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terça-feira, 21 de outubro de 2025

Me Ajude a Esquecer os Domingos

Existem domingos? Quatro ou cinco vezes no mês?

Existiram, existiam; não mais. Aquelas vinte e quatro horas que se esticam entre escuros já não vivem em mim.

Não me chame; não ouse. Me ajude a esquecer os domingos.

Tomo um porre de espumante, desligo sem memória; congelo; entro em coma desassistido. Outra vez.

Espero um hiato; uma ponte sobre um rio poluído, um caldo de imundícies a correr sob os meus pés – esqueletos de ferro, para-lamas em carne escura, volantes forrados com veias.

Astronauta em suspenso no espaço, aguardo a chegada do último segundo. Até lá, deixe-me neste escuro, sideral; esqueça-me no alívio do tempo do nada.

Não se aproxime; nem tente. Me ajude a esquecer os domingos, que eu nasço ao raiar de outros dias.

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    • Texto produzido a partir do desafio Me ajude a salvar os domingos, da oficina Escrita Matinal, em 06/10/2025
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    quinta-feira, 2 de outubro de 2025

    Recital

    Levanto-me da mesa do café da manhã neste domingo nublado e peço: “Alexa, toca a playlist Hora da louça”.

    Xícaras e pratinhos, a faca da manteiga, as taças de vinho de ontem à noite me aguardam sobre a pia.

    Preparo as mãos, a esponja e o detergente; a água jorrando ritmada da torneira.

    Afino a garganta e finjo: chorei, chorei, até ficar com dó de mim... 

    Ouço a intensidade da voz, das vozes; a minha ao mesmo tempo encharcada de brilho e gim, a dele, pintada de desilusão.

    Nos bastidores da casa, segue o espetáculo: o corpo acompanha o ritmo, sacode a camisola de paetês, se equilibra nos chinelos com salto alto. Cantei, cantei, nem sei como eu cantava assim... 

    A louça, pouco a pouco, aplaudindo, sentada no escorredor.

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      • Texto produzido a partir do desafio Enquanto Toca a Música, da oficina Escrita Matinal, em 09/09/2025
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      • Na Rede
      Há um ano, escrevi um texto-irmão a este. Quando a gente escreve, os assuntos que mais nos tocam acabam se repetindo, com uma roupagem um pouco diferente. Quem quiser ler Conceição, no Instagram, clique Aqui .

      segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

      Navega, coração!

      O barco segue tranquilo pelo Lago Guaíba na calorenta tarde de Porto Alegre. No alto-falante, a voz da locutora identificando os principais pontos do passeio: as ilhas, os rios Jacuí e Caí, a vegetação bem preservada. “Essa é a Ilha das Flores, que ficou famosa com o filme”, acrescenta o marinheiro responsável por vigiar a proa do Cisne Branco. “Ah, o filme!”, recordo-me do curta de Jorge Furtado. O visual de agora em nada remete às cenas fortes do lixão e da miséria. 

      Vou coletando as imagens pelo caminho: bonitas casas de veraneio, marinas, prainhas, pontes. Subo ao convés, agora mais vazio pelo rodízio dos passageiros em busca de alguma sombra. A locutora se cala e a playlist volta a tocar. Não conheço a música, mas a voz, a voz é do Kledir, tenho certeza. É ele sim, parece que é... Uma senhora, num grupo ao fundo, canta animada, sabe de cor a letra; me aproximo e peço a comprovação. Sim, é ele quem canta, embora a canção seja do Fogaça, o senhor ao lado me informa. Eles conhecem a obra de Kleiton e Kledir desde o início da carreira, no início dos anos 80; são fãs, como eu. 

      Olho para as pessoas a minha frente, reconheço-me nelas. Envelheci. Envelhecemos, nós e nossos ídolos. Um misto de saudade e melancolia quase me pega desprevenida. Sou salva pelos versos que agora preenchem o ambiente: deu pra ti, baixo astral... Encho os pulmões pra completar: vou pra Porto Alegre, tchau, tchau... Seguimos pelo Guaíba, unidos pela força da cantoria, o sol já baixando no horizonte. A cidade-amuleto se aproxima. Só me lembro de dizer: bah, trilegal!
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      Na Rede: Composições de Kleiton e Kledir

      quarta-feira, 8 de novembro de 2017

      Alegria e Música em Nashville

      Nashville estava em festa naqueles dias que antecederam o eclipse. O forte calor do mês de agosto impulsionava a multidão para as ruas. No centro da cidade, quarteirões em torno da Broadway fervilhavam de moradores e forasteiros. Em meio aos espigões plantados próximos ao rio Cumberland, prédios baixos, com seus tijolinhos aparentes, enfeitavam o ir e vir humano. Letreiros luminosos nas fachadas e terraços decorados complementavam o clima de alegria e liberdade. 

      A presença ostensiva de policiais e as grades protetoras nas calçadas destoavam um pouco do astral relaxado. Os guardas talvez pensassem em tiroteios ou atentados – o que agora, depois dos episódios de Las Vegas e Nova York, parece bem pertinente - mas toda aquela gente estava decidida a se divertir em segurança. Famílias em seus últimos dias de férias escolares circulavam por lojas, restaurantes e sorveterias, desfilando os pares de botas e os chapéus recém-comprados. Jovens acotovelavam-se nas portas dos bares aguardando o próximo show ao vivo. Turistas embarcavam para um passeio nos mais variados veículos: carruagens e charretes, ônibus temáticos, além de inusitados bares ambulantes impulsionados pelas pedaladas dos consumidores, enquanto, é claro, estes estivessem sóbrios para dar conta do esforço.
      Em meio ao alvoroço, grupos de moças uniformizadas chamavam a atenção. Inúmeras noivas e suas amigas comemoravam despedidas de solteira, e andavam de bar em bar, entre animadas e eufóricas. Pela quantidade de turmas diferentes, pelas risadas e cochichos, logo imaginamos uma Convenção Estadual de Noivas Nervosas acontecendo em Nashville naqueles dias. ;)
      Para completar a agitação do centro turístico, as ruas ficaram coalhadas de camisas azuis e brancas, as cores do Tennessee Titans, time de futebol americano que acabara de vencer, em casa, uma partida preparatória para a temporada.

      O eclipse, as férias escolares, o amor e o futebol tiveram lá o seu quinhão de importância no fervilhar da cidade naqueles dias. Mas estávamos em Nashville, the Music City!! A força da música, principalmente da country music, se faz presente em cada canto, atraindo artistas (os famosos e os em busca da fama) e o grande público. Visitamos o emblemático Ryman Auditorium, um teatro que nasceu como igreja em 1892 e ainda mantém a arquitetura e os bancos corridos típicos de um templo religioso. Nas primeiras décadas do século XX, já unicamente como casa de shows, o Ryman foi gerenciado por uma mulher (Viva!), uma das raras empresárias da época. A fama do teatro, nacionalmente conhecido como “Mother Church of Contry Music”, é atribuída ao trabalho competente e visionário de Mrs Naff. Tudo isso é contado num vídeo super bem feito que, por ter imagens projetadas nas 4 paredes da sala de apresentação, acaba fazendo com que os espectadores se sintam parte dos fatos narrados.
      Por fim, enfrentamos uma fila quilométrica pra conhecer o Country Music Hall of Fame, um museu sobre a história dos diferentes gêneros da música country. As bem montadas exposições reúnem arquivos sonoros, fotografias e vídeos, painéis e objetos de gerações de intérpretes e compositores, de Willie Nelson, Dolly Parton e Johnny Cash a Carrie Underwood e Blake Shelton. A última sala do tour é o Hall da Fama propriamente dito, adornado com as placas dos artistas que receberam a honraria pelo sucesso de vendas dos seus discos.

      Todos estes momentos em Nashville alegraram a nossa viagem, mas, para mim, o ponto alto foi o show The Grand Ole Opry, um programa de rádio que é transmitido desde 1925 e reúne, em cada apresentação, vários artistas do sertanejo americano. O show tem um locutor, um senhor elegante, com voz empostada (e muito engraçada), que lê os anúncios dos patrocinadores. Alguns dos intérpretes da noite se revezam na recepção aos colegas e na condução do programa, oferecendo à plateia um repertório bem diversificado - ótimo para quem não é expert no gênero, como era o nosso caso. Nós ouvimos canções românticas, números instrumentais e até um conjunto bem tradicional (Riders In The Sky), com velhinhos vestindo ternos bordados e cantando músicas em homenagem aos seus cavalos. Eles foram um espetáculo à parte, reforçando o tom folclórico e o humor, capturando a atenção do teatro lotado. 
      Um dos convidados, no entanto, passou a fazer parte da minha playlist. Vira e mexe abro o YouTube pra ouvir Flatt Lonesome, uma banda de irmãos que capricha nos vocais e na performance dos instrumentos. Quer ouvir?  É só clicar no link lá embaixo Na Rede, e sair cantando - You’re the one, you’re the one...




      Para ver outras imagens, clique em Galeria de Fotos
      Para saber mais sobre a viagem, leia também: Entre Luz e Sombra; Chattanooga Choo-ChooEnfim, o Eclipse e Great Smoky Mountains
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      Na Rede: