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segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Maçaricos Viajantes

O calor forte do meio-dia, as dunas no meio do caminho, a longa faixa de areia a ser percorrida já nos faziam acreditar que a ideia de dar um mergulho não tinha sido das melhores. Cadê o vento constante de Aracaju?  O jeito foi deixar Atalaia para trás e seguir caminhando até as barracas da Praia dos Artistas. No percurso, uns movimentos ao longe nos chamaram a atenção. Eu e Mário chegamos mais perto, aquela dança era engraçada de ver, um vai-e-vem bem ensaiado, passos curtos e ligeiros executados em conjunto. A areia, refletindo os raios solares, fazia a iluminação do espetáculo. O figurino, um tanto monótono - tons de branco e preto num mesmo feitio -, reforçava a importância de cada um dos participantes.

Um pequeno bando de pássaros corria para a linha da arrebentação quando as ondas se recolhiam, e bicavam os buraquinhos descobertos na areia à procura de alimentação. Mas era só a água dar sinais de retorno para que os maçaricos obedecessem a coreografia da espécie e corressem de volta para a área de segurança na praia. Repetiram os deslocamentos uma, duas, três ... muitas vezes, até que, diante da nossa presença, transformaram suas posições no solo em um voo coordenado, afastando-se dos inimigos. Não demoraram para regressar e recomeçar o bailado, pois dele depende a sobrevivência das avezinhas viajantes, que atravessam milhares de quilômetros das áreas geladas do inverno no Ártico para se aquecer e se alimentar em terras da América do Sul.

Estávamos em dezembro, o ano de 2025 já querendo arrombar a porta do calendário, e nós, como os maçaricos, acionamos o modo migratório. Tínhamos deixado a agitação da cidade do Rio de Janeiro em busca de um porto seguro no Nordeste. Mas em Aracaju? E no Réveillon?, questionara uma amiga quando estávamos planejando a viagem. Aracaju não tem nada, nada pra fazer, você sabe, né? Tudo caro e cheio nesta época, só não é pior que no Carnaval, continuara argumentando.

Aracaju não se saiu mal no nosso filme de férias, sol brilhando todos os dias, brisa constante, camarão e caranguejo nos pratos típicos, gente acolhedora. Embora pequena, a cidade tem passeios interessantes. Gostamos, especialmente, do Museu da Gente Sergipana, voltado para comemorar a identidade do povo, as suas formas de cultura, as forças históricas e sociais que amalgamaram a maneira com que os sergipanos vivem.

Mas foi a visão do bailado dos maçaricos, estas aves estrangeiras a voejar pelas praias, que nos preencheu de beleza e reflexão. Como muitos de nós, humanos, elas migram, viajam de um ponto ao outro da Terra em busca de condições melhores para viver. Ao final do período previsto ao sul do Equador, retornam às suas geleiras de origem. Pena que muitos de nós não tenhamos a mesma sorte. Para muitos migrantes, não há período previsto de viagem, e não se sabe se um dia retornarão às suas geleiras de origem.


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De volta às crônicas de viagem, antes que as histórias percam o prazo de validade. 

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        Na Rede

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Navega, coração!

O barco segue tranquilo pelo Lago Guaíba na calorenta tarde de Porto Alegre. No alto-falante, a voz da locutora identificando os principais pontos do passeio: as ilhas, os rios Jacuí e Caí, a vegetação bem preservada. “Essa é a Ilha das Flores, que ficou famosa com o filme”, acrescenta o marinheiro responsável por vigiar a proa do Cisne Branco. “Ah, o filme!”, recordo-me do curta de Jorge Furtado. O visual de agora em nada remete às cenas fortes do lixão e da miséria. 

Vou coletando as imagens pelo caminho: bonitas casas de veraneio, marinas, prainhas, pontes. Subo ao convés, agora mais vazio pelo rodízio dos passageiros em busca de alguma sombra. A locutora se cala e a playlist volta a tocar. Não conheço a música, mas a voz, a voz é do Kledir, tenho certeza. É ele sim, parece que é... Uma senhora, num grupo ao fundo, canta animada, sabe de cor a letra; me aproximo e peço a comprovação. Sim, é ele quem canta, embora a canção seja do Fogaça, o senhor ao lado me informa. Eles conhecem a obra de Kleiton e Kledir desde o início da carreira, no início dos anos 80; são fãs, como eu. 

Olho para as pessoas a minha frente, reconheço-me nelas. Envelheci. Envelhecemos, nós e nossos ídolos. Um misto de saudade e melancolia quase me pega desprevenida. Sou salva pelos versos que agora preenchem o ambiente: deu pra ti, baixo astral... Encho os pulmões pra completar: vou pra Porto Alegre, tchau, tchau... Seguimos pelo Guaíba, unidos pela força da cantoria, o sol já baixando no horizonte. A cidade-amuleto se aproxima. Só me lembro de dizer: bah, trilegal!
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Na Rede: Composições de Kleiton e Kledir

domingo, 8 de janeiro de 2023

Passarinhando

Os atos eram os mesmos, de refeição: nós, sentados na varanda da Pousada Paraíso, a desfrutar calmamente do café da manhã; eles, alvoroçados entre pedaços de banana e mamão, fatias de laranja, a se fartar no comedouro logo ali em frente. Não sei se os pássaros nos observavam, como nós a eles. Talvez se divertissem com o nosso encanto e, por isso, se esmerassem nos voos e nas poses. Ou quem sabe, numa forma de vingança da espécie, se deleitassem por nos terem aprisionado, capturando todas as nossas atenções e movimentos.

Graças às lentes da máquina fotográfica, e à habilidade do fotógrafo, um pouco desta experiência pode ser revivida e ampliada. Os instantâneos são de diferentes saíras e sanhaçus (dentre outras aves que circulam pelas bem preservadas matas da propriedade), material produzido pelo Mario em novembro/22, durante a nossa estadia em Posse - distrito de Petrópolis. O conjunto das fotografias está publicado no Instagram, perfil @mariocso, com informações sobre as espécies, para quem quiser passarinhar virtualmente. Nosso agradecimento especial ao Bernardo (@bernardolacombe), que compartilhou conosco seu tempo e conhecimento.

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Texto postado em 19/12/2022, no Instagram @anabiap12, e posteriormente acrescentado ao Blog. 

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Sara e o Stand Up

O sol já havia embicado para o poente quando terminamos o almoço no Bar da Rô, um restaurante assentado entre o mar e as águas quase doces do rio Carapitangui. Enquanto aproveitávamos o clima de total relaxamento, uma mulher circulava por entre as mesas, cesto de palha nas mãos. Chamei-a, ela se aproximou. Pude observar o seu corpo atarracado vestido com simplicidade – bermuda jeans, comprimento logo acima dos joelhos; camiseta de malha; chinelos nos pés. Não soube avaliar sua idade, mais nova do que eu, por certo, mas quantos anos menos? Difícil dizer pelo cabelo puxado em coque, a pele um tanto castigada pela lida diária.

Sara apresentou-se, e me ofereceu a variedade de cocadas que ela mesma produzia e vendia aos turistas. Pedi uma branca, das comuns, com nada além de coco e açúcar. Ela até começou a se desculpar pelo meu pedido ter acabado um tantinho antes, no freguês anterior, mas, por sorte, procurando entre as cocadas gourmet, encontrou uma última embalagem do produto desejado. Agradeci, paguei a cocada, comi um pedaço. Em seguida, rumei para as águas do rio. Sara, para o trabalho. 

Eu ainda estava mergulhada no Carapitangui quando a figura dela voltou a me chamar a atenção. Desta vez, cruzando o rio sobre uma prancha de stand up. Seguia, altiva, cabeça ereta e olhos voltados para a margem oposta. O traje? A mesma bermuda e a camiseta de malha, os pés descalços. Impressionou-me a destreza com que manejava o remo e a velocidade com que avançava. Impactada, acompanhei a plasticidade da cena que se desenhava: o corpo leve da mulher integrado à prancha, a água rendendo-se aos seus movimentos, o vento soprando a favor do destino de Sara. Imaginei que o espetáculo tinha terminado quando ela alcançou, com elegância, a areia da prainha ali defronte, mas não. Minutos depois, refez o caminho, que parecia decorado pela intimidade, trazendo de carona um cacho de cocos. Quando aportou no pequeno píer do restaurante, não me contive e a aplaudi. Ela, um pouco sem graça com os meus cumprimentos, tentou minimizar o feito, falando sobre os muitos tombos do período de aprendizagem, e que a rapidez da viagem devia-se à falta de material para as cocadas. 

As explicações dela me fizeram pensar nos tombos, os reais e os metafóricos, e nas faltas que cruzam as vidas de tantas mulheres brasileiras. Sara, porém, não liga; sobe no stand up, atravessa distâncias e transforma qualquer ponto da margem do rio em almejado porto seguro. Na minha jornada de volta pra casa, em vez do cachos de cocos, trouxe o exemplo de Sara como inspiração e memória.
Por do sol no Bar da Rô - Foto de Mario Oliveira


Para ver outras imagens, clique em: Galeria de Fotos - Entre o Rio e o Mar

Para saber mais sobre a viagem, leia também: Você já à Bahia, nega? e Longe de Casa

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Longe de Casa

Estar na Península de Maraú é uma delícia! Praias limpas, águas claras, manguezais preservados, lagoas, muito verde e... pouca gente. Pouca gente?! Chegar ao paraíso é um perrengue! Muitos turistas se intimidam com a dificuldade de acesso - 50 km de estrada de terra, esburacada e enlameada até Barra Grande, o principal vilarejo da região. A alternativa é a travessia de barco desde a cidade de Camamu.

Para nós que saímos do Rio de Janeiro, a viagem durou em torno de 12 horas. Foram dois voos (conexão em São Paulo) até Ilhéus; um traslado de carro até Camamu (duas horas em média); e o percurso de lancha de 30 minutos. Do píer de Barra Grande até a pousada Ponta do Mutá, mais 10 minutos a pé. É longe e foi cansativo, mas o planejamento da nossa estadia ajudou. Descontando os dois dias de deslocamento (ida e volta), tivemos sete dias inteiros para os passeios, tempo suficiente para curtir e recobrar as energias.
Desde o final de 2019 eu não viajava de avião. Nestes dois anos, só saí de casa de carro, e para cidades próximas. Embora a Bahia tenha aparecido na minha vida num momento de contenção da pandemia – boas taxas de vacinação, casos e mortes por Covid em queda – não me senti totalmente tranquila. Nem a dose de reforço da vacina me livrou de um sentimento desagradável que me acompanhava ali no fundo da mochila, sempre colado ao meu corpo. E se eu adoecesse? Ou o Mário? E se tivéssemos que ficar em quarentena? E se...?
Com o passar dos dias, fui conseguindo controlar o coração e a mente, agradecendo por cada etapa vencida, respirando aliviada por todo o nosso grupo estar bem. Agora que estamos de volta, Maraú ficará guardada na minha memória com mais uma etiqueta de felicidade: sol brilhante, praia calma, camarão frito, água morna e saúde integral!

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Toda viagem é uma experiência única, pessoal e intransferível. O que sentimos em um determinado lugar depende de muitos fatores, desde os mais subjetivos (o nosso jeito de ser e ver as coisas) aos mais práticos (época do ano, meteorologia, hotéis e restaurantes escolhidos). Importa também, e muito, os companheiros com quem partilhamos os dias longe de casa. Sem o Mário, eu nem começo a pensar num roteiro, é meu parceiro de todos os momentos. Mas, na Bahia, a comitiva aumentou. Obrigada, Vânia, Artur e Mariana. Viajar com vocês foi muito bom.
Companheiros de viagem

Lagoa do Cassange

Pôr do Sol na Ponta do Mutá

Praia dos Três Coqueiros

Para saber mais sobre a viagem, leia também: Você já à Bahia, nega?

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Você já foi à Bahia, nega? Não? Então vá.

Eu fui. Com meus vinte e poucos anos, segui pela primeira vez o conselho de Caymmi. Fui a Salvador, mas também a Prado, Arraial da Ajuda e Trancoso numa road trip pelo Nordeste com as amigas. Depois de três décadas de intervalo, voltei pra visitar uma parte da família que emigrou pra capital e nem pensa em retornar ao Rio de Janeiro. Pois é, meus primos testemunham que a Bahia tem um jeito que nenhuma terra tem. Em seguida, já com os netos, regressei a Trancoso, uma vila muito diferente daquele lugarejo rústico que havia conhecido nos anos 80. Todas foram viagens marcantes, guardadas na memória com as minhas etiquetas de felicidade: sol brilhando, praia calma, camarão frito, água morna.

No mês de novembro, Caymmi, inconformado com as desventuras dos brasileiros nestes quase dois anos de pandemia, soprou no ouvido da minha cunhada que já era tempo de regressar à Bahia e recuperar a sorte natural a todos os viajantes que andam por lá. Ela, seduzida pelos dengos do baiano, organizou o roteiro e me convidou. Topei na hora! Resultado: semana passada, voltei de uma temporada na Península do Maraú, um território em que eu ainda não havia pisado, e distante duas horas (de carro) de Ilhéus. E não é que Jorge Amado foi nos encontrar na pracinha do Centro Histórico?! Muita sorte a nossa! Valeu, Caymmi.

Grafite - Rildo Foge

Ilhéus - em frente ao Restaurante Vesúvio
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Retorno às crônicas de viagem, depois de um longo e tenebroso inverno, quer dizer, dois invernos, duas perdidas primaveras e dois tristes outonos! Verões? Já são quase 3... 
Escrever me faz capturar o tempo, revê-lo, criar novos contextos, cultivar memórias – é uma forma de felicidade. Tomara que os leitores se alegrem também.

Para saber mais sobre a viagem, leia também: Longe de Casa

Na Rede:
Você Já Foi à Bahia? interpretada por Nana, Dori e Danilo Caymmi

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Primaveras

“Pra que outono, meu Deus, pra quê?”, pergunto-me ao avistar as primeiras flores lilases do jacarandá em frente à capelinha. O ano ideal, para mim, deveria ter um verão, um inverno e duas primaveras, uma para cada semestre. Os hemisférios, norte e sul, tão apartados no espaço, se tornariam aliados com o único propósito de nos oferecer, em dobro, espetáculos cálidos de luz e calor, e explosões de cor, muita cor.
O formato deste ano ideal começou a se tornar consciente há poucas semanas, embora, analisando bem, o meu desejo já existisse lá no fundo da mente, camuflado por camadas e camadas de aceitação e respeito ao conhecimento científico. Afinal, aprendemos as quatro estações logo no início do ensino fundamental. Seria muita pretensão questionar Dona Margarida, minha professora da terceira série primária. Mas como os tempos mudaram, libertei-me das amarras da Ciência! Dispenso o outono, que venham as duas primaveras! 

Só assim para poder usufruir em setembro e outubro, mas também em maio e junho, da linda cássia-rosa, árvore corpulenta que produz flores delicadas em tom pastel. Vários desses espécimes colorem as ruas da vizinhança, o que me faz alongar as caminhadas para que cruze, todos os dias, a Eurico Cruz e a Miguel Pereira. Isso sem falar da dose dupla de sibipirunas salpicadas de amarelo, e também de ipês – roxos, rosas, amarelos e brancos - que habitam o entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas. 
Com esta simples reforma da natureza, ainda poderíamos nos inspirar na primavera europeia e repetir por aqui, todo mês de maio, os festivais que alegram cidades, como o Concurso de Rejas y Balcones e a Fiesta de Los Pátios de Córdoba, na Espanha. Os moradores se envolvem com a decoração de ruas e vielas; de varandas, grades e pátios, e abrem suas casas à visitação. A cidade se transforma com as cores de jasmins, cravos e gerânios e fica lotada de turistas que movimentam a economia local. Um reforço que cairia bem nas finanças combalidas do nosso Rio de Janeiro. 

E para os que consideram uma heresia a importação de modelos estrangeiros, saibam que a ideia foi adotada bem antes da minha brilhante sugestão. Por toda a Andaluzia, os jacarandás-mimosos, árvores com DNA sul-americano, reforçam, com lindas flores lilases, a primavera alheia.
Não me intimido, portanto, na busca pelo ano ideal reunindo floradas de todo lugar: campos de girassol e lavanda; coquelicots e bluebells; paineiras e patas de vaca; roseiras, buganviles e sapucaias. E já abri espaço especial para as palmeiras Talipot que acabaram de parir enormes cachos brancos após uns cinquenta anos de gestação. São minhas contemporâneas estas palmeiras asiáticas, trazidas por Burle Max para os jardins do Aterro do Flamengo. Me pego com o paisagista e reforço as convicções: nada de outono, quero as minhas duas primaveras!

Para ver outras imagens, clique em: Galeria de Fotos - Primaveras

Para saber mais sobre a viagem para Espanha e França, leia também: Duas Viagens e As Oliveiras

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

A Cidade Que Nunca Acaba

Eu tinha vinte e poucos anos quando fiz a primeira viagem com meus próprios recursos, sem precisar pedir dinheiro ao pai ou à mãe. Aproveitei as férias no trabalho e na faculdade, convidei uma amiga, e nos enfiamos por 20 dias num ônibus da Soletur numa excursão para o sul do Brasil. Saímos do Rio, tendo Curitiba como primeiro destino. Já era noite quando as luzes de uma cidade começaram a aparecer na minha janela. Perguntei ao guia onde estávamos e ele me disse que atravessávamos uma das vias marginais de São Paulo. Acompanhei o percurso na larga avenida, passaram luzes, construções, carros, pontes, viadutos, mais carros, construções, outras luzes... Depois de um tempo, fiz a pergunta outra vez, e a resposta pra ele, óbvia: “São Paulo!” “Ué, ainda?” “Sim, ainda.” Olhos grudados no vidro da janela, acompanhei cada quilômetro da cidade que se revelava estranha, imensa, dilatada, excessivamente espalhada, para, em seguida, compreender a verdadeira natureza de São Paulo: uma cidade que nunca acaba.
Nesses mais de trinta anos desde a minha epifania paulistana, voltei pouquíssimas vezes a São Paulo, geralmente para cursos na Escola da Vila. Na única estada em que fui realmente turista, consegui conhecer alguns pontos emblemáticos da capital, como Ibirapuera, Liberdade e, que sorte, o Museu da Língua Portuguesa. A cidade que nunca acaba começou a me parecer um pouco menos assustadora. 

Só recentemente, desde que enteada e netos se mudaram pra lá, é que minha relação com a megalópole se transformou. Na semana passada, voltei da sexta visita num intervalo de quase dois anos. A cidade continua imensa, dilatada, excessivamente espalhada, e a cada dia ainda maior, estendendo seus tentáculos territoriais aos municípios vizinhos, que se rendem às suas investidas. Eu, no entanto, mudei. Tirei os óculos embaçados dos recém-chegados e aprendi a olhá-la com indiscrição, buscando, por debaixo das suas vestes cinzentas e um tanto disformes, espaços acolhedores de bem estar e cultura. 

Descobri pequenos e grandes parques, como o Severo Gomes e o Parque do Povo, tão verdes e organizados, se oferecendo a moradores e passantes. Visitei incríveis museus que apresentam os mais diversos campos da arte e do conhecimento humano: o MASP e os cavaletes de cristal de Lina Bo Bardi; o MAC, com belo acervo e terraço panorâmico; o Museu da Casa Brasileira, onde as moradias mais simples são também representadas; a Galeria Amoa Konoya, especializada em arte indígena; o MIS, com painel diverso de mostras fotográficas, além do pequeno e ecológico MUBE. Enfileirados, na Avenida Paulista, Instituto Moreira Salles, Itaú Cultural e Centro Cultural Fiesp nos fazem acreditar que a força da grana também pode erguer coisas belas. Crença reforçada agorinha, com a visita ao Farol Santander, espaço de exposições encravado numa colina bem no centro da cidade. 

Saciado o desejo de beleza e arte, resta matar a fome mais primitiva, e a cidade ajuda, como ajuda! Tem “dois pastel” da feira, café da manhã na padaria, botequim e food truck, bistrô, churrascaria, restaurantes com comida do mundo inteiro. Já me fartei no Almanara, no Rancho Português, no tradicional Roperto do Bixiga, e nos rituais do Sukiyaki House. 

Mas ainda falta muito a desbravar. É lento, e talvez infindável, o processo de desnudamento da cidade que nunca acaba, porém, sou paciente. Agora, que já somos bem próximas, posso despedir-me com intimidade: Até breve, Sampa. 


Para ver outras imagens, clique em: Galeria de Fotos- Sampa

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Para quem não conheceu, a Soletur foi uma empresa pioneira em turismo popular, uma espécie de CVC dos anos 80 e 90. A classe média começou a circular pelo Brasil em pacotes rodoviários e aéreos, parcelados em inúmeras prestações. A empresa cresceu, encorpou, passou a atuar também no exterior, pra a alegria da brasileirada, até que em um dia de 2001 quebrou, fechou as portas sem nenhum aviso, deixando os clientes atônitos, e a pé, mas com os carnês pagos nas mãos.

terça-feira, 9 de julho de 2019

As Oliveiras

Não é exagero, elas se espalham por toda a Andaluzia. Estão às margens das rodovias, nas ondulações das montanhas, nos parques e nos quintais das casas. Podem ser vistas enfileiradas nas grandes e recentes plantações ou reunidas em grupos centenários esquecidos ao longo dos caminhos. 

Não houve um só dia, durante a viagem, que não tivéssemos topado com dezenas de oliveiras. Fossem de outra espécie - mais altas, vistosas ou cheirosas -, poderia até pensar que buscam a atenção dos passantes, exibindo-se em batalhões impossíveis de ignorar. Mas, ao contrário, as oliveiras são discretas, contidas, cientes de sua tarefa produtiva. Quando recém-plantadas, ainda em mudas ou em pequenos arbustos, carecem de todo o cuidado para que suas frágeis estruturas consigam vingar. Conformam-se às estacas e aos moldes, e colaboram obedientes. As plantas jovens, com seus ramos magros, contrastam com os espécimes adultos, adaptados ao calor, solidamente assentados nos terrenos rochosos, os troncos domados pelas podas frequentes. 

Tomei-me de amores pelas antigas oliveiras, tão parecidas com idosas senhoras: os mesmos corpos arredondados, sem muita elegância; membros entortados, articulações disformes, talvez por força de alguma artrose; cabelos acinzentados e opacos. Parecem nunca estar sós, as centenárias mulheres-oliveiras. Reúnem-se com as companheiras para longas conversas, placidamente acomodadas em suas poltronas, o que lhes confere ainda menor estatura. Seguem envelhecendo em paz com cíclica sabedoria. Tive vontade de me aproximar das árvores anciãs, e de lhes sussurrar segredos, e de lhes pedir conselhos, como faria com as mulheres mais velhas da minha família.

Quando chegamos à Provence, onde os olivais são vizinhos dos vinhedos, descobri que, além de mim, também Van Gogh tinha se envolvido neste jogo de interpretação, impactado pelas tonalidades mutantes das oliveiras e de seu entorno. Seguindo Vincent por Saint-Rémy, e bisbilhotando a sua correspondência, encontrei confidências sobre o difícil processo de capturar árvores tão originais. Ao seu irmão Theo, descreveu as incríveis gradações das folhagens - de verdes e azuis, de prata e ouro -, e as nuances de brancos, amarelos, rosas e alaranjados produzidos na composição com o céu, o sol e o solo. E relatou que, embora reconhecesse a dificuldade da tarefa, continuaria a pintar na esperança de, um dia, talvez, conseguir produzir uma impressão pessoal dessa paisagem.

Durante o período de um ano em que esteve internado no sanatório Saint-Paul de Mausole, Van Gogh pintou uma série de quase vinte telas sobre o tema. Eu, como não tenho a menor intimidade com as ferramentas das artes plásticas, não me atrevo nesta seara. Para interpretar as caprichosas oliveiras, e todas as outras coisas do mundo, me valho só das palavras, e das composições que consigo criar com elas. Reconheço a dificuldade da tarefa, mas, como ele, não desisto de tentar.

Para ver outras imagens, clique em: Galeria de Fotos- As Oliveiras, Van Gogh Série Oliveiras

Para saber mais sobre a viagem, leia também: Duas Viagens

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Na Rede:
  •  The Vincent Van Gogh Gallery - Catálogo completo e on-line das obras e cartas 

domingo, 23 de junho de 2019

Duas Viagens

Programar duas viagens em seguida, num espaço de dois meses, foi uma baita ousadia –ousadia para o corpo, combalido pelas décadas de uso, e também para o bolso. Aconteceu por acaso, sem nenhum planejamento, e por culpa do Atacama que, preterido em outras ocasiões, correu para o início da fila e fincou pé logo ali no mês de abril. E, como cismei que viagem à Europa que se preze tem que ser na primavera, de preferência em maio, o jeito foi encarar a dobradinha.

Ainda estávamos na Espanha quando comecei a perceber que, embora próximas no tempo, as duas viagens seriam bem diferentes, mas, mesmo tão distintas, se tornariam especialmente complementares. 

As diferenças foram mais fáceis de ver. Na vastidão intocada do deserto, a Natureza grita com toda a sua força. É a Terra despida de qualquer adereço cultural, uma amostra de como seria o planeta caso a espécie humana não tivesse vingado por aqui. Já do outro lado do mundo, no Velho Continente, o protagonismo é da História, essa força construtora e contínua, exercida por cada indivíduo em seu grupo social num determinado tempo, e ao longo dos séculos. Modos de vida que se estabeleceram e se modificaram de acordo com necessidades e interesses, sujeitos às disputas, aos acordos e às resignações. 

Quando as duas experiências – Natureza e História - começaram a se entrelaçar na minha mente, um novo filtro interferiu no meu olhar de viajante, uma espécie de óculos com lente multifocal. Interpretei a Andaluzia, a Provence e a Côte D’Azur por meio dele. Cidades encarapitadas sobre penhascos, pontes antiquíssimas de pedra, sofisticados arabescos, danças e músicas emocionantes, pinturas ensolaradas, todas essas expressões da ação humana foram temperadas pela compreensão da nossa enorme insignificância diante das forças naturais. Olhando por outro ângulo, no entanto, não é justamente esta pequeneza que confere à humanidade um atestado de fortaleza? Afinal, cidades encarapitadas sobre penhascos, pontes antiquíssimas de pedra e as várias manifestações artísticas são exemplos do monumental trabalho que fomos capazes de desenvolver, apesar das condições adversas.

Sem esquecer dos dramáticos períodos vividos ao longo dos tempos, em que a natureza mostrou a sua fúria e os seres humanos viveram toda a sua irracionalidade, fiquei com a feliz sensação que nosso saldo civilizatório é positivo. Sentimento bom pra carregar na mochila em cada dia da viagem, mas ainda melhor pra trazer na bagagem de volta pra casa. Se o que vejo hoje à minha volta me aflige, se identifico um difícil período de desesperança, pego meus óculos com lente multifocal e confio na nossa capacidade de transformar pequeneza em fortaleza. Assim me ensinaram as duas viagens.

Ronda - Andaluzia - Espanha
Pont du Gard - Remoulins - França
Palacios Nazaríes de La Alhambra de Granada – Espanha
Dança Flamenca - Sevilha - Espanha
Campo de trigo com ciprestes/Oliveiras com sol amarelo - Van Gogh
St-Rémy-de-Provence – França

terça-feira, 23 de abril de 2019

La Naturaleza

Quarto dia de passeio no Atacama. O pequeno grupo de passageiros tem como destino as Lagunas Andinas. A van segue cordilheira acima. Primeira parada: café da manhã aos pés do Vulcão Licancabur, aqui excepcionalmente alinhado a seu companheiro Juriques. O guia discursa sobre sua admiração por “la belleza del paisaje”. Tomo mais um gole do quente chocolate, e concordo silenciosamente. 
Subimos um pouco mais, acompanhando a Ruta 27. Parece que nada cresce ao longo do caminho, só tons de marrom e cinza. Pedras de vários tamanhos se amontoam num arremedo de vegetação. Para desmentir as aparências, a van estaciona diante da Laguna Diamante, o Vulcão Pili refletido em suas calmas e verdes águas. O guia nos ensina sobre “los intensos colores”. Sento-me às margens da lagoa e aprendo, aprendo cores e formas. 
Mais um trecho de viagem e o topo do passeio se apresenta. A cabeça estranha os 4.800 metros acima do nível do mar, é difícil compreender as grandes esculturas rochosas. Lembram faces e corpos a postos, prováveis defensores do deserto. O guia revela seu profundo respeito por “los centinelas y las culturas ancestrales”. Ao lado dos Monjes de La Pacana, sinto-me tão miúda!
A última parada do passeio não está longe. Em poucos minutos, alcançamos o Salar de Aguas Calientes. Desço da van com o celular em punho e procuro o melhor ângulo para as fotos. Sem perceber, ponho-me de joelhos na busca do enquadramento ideal. Ali, no chão, diante da beleza impossível de capturar, uma grande emoção me invade. Os versos da canção de Violeta Parra ecoam dentro de mim: gracias a la vida que me ha dado tanto...e ficam se repetindo, se repetindo, naquele curto período de agradecimento e celebração. Levanto-me enxugando as lágrimas, sinto-me abençoada, mas, ao mesmo tempo, meio sem graça pela exposição. Ouço a voz do guia a se solidarizar comigo. Não há como escapar da força de “la naturaleza”.


Gracias, Genaro (guia) e Óscar (motorista), profissionais apaixonados pelo Atacama, pela incrível experiência nas Lagunas Andinas.

Para ver outras imagens, clique em: Galeria de Fotos- La Naturaleza

Para saber mais sobre a viagem, leia também: 1 Enfim, o Atacama; 2 Licancabur, Seu Lindo!

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Na Rede:
  • Gracias a La Vida tornou-se a principal canção da minha playlist no Atacama. A compositora e intérprete, Violeta Parra, era chilena, mas, para mim, a mais emocionante gravação é a da argentina Mercedes Sosa.   https://www.youtube.com/watch?v=WyOJ-A5iv5I

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Licancabur, seu lindo!

Não fosse ele um vulcão, seria o macho alfa do pedaço. Orgulhoso e exibido, insiste em se apresentar sempre à frente de seus companheiros. A forma cônica bem proporcionada e os sulcos longilíneos que lhe escorrem pelas faces transformam o brutamontes de quase 6 mil metros de altitude em uma figura elegante no horizonte. 
Onipresente na região de San Pedro, alimenta-se das interjeições (tantos ohs! e uaus!, entre outros elogios) que preenchem os ares, pois não há um único ser que resista aos seus encantos. Desconfio que toda esta bajulação tenha graves consequências na personalidade do vulcão, já chegado a uma egotrip. Em vez de cinzas e lava, em caso de erupção, é bem capaz dele derramar um estrondoso brado, que será ouvido por todo o Atacama: Li-can-ca-burrr! Sou liiin-do!


Para ver outras imagens, clique em: Galeria de Fotos- Licancabur, Seu Lindo!

Para saber mais sobre a viagem, leia também: 1 Enfim, o Atacama; 3 La Naturaleza

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Enfim, o Atacama

Visitar o deserto do Atacama era um desejo antigo, muitas vezes adiado por medo. Sim, medo. Além dos medos normais que me pegam pelo pé antes de qualquer viagem – medo do incerto, do incontrolável, do que pode dar errado – o de mais impacto, neste caso, era o medo da altitude. 
Não é um sentimento muito antigo, começou em 2015, no Peru, quando conhecemos o soroche. O mal de altitude mostrou-se por completo, sem nos poupar de qualquer sintoma: no Mário, dor de cabeça e cansaço; em mim, batimentos cardíacos totalmente descontrolados. Meu coração que, ao nível do mar, costuma pulsar em ritmo de Bossa Nova, em Cusco resolveu seguir os compassos de Samba Enredo. Foram necessários quatro anos, muita conversa com outros viajantes e a opinião do cardiologista da família para que superássemos o medo das alturas. Regressamos de San Pedro de Atacama na semana passada com a coragem revigorada na mala. Medo? Que medo?
Decisão tomada, a viagem foi planejada cuidadosamente a partir de duas premissas: evitar o período de chuvas (sim, pode chover num dos desertos mais secos e áridos do mundo durante o inverno altiplânico, que vai de dezembro a março); e aproveitar os dias de lua nova para que nenhuma luz pudesse ofuscar a observação do céu. Plano traçado, passagens compradas, desembarcamos, cheios de expectativas, em San Pedro no dia 03 de abril, uma quarta feira à tardinha. 
Duas horas depois da nossa chegada, sabe o que aconteceu? Choveu! Choveu forte! Choveu a ponto de enlamear as ruas do povoado. O tempo fechado provocou a primeira baixa: o tour astronômico foi cancelado. Após o jantar, voltamos ao hotel driblando as poças, tentando espantar a decepção e lamentando a falta de sorte. Durante a noite, os deuses atacamenhos devem ter se compadecido de nós e decidido afastar cada uma das nuvens carregadas. O restante da semana se passou com sol e céu azul. A chuva, a última da temporada, transformou-se em neve nos picos da Cordilheira. Chuva branca e linda de se ver. Muita sorte a nossa!
Laguna Miscanti
Vista da Cordilheira a partir de Pukará de Quitor
Vicunhas pastando no caminho para as Lagunas Altiplânicas

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

ZDP

- Lembra o que eu te expliquei sobre a zona de desenvolvimento proximal? – pergunto assim, sem mais nem menos, ao Mario, sentado na poltrona ao meu lado. 

- Ahn?? - retruca ele, afastando o fone de um dos ouvidos, mas sem tirar os olhos da telinha em frente. 

- Zo-na de de-sen-vol-vi-men-to pro-xi-mal, - repito pausadamente - um dos conceitos de Vygotsky que mudou a minha cabeça de pedagoga... Lembrou? 

- Ah! Tá! - digna-se ele a responder, para logo em seguida reacomodar o fone e voltar toda a sua atenção para a sequência de imagens animadas na TV. 

Na falta de interlocutor, e aproveitando o tédio das longas horas de viagem no avião, dediquei-me a investigar por que a teoria do Vygotsky havia assim, sem mais nem menos, assaltado meus pensamentos. Relembrei os estudos no mestrado em Educação na PUC e o quanto as contribuições do psicólogo russo me valeram como professora e supervisora pedagógica na Educação Infantil. Em especial o tal conceito de zona de desenvolvimento proximal (ZDP): a distância entre o nível de desenvolvimento real da criança, medido pelos conhecimentos que ela domina com independência, e o nível potencial, aquilo que está prestes a aprender, mas só consegue realizar com a colaboração de um adulto ou de um colega mais capaz. Assim, a maior alegria que Vygotsky me proporcionou - tratando-se não só das crianças, mas de qualquer indivíduo aprendiz - foi a compreensão do aspecto social da aprendizagem, da importância do outro como mediador da aquisição de novos saberes. E, como consequência, o fim da necessidade de se fazer silêncio e aprender tudo sozinho, princípios, até então, inquestionáveis da educação tradicional. A aprendizagem, como a vida, é a arte do encontro. 

Pronto! Está aí o fio que me reconecta ao devaneio do início do texto. Em nenhuma outra viagem foi tão marcante a presença de companheiros mais capazes a nos orientar, a simbolicamente deixar as marcas no chão e nos dizer: vão por aqui, o caminho é mais bonito. Pessoas que, carinhosamente, se desdobraram para compartilhar experiências de vida, na Inglaterra e na Escócia, e rechear a nossa própria viagem com momentos que, sozinhos, não teríamos condições de vivenciar.
Londres é uma cidade que proporciona caminhadas muito boas – escreveu-nos Marcelo na sua carta-depoimento de ex-morador, incluindo dezenas de pistas sobre como desbravar a capital inglesa. Seguindo os seus passos, cruzamos a pé os bairros de Kensington, Mayfair e Marylebone, acompanhamos o Tâmisa em Southbank e nos encantamos, como vocês já sabem, nos passeios pelos parques verdes. Para ouvir boa música, e a preços não tão salgados, a dica era a programação da igreja St Martin-in-the-Fields. E lá fomos nós, num anoitecer de sábado, apreciar Vivaldi e suas Quatro Estações, além de conhecer outras peças para violino de Bach, Mozart e Pachelbel. No quesito refeições, as sugestões ajudaram a nos manter bem alimentados sem abalar substancialmente as finanças. Côte Brasserie tornou-se a nossa rede de restaurantes predileta, com a facilidade de encontrarmos uma filial em qualquer lugar da cidade. Embora não estivesse presencialmente conosco, Marcelo foi lembrado a cada nova experiência como um indispensável mentor.
Mais que companheiros de viagem, Ângela e John foram nossos “pares mais capazes” em incontáveis situações. Uma das mais marcantes pra mim foi caminhar, nos arredores de Oxford, por campos floridos, entre criações de ovelhas e plantações de canola para, ao final do trajeto, jantar no pub The Nut Tree. Sem eles, nem saberíamos que os proprietários de áreas rurais são obrigados a deixar trilhas livres para pedestres e teríamos, com certeza, receio de cruzar as porteiras do caminho.

Será que teríamos tido coragem, e competência, para nos hospedar em um chalé-moinho no meio das Trossachs – cadeia de montanhas separando as Terras Altas das Terras Baixas na Escócia? Aprendendo junto e trabalhando em colaboração, abastecemos a lareira, dominamos o aquecimento elétrico, cozinhamos, comemos e bebemos, ouvimos diferentes histórias, fizemos muitas perguntas e demos boas risadas.
E o que dizer dos piqueniques nos mais aprazíveis e improváveis lugares? Das proximidades da muralha de Adriano às margens dos lagos escoceses; com o lanche arrumado nas tradicionais mesinhas de madeira ou displicentemente disposto na toalha xadrez inspirada nos tartãs escoceses.
Foram tantas as experiências de aprendizagem nas quais a nossa zona de desenvolvimento proximal foi acionada nesta viagem que é impossível condensá-las num só texto. Não sei se o Moska, compositor carioca, conhece a teoria de Vygotsky, mas hoje escutei uma antiga música dele que, numa interpretação livre, explica de modo poético a nossa vivência. “Gosto quando olho com você o mundo. E gosto mais do mundo quando posso olhar pra ele com você”.

Obrigada, Ângela, John e Marcelo, por nos emprestarem o olhar.


Para ver outras imagens, clique aqui: Galeria de Fotos - ZDP
Para saber mais sobre a viagem, leia também: 1- Viagens e Histórias; 2- Elegância Verde

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Elegância Verde

Foi no início da viagem que a minha mania linguística começou a se manifestar. Era só cruzar uma rua arborizada ou avistar um pequeno jardim, que eu já concluía: “Como Londres é verde!”. Circulando pelas praças e pelas áreas externas dos museus, não me cansava de constatar: “Londres é tão verde, né?”. Mas eu realmente fiquei repetitiva nas visitas aos grandes parques da cidade. É que Londres tem uma coleção excepcional de espaços amplos, e verdes, e belamente planejados, disponíveis para a fruição das pessoas nos mais diferentes bairros. Muitos deles são chamados de parques reais por terem sido propriedades dos monarcas, e de uso exclusivo de seus familiares e amigos. Com o passar do tempo e o crescimento da área urbana, eles foram sendo, para a felicidade geral, incorporados à vida da população.

Um dos meus parques preferidos foi o Regent’s Park, com amplos gramados, trilhas para caminhada, um enorme lago repleto de aves e peixes, e jardins floridos dentro de outros jardins floridos. Já o Mário caiu de amores pelo St James’s Park, encravado entre palácios, numa das áreas mais clássicas da capital. Árvores majestosas, patos e marrecos, flores de todas as cores e alamedas sombreadas acolhem os visitantes. Olhando a vista do parque ao cruzar a ponte, logo entoei o bordão: “Que lindo! Londres é muito verde, mesmo!”.

St James's Park
Ainda visitamos o Holland Park, invadido por londrinos esticados no gramado ensolarado, e o Kensington Gardens que, além de toda beleza natural, também abriga fontes, estátuas e um memorial em homenagem à princesa Diana. Em cada passeio, as mesmas exclamações verdes me acompanhavam.

E de nada adiantou a Ângela, brasileira há anos morando na Inglaterra, e especialista em árvores e jardins, explicar que, tivesse eu chegado dois meses antes, durante o inverno, veria tons de marrom e cinza predominando na paisagem, e não toda a exuberância que me cativou. Ouvi o discurso com atenção, mas, teimosa, insisti: “Sabe que eu estou impressionada como a cidade é verde!”.

Depois de nos despedirmos de Londres, rumamos para o centro da ilha, e, embora o verde não tenha perdido lugar nas minhas manifestações, precisei temperá-lo com o amarelo das plantações de canola, o branco das centenas de ovelhas e o multicolorido das flores silvestres que se alastravam em meio aos prados. Nesta região rural, tudo me pareceu perfeitamente ordenado: árvores e arbustos em conjuntos harmônicos distribuídos pelos campos; ondulações discretas de altitude; sólidos muros de pedras riscando os espaços. “Que elegância tem o verde da Inglaterra!”, passei a analisar. Foi quando notei que um novo conceito tinha se intrometido na minha percepção, e na minha linguagem.
Avebury Stone Circle
Na volta da viagem, relendo Os Vestígios do Dia, de Kazuo Ishiguro (Prêmio Nobel de Literatura de 2017), descobri que tenho companhia nesta admiração pela natureza inglesa. O mordomo Stevens, personagem do romance, relata o quanto a beleza dos campos o impactou:

“Cheguei, então, a uma pequena clareira — sem dúvida, o local a que o homem havia se referido. Aí deparei com um banco, e, de fato, com uma vista das mais maravilhosas, dominando quilômetros e quilômetros de campos em torno. O que se via era sobretudo campo sobre campo, rolando até a distância. A terra subia e descia suavemente, e os prados eram delimitados por moitas e árvores. Em alguns lugares distantes havia pontos que supus que fossem carneiros.” (p.36)
Vista da Broadway Tower - Cotswolds
O que eu identifiquei como elegância na paisagem da Inglaterra, Stevens caracteriza como grandeza. “E, no entanto, o que é exatamente essa grandeza?”, pergunta-se ele, para logo em seguida responder:

“Diria que é a própria ausência de drama ou espetaculosidade óbvios que distingue a beleza da nossa terra. O que é perfeito é a calma dessa beleza, a sensação de contenção. Como se o país soubesse da sua própria beleza, e não sentisse nenhuma necessidade de proclamá-la.”(p.39)

Na narrativa de Ishiguro, recordei a minha jornada pelos discretos cenários ingleses, mas senti muita pena por Stevens não me acompanhar no restante da viagem pela Grã-Bretanha. Por força da profissão e do temperamento, ele não se afasta da familiaridade confortável da mãe-pátria. 

Fiquei curiosa sobre o que diria o formal mordomo ao se deparar com o exibicionismo das paisagens da Escócia: dramáticos vales, latitudes extremas, terras altas e tanta fartura de água. Talvez se escandalizasse diante da falta de comedimento escocês, ou, quem sabe, secretamente invejasse os arroubos das terras desavergonhadas dos vizinhos ao norte.


Para ver outras imagens, clique aqui: Galeria de Fotos - Elegância Verde

Para saber mais sobre a viagem, leia também: 1- Viagens e Histórias ; 3- ZDP