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segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Maçaricos Viajantes

O calor forte do meio-dia, as dunas no meio do caminho, a longa faixa de areia a ser percorrida já nos faziam acreditar que a ideia de dar um mergulho não tinha sido das melhores. Cadê o vento constante de Aracaju?  O jeito foi deixar Atalaia para trás e seguir caminhando até as barracas da Praia dos Artistas. No percurso, uns movimentos ao longe nos chamaram a atenção. Eu e Mário chegamos mais perto, aquela dança era engraçada de ver, um vai-e-vem bem ensaiado, passos curtos e ligeiros executados em conjunto. A areia, refletindo os raios solares, fazia a iluminação do espetáculo. O figurino, um tanto monótono - tons de branco e preto num mesmo feitio -, reforçava a importância de cada um dos participantes.

Um pequeno bando de pássaros corria para a linha da arrebentação quando as ondas se recolhiam, e bicavam os buraquinhos descobertos na areia à procura de alimentação. Mas era só a água dar sinais de retorno para que os maçaricos obedecessem a coreografia da espécie e corressem de volta para a área de segurança na praia. Repetiram os deslocamentos uma, duas, três ... muitas vezes, até que, diante da nossa presença, transformaram suas posições no solo em um voo coordenado, afastando-se dos inimigos. Não demoraram para regressar e recomeçar o bailado, pois dele depende a sobrevivência das avezinhas viajantes, que atravessam milhares de quilômetros das áreas geladas do inverno no Ártico para se aquecer e se alimentar em terras da América do Sul.

Estávamos em dezembro, o ano de 2025 já querendo arrombar a porta do calendário, e nós, como os maçaricos, acionamos o modo migratório. Tínhamos deixado a agitação da cidade do Rio de Janeiro em busca de um porto seguro no Nordeste. Mas em Aracaju? E no Réveillon?, questionara uma amiga quando estávamos planejando a viagem. Aracaju não tem nada, nada pra fazer, você sabe, né? Tudo caro e cheio nesta época, só não é pior que no Carnaval, continuara argumentando.

Aracaju não se saiu mal no nosso filme de férias, sol brilhando todos os dias, brisa constante, camarão e caranguejo nos pratos típicos, gente acolhedora. Embora pequena, a cidade tem passeios interessantes. Gostamos, especialmente, do Museu da Gente Sergipana, voltado para comemorar a identidade do povo, as suas formas de cultura, as forças históricas e sociais que amalgamaram a maneira com que os sergipanos vivem.

Mas foi a visão do bailado dos maçaricos, estas aves estrangeiras a voejar pelas praias, que nos preencheu de beleza e reflexão. Como muitos de nós, humanos, elas migram, viajam de um ponto ao outro da Terra em busca de condições melhores para viver. Ao final do período previsto ao sul do Equador, retornam às suas geleiras de origem. Pena que muitos de nós não tenhamos a mesma sorte. Para muitos migrantes, não há período previsto de viagem, e não se sabe se um dia retornarão às suas geleiras de origem.


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De volta às crônicas de viagem, antes que as histórias percam o prazo de validade. 

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        Na Rede

sábado, 6 de julho de 2024

Carla e Dalva

Já são quase dez da noite quando Carla senta-se em frente ao computador para mais horas de trabalho. A rotina sempre apertada - atividades na agência de publicidade, cuidados na educação dos filhos – e agora os prazeres e pressões com os prêmios e recordes de vendagem, vão empurrando o ofício da escrita para cada vez mais tarde. Não chega a ser um problema para uma workaholic assumida, embora, às vezes, uma pontinha de cansaço, um incômodo nos ombros a façam desejar que, em vez de um rio caudaloso, sua vida seja um lago de águas tranquilas, onde possa soltar o corpo e deixar-se simplesmente boiar.

Abre o arquivo do capítulo mais recente. A narrativa em construção a instiga; para ela escrever é expressar-se em liberdade, é tornar-se amiga, aliada das palavras. Carla interrompe a escrita justamente onde uma palavra lhe escapa. Sabe que é preciso ter paciência com os sentidos, persistir nas possibilidades, até que uma ideia se instale, soberana. Como ela se instalou, há anos, neste escritório no andar térreo de sua casa em Belo Horizonte – espaço de trabalho e criação, só dela, sem que ninguém a incomode. Pelo menos, não até esta noite calorenta de inverno, imensas janelas abertas descortinando o jardim. O som de folhas secas pisadas, uma melodia suave de ninar, a voz afinada de uma mulher, vão ocupando devagar o recinto. Carla fica de pé, estica o pescoço; um vulto aparece por detrás do ipê roxo em flor no canto do terreno. Enquanto a figura se aproxima, pisando a grama recém aparada, Carla dirige-se à janela, tentando reconhecê-la: talvez pela postura esguia, ou pelo pisar decidido. Quem sabe chegando mais perto, possa lhe ver a face em detalhes. Não demora, estão frente a frente:

- Dalva?! É você?

- Sim, sou eu, Carla.

Dalva não espera convite e adentra o escritório.

- Por um momento, duvidei. Seus cabelos grisalhos, um pouco mais lisos... Mas os olhos, os olhos de jaboticaba, molhados e grandes como eu descrevi, me levaram a você.

- Envelheci, continuei meu caminho. Deus voltou para mim, como você anunciou ao colocar o ponto final do romance, mas ainda tenho tantas dúvidas. Eu não me conformo. Eu preciso que você me diga por quê?

- Pergunte, você tem todo direito, uma personagem não há de ter melindres com seu criador.

- Por que você escolheu a mim para tanto sofrimento? Por que me envolveu em uma paixão sem tamanho e me desamparou diante da dor?

- Era o seu destino. Filha de Antônio e Aurora, cercada de amor, e música, só você teria a chance de ressignificar o ciúme, o mal, a violência...

- Destino, não, sina! Queria que você soubesse disto. Olhe, num capítulo, num só capítulo, você me levou do casamento, de um gostar de muitos verbos, a uma dor desumana de perder tudo: meu homem, meu filho, minha fé!

- Tudo lhe foi devolvido, Dalva, embora entenda a sua revolta. Escritores não são confiáveis.

- Ardilosa, é o nome que me vem à cabeça agora para defini-la. Tudo tão encadeado, os fatos arrumadinhos para aquele final. Sabe os desatinos que andam falando sobre mim quando a leitura acaba? Eu preferia que você tivesse me matado.

- Não sei se te consola, também escuto críticas, algumas são tão... tão...

- Tão injustas! Tão cruéis! Será que quem lê não percebe que somos falíveis: você, eu; todas as personagens e seus criadores, todos somos frutos da mesma humanidade.

- Quem vê de fora sempre acha que faria arranjos melhores, mas é de dentro que o não dar conta ocupa tudo - recita Carla - pensei que eu tinha sido clara quando escrevi esta frase.

