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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

Promessa de Ano Novo

Quando 2024 deu as caras por aqui, decidi me fazer uma promessa: colocaria a escrita como uma de minhas prioridades no ano.

A minha produção escrita é geralmente espasmódica, manifesta-se sem nenhuma regularidade ou estabilidade de assunto. Eu juro que gostaria de mudar isso! Invejo os que escrevem com disciplina e entusiasmo, mesmo que não pareça haver no mundo um só motivo para tal.

Sozinha, sei que não dou conta de fazer a promessa se concretizar. Por isso, esta semana entrei para o grupo Escrita Matinal @escritamatinal, coordenado por Liana Ferraz. Entre 8 e 8:30 da manhã, nos encontramos para deixar fluir a criatividade e as palavras. Tem horário, tem parceria; vai funcionar.

E, em março, começo o curso Formação de Escritores @formacaodeescritores na plataforma da Metamorfose, com o objetivo de trabalhar as técnicas e recursos da escrita. Tem análise e produção textual, tem devolutiva dos professores. Com certeza, vai funcionar.

A ideia é publicar aqui no Blog algumas dessas produções. E, quem sabe, contar com a leitura de vocês. 😊

domingo, 8 de janeiro de 2023

Um Ano Novo Levinho

Conheci o Hugo na Praça Mauro Duarte, em Botafogo. Eu e ele fazemos parte do projeto "Adote 1 Aluno", fundado pelo professor Silvério Moron. Funciona assim: quem tem algo a ensinar senta em um banco da praça e divulga a sua matéria. Quem quer aprender é só se chegar e começar as aulas. Trabalhei, e fui feliz, no “Adote” de 2018 ao início de 2020, quando puf!... o mundo parou!

Retornei em maio deste ano, e encontrei o Hugo, um menino cheio de ideias, super-inteligente, mas com algumas dificuldades na escola. Meu objetivo era ajudá-lo a canalizar toda a sua energia para as atividades de Português, especialmente as que envolviam escrita. Os assuntos que o interessavam viraram argumento para as redações que trabalhávamos em um passo a passo: leitura de imagens; definição de personagens; escrita de frases; até chegarmos à montagem do texto propriamente dito. Depois revisar e complementar se fosse necessário; todo esse processo a fim de que percebesse a natureza viva, e interessante, dos escritos.

Avançamos nesse sentido, as notas subiram um pouco, mas, nos últimos dias de aula, a professora da escola em que ele cursa o 5º ano avisou que ele teria que fazer uma prova extra. Desta nota dependeria a sua aprovação. A notícia nos surpreendeu: Hugo ficou arrasado, e eu inconformada com uma avaliação tão drástica. Só me restava acalmá-lo, reafirmar a minha confiança nele e pedir que desse notícias logo que saísse da escola.

O WhatsApp apitou logo depois das 5 da tarde e, num áudio, Hugo me explicou: “Professora Ana Beatriz, fiz uma redação levinha e passei de ano!" Me alegrei pela aprovação, mas vibrei mesmo com o adjetivo usado. Então, agora, uma redação poderia ser levinha, algo que não pesa, não sobrecarrega, um aconchego?! Uma sementinha lançada no cimento da praça, nascendo aos poucos...

Por enquanto a nossa experiência termina assim, ano que vem continuaremos a conversar, ler e escrever, aprendizagem em mão dupla. Inspirada pelo que aprendi com o Hugo, resolvi escrever esta história, e finalizá-la com a minha mensagem de boas festas. Desejo a vocês, parentes e amigos, um Natal de amor suave, e que 2023 seja um ano muito, muito LEVINHO!


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Texto postado em 24/12/2022, no Instagram @anabiap12, e posteriormente acrescentado ao Blog. 

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Metodologia

Quando eu escrevo, ou melhor, quando eu decido começar a escrever, já pensei muita coisa antes: escolhi ideias, selecionei palavras, ordenei sentidos. Tudo, tudo bem claro na mente.

O problema é conseguir capturar os pensamentos que, diante do papel ou da tela, fogem apavorados. E toca a revirar a casa a procura deles, os danados são hábeis em inventar novos esconderijos. Tornam-se tão ariscos ao serem descobertos que preciso agarrá-los pelos cabelos e aguentar a gritaria.

E quando, finalmente, concluo a perseguição e sento-me para iniciar a tarefa, estou tão cansada com aquele pique-pega que tenho que deixar a escrita para o dia seguinte.

Escrever seria mais fácil se eu tivesse um gravador de pensamentos – uma traquitana simples, portátil, acionada por um piscar de olhos. Alguém conhece uma startup que possa me ajudar?

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Ufa! Que alívio! Não sou só eu!
Foi o Joaquim Ferreira dos Santos que me salvou do autoflagelo, mas fiquei sabendo que muita gente padece do mesmo mal - um desejo incontrolável de postergar, adiar, retardar, deixar pra amanhã o que se pode fazer hoje, no caso, o que se pode escrever hoje.
Li o depoimento dele e... deu-se a libertação; escrevi sobre o meu processo de escrita. Um trabalho em equipe contra a procrastinação, embora eu ache esta palavra horrorosa. Valeu, Joaquim.

Quando eu escrevo, ou melhor, quando eu me sento para escrever, costumo levantar logo em seguida para fazer qualquer outra coisa. Faço isso algumas vezes. Tomo água, me lembro de um telefonema para dar, até que não resta outro jeito se não encarar o teclado e enfileirar as palavrinhas, uma atrás da outra, e tratando para que elas não pinguem em gotas monótonas como as que pingam agora da torneira do banheiro e, desculpem, preciso me levantar para ir lá fechar a porta. Eu já tive um joguinho no computador que me ajudava bastante a adiar a primeira palavra. Abria a tela, jogava o arqueiro e só depois, quando a mente já esta estava bem esvaziada e não restava outro jeito, começava o trabalho. Escrever é um trabalho pesado.

Joaquim Ferreira dos Santos – depoimento para o Segundo Caderno de O Globo, 1º de agosto de 2003

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Dando Crédito à Crônica

Leitura e escrita são como irmãs siamesas, vivem grudadas. O que acontece a uma interfere diretamente na vida da outra. É por isso que quem quer aprender a escrever melhor precisa mergulhar em atividades de leitura associadas às de produção textual. Em julho, comecei a frequentar a Oficina Online Escrevendo Crônicas, coordenada por Rubem Penz. O meu primeiro exercício foi selecionar três crônicas produzidas em épocas diferentes e analisá-las a partir de categorias como tema, formato e linguagem. E como deveria apresentar o resultado desta leitura minuciosa? Escrevendo uma crônica, claro! 

A etapa inicial da tarefa não me trouxe grandes dificuldades, pois um exemplar de As Cem Melhores Crônicas Brasileiras, organizada por Joaquim Ferreira dos Santos, habita a minha estante desde que descobri que o que escrevo se encaixa no gênero. O meu gosto pessoal foi o critério básico de seleção. O texto me prendeu a atenção? Me comoveu ou me fez rir? Pareceu-me elegante no estilo? Então, me serve. Depois, tratei da questão do ano de produção e, assim, decidi-me pelas seguintes crônicas: 
A carpintaria literária de Rachel de Queiroz me deixou maravilhada! Para responder a uma pergunta corriqueira - qual o seu maior desejo para o ano seguinte – a autora transita da mais livre transgressão às convenções sociais à submissão poética provocada pelo coração. Os mesmos elementos que lhe servem, nos primeiros parágrafos, para afirmar os desejos libertários– o mundo, o homem amado, a pátria, o público leitor, a família, os amigos – são virados pelo avesso na segunda parte do texto. A autora entabula uma conversa consigo mesma e cria um fluxo de linguagem bastante ágil: mistura as formas de tratamento (tu, vós e você), se vale de superlativos, e tempera o vocabulário rebuscado com expressões da conversação comum. O resultado desta mistura é um texto delicado capaz de emocionar muitas pessoas, mesmo as menos habituadas ao português padrão da primeira metade do século XX. 

A crônica de João Ubaldo também parte de uma temática costumeira: encontros (e desencontros) de leitores e escritores em alguma situação de vida cotidiana. Só que o autor, diferentemente de Raquel, organiza todo o texto em diálogos, um desafio e tanto, pois não há nenhuma narrativa ou explicação para a fala dos interlocutores. Frases curtas e diretas, linguagem coloquial, interrupções e hesitações, vocabulário ligado aos hábitos de Ubaldo na Bahia, sublinham o humor do texto. Pela leitura, fiquei imaginando o desconforto do escritor, conhecido por sua impaciência com os tolos e os arrogantes, e ri muito com a inconveniência do cidadão que o aborda no bar. 

Antônio Prata me fez rir, mas de nervoso. Sua ferramenta linguística é a ironia, usada para revelar idiossincrasias, suas e as de seus companheiros intelectuais de esquerda. Numa conversa com o leitor, constrói uma narrativa cíclica, baseada na repetição de expressões capitaneadas pelo advérbio meio: meio intelectuais, meio de esquerda, bares meio ruins, reforçando o caráter ambíguo das convicções e escolhas de seus pares. Uma dura crítica marcada por referências contemporâneas e urbanas, como Vejinha e MTV; petit gâteau e cachaça Salinas; ritmo reggae e chinelo Rider, em contraposição a um idílico nordeste. A crônica foi escrita há 14 anos, mas questões relativas aos erros da esquerda, em especial ao distanciamento do povão, são feridas ainda bem abertas para nós, daí o riso nervoso e a sensação de que Prata deveria ter sido levado mais a sério. 

Por intermédio das narrativas em primeira pessoa, Raquel, João e Antônio se mostram por inteiro aos leitores. Sem os escudos protetores dos personagens, trabalham de peito aberto para que a realidade banal seja tocada, e transformada, pelas extravagâncias da ficção. E eu, aqui, apavorada diante do tamanho da tarefa dos cronistas, olho com cuidado minhas pretensões literárias, e praguejo: Te dana, Ana Beatriz, te dana!

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