segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Maçaricos Viajantes

O calor forte do meio-dia, as dunas no meio do caminho, a longa faixa de areia a ser percorrida já nos faziam acreditar que a ideia de dar um mergulho não tinha sido das melhores. Cadê o vento constante de Aracaju?  O jeito foi deixar Atalaia para trás e seguir caminhando até as barracas da Praia dos Artistas. No percurso, uns movimentos ao longe nos chamaram a atenção. Eu e Mário chegamos mais perto, aquela dança era engraçada de ver, um vai-e-vem bem ensaiado, passos curtos e ligeiros executados em conjunto. A areia, refletindo os raios solares, fazia a iluminação do espetáculo. O figurino, um tanto monótono - tons de branco e preto num mesmo feitio -, reforçava a importância de cada um dos participantes.

Um pequeno bando de pássaros corria para a linha da arrebentação quando as ondas se recolhiam, e bicavam os buraquinhos descobertos na areia à procura de alimentação. Mas era só a água dar sinais de retorno para que os maçaricos obedecessem a coreografia da espécie e corressem de volta para a área de segurança na praia. Repetiram os deslocamentos uma, duas, três ... muitas vezes, até que, diante da nossa presença, transformaram suas posições no solo em um voo coordenado, afastando-se dos inimigos. Não demoraram para regressar e recomeçar o bailado, pois dele depende a sobrevivência das avezinhas viajantes, que atravessam milhares de quilômetros das áreas geladas do inverno no Ártico para se aquecer e se alimentar em terras da América do Sul.

Estávamos em dezembro, o ano de 2025 já querendo arrombar a porta do calendário, e nós, como os maçaricos, acionamos o modo migratório. Tínhamos deixado a agitação da cidade do Rio de Janeiro em busca de um porto seguro no Nordeste. Mas em Aracaju? E no Réveillon?, questionara uma amiga quando estávamos planejando a viagem. Aracaju não tem nada, nada pra fazer, você sabe, né? Tudo caro e cheio nesta época, só não é pior que no Carnaval, continuara argumentando.

Aracaju não se saiu mal no nosso filme de férias, sol brilhando todos os dias, brisa constante, camarão e caranguejo nos pratos típicos, gente acolhedora. Embora pequena, a cidade tem passeios interessantes. Gostamos, especialmente, do Museu da Gente Sergipana, voltado para comemorar a identidade do povo, as suas formas de cultura, as forças históricas e sociais que amalgamaram a maneira com que os sergipanos vivem.

Mas foi a visão do bailado dos maçaricos, estas aves estrangeiras a voejar pelas praias, que nos preencheu de beleza e reflexão. Como muitos de nós, humanos, elas migram, viajam de um ponto ao outro da Terra em busca de condições melhores para viver. Ao final do período previsto ao sul do Equador, retornam às suas geleiras de origem. Pena que muitos de nós não tenhamos a mesma sorte. Para muitos migrantes, não há período previsto de viagem, e não se sabe se um dia retornarão às suas geleiras de origem.


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De volta às crônicas de viagem, antes que as histórias percam o prazo de validade. 

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        Na Rede

Borgianas




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    • A ideia inicial veio do desafio que a Liana propôs no grupo do Escrita Matinal em 06/11. Quando criei o título, achei que ele teria mais sentido se fosse no plural: BorgianaS. E daí passei para o item II da escrita, completando o recurso de ALUSÃO. Fiz referências indiretas a composições que gosto muito sem citá-las diretamente, mas contando com o conhecimento prévio dos leitores.
              Me contem se, após a leitura, foi possível capturar esta intertextualidade.😬
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            Na Rede

    Linguagem


     

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      • Poesia produzida no grupo Escrita Matinal a partir do dispositivo Voz, em 29/08/25
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              Na Rede
      • O Céu da Língua - Gregório Duvivier -  fragmentos do espetáculo  AQUI

      terça-feira, 21 de outubro de 2025

      Me Ajude a Esquecer os Domingos

      Existem domingos? Quatro ou cinco vezes no mês?

      Existiram, existiam; não mais. Aquelas vinte e quatro horas que se esticam entre escuros já não vivem em mim.

      Não me chame; não ouse. Me ajude a esquecer os domingos.

      Tomo um porre de espumante, desligo sem memória; congelo; entro em coma desassistido. Outra vez.

      Espero um hiato; uma ponte sobre um rio poluído, um caldo de imundícies a correr sob os meus pés – esqueletos de ferro, para-lamas em carne escura, volantes forrados com veias.

      Astronauta em suspenso no espaço, aguardo a chegada do último segundo. Até lá, deixe-me neste escuro, sideral; esqueça-me no alívio do tempo do nada.

      Não se aproxime; nem tente. Me ajude a esquecer os domingos, que eu nasço ao raiar de outros dias.

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        • Texto produzido a partir do desafio Me ajude a salvar os domingos, da oficina Escrita Matinal, em 06/10/2025
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        quinta-feira, 2 de outubro de 2025

        Recital

        Levanto-me da mesa do café da manhã neste domingo nublado e peço: “Alexa, toca a playlist Hora da louça”.

        Xícaras e pratinhos, a faca da manteiga, as taças de vinho de ontem à noite me aguardam sobre a pia.

        Preparo as mãos, a esponja e o detergente; a água jorrando ritmada da torneira.

        Afino a garganta e finjo: chorei, chorei, até ficar com dó de mim... 

        Ouço a intensidade da voz, das vozes; a minha ao mesmo tempo encharcada de brilho e gim, a dele, pintada de desilusão.

        Nos bastidores da casa, segue o espetáculo: o corpo acompanha o ritmo, sacode a camisola de paetês, se equilibra nos chinelos com salto alto. Cantei, cantei, nem sei como eu cantava assim... 

        A louça, pouco a pouco, aplaudindo, sentada no escorredor.

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          • Texto produzido a partir do desafio Enquanto Toca a Música, da oficina Escrita Matinal, em 09/09/2025
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          • Na Rede
          Há um ano, escrevi um texto-irmão a este. Quando a gente escreve, os assuntos que mais nos tocam acabam se repetindo, com uma roupagem um pouco diferente. Quem quiser ler Conceição, no Instagram, clique Aqui .

          terça-feira, 30 de setembro de 2025

          Fragmentos de um Monólogo Amoroso

          ...