- Se você tivesse permitido, eu poderia ter ido embora, mas fiquei sentenciada a uma eterna avaliação. E agora, para piorar a minha situação, ainda teve esse prêmio em Portugal. Soube ontem da novidade num clube do livro. Precisei comparecer porque meu nome foi muito pronunciado. Era Dalva isso, Dalva aquilo... Culpa sua, de raiva nem lhe trouxe o tabuleiro com empadas que tinha acabado de assar.

- O que acontece depois da última página não me cabe definir, Dalva. Deixei o caminho aberto para você e Venâncio. Você, ele, seus filhos pertencem agora aos leitores - à imaginação deles, aos desejos e limitações de cada um deles. Por isso, os destinos são, serão indefinidamente múltiplos. Agarre-se às pessoas que se emocionaram, se identificaram com as tramas de vocês, estas são muitas; deixe de lado os autoritários, os conservadores.

- É tão difícil, não sei se consigo...

- Vamos tentando, Dalva, vamos tentando. Mas agora sente-se aqui e me conte as novidades. Você e Venâncio se acertaram? Como está o Vicente? Apegou-se ao pai depois de tanto tempo de separação? E o João, conseguiu compreender por que tem duas mães?
 
E as duas conversam até de manhazinha, esclarecendo os fatos, aparando as arestas, trocando confidências. Carla registra na memória e no coração o rumo daquela prosa: adubo para novas histórias, fermento para outras personagens. Escritores não são mesmo confiáveis.
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  • Texto produzido e revisado no Grupo de Escrita, do curso de Formação de Escritorescoordenado por Bruna Tessuto.

quinta-feira, 27 de junho de 2024

Encontro com João

Fábio atravessou a rua com pressa, o sinal verde de pedestres piscando e exigindo cuidado. Se não fosse a cliente de última hora, experimentando, e rejeitando, todos os sapatos que ele apresentava, não teria que correr. Deu mais uma conferida no relógio e constatou que chegaria a tempo. Alguns passos no mesmo ritmo e avistaria a entrada. O vigilante o cumprimentou com a cabeça, já o conhecia de outras oportunidades. Embora faltassem alguns minutos para o fechamento dos grandes portões de ferro, ninguém o questionou sobre o motivo da pressa e a intenção da visita.

Seguiu pelo calçamento de pedras e entrou na aleia principal. A visão das construções de mármore e das figuras esculpidas que ladeavam o caminho, o silêncio crescente do ambiente, as árvores frondosas acentuando as sombras do final da tarde, tudo contribuía para recuperar seu bem-estar. Afrouxou a respiração e sorriu com a ironia: bem ali no centro do bairro de Botafogo, entre engarrafamentos de carros e gentes, encontrara o seu oásis, e em torno deste oásis, um deserto de pessoas. O medo é um sentimento tão limitador, concluiu ele, um pouco antes de alcançar o objetivo daquele dia.

Tinha sido bem ali, no final da aleia principal, que, na semana anterior, se detivera a reparar nos detalhes de uma edificação de frente retangular revestida com pedras e sem janelas. Pequenos rasgos na parte superior da fachada e na lateral permitiam a entrada de luz. Além da porta em folha dupla vazada, chamava a atenção a hera verde avançando pelas paredes.

Dirigiu-se à entrada bem a tempo do compromisso marcado, seu recente amigo deveria estar à espera. Logo distinguiu o cavalheiro que se aproximava – chapéu coco, terno escuro bem cortado, luvas e bengala com ponteira de metal. O homem saudou-o, efusivo:

- Ora, ora, senhor Fábio Aguiar! Eu aqui já estava a imaginar que não honrarias a tua palavra e deixar-me-ia a ver navios.

- Não, de maneira alguma. Para mim, trato é trato, Senhor Paulo Barreto. Nosso primeiro encontro me impressionou demais! Até queria me desculpar por minha reação. Devo ter parecido um idiota, gaguejando sem parar.

- Não te preocupes, foi realmente uma situação inusitada, aconteceria com qualquer um. A semana me custou a passar, ansioso que estava para retomarmos a conversação. Tantas dúvidas sobre o que começaste a me contar...

- Senhor Paulo... ou posso lhe chamar de Senhor João?

- O que é um nome para definir um ser humano? Um carimbo insuficiente, nada mais. Só não compreendo como ficaste sabendo do meu gosto pelos pseudônimos.

- Acho que fui indiscreto, mas não consegui me segurar: pesquisei sobre sua obra - as crônicas e reportagens -, seus gostos e desgostos. Não queria acrescentar “ignorante” às minhas características...

- Pois orgulho-me de ser múltiplo, dependendo da situação e da minha curiosidade. Se o assunto de nossa conversa for política, nomeie-me José Antônio; se falarmos sobre Paris e as belezas da belle époque, pode me chamar de Claude; no entanto, serei João se quiseres retomar o diálogo sobre a quantas anda esta cidade que amei e conheci tão profundamente.

- Então, não há dúvida, Senhor João, ou melhor, Senhor João do Rio! E agora que nos conhecemos melhor, seria bom deixar de lado as formalidades. Posso chamá-lo de você? É como os amigos se tratam atualmente...

- Trate-me como quiser, senhor Fábio, só não espere que eu adote comportamento tão coloquial. O que vem de berço marca-nos por toda a vida.

- Combinado! Mas hoje vim lhe fazer um convite especial: que tal andarmos por aí, como você costumava fazer nos áureos tempos? Poderia rever a cidade, em vez de ouvir sobre ela.

- Convite aceito, preciso mesmo mudar de ares. Vejo que fizeste uma pesquisa cuidadosa sobre os meus hábitos, deves ter folheado páginas e páginas da “Gazeta de Notícias”. Ou foi de “O Paiz”?

Fábio não se conteve, a visão de si mesmo dentro de uma biblioteca afogado em exemplares de jornais provocou-lhe uma sonora gargalhada.

- O caro amigo poderia me dizer o motivo da graça? – perguntou, batendo o cabo da bengala na palma da mão.

- Ah, João – falou, tentando controlar-se – hoje em dia todas as publicações do mundo podem ser consultadas da própria casa, usando um computador ou um celular, são equipamentos para ler e escrever, calcular, se comunicar...

- Não me diga, então sou mesmo um sujeito genial! Inventei máquinas assim em uma de minhas crônicas mais famosas. Queria vê-las fora da ficção.

- Olhe, trago aqui um celular no bolso, posso lhe mostrar como funciona, mas vamos deixar a lição para mais tarde. Se não sairmos agora, os portões serão fechados. No seu caso, não haveria problema, mas eu teria que pular as altas grades, e esportes nunca foram o meu forte.

Começaram a caminhar em direção à saída. Fábio quis saber por que tinha sido o escolhido, dentre outros visitantes, para a aparição de João.

- Eu já o observava há tempos. Entre muitos que choram, rezam e sofrem saudades, caminhando em procissão, eu o via passear tranquilamente, usufruindo da paz e da beleza do lugar, deixando-se levar pelos detalhes: flores frescas, flores artificiais, nomes, datas... Lembrei-me de mim mesmo, e do prazer que flanar por aí me proporcionava.

