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quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Longe de Casa

Estar na Península de Maraú é uma delícia! Praias limpas, águas claras, manguezais preservados, lagoas, muito verde e... pouca gente. Pouca gente?! Chegar ao paraíso é um perrengue! Muitos turistas se intimidam com a dificuldade de acesso - 50 km de estrada de terra, esburacada e enlameada até Barra Grande, o principal vilarejo da região. A alternativa é a travessia de barco desde a cidade de Camamu.

Para nós que saímos do Rio de Janeiro, a viagem durou em torno de 12 horas. Foram dois voos (conexão em São Paulo) até Ilhéus; um traslado de carro até Camamu (duas horas em média); e o percurso de lancha de 30 minutos. Do píer de Barra Grande até a pousada Ponta do Mutá, mais 10 minutos a pé. É longe e foi cansativo, mas o planejamento da nossa estadia ajudou. Descontando os dois dias de deslocamento (ida e volta), tivemos sete dias inteiros para os passeios, tempo suficiente para curtir e recobrar as energias.
Desde o final de 2019 eu não viajava de avião. Nestes dois anos, só saí de casa de carro, e para cidades próximas. Embora a Bahia tenha aparecido na minha vida num momento de contenção da pandemia – boas taxas de vacinação, casos e mortes por Covid em queda – não me senti totalmente tranquila. Nem a dose de reforço da vacina me livrou de um sentimento desagradável que me acompanhava ali no fundo da mochila, sempre colado ao meu corpo. E se eu adoecesse? Ou o Mário? E se tivéssemos que ficar em quarentena? E se...?
Com o passar dos dias, fui conseguindo controlar o coração e a mente, agradecendo por cada etapa vencida, respirando aliviada por todo o nosso grupo estar bem. Agora que estamos de volta, Maraú ficará guardada na minha memória com mais uma etiqueta de felicidade: sol brilhante, praia calma, camarão frito, água morna e saúde integral!

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Toda viagem é uma experiência única, pessoal e intransferível. O que sentimos em um determinado lugar depende de muitos fatores, desde os mais subjetivos (o nosso jeito de ser e ver as coisas) aos mais práticos (época do ano, meteorologia, hotéis e restaurantes escolhidos). Importa também, e muito, os companheiros com quem partilhamos os dias longe de casa. Sem o Mário, eu nem começo a pensar num roteiro, é meu parceiro de todos os momentos. Mas, na Bahia, a comitiva aumentou. Obrigada, Vânia, Artur e Mariana. Viajar com vocês foi muito bom.
Companheiros de viagem

Lagoa do Cassange

Pôr do Sol na Ponta do Mutá

Praia dos Três Coqueiros

Para saber mais sobre a viagem, leia também: Você já à Bahia, nega?

domingo, 25 de abril de 2021

Choradeira

Eu chorava. E muito. Às vezes, o escarcéu começava ainda em casa quando eu desconfiava das intenções da minha mãe. Devia ser o rosto mais tenso dela, os gestos apressados ou a conversa curta no café da manhã. Lágrimas aos borbotões e pedidos de clemência não a comoviam, e só me restava a estratégia final. Escondia-me atrás da cortina, acreditando que, se eu não visse o perigo, o perigo também não me veria, e iria bafejar o seu hálito desagradável no cangote de outra criança. Demorei pra compreender o fracasso dessa lógica embora, ainda hoje, caia na tentação de fechar bem os olhos e esperar que o coração não sinta as agonias da vida.

Mas também acontecia de eu sair, inocente, para um passeio matinal e só começar a entender a situação lá pela esquina das ruas do Catete e Silveira Martins. Era por ali também que a minha mãe apertava o passo e só parava no portão do posto de saúde, onde poderia contar com a ajuda dos funcionários para domar a filha que começava a espernear. Agulhas eram o meu pavor. Dia de vacina, um verdadeiro tormento. O berreiro, no entanto, nunca teve efeito prático, pois a vacinação era um valor materno inegociável. Pode chorar, mas vai ter que encarar a injeção.

Como os adultos não costumam ser muito generosos com os medos das crianças, o meu desespero virou folclore na família. O caso mais emblemático aconteceu na campanha de vacinação contra a meningite, eu já entrando na adolescência. Em vez da mãe, acompanhou-me uma tia e a prima da mesma idade. No caminho, foram me tranquilizando: eu nem veria a agulha, a pistola de ar comprimido faria o serviço, sem dor e com rapidez – pá, pum, outro braço, por favor. Enfrentamos as filas no Maracanãzinho, o vai e vem das pessoas, o calor do dia, até que finalmente tomei, com os olhos secos, a dose que me cabia. A vitória durou pouco. Já na saída do estádio, fui ficando tonta, tonta, e pálida. Minha tia, apavorada que eu desmaiasse bem no meio da rua, fez com que nos sentássemos no meio-fio. Um senhor, sensibilizado com a cena, parou o carro e nos ofereceu carona. Desde então, em conversas ao longo da vida, nós rimos ao lembrar que fomos salvas por um cavaleiro andante, montado em seu garboso fusca verde.

Com o tempo, fui aprendendo a dominar o medo, a tranquilizar o espírito, e as agulhas pararam de me fazer chorar, dando espaço para novos sentimentos: caí de amores pela minha caderneta de vacinação. Nela coleto, orgulhosa, os carimbinhos das injeções contra febre amarela, tétano, hepatite, gripe. Quinta-feira passada, recolhi o meu mais esperado troféu. A fila pequena e bem organizada da Clínica de Família Santa Marta quase não me deu tempo para refletir sobre a importância do momento, mas foi só bater os olhos no pequeno cartaz grudado na parede - Viva o SUS, Viva a Ciência Brasileira – para ser tomada pela emoção. Segurei as lágrimas enquanto registrava telefone e CPF, e meus olhos chegaram até a sorrir no instante exato da vacinação. Na porta da rua, porém, não consegui fugir da choradeira.