          (tira o espelhinho redondo da bolsa, estica os lábios, verifica o batom)

          Cadê você, Tom? Meu Deus, será que aconteceu alguma coisa: bateu com o carro?, tomou um tiro?!, a cidade tá violenta... Calma, não pira, notícia ruim chega logo, daqui a pouco ele vê as mensagens, diz que já vem, que pegou um engarrafamento, atrasou pra sair do trabalho, coitado...

          (pega o copo, dá um gole, faz uma careta)

          Chopp quente ninguém merece.

          - Garçom!

          Será que eu marquei com ele às 6 e meia, ou foi 7 horas?

          (rola apressadamente as mensagens no celular)

          Ele que marcou a hora, e o lugar, e eu batendo palma pra tudo que o Tom quer: no Aurora o chopp não ia estar quente assim..., veio com aquele papinho: o Bar do Alto é mais tranquilo, menos gente, só faltou dizer que é mais romântico. Eu não devia ter chorado no último encontro, homem não gosta de mulher melosa... é culpa minha; se eu chorar aqui ninguém vai notar, o casal mais próximo deve estar a um quilômetro de distância.

          (inspira o ar, solta com força pela boca)

          Tô meio tonta, um aperto no peito, deve ser sede:

          - Garçom!

          (apoia os cotovelos na mesa, sustenta a cabeça nas mãos)

          É sina, pra mim é sempre assim, não adianta, praga de mãe: você não tem sorte, nunca teve, a voz fanhosa nos meus ouvidos: rosas não nascem pelo simples querer..., meu querer é fraco, o meu braço então, força nenhuma pra bater na cara de quem me azucrina, quem levou nas fuças fui eu, sempre.

          (arruma a coluna, mexe a cadeira, fica bem de frente para a entrada)

          Três meses?, é, três meses de Personal e não vejo diferença, braço mole, bunda mole, perna fina..., a Ju ficou sarada com bem menos tempo, vou pedir o contato pra ela, e se for mais caro?, vou ter que gastar, paciência. O Tom teve coragem de me chamar de mão de vaca..., na hora eu ri, burra, devia ter mandado ele pastar. Isso é coisa que se diga? Isso é coisa que se diga pra mulher com quem ele tá saindo? Ou será que era um toque?, um alerta sobre eu estar mesmo apegada ao dinheiro? Ele é um grosso, mas tem cuidado comigo...

          (abana o rosto com o guardanapo, seca as têmporas, afrouxa a gola do vestido)

          Nem ar-condicionado tem aqui, um calor do cão, parece o carro do Tom quando ele cisma de deixar as janelas abertas: tá tão fresco lá fora, fresco só se fosse nos Alpes, mas no Rio de Janeiro?! O que é que eu fiz pra merecer isso? 

          Eu já prometi, vou mudar

                                                                    desamar

                                                                                            desamarrar

          em julho viajo pro Sul e chuto o Tom pro Deserto do Saara, é tão fresquinho lá...

          (penteia a franja com as mãos, puxa o comprimento dos fios num coque)

          Viajar sozinha? nem pensar, chamo a Claudinha, ai não, ela é chaaaataaaa..., a Lu, isso, a Lu é boa companhia, deu certo no Atacama, mas se ela cismar de chamar a Marta, ferrou, as duas não se largam; melhor eu entrar num grupinho desses de excursão, melhor pra quem, minha filha, só se for pro grupinho da excursão, que decadência, senhor! Com o Tom...

          (roda o anel de pedra azul no dedo, raspa com a unha a parte descascando)

          Merda de homem que tem bom gosto: anel, rasteirinha nude, buquê de rosas, eu amei...,

          ele me ama... ama?

          me amou?

          (vira o braço, faz tilintar as pulseiras, consulta mais uma vez o relógio)

          Quanto tempo é atraso pra você, mulher? Uma hora? Duas horas tá de bom tamanho? Merda de encontro, bosta de lugar,

          (circula o olhar pelo ambiente)

          quantos gatos tem aqui? Um, dois,... seis, sete. Sete?! Todos pretos! Foi de caso pensado, pra me jogar na cara que nunca viria aqui, tem pavor de gato preto, além de supersticioso é covarde. Burra, muito burra, só eu não vi; você é míope, sua louca, enxergar como? defeito de nascença, no olho e na alma, juntou com a falta de sorte, deu nisso... Mais um abandono, menos um, que diferença faz?, a pele sangra, mas cicatriza, vira couro; isso, Tom, faz como todo mundo; rosas não nascem pelo simples querer...

          meu querer é fraco, eu só sei ficar.

          (pega a bolsa pendurada na cadeira, estica o indicador para o alto)

          - Garçom!

          ...

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          Com um olho em Roland Barthes e outro em Aline Bei (metafórica e literalmente porque acabei de operar a catarata no olho direito; os dois olhos ainda não se acertaram), e estimulada pelo dispositivo O Ato da Espera (Escrita Matinal, 22/09 ), costurei as ideias neste novo texto.  

          segunda-feira, 7 de abril de 2025

          Quanto vale o fim de um amor?

          Durval empurra a porta de vai-e-vem da cozinha e grita:

          - Batista, suspende o fechamento do turno. Chegou um casal e parece que vai jantar!

          O cozinheiro está à beira da bancada, um pano encardido pendurado no ombro, panelas espalhavam-se pelo mármore gasto. Com a notícia, deixa escapar das mãos a concha de molho de tomate. A concha repica no chão e quase derruba o balde que apara o vazamento debaixo da pia.

          - A essa hora? Sem condições! Não sou escravo do patrão, não – reclama, recolhendo o objeto.

          - Também quero ir embora. Passei o dia todo andando de lá pra cá, e só consegui juntar uma merreca de gorjeta. O dia tá fraco!

          - E você quer encompridar um dia fraco, Durval? Ficou lelé da cuca! – resmunga sem levantar os olhos e já lavando as travessas.

          - É que o casal é distinto, principalmente o homem, com um casaco preto nos trinques. Vi quando chegou. Ah, se eu tivesse um casaco daqueles, Batista! Sabe a Soninha, aquela branquinha e bunduda que vive rondando os fundos do restaurante? Pois ela anda me esnobando, dizendo que eu sou mal ajambrado. Se eu vestisse um casaco daqueles, ia dar uma coça naquela danada.

          - Coça? Ah, entendi... – sorri com o canto dos lábios. – Só não sei como é que eu entro nesta história de casaco e Soninha. Você vai roubar o homem enquanto ele janta distraído com a mulher?

          - Claro que não, não tenho vocação para bandido! Mas uma pila graúda, acho que eu consigo arrancar. Crio uma dificuldade pra vender caro uma facilidade. É assim que faz todo mundo que se dá bem.

          - A dificuldade você já tem, hoje eu não cozinho nem mais um pinto.

          - Fechado, Batista. Você não tem que mover uma palha e eu me dou bem com o cavalheiro. Me passa a cesta de pão e dois copos. Copos limpos, viu. E pães pelo menos mornos. Se o serviço for de merda, babau tutu.

          Durval volta para o salão. Em cima do balcão do bar pega uma garrafa; na falta de bandeja, equilibra o vinho embaixo do braço. A cestinha e os copos seguem nas mãos, entre os dedos e um guardanapo. Dirige-se à mesa encostada ao muro e quase às escuras. Sem pressa, aproxima-se do casal: “Acho que a cozinha já está fechada, cavalheiro. Queriam jantar?”

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          - Batista, eu sou um gênio; você é um gênio! – entra na cozinha às gargalhadas. - Foi moleza trazer uma notinha direto para o meu bolso. Cheguei logo com o lero-lero:” já está tarde, senhor; deve estar fechada, senhor...;” insinuando que sempre se dá um jeitinho. E o homem parece que quer terminar logo este encontro: se sacode o tempo todo na cadeira, não sabe se pega o isqueiro, se larga o maço de cigarros. Senti até uma pontinha de pena.

          - Pena, Durval? Cascata. Agora mesmo estava querendo roubar o casaco do homem.

          - O que é isso, meu chapa? Sou honrado, só quero um din-din pra comprar uma roupa elegante e ficar boa pinta. Eu te falei, a Soninha...

          - Sei, a Soninha... – abandona a esponja na pia, pega a escova de arame e ataca a panela maior, grudada com molho de carne. As travessas estão lavadas e emborcadas no escorredor.

          - Sabe o que eu ouvi quando estava chegando na mesa: “Que juízo você faz de mim, Alice? Eu te amei.” – arremeda a voz do homem. Te amei, entendeu? No passado. E a mulher lá, com cara de coitada, fazendo um drama pra ver se o infeliz ama de volta.

          - Nos meus tempos de garçom, cansei de ver a cena. Daqui a pouco ela chora, diz que foi enganada, que ele não pode ir embora assim - abre a torneira ao máximo, posicionando o panelão embaixo da ducha forte.

          - Neste caso de hoje, tem mais um probleminha... – fala em tom de segredo, aproximando as mãos em concha do ouvido de Batista.

          - Desembucha logo, Durval, ou te ponho para limpar o chão.

          - A mulher é coroa, daquelas que querem parecer mais novas, sabe? E deve ser barraqueira. Pegou logo a garrafa de vinho, disse que queria beber; pelo olhar assustado do homem, já deve ter dado vexame.

          - E eu não sei? Mas não entendo bulhufas destas mulheres; se metem com homem mais novo, com idade pra ser filho delas, e depois querem fidelidade eterna. Piada. Nem se a dona for rica, cheia do ouro! A falta de carne nova e durinha fala mais alto – abre e fecha os dedos no ar como se apalpasse uma peça de alcatra do cardápio.

          - Tá certo, Batista, certíssimo! É por isso que eu acho que um coroa namorar uma menininha dá muito mais jogo; se o homem for rico, então, perfeito. As mulheres se contentam com umas migalhas de amor e uns presentes caros, nem fazem tanta questão de sexo.

          - Já nós, meu camarada, damos no couro até os noventa!

          - Ainda estou longe desta idade, mas chego lá. Enquanto espero vou dar uma circulada no salão - ri da própria piada - Se o homem não me vir por lá, é capaz de chamar o gerente. Não divido com ninguém os meus cinquenta cruzeiros!
                                                                                                                  
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          - Batista, hoje é nosso dia de sorte! Mais sorte que a da seleção tricampeã. Quer saber pra onde o casal está indo? Vem, é só chegar aqui – pega o cozinheiro pelo braço e o dirige à janela da cozinha.

          - Durval, não sou fofoqueiro, não – estica o pescoço na direção indicada, alcançando com a vista a nesga de jardim e a fonte seca no centro dele.

          - Eu fingi que estava atendendo outras mesas – sussurra o garçom ao lado da janela - passei bem longe deles pra não ter que dar nenhuma explicação. O homem parecia tão chateado que convidou a mulher para dar uma volta. Vieram nesta direção.

          - Dá pra ver direitinho. Bem que você disse que Alice era coroa... Ah, meu Deus, agora já era. Não abraça ela, meu senhor. A mulher vai entender tudo errado!

          - Fala baixo, Batista, não vai estragar o nosso camarote. Olha só, agora deu a doida. Tá beijando ele todo, e de língua.

          - Eu avisei, eu disse. Se não fosse essa música alta, dava até pra ouvir a conversa.

          - Eu te amo, eu te amo – Durval representa, olhando para Batista, que gosta da brincadeira:

          - Me larga, Alice! Acabou! – responde Batista, sacodindo o colega e sem consegui conter a risada.

          - Espera, que pena, acabou o showzinho, estão voltando pra mesa. Vou ter que aparecer por lá.

          - E qual vai ser a sua desculpa pro jantar não ter saído?

          - Fácil! Que o cozinheiro está de ovo virado – responde enquanto empurra a porta para o salão com força.

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          - Batista, fecha a cozinha, finalmente vamos embora.

          - E você só me aparece agora que já está tudo limpo e arrumado? Tá me devendo, ouviu?

          - Devo e não nego, mas pago nesse instantinho mesmo. Quer saber como terminou a historinha de amor?

          - Não sou fofoqueiro, eu disse. Vai, me conta, já esperei tanto!

          - O homem chama Eduardo, vi no cheque com que pagou o vinho; ele deu no pé, escafedeu-se, largou a mulher na mesa.

          - Dá-lhe, Eduardo! Assim é que se faz.

          - Encontrei com ele em frente ao bar, acertou as contas e pediu pra eu arranjar um taxi pra mulher. “Claro, claro!,” - fiz uma reverência respeitosa.

          - Quanto cinismo.

          - Depois segui em direção a Alice na mesa, ela com a maior cara de choro. Perguntei, jogando um verde: “A madama está se sentindo mal?”

          - E ela?