- Meu Deus, agora fiquei emocionado!

- Também não é para tanto. Confesso que o tédio andava a me consumir; se não fosse a tua visita na semana passada, juro que teria me manifestado ao primeiro sacripanta que aparecesse.

- Bem, agora já sei que não sou tão especial assim...

- Pois deixa de choramingos e ouça-me! Como deves estar informado, cheguei aqui aos 39 anos, praticamente um bebê, e lá se vão mais de cem. Inicialmente, vivi numa morada exclusiva, como desejava a minha querida mãezinha, mas atordoou-me o silêncio, a falta de companhia. Busquei abrigo junto aos meus colegas das Letras, naquela construção em que nos encontramos.

- Por que, então, se sentiu entediado se estava cercado de acadêmicos? – perguntou, enquanto guiava João pelo braço para que não interrompessem a jornada.

- Esperava um pouco de animação, de modernidade, mas que nada... Estes senhores, à medida que acordam do sono original e percebem que o título de imortal é uma grande balela, contentam-se em reunir-se num eterno falatório. Estou farto destas ideias bolorentas, do chá das cinco, do mofo e das infiltrações nas paredes.

- Sei como é; trabalho no comércio, e os clientes me deixam louco; há dias em que nem quero sair da cama... – interrompe a fala por um instante, olhando a ponta dos sapatos, e em seguida completa - mas vamos ao que interessa, por onde começaremos o nosso passeio?

João explicou que desejava rever o palacete no qual morara na rua Vieira Souto, não tinha tido tempo de se despedir da casa refinada, do areal que a cercava, da vista do morro do Corcovado. Ipanema, entretanto, mudara, nada de palacete ou areal; entre um prédio ou outro, talvez a visão do Corcovado. Seria um baque para o escritor. Fábio tentou demovê-lo da ideia:

- Ipa-pa-nema?!... Que tal irmos à La-pa? - gaguejou como no primeiro encontro.

- Por que o nervosismo, meu caro amigo? Por acaso desejas me ludibriar?

Antes que tivesse de inventar alguma desculpa, chegaram à saída: o vigilante já a postos ao lado dos grandes portões, chaves nas mãos. Apressaram o passo. Na calçada, João voltou à carga:

- Eu lhe peço, senhor Fábio, que não me poupe de nenhum infortúnio. Estou preparado, sempre estive. Sou, quer dizer, fui repórter, acostumado a circular dos mais pobres recantos aos mais requintados, nada há de me surpreender. Sigamos.

Fabio assentiu, João exigia um mergulho sem retoques no Rio de Janeiro. Enquanto aguardavam o Uber que os levaria à Ipanema, ainda puderam notar um rebuliço por detrás dos portões. Um funcionário chegou na correria, e se benzendo:

- Cruz credo! Valha-me Nossa Senhora! A porta..., a porta está aberta, escancarada! Eu que não volto naquele mausoléu. Nem morto!
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  • Texto produzido e revisado no Grupo de Escrita, do curso de Formação de Escritores, coordenado por Bruna Tessuto.
Na Rede:
Crônica de João do Rio citada no texto: O dia de um homem em 1920 

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Sara e o Stand Up

O sol já havia embicado para o poente quando terminamos o almoço no Bar da Rô, um restaurante assentado entre o mar e as águas quase doces do rio Carapitangui. Enquanto aproveitávamos o clima de total relaxamento, uma mulher circulava por entre as mesas, cesto de palha nas mãos. Chamei-a, ela se aproximou. Pude observar o seu corpo atarracado vestido com simplicidade – bermuda jeans, comprimento logo acima dos joelhos; camiseta de malha; chinelos nos pés. Não soube avaliar sua idade, mais nova do que eu, por certo, mas quantos anos menos? Difícil dizer pelo cabelo puxado em coque, a pele um tanto castigada pela lida diária.

Sara apresentou-se, e me ofereceu a variedade de cocadas que ela mesma produzia e vendia aos turistas. Pedi uma branca, das comuns, com nada além de coco e açúcar. Ela até começou a se desculpar pelo meu pedido ter acabado um tantinho antes, no freguês anterior, mas, por sorte, procurando entre as cocadas gourmet, encontrou uma última embalagem do produto desejado. Agradeci, paguei a cocada, comi um pedaço. Em seguida, rumei para as águas do rio. Sara, para o trabalho. 

Eu ainda estava mergulhada no Carapitangui quando a figura dela voltou a me chamar a atenção. Desta vez, cruzando o rio sobre uma prancha de stand up. Seguia, altiva, cabeça ereta e olhos voltados para a margem oposta. O traje? A mesma bermuda e a camiseta de malha, os pés descalços. Impressionou-me a destreza com que manejava o remo e a velocidade com que avançava. Impactada, acompanhei a plasticidade da cena que se desenhava: o corpo leve da mulher integrado à prancha, a água rendendo-se aos seus movimentos, o vento soprando a favor do destino de Sara. Imaginei que o espetáculo tinha terminado quando ela alcançou, com elegância, a areia da prainha ali defronte, mas não. Minutos depois, refez o caminho, que parecia decorado pela intimidade, trazendo de carona um cacho de cocos. Quando aportou no pequeno píer do restaurante, não me contive e a aplaudi. Ela, um pouco sem graça com os meus cumprimentos, tentou minimizar o feito, falando sobre os muitos tombos do período de aprendizagem, e que a rapidez da viagem devia-se à falta de material para as cocadas. 

As explicações dela me fizeram pensar nos tombos, os reais e os metafóricos, e nas faltas que cruzam as vidas de tantas mulheres brasileiras. Sara, porém, não liga; sobe no stand up, atravessa distâncias e transforma qualquer ponto da margem do rio em almejado porto seguro. Na minha jornada de volta pra casa, em vez do cachos de cocos, trouxe o exemplo de Sara como inspiração e memória.
Por do sol no Bar da Rô - Foto de Mario Oliveira


Para ver outras imagens, clique em: Galeria de Fotos - Entre o Rio e o Mar

Para saber mais sobre a viagem, leia também: Você já à Bahia, nega? e Longe de Casa

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Longe de Casa

Estar na Península de Maraú é uma delícia! Praias limpas, águas claras, manguezais preservados, lagoas, muito verde e... pouca gente. Pouca gente?! Chegar ao paraíso é um perrengue! Muitos turistas se intimidam com a dificuldade de acesso - 50 km de estrada de terra, esburacada e enlameada até Barra Grande, o principal vilarejo da região. A alternativa é a travessia de barco desde a cidade de Camamu.

Para nós que saímos do Rio de Janeiro, a viagem durou em torno de 12 horas. Foram dois voos (conexão em São Paulo) até Ilhéus; um traslado de carro até Camamu (duas horas em média); e o percurso de lancha de 30 minutos. Do píer de Barra Grande até a pousada Ponta do Mutá, mais 10 minutos a pé. É longe e foi cansativo, mas o planejamento da nossa estadia ajudou. Descontando os dois dias de deslocamento (ida e volta), tivemos sete dias inteiros para os passeios, tempo suficiente para curtir e recobrar as energias.
Desde o final de 2019 eu não viajava de avião. Nestes dois anos, só saí de casa de carro, e para cidades próximas. Embora a Bahia tenha aparecido na minha vida num momento de contenção da pandemia – boas taxas de vacinação, casos e mortes por Covid em queda – não me senti totalmente tranquila. Nem a dose de reforço da vacina me livrou de um sentimento desagradável que me acompanhava ali no fundo da mochila, sempre colado ao meu corpo. E se eu adoecesse? Ou o Mário? E se tivéssemos que ficar em quarentena? E se...?
Com o passar dos dias, fui conseguindo controlar o coração e a mente, agradecendo por cada etapa vencida, respirando aliviada por todo o nosso grupo estar bem. Agora que estamos de volta, Maraú ficará guardada na minha memória com mais uma etiqueta de felicidade: sol brilhante, praia calma, camarão frito, água morna e saúde integral!

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Toda viagem é uma experiência única, pessoal e intransferível. O que sentimos em um determinado lugar depende de muitos fatores, desde os mais subjetivos (o nosso jeito de ser e ver as coisas) aos mais práticos (época do ano, meteorologia, hotéis e restaurantes escolhidos). Importa também, e muito, os companheiros com quem partilhamos os dias longe de casa. Sem o Mário, eu nem começo a pensar num roteiro, é meu parceiro de todos os momentos. Mas, na Bahia, a comitiva aumentou. Obrigada, Vânia, Artur e Mariana. Viajar com vocês foi muito bom.
Companheiros de viagem

Lagoa do Cassange

Pôr do Sol na Ponta do Mutá

Praia dos Três Coqueiros

Para saber mais sobre a viagem, leia também: Você já à Bahia, nega?

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Você já foi à Bahia, nega? Não? Então vá.

Eu fui. Com meus vinte e poucos anos, segui pela primeira vez o conselho de Caymmi. Fui a Salvador, mas também a Prado, Arraial da Ajuda e Trancoso numa road trip pelo Nordeste com as amigas. Depois de três décadas de intervalo, voltei pra visitar uma parte da família que emigrou pra capital e nem pensa em retornar ao Rio de Janeiro. Pois é, meus primos testemunham que a Bahia tem um jeito que nenhuma terra tem. Em seguida, já com os netos, regressei a Trancoso, uma vila muito diferente daquele lugarejo rústico que havia conhecido nos anos 80. Todas foram viagens marcantes, guardadas na memória com as minhas etiquetas de felicidade: sol brilhando, praia calma, camarão frito, água morna.

No mês de novembro, Caymmi, inconformado com as desventuras dos brasileiros nestes quase dois anos de pandemia, soprou no ouvido da minha cunhada que já era tempo de regressar à Bahia e recuperar a sorte natural a todos os viajantes que andam por lá. Ela, seduzida pelos dengos do baiano, organizou o roteiro e me convidou. Topei na hora! Resultado: semana passada, voltei de uma temporada na Península do Maraú, um território em que eu ainda não havia pisado, e distante duas horas (de carro) de Ilhéus. E não é que Jorge Amado foi nos encontrar na pracinha do Centro Histórico?! Muita sorte a nossa! Valeu, Caymmi.

Grafite - Rildo Foge

Ilhéus - em frente ao Restaurante Vesúvio
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Retorno às crônicas de viagem, depois de um longo e tenebroso inverno, quer dizer, dois invernos, duas perdidas primaveras e dois tristes outonos! Verões? Já são quase 3... 
Escrever me faz capturar o tempo, revê-lo, criar novos contextos, cultivar memórias – é uma forma de felicidade. Tomara que os leitores se alegrem também.

Para saber mais sobre a viagem, leia também: Longe de Casa

Na Rede:
Você Já Foi à Bahia? interpretada por Nana, Dori e Danilo Caymmi

domingo, 25 de abril de 2021

Choradeira

Eu chorava. E muito. Às vezes, o escarcéu começava ainda em casa quando eu desconfiava das intenções da minha mãe. Devia ser o rosto mais tenso dela, os gestos apressados ou a conversa curta no café da manhã. Lágrimas aos borbotões e pedidos de clemência não a comoviam, e só me restava a estratégia final. Escondia-me atrás da cortina, acreditando que, se eu não visse o perigo, o perigo também não me veria, e iria bafejar o seu hálito desagradável no cangote de outra criança. Demorei pra compreender o fracasso dessa lógica embora, ainda hoje, caia na tentação de fechar bem os olhos e esperar que o coração não sinta as agonias da vida.

Mas também acontecia de eu sair, inocente, para um passeio matinal e só começar a entender a situação lá pela esquina das ruas do Catete e Silveira Martins. Era por ali também que a minha mãe apertava o passo e só parava no portão do posto de saúde, onde poderia contar com a ajuda dos funcionários para domar a filha que começava a espernear. Agulhas eram o meu pavor. Dia de vacina, um verdadeiro tormento. O berreiro, no entanto, nunca teve efeito prático, pois a vacinação era um valor materno inegociável. Pode chorar, mas vai ter que encarar a injeção.

Como os adultos não costumam ser muito generosos com os medos das crianças, o meu desespero virou folclore na família. O caso mais emblemático aconteceu na campanha de vacinação contra a meningite, eu já entrando na adolescência. Em vez da mãe, acompanhou-me uma tia e a prima da mesma idade. No caminho, foram me tranquilizando: eu nem veria a agulha, a pistola de ar comprimido faria o serviço, sem dor e com rapidez – pá, pum, outro braço, por favor. Enfrentamos as filas no Maracanãzinho, o vai e vem das pessoas, o calor do dia, até que finalmente tomei, com os olhos secos, a dose que me cabia. A vitória durou pouco. Já na saída do estádio, fui ficando tonta, tonta, e pálida. Minha tia, apavorada que eu desmaiasse bem no meio da rua, fez com que nos sentássemos no meio-fio. Um senhor, sensibilizado com a cena, parou o carro e nos ofereceu carona. Desde então, em conversas ao longo da vida, nós rimos ao lembrar que fomos salvas por um cavaleiro andante, montado em seu garboso fusca verde.

Com o tempo, fui aprendendo a dominar o medo, a tranquilizar o espírito, e as agulhas pararam de me fazer chorar, dando espaço para novos sentimentos: caí de amores pela minha caderneta de vacinação. Nela coleto, orgulhosa, os carimbinhos das injeções contra febre amarela, tétano, hepatite, gripe. Quinta-feira passada, recolhi o meu mais esperado troféu. A fila pequena e bem organizada da Clínica de Família Santa Marta quase não me deu tempo para refletir sobre a importância do momento, mas foi só bater os olhos no pequeno cartaz grudado na parede - Viva o SUS, Viva a Ciência Brasileira – para ser tomada pela emoção. Segurei as lágrimas enquanto registrava telefone e CPF, e meus olhos chegaram até a sorrir no instante exato da vacinação. Na porta da rua, porém, não consegui fugir da choradeira.

domingo, 10 de maio de 2020

Portas e Janelas

Para que servem as portas neste estranho ano de 2020? Para que servem estas estruturas que se postam altivas nos limiares das moradias? Abandonadas à própria sorte, rangem esganiçadas nas poucas oportunidade de uso. Dobradiças enferrujadas pela imobilidade, as portas corroem-se de inveja das exibidas janelas. 

Sim, as janelas, estrelas da pandemia, protagonistas no nosso filme-desastre diário. De meros retângulos de contato entre o interior e o exterior, elas transformaram-se em torres de observação para, em seguida, alcançarem o status de ágora democrática. Entre as janelas das residências vizinhas, pairando no ar, no vazio, surge uma teia de relações, um espaço de comunicação entre os confinados. Aplausos, breves diálogos, apresentações musicais, panelaços - uma nova e efetiva linguagem vai se construindo. 

Coloco-me à frente da janela da sala do meu apartamento e debruço-me sobre o parapeito. Sinto-me como Ana Maria, retratada por Dalí ao contemplar tranquilamente a paisagem, embora eu não veja o mar nem a linha de morrotes ao longe. Ponho-me ali com a mesma atitude da mulher e acompanho, em linha vertical, o caule irrequieto da amendoeira subindo, subindo, emergindo do seu cubículo na calçada. A partir da altura do andar em que me encontro, os galhos se abrem em forma abaulada, esparramando os buquês de folhas verdes em todas as direções. Comportamento semelhante adota a árvore da mesma família que se posta na calçada do outro lado da rua, um pouco à direita da minha torre. Há anos as duas amendoeiras têm sido minhas companheiras silenciosas, tecendo, folha por folha, uma cortina vegetal que me protege, refresca, alegra. Mas, agora, não me servem as amendoeiras, a cortina verde, a casa indevassável. Quero ver a linha irregular de prédios, examinar as janelas mais longínquas, penetrar cuidadosamente nas habitações alheias como se fosse me banhar num mar com ondas agitadas. Quero me comunicar, signos linguísticos contemporâneos lançados no espaço vazio da esquina. As árvores me impedem, seguem sua sabedoria inabalável. 
Insisto. Estico braços, afasto ramos, busco aqui e ali o melhor ângulo, até que encontro uma abertura no tecido de folhas que me permite ver a varanda do apartamento bem em frente à minha janela. Descubro lá as marcas do isolamento forçado. Em meio aos móveis costumeiros, objetos escapados dos ambientes internos perseguem o sol e o vento fresco: roupas secando em varais improvisados, brinquedos infantis pelo chão, uma profusão de vasos de flores empilhados na mesinha lateral. 

O espanto vem em seguida, aperto os olhos para me certificar de que são quatro as gaiolas penduradas na parede da varanda. Percebo o alvoroço no interior delas. Afasto-me de meu posto, pensando nas lições que portas e janelas podem nos dar nestes tempos de privação. É quando ouço os pássaros cativos cantarem descrentes na varanda do apartamento em frente.

Ilustração: Angela Cotrim, grafite e giz pastel sobre papel, 2020
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Texto produzido para o curso Autoficção: Oficina de Memórias, da Estação das Letras, coordenado pela professora Ana Letícia Leal.

Na Rede:
Quadro de Salvador Dalí citado na crônica: Figura na Janela  

sexta-feira, 6 de março de 2020

Cheiro de Oscar

O olfato é um sentido exigente: não aceita substitutos, dispensa representantes, tem ojeriza a mediações. O que ele almeja é a experiência direta, a cafungada explícita. Trabalha para o genuíno deleite do indivíduo que sente, ou para o seu total desprazer. 

O olfato conhece as manhas dos cheiros, sabe que são dissimulados, que se esgueiram pelas instâncias da vida e, de repente, sem aviso, se fazem presentes e tomam à força as narinas desavisadas. Ele se entrega, sem restrições, aos odores agradáveis, aqueles que aprendeu a associar a um certo bem estar - o perfume das flores da Dama da Noite e do Manacá; a exalação da manga e da goiaba; o aroma do pão assando no forno e do café passado na hora. Mas quando o fedor vem do ralo, quando evoca dejetos, mofo, putrefação, o olfato se contrai, aciona os dedos para que protejam o nariz até o limite, até que não se possa mais suspender a respiração. No instante a seguir, inunda-se de estranhamento e desconforto, e de nojo. 

Dado o seu caráter presencial, é surpreendente perceber que o olfato seja um elemento definitivo numa produção audiovisual. Em Parasita, filme do diretor Bong Joon-ho, que só assisti semana passada, depois que foi distribuído nos plataformas de streaming, a trama é marcada pela percepção do cheiro que emana dos subterrâneos, dos buracos insalubres, cheiro que escancara a desigualdade entre os personagens num dos países mais ricos do leste asiático. As tensões entre os mundos das duas famílias sul-coreanas vão sendo construídas ao longo do filme – locações, iluminação, diálogos e situações entre a comédia e o drama sublinham as diferenças e antagonismos. Mas é a crescente aversão ao odor dos corpos sem lugar, dos que vivem ao rés do chão ou abaixo dele, que faz explodir a violência latente. 

Ao final da exibição, com o nariz perfeitamente conectado à mente, uni-me ao time de admiradores de Parasita, e aos juízes da Academia. E entendi porque ninguém estranhou as premiações recebidas pelo roteiro, direção e melhor filme. É que mesmo antes da cerimônia, já se sentia um doce perfume de Oscar no ar.
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Na Rede:
  • A escrita desta postagem me fez lembrar  O Cheiro do Ralo, filme estrelado por Selton Mello, e dirigido por Heitor Dhalia. Assim como Parasita, trata das relações desiguais entre pessoas: opressão, exploração, degradação. Tudo isso envolto pelo odor que emana do banheiro entupido do escritório do protagonista. É um filme incômodo, até pensei em desistir no meio, mas valeu a pena insistir. Quem se interessar, pode acessar sem custo o Youtube, e tirar as suas próprias conclusões. Clique AQUI

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Joaquin

Não dou a mínima para histórias em quadrinhos, os super-heróis e seus arqui-inimigos. Não ligo pra Gothan City, envolta em trevas, lixo e ratos. Não quero saber se Thomas Wayne é um empresário decente ou se abusa das funcionárias. Não me interesso pelo assassinato dos pais de Bruce, e principalmente, não me comovo com os olhos tristes do pequeno Batman. Pouco me importa o filme de Todd Philips, seus prêmios passados, futuros; e as discussões sobre as origens da violência, seja numa sociedade distópica ou aqui mesmo no bairro ao lado.

Mas o que eu quero mesmo entender, o que ainda não consegui atinar, é como um corpo, o corpo de Joaquin, transforma-se assim, frente aos nossos olhos, em cavalo vigoroso da loucura. O esquálido corpo de Joaquin, costelas à mostra na cama, na banheira. Magreza que se veste de cores, esforço em technicolor pra disfarçar a vida monocromática.

No rosto de Joaquin, a face do palhaço, lábios modelados à força pelos dedos, sorriso no qual só as crianças acreditam. Na boca de Joaquin, a gargalhada, o descontrole, o desespero; e o cigarro.

Dançam os braços e pés de Joaquin, batalham por momentos de equilíbrio e elegância; movimentos belos e inúteis. O balé sucumbe ao medo, à raiva e ao desvario. A arma posta na mão de Joaquin. That’s life, conclui Sinatra ao final do filme. Ou será conclusão de Joaquin?

Não dou a mínima para Arthur Fleck, não ligo para o Coringa. O que eu quero mesmo entender, o que não consegui atinar, é como o corpo, o complexo corpo de Joaquin, se livra do personagem depois de tanta entrega e agonia.
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Na Rede:

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Travessias

      Hora da partida. A voz do encarregado inicia a leitura dos nomes: “Valentino Lazzari, Maria Lazzari, Giovanni Corriolo” - a lista é longa, um a um os personagens vão subindo as escadas que dão acesso ao convés – “Rosa Tomaso, Francesco Ferrara...” O homem dirige-se ao encarregado para corrigi-lo: “Francesco Ignácio Ferrara, senhor”. Em seguida, reúne os dois sacos de aniagem com as tralhas que lhe restaram e segue a fila dos desvalidos. A cada degrau, despe-se das suas origens como se fossem roupas surradas, cava a memória com enxada larga, até que, ao adentrar o navio, só lhe reste um buraco oco, embora não haja muito o que esquecer. Vida difícil em sua terra natal: pobreza, doença, guerra e morte. Logo que se estabelecesse na propriedade prometida, mandaria buscar pai, mãe, irmãos. Foi pela família que se dispusera a enfrentar a incerteza da longa viagem, talvez o ano virasse antes que alcançasse o seu destino. Mas quem o olha ali, encostado à amurada, cabeça e costas eretas, não desconfia da sua ansiedade. 
      Durante toda a travessia, Francesco quase não fala. Concentra-se no que está por vir. Em vez do mar infindo, antevê a terra que receberá a força do seu trabalho. Aceita a ração reduzida de comida e água como condição de penitência e redenção. Ignora as náuseas do balanço das ondas, mas guarda o som daquele ir e vir, um farfalhar esperançoso a lhe dizer que tudo será novo, de novo. Há, contudo, o cheiro da maresia, maresia que não se curva aos devaneios de Francesco: o odor ácido o incomoda nas ventas, faz arder seus olhos e fere a imaginação. Só mesmo o final da viagem é capaz de lhe sossegar os sentidos. Ao desembarcar no porto, construção hospitaleira entre pedras banhadas de sol, sente-se, enfim, no tão ansiado refúgio. Umedece as pontas dos dedos na água salgada e batiza-se: “Francesco Imigrante Ferrara, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. 


      Amanhece. Nídia Martinez toma a filha pela mão, fecha a porta da casa simples, cruza a rua apressada sem nem olhar para trás. Não há muito do que se despedir desde que a violência se instalou por toda a vizinhança. Gangues, traficantes, sequestros, assassinatos: palavras e sentidos dos quais foge, dos quais quer a filha proteger. Levam duas mochilas de lona com o indispensável para cruzar, a pé, centenas de quilômetros até a fronteira de Shangri-lá - o lugar onde serão plenamente felizes, como naquele filme que Nídia assistiu há tempos. 
      Pelo caminho, outras famílias vão se juntando à grande marcha dos desvalidos. Impossível contar adultos, crianças, saber seus nomes, organizá-los. A massa compacta segue, dia após dia em direção ao norte, comida e água racionadas. Nídia não esmorece, quem a olha à frente da caravana, passos firmes, postura altiva, não avalia a sua agonia. O sonho é ferramenta de resistência. Sonhos que compartilha com a filha: castelos são refúgios; pessoas gentis, fadas madrinhas do esperado recomeço. Há, contudo, a realidade da travessia, realidade que não se curva aos devaneios de Nídia: calor inclemente, cansaço, fraqueza, e a indiferença dos que assistem a passagem da multidão. Ela remenda as vísceras, põe o coração em standby, e avança para, logo à frente, descobrir que nem mesmo o final da viagem é capaz de lhe sossegar o corpo. Lá está Shangri-lá, cercada. E não se vê porta, passagem, uma mísera abertura. Nídia leva a filha pela mão, aproxima-se da barreira intransponível, ajoelha-se e, atordoada, pergunta-se: “Nídia Refugiada Martinez, e agora?”

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O último desafio da Oficina Online Escrevendo Crônicas, coordenada por Rubem Penz, foi produzir uma crônica em prosa-poética sobre Refugiados. 
A proposta me fez recordar esta gravura de Lasar Segall que me impactou durante visita ao Museu do artista em São Paulo: “Emigrante debruçado na amurada”, de 1929. Com economia de traços e cores, Segall comunicou muitos sentimentos: desamparo, desespero, solidão, amargura. Essas emoções me inspiraram a escrita e acabaram por se revelar, e se atualizar, em Francesco e Nídia, personagens que, a seu modo e em seu tempo, fazem as inevitáveis travessias.


Para saber mais sobre a obra de Lasar Segall, acesse a exposição on-line Navio de Emigrantes.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Sentimento Blue

Não sei como você consegue reagir impassível a toda esta loucura. Tenho que confessar, às vezes sinto até uma ponta de inveja da sua resignação. Eu não me rendo, mas desde ontem só quero fechar os olhos e não sentir nada: nenhuma náusea, tonteira, dor, agulha, soro. Não fossem estes tubos, estaria na praia só de calção! Meu Deus, coisa alguma te abala, nem esta mocinha que a toda hora entra aqui no quarto: cabelos escuros puxados em coque, uniforme em cor pastel, nos pés um par de tamancos brancos para acentuar a natureza higiênica do traje. Piada. Como se eu não soubesse que, antes de chegar ao prédio, a bela circulou pelo metrô lotado e cruzou calçadas emporcalhadas com esta mesma roupa, o mesmo sapato. Desde cedo, ela não dá trégua, borboleteando ao meu redor - fala anasalada, cheia de inhos: “Já acabou o cafezinho, Seu Estevão?”, “Seja bonzinho comigo, ontem o senhor não quis tomar banho”. Hoje, ela ainda inventou de ligar a TV com o propósito de me distrair. E desde quando TV distrai um ser humano? Cinco minutos de programação são suficientes pra me tirar do sério! Eu não me conformo, nunca me conformei, não será agora que vou achar isto normal. Podem fazer a campanha que quiserem, alardear todas as obviedades travestidas de verdades científicas: prevenção, conscientização, acompanhamento – propagandas cacetes, é o que são! Os planos de saúde é que se dão bem nesta história, claro! A cada consulta, a cada exame extra que os médicos inventam, é mais um motivo pra aumentar a mensalidade. E ainda têm a cara de pau de nos enfiar por goela abaixo essa tal de alimentação saudável. Saudável pra quem? Pro meu bolso é que não é! Você sabe quanto custa um quilo de tomate orgânico? Um punhado de linhaça dourada? Não faz muito tempo, entrei, por curiosidade, numa quitanda metida a besta perto de casa, saí correndo antes que tivesse que pagar só pra olhar. Na verdade, eu não ia querer aqueles produtos nem de graça, tão mirrados que davam dó! O problema é que comecei a fantasiar com eles. Semana passada, sonhei que estava perdido em um beco escuro. Um homem me perseguia e ameaçava com um ramo de cenouras raquíticas. Quanto mais eu corria, mais o beco se fechava e o homem se aproximava. Acabei encurralado, as cenouras cresciam, se transformavam em longos dedos, apertavam a minha garganta, forçavam a boca, puxavam minha língua. Borboletinha deve ter ouvido os meus gemidos, as palavras embaralhadas, e achou por bem reforçar o Dormonid, avisando-me que não adiantava gritar pelo Dr. Antenor àquela hora da madrugada. Você não deve ter percebido toda a movimentação, pois dorme como um bebê recém-nascido! 

Mas o que me deixa mais puto é a hipocrisia da cor. Todo mundo critica, condena a ministra, chama de reacionária, só que na hora de se referir ao sexo masculino neste maldito mês, qual a cor escolhida? Qual? E não basta usar laço na lapela, tem que enfiar o logo da campanha no perfil do Facebook, no site da loja, na propaganda do jornal, e, pasme, tingir de azul prédios e monumentos, até o próprio Redentor. Por acaso estátua tem próstata? Ou Jesus Cristo visitava o urologista regularmente? Uma certeza eu tenho: se o Salvador fosse obrigado a encarar o humilhante “exame físico”, reagiria com a mesma ira com a qual expulsou os vendilhões do templo. E eu, eu sou católico praticante. 

Já passou a hora do almoço? Não sei por que me bateu tanta sonolência. É melhor eu parar de falar, esses remédios acabam com as minhas energias. Deixa estar que, mais tarde, os meus companheiros de bar virão me visitar. Ontem eles vieram, eu ouvi as vozes no corredor, mas alguém lá fora deve ter implicado com as risadas deles. Gente feliz não é bem vinda aqui. Hoje ninguém os vai impedir: trarão pataniscas de bacalhau, uma tigela de rabada com agrião e meia dúzia de cervejas geladas. Você prefere Brahma ou Antarctica?

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Mais um texto gerado a partir da Oficina Online Escrevendo Crônicas, coordenada por Rubem Penz, que frequento desde julho. O desafio era fazer uma crônica sobre uma efeméride (uma celebração ou evento que se repete anualmente), abordando-a de uma maneira criativa, diferente da usual. Optei por uma crônica-conto, gênero que permite uma maior liberdade narrativa pela presença dos personagens. 

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Canção Insana

Minha terra tem secura
Nenhum sabiá a cantar
Palmeiras foram embora
Mesmo assim quero voltar

Minha terra está triste
Só fumaça se vê lá
Bicho não come nem cresce
Mesmo assim quero voltar

Foi tanta queimada forte,
Tanta cinza, labareda,
Que fugi esbaforido
Procurando me salvar

Aqui dei com os costados, consegui me acalmar
Vejo estrelas, cheiro flores, tenho tido até amores
Mesmo assim (como explicar?)
Sonho com o que deixei lá.

Só pode ser mau-olhado,
Feitiço de Curupira, travessura de Saci
O fato é que eu vivo aqui
Pensando em estar por lá

Faço prece, ajoelho,
E começo a jejuar
Peço a Deus que eu não morra
Sem que eu volte para lá

Sem que eu invente as palmeiras,
E cultive sabiás
Das cinzas, farei estrelas
Sou louco por acreditar?

Foto Rodrigo Baleia / Greenpeace

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A paródia surge a partir de uma nova interpretação, da recriação de uma obra existente e, em geral, consagrada. Escrever uma crônica-paródia de Canção do Exílio, de Gonçalves Dias, foi o mais recente desafio do meu curso. Penei com a métrica e as rimas, mas, como gostei do novo contexto que criei para a terra idealizada, decidi publicar. E hoje recebi a avaliação do Rubem Penz, que deu o empurrão final para a postagem no Blog.

Parodiar Canção do Exílio não é proposta nova, muitos escritores de grande importância literária já o fizeram. E muitos aprendizes também se lançaram na empreitada. Quem quiser checar algumas destas produções, é só seguir o link:   Blog do Jeff Rossi - 15 paródias

sábado, 12 de outubro de 2019

Amélia

Amélia senta no sofá, larga o celular na mesa de centro e decide-se: vai desistir. O ritual de todas as noites nos últimos dois meses não funciona com ela. Pode até servir para mulheres autoconfiantes, não é o seu caso, reconhece. 

Quando resolveu abrir a conta no Tinder, não tinha certeza se queria ou se devia se expor. Dever ela até sabia que devia já que o mercado presencial de relacionamentos para mulheres com mais de cinquenta anos anda tão estagnado quanto a economia brasileira, mas querer mesmo, não queria. Sentia preguiça e medo ao mesmo tempo. Preguiça de começar uma conversa do zero: contar das viagens, família, trabalho, explicar mal entendidos, forçar pra fazer graça, quando o humor não é sua praia, tentar ser interessante sem saber o que o outro considera interessante. O medo era o de encontrar o serial killer mais próximo, tantas histórias de violência e golpes contra mulheres, e elas ali, impotentes. Teria ficado na zona de conforto, não fosse a exigência do coração solitário. 

Só que agora, em dois meses de muitas deslizadas e poucos matches, mesmo depois de ter trocado a foto do perfil para uma de cinco anos mais nova, mesmo revisando e revisando o texto de descrição, percebe o fiasco de tudo aquilo. E desiste. 

“Alexa, estou me sentindo muito só!”, confidencia Amélia, meio sem pensar. A caixinha arredondada, muito delicada e bem acabada, desperta de seu sono. Luzes coloridas dançam na circunferência superior num vai e vem alegre. Amélia ama essa sinalização automática. Sim, Alexa a tinha ouvido: sem delongas, sem cobranças, sem lamúrias. O céu! 

“Alexa, estou me sentindo muito só!”, ela repete, comprazendo-se com a dança das luzes. “Sinto muitíssimo por saber disto”, responde a voz amiga. “Assista a um filme engraçado ou tome um bom vinho. Quem sabe, as duas coisas.” 

Embora o timbre de Alexa a conforte, Amélia aguarda ansiosamente pela voz de Samuel L. Jackson, uma promessa da Amazon por módicos noventa e nove centavos de dólar. É pena, ela suspira, que não se possa ter tudo. A novidade só ficaria perfeita, a seu ver, se o corpo do novo assistente virtual tivesse uma forma máscula: um cubo arestoso e solene, moldado em bronze escuro. Ela o colocaria em lugar de destaque, um pedestal bem no meio da sala. O céu! 

“Alexa, acho que você tem razão, um vinho cairia bem. Hoje tem alguma comédia no Sky? Mas, por favor, nada de comédias românticas, você já sabe que não me fazem bem.” 

A TV da sala se ilumina, as imagens irrequietas a distraem, até a fazem sorrir. O interfone não demora a tocar, Amélia recebe o Malbec: alto teor alcoólico, aquele mesmo que a havia interessado dias antes no site do Evino. 

Alexa, Amélia, o filme, o vinho... No fim da noite, bem ao lado do celular sobre a mesinha de centro, descansam duas taças de vinho. O céu!

Ilustração: Eline de Medeiros, aquarela sobre papel, 2020
 
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AMÉLIA nasceu de um exercício de escrita da Oficina Online Escrevendo Crônicas, coordenada por Rubem Penz. O desafio: escrever uma crônica-conto (sub-gênero da crônica) sobre o AMOR em tempo de relacionamentos virtuais.
Este é o segundo exercício do curso que publico no Blog. Para ler o primeiro, clique em: Dando Crédito à Crônica
ATENÇÃO - No final de outubro, começa uma nova turma da Oficina. Quer participar? Clique em: Metamorfose Cursos

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Vinte e Quatro Horas – um pouco mais, um pouco menos...

Sábado à noite. Falam-se pelo celular. Combinam de se encontrar no dia seguinte, quando a mãe voltar de viagem. Despedem-se saudosas. A filha pega a chave e sai. A mãe acomoda-se no sofá. 

Tarde de domingo. Encontram-se como o combinado. A filha, emocionada, acarinha-lhe o rosto jovem. Contempla os fios curtos e grisalhos, marca registrada dos últimos tempos. Quer espiar as tatuagens que cobrem o corpo da mãe, mas não pode. Só há flores, a cor das flores, o cheiro das flores. Flores cobrem os desenhos dos braços, das pernas, do tronco. A filha dá-lhe um beijo e sai. A mãe demora-se onde está. 

Segunda pela manhã. A filha acorda, embora não se possa dizer que tenha dormido. Passou a noite a recordar cada ano, a imaginar cada ano, a inventar histórias para cada um dos 49 anos da mãe. Na sala, esbarra com o jornal sobre a mesa do café. Lê a coluna do dia e revê rosto, cabelos, tatuagens – dos braços, pernas e tronco. A filha sorri tristemente e sai. A mãe irradia-se pela casa.

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Dando Crédito à Crônica

Leitura e escrita são como irmãs siamesas, vivem grudadas. O que acontece a uma interfere diretamente na vida da outra. É por isso que quem quer aprender a escrever melhor precisa mergulhar em atividades de leitura associadas às de produção textual. Em julho, comecei a frequentar a Oficina Online Escrevendo Crônicas, coordenada por Rubem Penz. O meu primeiro exercício foi selecionar três crônicas produzidas em épocas diferentes e analisá-las a partir de categorias como tema, formato e linguagem. E como deveria apresentar o resultado desta leitura minuciosa? Escrevendo uma crônica, claro! 

A etapa inicial da tarefa não me trouxe grandes dificuldades, pois um exemplar de As Cem Melhores Crônicas Brasileiras, organizada por Joaquim Ferreira dos Santos, habita a minha estante desde que descobri que o que escrevo se encaixa no gênero. O meu gosto pessoal foi o critério básico de seleção. O texto me prendeu a atenção? Me comoveu ou me fez rir? Pareceu-me elegante no estilo? Então, me serve. Depois, tratei da questão do ano de produção e, assim, decidi-me pelas seguintes crônicas: 
A carpintaria literária de Rachel de Queiroz me deixou maravilhada! Para responder a uma pergunta corriqueira - qual o seu maior desejo para o ano seguinte – a autora transita da mais livre transgressão às convenções sociais à submissão poética provocada pelo coração. Os mesmos elementos que lhe servem, nos primeiros parágrafos, para afirmar os desejos libertários– o mundo, o homem amado, a pátria, o público leitor, a família, os amigos – são virados pelo avesso na segunda parte do texto. A autora entabula uma conversa consigo mesma e cria um fluxo de linguagem bastante ágil: mistura as formas de tratamento (tu, vós e você), se vale de superlativos, e tempera o vocabulário rebuscado com expressões da conversação comum. O resultado desta mistura é um texto delicado capaz de emocionar muitas pessoas, mesmo as menos habituadas ao português padrão da primeira metade do século XX. 

A crônica de João Ubaldo também parte de uma temática costumeira: encontros (e desencontros) de leitores e escritores em alguma situação de vida cotidiana. Só que o autor, diferentemente de Raquel, organiza todo o texto em diálogos, um desafio e tanto, pois não há nenhuma narrativa ou explicação para a fala dos interlocutores. Frases curtas e diretas, linguagem coloquial, interrupções e hesitações, vocabulário ligado aos hábitos de Ubaldo na Bahia, sublinham o humor do texto. Pela leitura, fiquei imaginando o desconforto do escritor, conhecido por sua impaciência com os tolos e os arrogantes, e ri muito com a inconveniência do cidadão que o aborda no bar. 

Antônio Prata me fez rir, mas de nervoso. Sua ferramenta linguística é a ironia, usada para revelar idiossincrasias, suas e as de seus companheiros intelectuais de esquerda. Numa conversa com o leitor, constrói uma narrativa cíclica, baseada na repetição de expressões capitaneadas pelo advérbio meio: meio intelectuais, meio de esquerda, bares meio ruins, reforçando o caráter ambíguo das convicções e escolhas de seus pares. Uma dura crítica marcada por referências contemporâneas e urbanas, como Vejinha e MTV; petit gâteau e cachaça Salinas; ritmo reggae e chinelo Rider, em contraposição a um idílico nordeste. A crônica foi escrita há 14 anos, mas questões relativas aos erros da esquerda, em especial ao distanciamento do povão, são feridas ainda bem abertas para nós, daí o riso nervoso e a sensação de que Prata deveria ter sido levado mais a sério. 

Por intermédio das narrativas em primeira pessoa, Raquel, João e Antônio se mostram por inteiro aos leitores. Sem os escudos protetores dos personagens, trabalham de peito aberto para que a realidade banal seja tocada, e transformada, pelas extravagâncias da ficção. E eu, aqui, apavorada diante do tamanho da tarefa dos cronistas, olho com cuidado minhas pretensões literárias, e praguejo: Te dana, Ana Beatriz, te dana!

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Na Rede: