidade das Bruxas” tornou Salem a capital nacional do Halloween. A programação é intensa e variada ao longo de todo o mês, garantindo a presença dos turistas e o aquecimento da economia. Passamos uma tarde entre museus, cemitérios e performances. Se não estivesse tão frio, teríamos participado de um tour à luz de velas por lugares assombrados, completando o clima apavorante. A frente fria que congelou Massachusetts nos dias em que estivemos no estado nos presenteou com temperaturas abaixo de 10 graus durante o dia. De noite, podia chegar a zero grau... Então, nada de passeios a pé por lugares abertos depois das seis da tarde!! Tive mais medo do frio do que das bruxas...

As baixas temperaturas, no entanto, não assustam os americanos que, com a proximidade do final de outubro, começam a encarnar os mais variados personagens (feiticeiras e afins, super-heróis, figuras de contos de fadas e da TV, e tudo mais que der na telha) e exibem, compenetrados e brincalhões, fantasias e adereços. Capas, chapéus, dentes postiços, laços, pipocam no metrô, em trajetos a pé, no supermercado e até no aeroporto. Este ano, com a culminância do Halloween acontecendo numa segunda-feira (dia de trabalho normal, sem feriado), os festejos começaram na sexta, se estenderam pelo sábado e domingo, e fervilharam na noite do dia 31.

Calhou que, neste final de semana estendido, fomos de Massachusetts a Illinois. Em Boston, circulando pelas redondezas do Faneuil Hall Marketplace, demos com um desfile de cães de estimação fantasiados (alguns de seus donos também...), e com grupos de jovens em trajes engraçados dirigindo-se aos bares desde cedo. Em Chicago, um dos points dos festejos foi o Navy Pier, com uma programação especial dedicada às crianças que circulavam com seus baldinhos em forma de abóbora, arrecadando doces dos adultos no melhor estilo trick or treat.

O ponto alto do Halloween, no entanto, foi ter acompanhado a Parada em Northalsted, no bairro da comunidade LGBT em Chicago. Lá, tanto as pessoas que desfilavam, quanto o público que assistia, exibiam as mais criativas fantasias. Tratei de providenciar um adereço para me sentir incluída. Não foi difícil! Logo encontrei a Beatnix, loja que, pela diversidade de itens, parecia ter sido importada diretamente de uma esquina da rua da Alfândega. Na minha avaliação de brasileira e carioca, porém, faltou um pouquinho de animação na parada propriamente dita. Uma bateria de bloco de Carnaval completaria bem a função. Mas, quando já nos dirigíamos para a estação do metrô, na volta para o hotel, deu pra ver pelo buchicho nas portas das inúmeras boates do bairro que a badalação estava apenas começando. 

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terça-feira, 8 de novembro de 2016

Cadê a eleição que tava aqui? O gato comeu!

The Cat, nascido e criado no leste americano, tem um gosto peculiar: é um devorador de emoções, especialmente aquelas que animam os pleitos eleitorais.

Nos últimos meses, The Cat passou a circular pelos telhados com fome insaciável. A ação felina eliminou quase todos os sentimentos que americanos de carne e osso pudessem nutrir pelos candidatos Hillary e Trump. O fenômeno foi especialmente sentido por turistas estrangeiros que, como eu e Mario, desembarcaram nos Estados Unidos às vésperas da eleição do novo presidente. Nada de rejeição ou admiração, desagrado ou empatia, amor ou ódio... A vida transcorrendo nas ruas como se houvesse amanhã: sem cartazes, gritos de guerra, nem manifestações empolgadas.
-Ué! Cadê a eleição que devia estar aqui???
-The Cat, my darling. The Fat Cat...

A ironia é que, apesar de só termos visitado estados com tendência democrata, a candidatura de Hillary era praticamente imperceptível na vida cotidiana. Recordo-me apenas de uma mulher exibindo um adesivo pró-candidata.

Já as críticas ao republicano foram um pouco menos sutis. Apareceram em conversas com taxistas, geralmente imigrantes, indignados com as afirmações xenófobas de Trump, e em máscaras e fantasias que ironizavam o personagem louro. Também passamos por uma aglomeração na porta da Trump Tower, um endereço nobre de NY, mas por falta de sinais claros, fiquei sem saber se a manifestação era contra ou a favor ao megaempresário. No finalzinho da viagem, em Chicago, outro animal cruzou o nosso caminho. Um elefante-instalação, colocado na calçada da Michigan Avenue, convidava os passantes a registrar, em seu lombo-painel, as opiniões sobre um possível governo Trump. Quanto aos escritos, dá pra dizer que não eram os mais lisonjeiros...

Mas bastava voltar ao hotel e ligar a televisão para verificarmos que The Cat não apreciava as emoções oferecidas no cardápio midiático. Todos os dias, as redes de notícias produziam uma enxurrada de informações sobre as eleições, apresentadas na telinha como as mais polarizadas e imprevisíveis dos últimos tempos. O menu incluía opiniões, entrevistas, pesquisas e prognósticos, coberturas especiais, documentários, compondo um ciclo ininterrupto de retroalimentação, mas descolado da vida presencial. Sinal dos tempos? Poder das mídias sociais? Mais fácil atribuir ao paladar seletivo do nosso felino...                         -The Cat, my darling. The Fat Cat...

Embora uma parcela expressiva dos americanos já tenha escolhido o seu candidato nas votações antecipadas, hoje, 8 de novembro, é a data oficial para que os eleitores se manifestem. Estou curiosa para saber o resultado das eleições mais assépticas que já presenciei. Como contribuição brasileira, só me resta torcer: Fora Trump! Fica Hillary!