          - Disse que tinha sido uma discussão, mas que estava bem. Só de sacanagem, falei :“Também discuto com a minha velha, mas mãe tem sempre razão”. Mãe, manjou, Batista?

          - Que maldade, Durval! Ela ficou grilada? – pergunta enquanto fecha os armários e pega a mochila.

          - Não, até me elogiou, disse que eu era um moço muito bom, acredita? E se foi a pé mesmo, não quis táxi nem nada!

          - Apaga a luz aí perto de você, Durval, por hoje chega. Até amanhã!

          - Amanhã é minha folga, esqueceu? Vou comprar o meu casaco maneiro e abafar com a Soninha. Ela que me aguarde...

          Durval tranca a porta da cozinha e segue Batista até o ponto do ônibus. De longe, veem a mulher descendo lentamente a rua.

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          • Texto produzido e revisado no Grupo de Escrita, do curso de Formação de Escritores, coordenado por Bruna Tessuto. O desafio foi fazer a reescrita do conto "A Ceia", de Lygia Fagundes Telles, modificando o foco narrativo.
          Na Rede:
          Leia A Ceia - Alice e Eduardo encontram-se num restaurante para, mais uma vez, conversarem  sobre o término do romance que viveram durante anos.


          domingo, 23 de março de 2025

          Circo Estelar

              A temporada foi um desastre! Na plateia, meia dúzia de filhos de Deus; no caixa, uns caraminguás que não cobririam nem o deslocamento para aqueles confins de Minas Gerais. Eu reconheci na cara esbranquiçada de Lord Orion a preocupação com os destinos do show, já a tinha visto antes. Aliás, ultimamente ele tem precisado de muita maquiagem para disfarçar a palidez, e doses de conhaque ao encarar as contas. A cartola e a varinha não lhe têm sido úteis.
              
              Embora ninguém esteja animado com a situação, não damos o braço a torcer. A esperança costuma se renovar ao longo de cada viagem, para a próxima cidade, e a seguinte. Partiremos daqui a pouco com destino ao vilarejo de Vale Alegre. O nome, com certeza, há de nos trazer sorte: as cadeiras estarão lotadas, e os nossos bolsos também. “Amém”, parece completar Andrômeda, depois de se benzer com leveza de gestos, e beleza das mãos. Andrô é meu amor platônico, a deusa bailarina que completa o meu interior. Sem ela não vou nem até a esquina! Quem sabe um dia me declaro?

              Eu estou acomodado na carroceria do caminhão maior. Pólux e Castor são os encarregados de dobrar as minhas vestes, de organizar a minha estrutura de modo que sobre espaço para as caixas da companhia: roupas, cenários, equipamentos, utensílios e víveres. Lorde Orion diz que os irmãos acrobatas fazem o serviço com organização e rapidez, mas vez por outra ele cede às reclamações dos dois e preciso conviver com Sirius e sua má vontade para o trabalho. Nunca se viu um engolidor de espadas mais arrogante e preguiçoso. Além de ser um péssimo motorista.

              No caminhão menor, segue o restante da trupe. Na boleia, Lord Orion, Andrômeda e Pégaso - pela baixa estatura, o palhaço não consegue se equilibrar no chacoalhar da carroceria. Atrás, protegidos por uma lona bege, e mal acomodados nos bancos de madeira, viajam Antares e seus sete instrumentos, as barracas do acampamento, e Vega, um jovem fugido de casa que se juntou a nós quando perambulávamos pelo Nordeste.

              A caravana avança, Vale Alegre se aproxima, posso ver da minha posição privilegiada. O letreiro com letras garrafais instalado na frente do caminhão maior e a buzina, insistentemente tocada por Lord Orion, chamam a atenção do povo nas ruas. As pessoas param, acenam. Chegamos à praça central. Me animo pelas condições do lugar, espaço fabuloso, bem no meio do ir e vir da cidadezinha. Todos descem, e a alegria dura pouco. Ouço Andrô comentar que o dono da mercearia em frente não quer baderna ali. “Baderna?! Ôxe! Que cabra abestado”, grita Vega. Confusão formada, nos empurram para um terreno lá no final do comércio, depois das moradias. O lugar é até agradável, eu vejo. Tem uma matinha do lado esquerdo com patas-de-vaca floridas; a área aberta é gramada; do lado direito cruza um riacho, facilitando a vida do acampamento. Mas, e ao fundo? Estico minhas hastes para identificar melhor a parte de trás do terreno. Custo a acreditar no que vejo. Não sou o único a perceber nosso infortúnio. Com passadas curtas, Pégaso chega esbaforido da sua excursão. Dá a notícia aos berros: “Estamos cercados por defuntos!”.

              “De-de-funtos?!”, gagueja Lord Orion, buscando o conhaque na bolsa de viagem. Além da máscara branca, o corpo confirma o baque. Está curvado, mãos apoiadas nos joelhos, a garrafa largada aos seus pés. Andrômeda corre a confortá-lo: “Mortos não se importam com a música alta, nem com gritos da plateia! Vai ser até bom, viu?”. Sirius reage aos argumentos femininos e recruta os colegas para uma expedição de reconhecimento; Pégaso, ressabiado, indica o caminho. Eu fico esquecido, dobrado, imóvel na carroceria, as hastes no máximo da capacidade de observação. Aguardo o retorno da trupe.

              Na volta, a conversa em torno do caminhão me põe a par dos fatos. Sim, há um cemitério nos fundos daquela área; o lugar parece bem cuidado – mato capinado, grades de ferro e portão em perfeito estado. Mas é Pólux que mais se sente incomodado com um fato estranho: as lápides das sepulturas estão simplesmente apagadas, nenhuma marca antiga ou indício de que tenham, um dia, existido. Uma sensação de ameaça vai nos contaminando pouco a pouco. Onde andarão estas almas? Sem um endereço determinado, um nome incrustado na pedra, se sentiriam à vontade para vaguear por aí? Viriam em nossa direção? Ou pior: assustariam o nosso público?

              As perguntas circulam no ar acompanhando a roda de conversa e ninguém se dá conta de uma figura que se aproxima. “Nunca tivemos um circo por aqui”, diz a mulher, entre aborrecida e aflita, ao ler a placa de divulgação. Pelos buracos da minha lona, consigo ver, de costas, uma senhora em carne e osso, não me parece assombração. Antares se aproxima da visitante, leva a flauta em uma das mãos. Apresenta a trupe, suas habilidades fantásticas, fala sobre o espetáculo jamais visto em toda a Terra. Aproveita o momento de conversação para chegar bem perto e investigar-lhe o rosto. Percebe os olhos avermelhados, e brilhantes da senhora. Um tremor percorre o corpo do músico. Ele empunha a flauta e começa a tocar uma melodia aprendida há milhares de anos. O efeito é imediato, não em mim, é claro. Andrômeda e a mulher se movimentam lentamente; braços seguindo o alongado das notas sopradas por Antares. Em seguida, Pégaso, Pólux e Castor fazem corrupios em torno de si, cabeças balançando a cada trinado mais agudo. Vega e Lord Orion dão-se as mãos, rodopiam e cantam largas vogais: aaaaaá, oo oo, oooó. E Sirius encolhe-se como se estivesse em um casulo, oscilando ao sabor de uma brisa mansa. A cena é bonita de ver. Quisera eu poder acompanhá-los neste transe musical.

              Mas é justamente pelo meu estado de consciência que consigo reparar nos vultos atraídos pelo flautista. Saindo da matinha de patas-de-vaca, das margens do riacho, chegam jovens, velhos, meninos e meninas, homens e mulheres, dançando coreografias inventadas. Aos poucos se juntam a Antares e ao corpo de baile original. “Viemos parar em Hamelin?”, me pergunto. Os olhos avermelhados e brilhantes da gente que chega me dizem que não.

              Sinto uma aragem a propagar-se pelo descampado, um bailado ascendendo por trapézios transparentes. O ar ondulante atinge minhas vestes, desdobrando-as uma a uma. Flutuo. E pairo colorido sobre o gramado, acima das cabeças dos dançarinos. Ali, num tempo guiado pela música, seres sem passado se unem aos que não querem ser esquecidos.

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          • Texto produzido e revisado no Grupo de Escrita, do curso de Formação de Escritores, coordenado por Bruna Tessuto. O desafio foi construir uma história a partir de três imagens bem díspares: uma lápide sem inscrições, uma senhora e um mágico. Quando li a proposta, pensei: "Que coisa mais sem noção!" Depois que escolhi o narrador,  a tarefa fez mais sentido. Encarei, e gostei de elaborar esse conto inspirado na fantasia dos espetáculos circenses.

          segunda-feira, 19 de agosto de 2024

          Calendário

          Um mês, os meses, todos eles

          passam aos pulos - pulos de perneta.

          E caem, em cacos, confusos


          Fevereiro ferve em frevo,

          em mim é frio, fraqueza.


          Março e maio me amolam:

          martírio, mistério, quaresma,

          amor materno, amarelo.


          Abril adoro,

          te amasso, me amanso.

          Agosto dá gosto - amargo,

          de adeus -, não gosto.


          Junho e julho eu sempre junto:

          canjica, quentão, pamonha.

          Janeiro tento jejum,

          é o jeito!


          Setembro, se me lembro,

          segue-se de novembro.

          Noite a noite, em novena

          rezo o terço, desolada.

          E logo me chega dezembro.

          Desanimo. Terminou?


          Ainda me resta outubro,

          outono, em ouro se espalhando.

          Ouço um murmúrio nas folhas...

          Que ousado!

          É um ouriço enrolado,

          confundindo o calendário.

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          • O desafio de escrita do módulo Poesia e Prosa Poética, coordenado por Rafael Figueiredo, foi construir um poema usando uma das figuras de linguagem: aliteração (repetição de sons consonantais) ou assonância (repetição de sons vocálicos). Acabei juntando os dois recursos num só poema. Foi desafiante, e divertido, garimpar as palavras, montar as composições sonoras. A ilustração, gerada pela IA do Canva e editada por mim, segue a mesma atmosfera bem-humorada com que busquei traduzir a proposta.

          sábado, 6 de julho de 2024

          Carla e Dalva

          Já são quase dez da noite quando Carla senta-se em frente ao computador para mais horas de trabalho. A rotina sempre apertada - atividades na agência de publicidade, cuidados na educação dos filhos – e agora os prazeres e pressões com os prêmios e recordes de vendagem, vão empurrando o ofício da escrita para cada vez mais tarde. Não chega a ser um problema para uma workaholic assumida, embora, às vezes, uma pontinha de cansaço, um incômodo nos ombros a façam desejar que, em vez de um rio caudaloso, sua vida seja um lago de águas tranquilas, onde possa soltar o corpo e deixar-se simplesmente boiar.

          Abre o arquivo do capítulo mais recente. A narrativa em construção a instiga; para ela escrever é expressar-se em liberdade, é tornar-se amiga, aliada das palavras. Carla interrompe a escrita justamente onde uma palavra lhe escapa. Sabe que é preciso ter paciência com os sentidos, persistir nas possibilidades, até que uma ideia se instale, soberana. Como ela se instalou, há anos, neste escritório no andar térreo de sua casa em Belo Horizonte – espaço de trabalho e criação, só dela, sem que ninguém a incomode. Pelo menos, não até esta noite calorenta de inverno, imensas janelas abertas descortinando o jardim. O som de folhas secas pisadas, uma melodia suave de ninar, a voz afinada de uma mulher, vão ocupando devagar o recinto. Carla fica de pé, estica o pescoço; um vulto aparece por detrás do ipê roxo em flor no canto do terreno. Enquanto a figura se aproxima, pisando a grama recém aparada, Carla dirige-se à janela, tentando reconhecê-la: talvez pela postura esguia, ou pelo pisar decidido. Quem sabe chegando mais perto, possa lhe ver a face em detalhes. Não demora, estão frente a frente:

          - Dalva?! É você?

          - Sim, sou eu, Carla.

          Dalva não espera convite e adentra o escritório.

          - Por um momento, duvidei. Seus cabelos grisalhos, um pouco mais lisos... Mas os olhos, os olhos de jaboticaba, molhados e grandes como eu descrevi, me levaram a você.

          - Envelheci, continuei meu caminho. Deus voltou para mim, como você anunciou ao colocar o ponto final do romance, mas ainda tenho tantas dúvidas. Eu não me conformo. Eu preciso que você me diga por quê?

          - Pergunte, você tem todo direito, uma personagem não há de ter melindres com seu criador.

          - Por que você escolheu a mim para tanto sofrimento? Por que me envolveu em uma paixão sem tamanho e me desamparou diante da dor?

          - Era o seu destino. Filha de Antônio e Aurora, cercada de amor, e música, só você teria a chance de ressignificar o ciúme, o mal, a violência...

          - Destino, não, sina! Queria que você soubesse disto. Olhe, num capítulo, num só capítulo, você me levou do casamento, de um gostar de muitos verbos, a uma dor desumana de perder tudo: meu homem, meu filho, minha fé!

          - Tudo lhe foi devolvido, Dalva, embora entenda a sua revolta. Escritores não são confiáveis.

          - Ardilosa, é o nome que me vem à cabeça agora para defini-la. Tudo tão encadeado, os fatos arrumadinhos para aquele final. Sabe os desatinos que andam falando sobre mim quando a leitura acaba? Eu preferia que você tivesse me matado.

          - Não sei se te consola, também escuto críticas, algumas são tão... tão...

          - Tão injustas! Tão cruéis! Será que quem lê não percebe que somos falíveis: você, eu; todas as personagens e seus criadores, todos somos frutos da mesma humanidade.

          - Quem vê de fora sempre acha que faria arranjos melhores, mas é de dentro que o não dar conta ocupa tudo - recita Carla - pensei que eu tinha sido clara quando escrevi esta frase.

          - Se você tivesse permitido, eu poderia ter ido embora, mas fiquei sentenciada a uma eterna avaliação. E agora, para piorar a minha situação, ainda teve esse prêmio em Portugal. Soube ontem da novidade num clube do livro. Precisei comparecer porque meu nome foi muito pronunciado. Era Dalva isso, Dalva aquilo... Culpa sua, de raiva nem lhe trouxe o tabuleiro com empadas que tinha acabado de assar.

          - O que acontece depois da última página não me cabe definir, Dalva. Deixei o caminho aberto para você e Venâncio. Você, ele, seus filhos pertencem agora aos leitores - à imaginação deles, aos desejos e limitações de cada um deles. Por isso, os destinos são, serão indefinidamente múltiplos. Agarre-se às pessoas que se emocionaram, se identificaram com as tramas de vocês, estas são muitas; deixe de lado os autoritários, os conservadores.

          - É tão difícil, não sei se consigo...

          - Vamos tentando, Dalva, vamos tentando. Mas agora sente-se aqui e me conte as novidades. Você e Venâncio se acertaram? Como está o Vicente? Apegou-se ao pai depois de tanto tempo de separação? E o João, conseguiu compreender por que tem duas mães?
           
          E as duas conversam até de manhazinha, esclarecendo os fatos, aparando as arestas, trocando confidências. Carla registra na memória e no coração o rumo daquela prosa: adubo para novas histórias, fermento para outras personagens. Escritores não são mesmo confiáveis.
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          • Texto produzido e revisado no Grupo de Escrita, do curso de Formação de Escritores, coordenado por Bruna Tessuto.

          quinta-feira, 27 de junho de 2024

          Encontro com João

          Fábio atravessou a rua com pressa, o sinal verde de pedestres piscando e exigindo cuidado. Se não fosse a cliente de última hora, experimentando, e rejeitando, todos os sapatos que ele apresentava, não teria que correr. Deu mais uma conferida no relógio e constatou que chegaria a tempo. Alguns passos no mesmo ritmo e avistaria a entrada. O vigilante o cumprimentou com a cabeça, já o conhecia de outras oportunidades. Embora faltassem alguns minutos para o fechamento dos grandes portões de ferro, ninguém o questionou sobre o motivo da pressa e a intenção da visita.

          Seguiu pelo calçamento de pedras e entrou na aleia principal. A visão das construções de mármore e das figuras esculpidas que ladeavam o caminho, o silêncio crescente do ambiente, as árvores frondosas acentuando as sombras do final da tarde, tudo contribuía para recuperar seu bem-estar. Afrouxou a respiração e sorriu com a ironia: bem ali no centro do bairro de Botafogo, entre engarrafamentos de carros e gentes, encontrara o seu oásis, e em torno deste oásis, um deserto de pessoas. O medo é um sentimento tão limitador, concluiu ele, um pouco antes de alcançar o objetivo daquele dia.

          Tinha sido bem ali, no final da aleia principal, que, na semana anterior, se detivera a reparar nos detalhes de uma edificação de frente retangular revestida com pedras e sem janelas. Pequenos rasgos na parte superior da fachada e na lateral permitiam a entrada de luz. Além da porta em folha dupla vazada, chamava a atenção a hera verde avançando pelas paredes.

          Dirigiu-se à entrada bem a tempo do compromisso marcado, seu recente amigo deveria estar à espera. Logo distinguiu o cavalheiro que se aproximava – chapéu coco, terno escuro bem cortado, luvas e bengala com ponteira de metal. O homem saudou-o, efusivo:

          - Ora, ora, senhor Fábio Aguiar! Eu aqui já estava a imaginar que não honrarias a tua palavra e deixar-me-ia a ver navios.

          - Não, de maneira alguma. Para mim, trato é trato, Senhor Paulo Barreto. Nosso primeiro encontro me impressionou demais! Até queria me desculpar por minha reação. Devo ter parecido um idiota, gaguejando sem parar.

          - Não te preocupes, foi realmente uma situação inusitada, aconteceria com qualquer um. A semana me custou a passar, ansioso que estava para retomarmos a conversação. Tantas dúvidas sobre o que começaste a me contar...

          - Senhor Paulo... ou posso lhe chamar de Senhor João?

          - O que é um nome para definir um ser humano? Um carimbo insuficiente, nada mais. Só não compreendo como ficaste sabendo do meu gosto pelos pseudônimos.

          - Acho que fui indiscreto, mas não consegui me segurar: pesquisei sobre sua obra - as crônicas e reportagens -, seus gostos e desgostos. Não queria acrescentar “ignorante” às minhas características...

          - Pois orgulho-me de ser múltiplo, dependendo da situação e da minha curiosidade. Se o assunto de nossa conversa for política, nomeie-me José Antônio; se falarmos sobre Paris e as belezas da belle époque, pode me chamar de Claude; no entanto, serei João se quiseres retomar o diálogo sobre a quantas anda esta cidade que amei e conheci tão profundamente.

          - Então, não há dúvida, Senhor João, ou melhor, Senhor João do Rio! E agora que nos conhecemos melhor, seria bom deixar de lado as formalidades. Posso chamá-lo de você? É como os amigos se tratam atualmente...

          - Trate-me como quiser, senhor Fábio, só não espere que eu adote comportamento tão coloquial. O que vem de berço marca-nos por toda a vida.

          - Combinado! Mas hoje vim lhe fazer um convite especial: que tal andarmos por aí, como você costumava fazer nos áureos tempos? Poderia rever a cidade, em vez de ouvir sobre ela.

          - Convite aceito, preciso mesmo mudar de ares. Vejo que fizeste uma pesquisa cuidadosa sobre os meus hábitos, deves ter folheado páginas e páginas da “Gazeta de Notícias”. Ou foi de “O Paiz”?

          Fábio não se conteve, a visão de si mesmo dentro de uma biblioteca afogado em exemplares de jornais provocou-lhe uma sonora gargalhada.

          - O caro amigo poderia me dizer o motivo da graça? – perguntou, batendo o cabo da bengala na palma da mão.

          - Ah, João – falou, tentando controlar-se – hoje em dia todas as publicações do mundo podem ser consultadas da própria casa, usando um computador ou um celular, são equipamentos para ler e escrever, calcular, se comunicar...

          - Não me diga, então sou mesmo um sujeito genial! Inventei máquinas assim em uma de minhas crônicas mais famosas. Queria vê-las fora da ficção.

          - Olhe, trago aqui um celular no bolso, posso lhe mostrar como funciona, mas vamos deixar a lição para mais tarde. Se não sairmos agora, os portões serão fechados. No seu caso, não haveria problema, mas eu teria que pular as altas grades, e esportes nunca foram o meu forte.

          Começaram a caminhar em direção à saída. Fábio quis saber por que tinha sido o escolhido, dentre outros visitantes, para a aparição de João.

          - Eu já o observava há tempos. Entre muitos que choram, rezam e sofrem saudades, caminhando em procissão, eu o via passear tranquilamente, usufruindo da paz e da beleza do lugar, deixando-se levar pelos detalhes: flores frescas, flores artificiais, nomes, datas... Lembrei-me de mim mesmo, e do prazer que flanar por aí me proporcionava.

          - Meu Deus, agora fiquei emocionado!

          - Também não é para tanto. Confesso que o tédio andava a me consumir; se não fosse a tua visita na semana passada, juro que teria me manifestado ao primeiro sacripanta que aparecesse.

          - Bem, agora já sei que não sou tão especial assim...

          - Pois deixa de choramingos e ouça-me! Como deves estar informado, cheguei aqui aos 39 anos, praticamente um bebê, e lá se vão mais de cem. Inicialmente, vivi numa morada exclusiva, como desejava a minha querida mãezinha, mas atordoou-me o silêncio, a falta de companhia. Busquei abrigo junto aos meus colegas das Letras, naquela construção em que nos encontramos.

          - Por que, então, se sentiu entediado se estava cercado de acadêmicos? – perguntou, enquanto guiava João pelo braço para que não interrompessem a jornada.

          - Esperava um pouco de animação, de modernidade, mas que nada... Estes senhores, à medida que acordam do sono original e percebem que o título de imortal é uma grande balela, contentam-se em reunir-se num eterno falatório. Estou farto destas ideias bolorentas, do chá das cinco, do mofo e das infiltrações nas paredes.

          - Sei como é; trabalho no comércio, e os clientes me deixam louco; há dias em que nem quero sair da cama... – interrompe a fala por um instante, olhando a ponta dos sapatos, e em seguida completa - mas vamos ao que interessa, por onde começaremos o nosso passeio?

          João explicou que desejava rever o palacete no qual morara na rua Vieira Souto, não tinha tido tempo de se despedir da casa refinada, do areal que a cercava, da vista do morro do Corcovado. Ipanema, entretanto, mudara, nada de palacete ou areal; entre um prédio ou outro, talvez a visão do Corcovado. Seria um baque para o escritor. Fábio tentou demovê-lo da ideia:

          - Ipa-pa-nema?!... Que tal irmos à La-pa? - gaguejou como no primeiro encontro.

          - Por que o nervosismo, meu caro amigo? Por acaso desejas me ludibriar?

          Antes que tivesse de inventar alguma desculpa, chegaram à saída: o vigilante já a postos ao lado dos grandes portões, chaves nas mãos. Apressaram o passo. Na calçada, João voltou à carga:

          - Eu lhe peço, senhor Fábio, que não me poupe de nenhum infortúnio. Estou preparado, sempre estive. Sou, quer dizer, fui repórter, acostumado a circular dos mais pobres recantos aos mais requintados, nada há de me surpreender. Sigamos.

          Fabio assentiu, João exigia um mergulho sem retoques no Rio de Janeiro. Enquanto aguardavam o Uber que os levaria à Ipanema, ainda puderam notar um rebuliço por detrás dos portões. Um funcionário chegou na correria, e se benzendo:

          - Cruz credo! Valha-me Nossa Senhora! A porta..., a porta está aberta, escancarada! Eu que não volto naquele mausoléu. Nem morto!
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          • Texto produzido e revisado no Grupo de Escrita, do curso de Formação de Escritores, coordenado por Bruna Tessuto.
          Na Rede:
          Crônica de João do Rio citada no texto: O dia de um homem em 1920 

          domingo, 17 de março de 2024

          A Casa

           

          A casa era antiga, e feia. Fachada estreita, portão de ferro com grades em cima. Há tempos não via tinta, cinzas e beges já desbotados.

          A casa, assim precária, vivia só. Há tempos não via gente, cômodos desabitados em seu interior.

          A casa estava triste. Cansada de asperezas, queria vida em carne e osso. Sabia de sua falta de graça. Numa rua de exuberâncias, quem haveria de lhe lançar os olhos?

          A casa teve uma ideia, conhecedora que era da vizinhança – anos de observação privilegiada. E rabiscou-se a cara, com ironia, certa de que a mensagem seria sua aliada. “Não quero visitas”. E destrancou-se toda, a espera.

          Não tardou e a casa sentiu o sol. Uma lufada de vento a invadiu quando o portão rangeu na timidez da manhã. E ela toda tremeu ao pressentir certeza nos pés pequenos que pisavam-lhe o chão.

          A casa agora pulsa, água e sangue em sintonia. Até que o tempo passe, e a vida clame por outras mensagens.

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          Texto produzido a partir de disparador do grupo Escrita Matinal (@escritamatinal)

          sexta-feira, 8 de março de 2024

          Esquina

          Gente se encontra na esquina.

          Eu, você, várias Marias,

          Hopper, Chico e Djavan,

          seu José da padaria,

          a nonna da velha cantina


          Gente se encontra na esquina.

