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segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Borgianas




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    • A ideia inicial veio do desafio que a Liana propôs no grupo do Escrita Matinal em 06/11. Quando criei o título, achei que ele teria mais sentido se fosse no plural: BorgianaS. E daí passei para o item II da escrita, completando o recurso de ALUSÃO. Fiz referências indiretas a composições que gosto muito sem citá-las diretamente, mas contando com o conhecimento prévio dos leitores.
              Me contem se, após a leitura, foi possível capturar esta intertextualidade.😬
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            Na Rede

    Linguagem


     

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      • Poesia produzida no grupo Escrita Matinal a partir do dispositivo Voz, em 29/08/25
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              Na Rede
      • O Céu da Língua - Gregório Duvivier -  fragmentos do espetáculo  AQUI

      terça-feira, 21 de outubro de 2025

      Me Ajude a Esquecer os Domingos

      Existem domingos? Quatro ou cinco vezes no mês?

      Existiram, existiam; não mais. Aquelas vinte e quatro horas que se esticam entre escuros já não vivem em mim.

      Não me chame; não ouse. Me ajude a esquecer os domingos.

      Tomo um porre de espumante, desligo sem memória; congelo; entro em coma desassistido. Outra vez.

      Espero um hiato; uma ponte sobre um rio poluído, um caldo de imundícies a correr sob os meus pés – esqueletos de ferro, para-lamas em carne escura, volantes forrados com veias.

      Astronauta em suspenso no espaço, aguardo a chegada do último segundo. Até lá, deixe-me neste escuro, sideral; esqueça-me no alívio do tempo do nada.

      Não se aproxime; nem tente. Me ajude a esquecer os domingos, que eu nasço ao raiar de outros dias.

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        • Texto produzido a partir do desafio Me ajude a salvar os domingos, da oficina Escrita Matinal, em 06/10/2025
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        quinta-feira, 2 de outubro de 2025

        Recital

        Levanto-me da mesa do café da manhã neste domingo nublado e peço: “Alexa, toca a playlist Hora da louça”.

        Xícaras e pratinhos, a faca da manteiga, as taças de vinho de ontem à noite me aguardam sobre a pia.

        Preparo as mãos, a esponja e o detergente; a água jorrando ritmada da torneira.

        Afino a garganta e finjo: chorei, chorei, até ficar com dó de mim... 

        Ouço a intensidade da voz, das vozes; a minha ao mesmo tempo encharcada de brilho e gim, a dele, pintada de desilusão.

        Nos bastidores da casa, segue o espetáculo: o corpo acompanha o ritmo, sacode a camisola de paetês, se equilibra nos chinelos com salto alto. Cantei, cantei, nem sei como eu cantava assim... 

        A louça, pouco a pouco, aplaudindo, sentada no escorredor.

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          • Texto produzido a partir do desafio Enquanto Toca a Música, da oficina Escrita Matinal, em 09/09/2025
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          • Na Rede
          Há um ano, escrevi um texto-irmão a este. Quando a gente escreve, os assuntos que mais nos tocam acabam se repetindo, com uma roupagem um pouco diferente. Quem quiser ler Conceição, no Instagram, clique Aqui .

          terça-feira, 30 de setembro de 2025

          Fragmentos de um Monólogo Amoroso

          ...

          (tira o espelhinho redondo da bolsa, estica os lábios, verifica o batom)

          Cadê você, Tom? Meu Deus, será que aconteceu alguma coisa: bateu com o carro?, tomou um tiro?!, a cidade tá violenta... Calma, não pira, notícia ruim chega logo, daqui a pouco ele vê as mensagens, diz que já vem, que pegou um engarrafamento, atrasou pra sair do trabalho, coitado...

          (pega o copo, dá um gole, faz uma careta)

          Chopp quente ninguém merece.

          - Garçom!

          Será que eu marquei com ele às 6 e meia, ou foi 7 horas?

          (rola apressadamente as mensagens no celular)

          Ele que marcou a hora, e o lugar, e eu batendo palma pra tudo que o Tom quer: no Aurora o chopp não ia estar quente assim..., veio com aquele papinho: o Bar do Alto é mais tranquilo, menos gente, só faltou dizer que é mais romântico. Eu não devia ter chorado no último encontro, homem não gosta de mulher melosa... é culpa minha; se eu chorar aqui ninguém vai notar, o casal mais próximo deve estar a um quilômetro de distância.

          (inspira o ar, solta com força pela boca)

          Tô meio tonta, um aperto no peito, deve ser sede:

          - Garçom!

