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domingo, 25 de abril de 2021

Choradeira

Eu chorava. E muito. Às vezes, o escarcéu começava ainda em casa quando eu desconfiava das intenções da minha mãe. Devia ser o rosto mais tenso dela, os gestos apressados ou a conversa curta no café da manhã. Lágrimas aos borbotões e pedidos de clemência não a comoviam, e só me restava a estratégia final. Escondia-me atrás da cortina, acreditando que, se eu não visse o perigo, o perigo também não me veria, e iria bafejar o seu hálito desagradável no cangote de outra criança. Demorei pra compreender o fracasso dessa lógica embora, ainda hoje, caia na tentação de fechar bem os olhos e esperar que o coração não sinta as agonias da vida.

Mas também acontecia de eu sair, inocente, para um passeio matinal e só começar a entender a situação lá pela esquina das ruas do Catete e Silveira Martins. Era por ali também que a minha mãe apertava o passo e só parava no portão do posto de saúde, onde poderia contar com a ajuda dos funcionários para domar a filha que começava a espernear. Agulhas eram o meu pavor. Dia de vacina, um verdadeiro tormento. O berreiro, no entanto, nunca teve efeito prático, pois a vacinação era um valor materno inegociável. Pode chorar, mas vai ter que encarar a injeção.

Como os adultos não costumam ser muito generosos com os medos das crianças, o meu desespero virou folclore na família. O caso mais emblemático aconteceu na campanha de vacinação contra a meningite, eu já entrando na adolescência. Em vez da mãe, acompanhou-me uma tia e a prima da mesma idade. No caminho, foram me tranquilizando: eu nem veria a agulha, a pistola de ar comprimido faria o serviço, sem dor e com rapidez – pá, pum, outro braço, por favor. Enfrentamos as filas no Maracanãzinho, o vai e vem das pessoas, o calor do dia, até que finalmente tomei, com os olhos secos, a dose que me cabia. A vitória durou pouco. Já na saída do estádio, fui ficando tonta, tonta, e pálida. Minha tia, apavorada que eu desmaiasse bem no meio da rua, fez com que nos sentássemos no meio-fio. Um senhor, sensibilizado com a cena, parou o carro e nos ofereceu carona. Desde então, em conversas ao longo da vida, nós rimos ao lembrar que fomos salvas por um cavaleiro andante, montado em seu garboso fusca verde.

Com o tempo, fui aprendendo a dominar o medo, a tranquilizar o espírito, e as agulhas pararam de me fazer chorar, dando espaço para novos sentimentos: caí de amores pela minha caderneta de vacinação. Nela coleto, orgulhosa, os carimbinhos das injeções contra febre amarela, tétano, hepatite, gripe. Quinta-feira passada, recolhi o meu mais esperado troféu. A fila pequena e bem organizada da Clínica de Família Santa Marta quase não me deu tempo para refletir sobre a importância do momento, mas foi só bater os olhos no pequeno cartaz grudado na parede - Viva o SUS, Viva a Ciência Brasileira – para ser tomada pela emoção. Segurei as lágrimas enquanto registrava telefone e CPF, e meus olhos chegaram até a sorrir no instante exato da vacinação. Na porta da rua, porém, não consegui fugir da choradeira.

domingo, 2 de agosto de 2020

O Caso do Zé Armênio

Vem, minha filha, senta aqui pertinho de mim, mas antes chama os meninos, que eu quero contar uma história que aconteceu há muito tempo, eu ainda não era nascida, nem a minha mãe. Foi o meu bisavô que ouviu dizer sobre as aventuras de Zé Armênio, e contou pro meu avô, que contou pra mim quando eu era criança. A gente sentava em volta da fogueira e ele dizia: hoje eu vou contar a história do escravo mais tinhoso e retinto da fazenda.
Olha, agora faz de conta que eu acendi o fogo aqui bem no meio da sala, está ficando mais quente, sentiu? Foi assim que o menino nasceu, junto ao crepitar do carvão em uma noite escura, numa beira de rio perto da senzala. E foi o bebê escapulir da barriga da mãe, arregalar os olhos e começar a berrar um choro dos infernos. O pai, aflito com o chororô (pois se o sinhô acordasse...), banhou o menino nas águas do rio pra ele se acalmar. Dizem que foi a correnteza mansa que operou o milagre e, ao mesmo tempo em que o menino calou, sentiu o gosto pelo livre viver, sem que nenhum ferro o prendesse, sem que nenhuma gente o alcançasse, sem que nenhum tempo o escravizasse. 

Zé Armênio cresceu solto pelas terras da fazenda e ninguém podia com suas diabrites. Mamava nas cabras; subia até o último galho das árvores; usava estilingue pra azucrinar os cavalos; escondia a enxada e a foice dos trabalhadores – era arteiro como o próprio Saci-Pererê, só que completo das pernas. E também tinha a esperteza do Curupira, sumia das vistas do capataz que vivia atordoado atrás dos seus rastros. E nunca, nunquinha, chegou a trabalhar, nem na mais simples tarefa. 

Quando o rapaz fez treze anos, começou a se sentir preso naquele território cercado da fazenda. Abriu a porteira e botou o pé no mundo. Os pais não estranharam o sumiço do filho, com certeza ele ouvira o chamado da correnteza que o batizara. Souberam que ele andava pelas terras vizinhas como mascate, vendendo panelas, cortes de tecido e sabão em barra. Mas muita gente dizia que, só pra se divertir, roubava de uns e vendia pra outros, e gastava todo o dinheiro na taberna mais próxima. Foi neste tempo de atrevimento que conheceu as três mocinhas com quem se amasiou, tendo tido casa com cada uma delas, e gerado treze filhos, todos devidamente batizados nas águas dos rios da região. E os filhos, como o pai, seguiram livres por aquelas terras. 

Os anos correram e Zé Armênio, adiantado na idade, começou a se sentir aprisionado naquele corpo de homem velho. Entendeu que, desta vez, de nada ia adiantar abrir a porteira e sair pelo mundo. Resolveu, então, encurtar o mundo, condensar o mundo no seu menor tamanho. Entocou-se numa caverna e lá passou a viver sem que nenhum ferro o prendesse, sem que nenhuma gente o alcançasse, sem que nenhum tempo o escravizasse. 

Homem e caverna se entrelaçaram de tal modo que já não se reconheciam em separado. E embora Zé Armênio benquisesse cada um de seus dias, em qualquer estação do ano, eram as noites que o faziam sentir-se em total harmonia com a sua natureza de bicho livre. Acostumara-se ao escuro: distinguia as sombras, ouvia a presença dos morcegos, farejava o orvalho que adentrava pela boca de pedra. Tateava as paredes e as considerava como seu próprio corpo. Sabia que, em meio às trevas, ninguém seria capaz de invadir a casa. A exceção eram as noites de lua cheia, aquele imenso farol desnudando suas entranhas. 

Foi numa dessas noites que ele pressentiu o perigo: um leve deslocar dos ares, talvez um bater de asas; um cheiro ácido que desconhecia orvalho; um vulto claro-escuro a espreitar o espaço. Zé Armênio não demorou a reconhecer a feroz inimiga de sua liberdade e, apavorado, se encolheu num canto. Um formigamento estranho lhe alcançou os pés, subiu-lhe devagar as pernas, tornou-se quente ao encontrar o ventre, ao espalhar-se às costas. O homem levantou-se num ímpeto, mas se viu sem pés, sem pernas... e sem ar. Uma sufocação tomou-lhe o peito; cambaleou entre as pedras e caiu de borco. Chegou a imaginar os verdes e os amarelos das plantações, vislumbrou os rebanhos brancos e marrons, mas, por fim, as cores foram se perdendo, uma a uma, no sumidouro da inconsciência. Zé Armênio quedou-se inerte, flácido, e deixou-se levar pelo vulto claro-escuro. 

Naquela noite, houve quem jurasse ter passado perto da caverna e visto a morte, tal qual uma pietá macabra, carregando o velho em direção ao rio. E que os dois desapareceram tragados pelo clarão de uma das luas mais lindas já vistas por aquelas bandas. 

O meu avô sempre terminava a história pedindo pra gente olhar em volta, além do clarão da fogueira, pra descobrir os rastros do Zé Armênio, pois, com certeza, o homem conseguira se livrar da morte e andava livre pelas matas, amigo do Saci-Pererê, comparsa do Curupira. 

Então, vem, minha filha, segura na mão dos meninos e vamos ao encalço do escravo mais esperto da fazenda. Faz de conta que a gente achou.

Fogueira - Foto de Clara Pereira 

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Exercício de escrita do curso Texto Puxa Texto
da Estação das Letras, coordenado pelo professor Juva Batella.

sábado, 11 de abril de 2020

Enclausurado

À moda de Ian McEwan, 
em homenagem à genialidade do escritor

Estamos no mês de junho, eu sei. E não é porque minha mãe costuma comentar o calendário com o meu pai, naquela contagem regressiva típica das grávidas, mas pela alteração do indicador de velocidade de subida – o tempo que levamos, eu e ela, para galgar as escadas do térreo ao quarto andar e entrar no nosso apartamento da Rua Tonelero. Hoje, o percurso escada acima alcançou um índice maior em relação à semana passada. Eu percebi a mudança pelo balançar lento dos líquidos que me envolvem, pelas paradas mais frequentes, e por tê-la ouvido resmungar com a vizinha que eu, esse fardo extra que é obrigada a carregar dentro dela, ando engordando demais ultimamente.

Pudera, cansada dos comentários maldosos sobre ter mantido o peso nos primeiros meses, o que indicaria um desleixo comigo, minha mãe decidiu providenciar o certificado de boa reprodutora abandonando o shape alongado e assumindo a silhueta de fêmea prenha que se preza. Eu ainda era um minúsculo embrião, com poucas semanas de vida, mas recordo-me aterrorizado dos fortes espasmos que me sacudiam, das convulsões abruptas e imprevisíveis. E de como, a cada evento deste tipo, eu acompanhava o movimento em disparada dos passos maternos e ouvia uns grunhidos estranhos. Os sons de líquidos se derramando sobre líquidos me acalmavam, pois antecipavam o alívio da revolução interna. Com o tempo aprendi a confiar na minha avó, em seus vaticínios de que os enjoos e vômitos tinham data certa pra terminar, dali a um ou dois meses, o que de fato aconteceu. Pelas conversas que testemunhei, a elegância do corpo de minha mãe, açoitado pelos incômodos digestivos, só agradava ao meu pai, um pouco enciumado pela concorrência comigo. Recuperada, ela decidiu que se lançaria na busca dos quilos socialmente aceitáveis na sua condição.

O problema é que a comilança trouxe outras consequências, além da subida lentíssima dos quatro lances de escadas. O barrigão de minha mãe passou a disputar espaço com o meu pai e o meu avô no pequeno apê de Copacabana – sala, quarto, banheiro e cozinha –, surrupiando o conforto de ambos. O velho senhor, que havia abrigado a contragosto os recém-casados de poucas posses, viu-se exasperado. Num espaço antes ocupado por um só ser vivente, agora existiam quatro, sendo que ele me considerava um feto mimado e sem limites. Gerador de uma prole numerosa, não via nenhum sentido nos paparicos de minha mãe, marinheira de primeira viagem. A vingança de meu avô atingiu em cheio o cerne da questão: interrompeu o fluxo livre de mercadorias que recebia dos clientes como agradecimento pelos seus préstimos profissionais. Peças de bacalhau, caixas de bombons, latas de doces cristalizados, entre outras delícias, passaram a ser malocadas no guarda-roupas do velho e não mais socializadas com a família. A iniciativa, frustrada, ainda causou um grande mal estar na convivência dos três. Eu adotei a sábia medida do distanciamento, não sou de tomar partido.

Foi mais ou menos nesta época que comecei a perceber os comentários da minha mãe sobre a necessidade de nos mudarmos, sobre o seu desejo de ter mais espaço e liberdade numa casa que pudesse administrar do seu jeito. Tinhosa que só, passou os últimos meses nesta catequese. Aguardava o final do jantar e, logo que meu avô se distraía com o noticiário no rádio, começava a pregação. Nem sempre eu conseguia ouvir bem suas palavras pelo tilintar da louça sendo lavada ou pelos sons da programação, mas podia sentir a circulação volumosa do seu sangue me envolvendo na medida em que se empolgava com o discurso. Tenho a impressão que meu pai já concordou, pois ontem pude capturar fragmentos da conversa: “tem elevador”, “bairro do Flamengo”, “o quarto do bebê”... 

Confesso que concordo com minha mãe, entendo as dificuldades dos cômodos acanhados e da falta de liberdade para ir e vir. Sinto que a minha habitação, um conjugado sem divisórias que até já me pareceu amplo e confortável, está sofrendo uma reforma às avessas: paredes tornam-se mais espessas, portas, mais estreitas, surgem cantos desnecessários e inacessíveis. Ando esbarrando em mim mesmo, sinto-me enclausurado. Paciência, digo-me num mantra de final de jornada. Paciência, pois, afinal, estamos em junho. E em mais um mês estarei livre!

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Texto produzido para o curso Autoficção: Oficina de Memórias, da Estação das Letras, coordenado pela professora Ana Letícia Leal.
  • A narrativa nasceu de uma pesquisa sobre as casas em que morei. Jurava que minha primeira morada no mundo tinha sido em Copacabana, mas estava errada. Meus pais viveram na Rua Tonelero durante o período da minha gestação e, logo que saí da maternidade, fui para um apartamento no Flamengo.
  • Como o gênero é de Autoficção, quer dizer, o escritor tem liberdade total para tornar ficção o que é memória, resolvi embarcar nesta viagem intrauterina. E me vali da estratégia incrível de Ian McEwan, que, no romance Enclausurado, usou o feto como narrador. Mantive o mesmo título do livro de McEwan para enfatizar o recurso de intertextualidade.

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Na Rede:
O podcast da Companhia das Letras tem um episódio dedicado ao livro Enclausurado. Além da conversa sobre o romance, aproveite a leitura de trechos feita pelo Wagner Moura. Imperdível!
Rádio Companhia #85  (link para o Spotify)

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Alice no Maravilhoso País das Palavras

Alice tem 7 anos e, desde bem novinha, já sabíamos que ela era muito amiga das palavras. Aprendeu a falar antes do tempo regulamentar e logo passou a nos surpreender com expressões e concordâncias sofisticadas, usadas para se comunicar e se fazer presente no mundo real. Aos 3 anos, lançava mão de todos os seus recursos verbais para inventar histórias mirabolantes, geralmente com bichos, e houve um tempo em que um amigo imaginário era figurinha fácil nas suas narrativas.

Agora, que está se alfabetizando e percebendo a relação da fala com a escrita, a danada resolveu escrever histórias e, esta semana, decidiu experimentar o gênero poesia. Ela me contou que seu processo de criação exige sossego e concentração e, para isso, recolhe-se ao seu quarto. Na porta, coloca uma plaquinha vermelha indicando não querer ser interrompida.
  
Quando li a sua mais recente produção, tive certeza que o manuscrito deveria ser publicado no Blog. A autora, felizmente, concordou com a ideia e ditou o título para que eu o incluísse no poema.

Alice não sabe, mas, com sua coragem de poetisa, me incentivou a buscar outras possibilidades literárias, para além das crônicas, gênero no qual me sinto mais confortável. Pode ser que eu me aventure, abra o coração e escreva um verso ou outro, e, de repente, me veja transformada em passarinho emocionado. Assim, iremos juntas, eu e ela, de mãos dadas por este maravilhoso país das palavras.




A Luz do Campo
                           Alice Oliveira

O passarinho canta
com magia e emoção
Só dá pra cantar
dentro do coração.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Gente da Serra (2) - Dona Ana e Seu Clarindo

Cruzamos a porteira da propriedade Brioschi quando rodávamos meio sem rumo pelas estradas à procura de estabelecimentos abertos em 1º de janeiro, dia bem ingrato para se fazer turismo. À frente das casas, numa cancha improvisada na rua de terra batida, um grupo de pessoas jogava bocha. Quase demos meia volta, constrangidos por atrapalhar o lazer da família em pleno feriado. Antes que escapássemos, um senhor interrompeu a partida e veio nos receber. Informou que a lojinha estava fechada, mas que teriam muito prazer em abri-la para que conhecêssemos o café gourmet, os laticínios e os defumados produzidos artesanalmente ali mesmo no sítio. E convocou a esposa para acompanhá-lo na tarefa. 

Pelo acolhimento do casal, descendentes de imigrantes italianos, e com a conversa correndo solta, o nosso embaraço foi dando lugar a uma sensação de bem estar. A mim, mais que isso, senti uma empatia pela história de vida de Seu Clarindo e Dona Ana - a lida no campo, as dificuldades de se manterem com os recursos da produção rural, sem, no entanto, perder a alegria e o vínculo com a família. Ele, pele clara e faces muito coradas, lembrou-me meu avô Peixoto, fazendeiro e contador de causos, gentil e carinhoso como o Seu Clarindo. Quando comentei sobre esta semelhança, a voz ficou engasgada, mas me recuperei logo com outra provinha do defumado socol que a senhora me serviu.

Dona Ana, setenta e tantos anos, tem a força das matriarcas. Foi dela a ideia de, há mais de 2 décadas, inscrever a propriedade num programa de agroturismo, criado no município como alternativa de renda para os produtores rurais. Hoje, ainda trabalha duro nos cuidados da casa e na linha de produção, mas reserva as suas tardes para uma de suas mais queridas atividades – o contato com os turistas. Ela aprecia a companhia e a prosa com os visitantes, e, embora tenha um jeito mais tímido que o marido, foi nos contando sobre suas preferências políticas, sobre filhos e netos, preocupações e orgulhos. Reconheci nela o que vivenciei em minha própria família - a determinação e o poder das mulheres simples do interior. Convivi com tias queridas que resistiram às dificuldades da vida isolada e com poucos recursos, mantendo o afeto e a generosidade, vibrando com a visita de parentes e amigos. As minhas “Anas” chamavam-se Inah, Odette, Alice, Olinda, Honorina, Yá... 

Hora das despedidas, abraços apertados, palavras de agradecimento. Reunimos o café e os defumados comprados e recolocamos o pé na estrada. Circulando por lá, encontramos outras famílias tradicionais trabalhando juntas, além de nascidos na serra que, após um período de "exílio", voltaram a se estabelecer na região - como o Maurício, do Sítio dos Palmitos. Florescem pequenos negócios de produtos orgânicos e naturais, plantação de flores, apiário e cervejaria, tornando as localidades de Domingos Martins e Venda Nova do Imigrante destinos bacanas pra passear e viver.
imagem da Internet - www.folhavitoria.com.br



Em tempo: não choro mais pelo Patinho Feio! Com exceção da situação precária das rodovias (também no estado do Rio de Janeiro), a viagem pelo Espírito Santo foi de muito riso e alegria.

Para ver imagens dos locais visitados, clique em Galeria de Fotos - Serra Capixaba
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Na Rede:

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Dente Ruim

Era um dente ruim, abalado pelo tempo de uso. A cirurgia foi rápida: anestesia, corta, torce, extrai, costura. Vinte minutinhos e pronto. Dor nenhuma.

Pedi pra ver meu dente ruim. Olhei-o curiosa: raiz alongada, base em bloco com reentrâncias. Estranha parte de mim, assim fora do contexto original! Veio pra casa na bolsa, não pude aceitar seu destino cruel. Eu, no lixo!! Não!

Desde então, coloquei-o em destaque na escrivaninha, ao lado do computador. Encontro-o diariamente para um ritual de reconhecimento. Pego-o com cuidado, analiso as formas, as cores em seus claros e escuros, as marcas do boticão... Às vezes, me pergunto por que não o deixo ir. Concluo que não estou preparada, que gosto do dente ruim ali ao meu lado. Que mal pode haver? E o recoloco no lugar, de modo que possa vê-lo, e ele a mim. Apego sincero.

Joy também tinha um dente ruim, abalado pela falta de tratamento. A cirurgia foi ali mesmo, no Quarto. Na verdade, o dente foi se soltando... E a mão de Joy deu o golpe final. Sem anestesia, sem costura. Com alguma dor.

Jack pediu pra ver o dente ruim. Olhou-o curioso. Estranha parte da mãe, assim fora do contexto original. Guardou-o dentro da sua boca pequena, boca de cinco anos de idade.

Conheci Joy e Jack poucas semanas depois do caso com o meu dente.  No filme O Quarto de Jack, os personagens sobrevivem a anos de isolamento em minúsculo cativeiro. Um forte vínculo afetivo os livra da loucura e da morte. O poder simbólico do dente ruim reforça esta união. Os dois, sempre em dois.

Para Jack, no Quarto está tudo que existe: a cama, o armário, o tapete, os livros, a TV, o bolo de aniversário. O que não está lá, concretamente, habita a sua imaginação. Mas, dentro daquele ambiente precário, há o Mundo. Um rico mundo traduzido e construído por Joy, com o que ela considera essencial: literatura, arte, movimento, linguagem, organização.

Ali sentada no escuro, fiquei me perguntando sobre as forças que encorajam Joy no cativeiro. Além do amor pelo filho, base de toda a narrativa, vislumbrei, num momento de risada, a completa explicação. Dentro da boca de Joy também havia um dente intruso, suplementar, simbólico... Um dente ruim, daqueles que despertam apego sincero.


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Já tinha me planejado para ir ao Fórum de Psicanálise e Cinema da UNIRIO por diversas vezes, mas sempre acontecia um imprevisto. Finalmente, na última sexta-feira de agosto consegui assistir ao filme programado (O Quarto de Jack) e participar do debate com psicanalistas e professores da instituição. A partir desta experiência, o caso do meu dente ruim, ressignificado, acabou virando texto para o Blog.
http://www.unirio.br/news/forum-de-psicanalise-e-cinema-inicia-atividades-do-segundo-semestre

terça-feira, 7 de junho de 2016

Carta para Maria

Rio de Janeiro, 7 de junho de 2016.
Cara Maria,

Tive vontade de te escrever depois que li a coluna Carta para X. Fiquei tocada com a delicadeza com que tratou de um tema tão doído, e com a sua coragem pra expor sentimentos íntimos.

Pra começar, queria dizer que, em maio, estive em Inhotim, a galeria de artes e jardim em Minas. Você conhece? Achei lindo! Uma das instalações que mais me emocionou foi Através, do Cildo Meireles. É um labirinto de materiais com poder de interferir no nosso olhar - cortinas plásticas, grades de ferro, tecidos translúcidos, cercas, aramados... - dispostos sobre um chão de cacos de vidro. Dependendo do lugar em que nos coloquemos na grande galeria, conseguimos capturar alguns detalhes do ambiente, e somos incapazes de enxergar outros. É como na vida, os limites pessoais filtram a compreensão do mundo. O bacana é que nosso percurso é dinâmico e quase sempre acontece “algo” que nos ajuda a mudar a posição no “labirinto”. Através de seus olhos, Maria, de sua experiência pessoal, como mulher e escritora, reencontrei X, pude vê-la para além do seu corpo maltratado. 

Há tempos que não escrevo cartas, desde a adolescência, acho. Aos 13 anos, me mudei com a família do Rio para Vitória. Para diminuir a saudade e a tristeza pela separação dos amigos e parentes, vivia nos Correios e, sempre que possível, entrava num ônibus–leito da Itapemirim. Foram anos (e muitas cartas) até ter coragem e idade, principalmente coragem, pra sair de casa e voltar a morar no Rio. Talvez você tenha sido mais destemida pra enfrentar a vida... Imagino que sim. 

A família é o núcleo primeiro (e porto seguro) onde nos tornamos gente e, no nosso caso, gente do gênero feminino. Na minha, sempre vigorou o matriarcado – avó, mãe, tias com “couro forte” pra enfrentar as adversidades, responsáveis por manter a estabilidade de filhos e maridos. Pra completar, meu pai tinha um discurso recorrente: moças têm que se dar o valor! Segui os modelos e vesti a fantasia de supermulher...

Acontece que a realidade, esta rebelde irresistível, acabou por quebrar a minha falsa onipotência. Mas foi bem depois da adolescência, do casamento, da maternidade, de algum tempo de terapia, das experiências profissionais... (Ainda hoje, às vezes, encontro a capinha de heroína guardada no fundo do armário e saio interferindo nisto ou naquilo, sem cerimônia. Minha filha que o diga...) Concordo com você, com o passar do tempo as coisas melhoram. Você já sabe que aos trinta fica quase bom. Vou te contar que, depois dos cinquenta, fica quase ótimo, embora a flacidez nas coxas e braços me chateie um bocado. 

Fiquei pensando, Maria, no que você falou sobre a nossa responsabilidade em construir uma sociedade mais respeitosa e igualitária. Percebi que nunca tive uma militância feminista explícita, e aí me bateu um pouco de culpa... Mas acho que não deixei de contribuir para a causa, como mãe e como educadora. Como mãe, aprendendo junto com a minha filha os mistérios (e delícias) do que é ser mulher. Como educadora, mergulhada no caldeirão social que é a escola, e envolvida num debate para integrar (sem discriminar) os anseios e potencialidades das crianças – meninos e meninas. O exemplo do Bento, e dos cuidados dele com o boneco, reforça a importância desta constante discussão. Nos anos em que trabalhei com educação infantil em escolas da zona sul do Rio, observei que a patrulha mais feroz acabava acontecendo com o comportamento dos garotos. Para algumas famílias, em opiniões geralmente expressas pelos homens, não era aceitável que seus filhos brincassem com bonecas, vestissem fantasias ou usassem maquiagem, mesmo em contextos de faz de conta, mesmo que tivessem de 2 a 5 anos de idade. O discurso da igualdade das mulheres já tem uma ressonância em pelo menos parte da sociedade e, talvez por isso, as meninas possam circular entre carrinhos, bonecos e futebol com (quase) a mesma naturalidade com que se vestem de princesas. Essa é uma percepção contextual e particular, não serve pra explicar os movimentos coletivos, mas entendo-a como um indicador de que nosso esforço deve ser o de garantir a todas as crianças ambientes acolhedores e encorajadores. Tarefa árdua, eu sei.

Antes de terminar, tenho que fazer mais uma revelação: esta carta demorou pra ser escrita bem mais do que eu desejava. Custei pra encontrar o tom das confidências: nem melodrama, nem superficialidade. Escrevi muitas versões, revisei-as, reorganizei parágrafos, revisei novamente. Sou pouco experiente neste ofício, e ainda insegura com as minhas produções. Será que esta insegurança diminui com o exercício da escrita? Com o contato com os leitores? Fiquei curiosa com o seu percurso de escritora. Deve ser difícil manter uma coluna semanal, com prazo pra cumprir, tamanho definido de texto, num jornal como O Globo... Mas também deve dar um prazer enorme... Espero que sim.

Com carinho,
Ana Beatriz

domingo, 29 de maio de 2016

A Convenção de Genebra

Caminhando na Lagoa, especialmente em domingos ensolarados, costumo recordar a Convenção de Genebra. Foi o Mario que me apresentou as novas deliberações da alta cúpula europeia. Evoca-se a convenção para criar e legitimar formas de convivência, ou para endossar as já existentes que carecem de reforço. Tudo de acordo com as conveniências do momento. Define-se desde quem deve acionar o controle do portão da garagem (se o motorista ou o carona), até o responsável por retornar uma ligação telefônica que tenha sido subitamente interrompida.

Para mim, no entanto, a orientação fundamental do documento é a que trata dos deslocamentos a pé em locais de muito movimento. Diz o Artigo 1º., do Capítulo 1º. dos Princípios Fundamentais:  - Pedestre, use sempre a faixa da direita. A recomendação virou “meme” familiar, repetida tantas vezes e em contextos diversos. Por fim, o artigo se sobrepôs aos outros e tornou-se sinônimo da própria Convenção.

Nas escadas rolantes das estações de Metro, em Paris, nos avisamos: Convenção de Genebra! (Os parisienses apressados são profundos conhecedores da convenção e não hesitam em atropelar os desavisados.)

Nas calçadas, em Amsterdam, alertamos: Convenção de Genebra! (Lá, os ciclistas têm plena convicção de que os passantes vão cumprir a cláusula pétrea. Turistas distraídos com as atrações da cidade correm sério risco de vida!)

Na ciclovia da Lagoa, quase não dá tempo pra declarar: Convenção de Gen.... Ai, meu Deus! (Suspiro aliviado)
A capacidade de criar e compartilhar expressões não é privilégio nosso, é parte da química que se dá entre membros de diversas famílias. Independe de laços sanguíneos, de gênero ou idade. É resultado de convivência, troca, afeto e empatia. Poderia valer até como parâmetro para a definição de Família no polêmico Estatuto...

Sobre essa liga que a língua criativa promove entre as pessoas, lembrei-me de um livro da Zélia Gattai que ganhei há tempos. Em Códigos de Família, a matriarca nos apresenta a gênese e os significados dos ditos que fazem parte do repertório do clã Amado. Os causos bem humorados, as expressões em sotaques e idiomas variados, compõem a versão da família baiana para a Convenção de Genebra.