          (apoia os cotovelos na mesa, sustenta a cabeça nas mãos)

          É sina, pra mim é sempre assim, não adianta, praga de mãe: você não tem sorte, nunca teve, a voz fanhosa nos meus ouvidos: rosas não nascem pelo simples querer..., meu querer é fraco, o meu braço então, força nenhuma pra bater na cara de quem me azucrina, quem levou nas fuças fui eu, sempre.

          (arruma a coluna, mexe a cadeira, fica bem de frente para a entrada)

          Três meses?, é, três meses de Personal e não vejo diferença, braço mole, bunda mole, perna fina..., a Ju ficou sarada com bem menos tempo, vou pedir o contato pra ela, e se for mais caro?, vou ter que gastar, paciência. O Tom teve coragem de me chamar de mão de vaca..., na hora eu ri, burra, devia ter mandado ele pastar. Isso é coisa que se diga? Isso é coisa que se diga pra mulher com quem ele tá saindo? Ou será que era um toque?, um alerta sobre eu estar mesmo apegada ao dinheiro? Ele é um grosso, mas tem cuidado comigo...

          (abana o rosto com o guardanapo, seca as têmporas, afrouxa a gola do vestido)

          Nem ar-condicionado tem aqui, um calor do cão, parece o carro do Tom quando ele cisma de deixar as janelas abertas: tá tão fresco lá fora, fresco só se fosse nos Alpes, mas no Rio de Janeiro?! O que é que eu fiz pra merecer isso? 

          Eu já prometi, vou mudar

                                                                    desamar

                                                                                            desamarrar

          em julho viajo pro Sul e chuto o Tom pro Deserto do Saara, é tão fresquinho lá...

          (penteia a franja com as mãos, puxa o comprimento dos fios num coque)

          Viajar sozinha? nem pensar, chamo a Claudinha, ai não, ela é chaaaataaaa..., a Lu, isso, a Lu é boa companhia, deu certo no Atacama, mas se ela cismar de chamar a Marta, ferrou, as duas não se largam; melhor eu entrar num grupinho desses de excursão, melhor pra quem, minha filha, só se for pro grupinho da excursão, que decadência, senhor! Com o Tom...

          (roda o anel de pedra azul no dedo, raspa com a unha a parte descascando)

          Merda de homem que tem bom gosto: anel, rasteirinha nude, buquê de rosas, eu amei...,

          ele me ama... ama?

          me amou?

          (vira o braço, faz tilintar as pulseiras, consulta mais uma vez o relógio)

          Quanto tempo é atraso pra você, mulher? Uma hora? Duas horas tá de bom tamanho? Merda de encontro, bosta de lugar,

          (circula o olhar pelo ambiente)

          quantos gatos tem aqui? Um, dois,... seis, sete. Sete?! Todos pretos! Foi de caso pensado, pra me jogar na cara que nunca viria aqui, tem pavor de gato preto, além de supersticioso é covarde. Burra, muito burra, só eu não vi; você é míope, sua louca, enxergar como? defeito de nascença, no olho e na alma, juntou com a falta de sorte, deu nisso... Mais um abandono, menos um, que diferença faz?, a pele sangra, mas cicatriza, vira couro; isso, Tom, faz como todo mundo; rosas não nascem pelo simples querer...

          meu querer é fraco, eu só sei ficar.

          (pega a bolsa pendurada na cadeira, estica o indicador para o alto)

          - Garçom!

          ...

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          Com um olho em Roland Barthes e outro em Aline Bei (metafórica e literalmente porque acabei de operar a catarata no olho direito; os dois olhos ainda não se acertaram), e estimulada pelo dispositivo O Ato da Espera (Escrita Matinal, 22/09 ), costurei as ideias neste novo texto.  

          domingo, 17 de março de 2024

          A Casa

           

          A casa era antiga, e feia. Fachada estreita, portão de ferro com grades em cima. Há tempos não via tinta, cinzas e beges já desbotados.

          A casa, assim precária, vivia só. Há tempos não via gente, cômodos desabitados em seu interior.

          A casa estava triste. Cansada de asperezas, queria vida em carne e osso. Sabia de sua falta de graça. Numa rua de exuberâncias, quem haveria de lhe lançar os olhos?

          A casa teve uma ideia, conhecedora que era da vizinhança – anos de observação privilegiada. E rabiscou-se a cara, com ironia, certa de que a mensagem seria sua aliada. “Não quero visitas”. E destrancou-se toda, a espera.

          Não tardou e a casa sentiu o sol. Uma lufada de vento a invadiu quando o portão rangeu na timidez da manhã. E ela toda tremeu ao pressentir certeza nos pés pequenos que pisavam-lhe o chão.

          A casa agora pulsa, água e sangue em sintonia. Até que o tempo passe, e a vida clame por outras mensagens.

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          Texto produzido a partir de disparador do grupo Escrita Matinal (@escritamatinal)

          sexta-feira, 8 de março de 2024

          Esquina

          Gente se encontra na esquina.

          Eu, você, várias Marias,

          Hopper, Chico e Djavan,

          seu José da padaria,

          a nonna da velha cantina


          Gente se encontra na esquina.

          Chega com os próprios pés, na volta da oficina,

          pega o carro, chama um Uber,

          ou desce daquele busão,

          ronco, freada, buzina.


          Gente se encontra na esquina.

          Em pé, do lado de fora, na mesa há pouco montada,

          papeando no balcão,

          olhando tudo de cima, da sacada barulhenta,

          gritando pra multidão.


          Gente se encontra na esquina.

          Ficha redonda no bolso pra logo chamar Carolina

          Iphone por perto dos olhos, checando o novo recado.

          Vai um ovo colorido? Um churrasquinho de gato?

          Um pingado de café, cerveja como rotina


          No torto quadrado das ruas,

          voejam modos e medos, circulam milhares de sonhos,

          que se embaraçam nos fios,

          e se revelam aos poucos, num jogo de luz e sombra


          Chega mais, muito bom dia!
           
          Vê se me esquece, babaca!
           
          Gente se encontra na esquina.


          Poesia produzida a partir de disparador do grupo Escrita Matinal (@escritamatinal)
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          Na Rede: referências musicais

          terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

          Noélia

          Noélia caminha pela areia sem atenção, tropeça nos pés descalços, a barra do vestido lambendo os morrotes fofos. No ambiente, nada a atrai – movimentos, cores, sons – nada! Olha para si mesma, corpo em concha, o mundo interior em preto e branco. Lá fora o mar tranquilo; por dentro, ondas de ressaca. Pudera! Não anunciaram que o tempo mudaria por estes dias? Forte calor, frente fria... 

          Tinha acabado de constatar, um pouco antes de bater a porta da casa e sair atordoada, que o amor detesta mudanças, que ele só se sente bem com temperaturas constantes, em condições ideais de umidade, na mais completa calmaria. Raios e temporais?! Malditos sejam, esconjura o amor. Malditos sejam, repete a mulher, a voz vibrando dentro da própria concha. Um amor abalado cisma em morrer, morte súbita. Resta espanto, e agonia.

          Noélia está só; a praia vazia, olhada de soslaio, confirma a sensação. Melhor assim... De que adiantaria um ser vivente ao seu lado se é impossível partilhar o incomunicável? Não basta soletrar “dê-ó-erre” com toda a minúcia ortográfica, ou dividir as sílabas de “so-frri-menn-to” reforçando as ênfases individuais. Palavras não bastam diante da morte do amor. Por isso, se cala - estática, estátua.

          Se ela movesse um pouco o corpo, se erguesse a cabeça na direção do horizonte, veria um pássaro se aproximar: voo elegante no céu, asas e vento em parceria, a cauda-leme apontada para o único lugar habitado na areia. Se pelo menos abrisse os olhos, se permitisse que a luz inundasse as suas retinas, experimentaria um momento fugaz de comunhão. Mulher e pássaro unidos na sombra projetada a sua frente: o corpo dela, esteio; nas asas dele, anseios. Mas Noélia amarra-se em si, cobre o rosto com as mãos, não se entrega à luz. O pássaro, indiferente aos limites da mulher, segue livre o seu destino.
          Conto Noélia nascido do trabalho com o grupo Escrita Matinal. Texto inaugural da promessa de 2024.
          Imagens: @oszvaldnoell

          sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

          Promessa de Ano Novo

          Quando 2024 deu as caras por aqui, decidi me fazer uma promessa: colocaria a escrita como uma de minhas prioridades no ano.

          A minha produção escrita é geralmente espasmódica, manifesta-se sem nenhuma regularidade ou estabilidade de assunto. Eu juro que gostaria de mudar isso! Invejo os que escrevem com disciplina e entusiasmo, mesmo que não pareça haver no mundo um só motivo para tal.

          Sozinha, sei que não dou conta de fazer a promessa se concretizar. Por isso, esta semana entrei para o grupo Escrita Matinal @escritamatinal, coordenado por Liana Ferraz. Entre 8 e 8:30 da manhã, nos encontramos para deixar fluir a criatividade e as palavras. Tem horário, tem parceria; vai funcionar.

          E, em março, começo o curso Formação de Escritores @formacaodeescritores na plataforma da Metamorfose, com o objetivo de trabalhar as técnicas e recursos da escrita. Tem análise e produção textual, tem devolutiva dos professores. Com certeza, vai funcionar.

          A ideia é publicar aqui no Blog algumas dessas produções. E, quem sabe, contar com a leitura de vocês. 😊