          Chega com os próprios pés, na volta da oficina,

          pega o carro, chama um Uber,

          ou desce daquele busão,

          ronco, freada, buzina.


          Gente se encontra na esquina.

          Em pé, do lado de fora, na mesa há pouco montada,

          papeando no balcão,

          olhando tudo de cima, da sacada barulhenta,

          gritando pra multidão.


          Gente se encontra na esquina.

          Ficha redonda no bolso pra logo chamar Carolina

          Iphone por perto dos olhos, checando o novo recado.

          Vai um ovo colorido? Um churrasquinho de gato?

          Um pingado de café, cerveja como rotina


          No torto quadrado das ruas,

          voejam modos e medos, circulam milhares de sonhos,

          que se embaraçam nos fios,

          e se revelam aos poucos, num jogo de luz e sombra


          Chega mais, muito bom dia!
           
          Vê se me esquece, babaca!
           
          Gente se encontra na esquina.


          Poesia produzida a partir de disparador do grupo Escrita Matinal (@escritamatinal)
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          Na Rede: referências musicais

          terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

          Noélia

          Noélia caminha pela areia sem atenção, tropeça nos pés descalços, a barra do vestido lambendo os morrotes fofos. No ambiente, nada a atrai – movimentos, cores, sons – nada! Olha para si mesma, corpo em concha, o mundo interior em preto e branco. Lá fora o mar tranquilo; por dentro, ondas de ressaca. Pudera! Não anunciaram que o tempo mudaria por estes dias? Forte calor, frente fria... 

          Tinha acabado de constatar, um pouco antes de bater a porta da casa e sair atordoada, que o amor detesta mudanças, que ele só se sente bem com temperaturas constantes, em condições ideais de umidade, na mais completa calmaria. Raios e temporais?! Malditos sejam, esconjura o amor. Malditos sejam, repete a mulher, a voz vibrando dentro da própria concha. Um amor abalado cisma em morrer, morte súbita. Resta espanto, e agonia.

          Noélia está só; a praia vazia, olhada de soslaio, confirma a sensação. Melhor assim... De que adiantaria um ser vivente ao seu lado se é impossível partilhar o incomunicável? Não basta soletrar “dê-ó-erre” com toda a minúcia ortográfica, ou dividir as sílabas de “so-frri-menn-to” reforçando as ênfases individuais. Palavras não bastam diante da morte do amor. Por isso, se cala - estática, estátua.

          Se ela movesse um pouco o corpo, se erguesse a cabeça na direção do horizonte, veria um pássaro se aproximar: voo elegante no céu, asas e vento em parceria, a cauda-leme apontada para o único lugar habitado na areia. Se pelo menos abrisse os olhos, se permitisse que a luz inundasse as suas retinas, experimentaria um momento fugaz de comunhão. Mulher e pássaro unidos na sombra projetada a sua frente: o corpo dela, esteio; nas asas dele, anseios. Mas Noélia amarra-se em si, cobre o rosto com as mãos, não se entrega à luz. O pássaro, indiferente aos limites da mulher, segue livre o seu destino.
          Conto Noélia nascido do trabalho com o grupo Escrita Matinal. Texto inaugural da promessa de 2024.
          Imagens: @oszvaldnoell

          sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

          Promessa de Ano Novo

          Quando 2024 deu as caras por aqui, decidi me fazer uma promessa: colocaria a escrita como uma de minhas prioridades no ano.

          A minha produção escrita é geralmente espasmódica, manifesta-se sem nenhuma regularidade ou estabilidade de assunto. Eu juro que gostaria de mudar isso! Invejo os que escrevem com disciplina e entusiasmo, mesmo que não pareça haver no mundo um só motivo para tal.

          Sozinha, sei que não dou conta de fazer a promessa se concretizar. Por isso, esta semana entrei para o grupo Escrita Matinal @escritamatinal, coordenado por Liana Ferraz. Entre 8 e 8:30 da manhã, nos encontramos para deixar fluir a criatividade e as palavras. Tem horário, tem parceria; vai funcionar.

          E, em março, começo o curso Formação de Escritores @formacaodeescritores na plataforma da Metamorfose, com o objetivo de trabalhar as técnicas e recursos da escrita. Tem análise e produção textual, tem devolutiva dos professores. Com certeza, vai funcionar.

          A ideia é publicar aqui no Blog algumas dessas produções. E, quem sabe, contar com a leitura de vocês. 😊

          segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

          Navega, coração!

          O barco segue tranquilo pelo Lago Guaíba na calorenta tarde de Porto Alegre. No alto-falante, a voz da locutora identificando os principais pontos do passeio: as ilhas, os rios Jacuí e Caí, a vegetação bem preservada. “Essa é a Ilha das Flores, que ficou famosa com o filme”, acrescenta o marinheiro responsável por vigiar a proa do Cisne Branco. “Ah, o filme!”, recordo-me do curta de Jorge Furtado. O visual de agora em nada remete às cenas fortes do lixão e da miséria. 

          Vou coletando as imagens pelo caminho: bonitas casas de veraneio, marinas, prainhas, pontes. Subo ao convés, agora mais vazio pelo rodízio dos passageiros em busca de alguma sombra. A locutora se cala e a playlist volta a tocar. Não conheço a música, mas a voz, a voz é do Kledir, tenho certeza. É ele sim, parece que é... Uma senhora, num grupo ao fundo, canta animada, sabe de cor a letra; me aproximo e peço a comprovação. Sim, é ele quem canta, embora a canção seja do Fogaça, o senhor ao lado me informa. Eles conhecem a obra de Kleiton e Kledir desde o início da carreira, no início dos anos 80; são fãs, como eu. 

          Olho para as pessoas a minha frente, reconheço-me nelas. Envelheci. Envelhecemos, nós e nossos ídolos. Um misto de saudade e melancolia quase me pega desprevenida. Sou salva pelos versos que agora preenchem o ambiente: deu pra ti, baixo astral... Encho os pulmões pra completar: vou pra Porto Alegre, tchau, tchau... Seguimos pelo Guaíba, unidos pela força da cantoria, o sol já baixando no horizonte. A cidade-amuleto se aproxima. Só me lembro de dizer: bah, trilegal!
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          Na Rede: Composições de Kleiton e Kledir

          domingo, 8 de janeiro de 2023

          Um Ano Novo Levinho

          Conheci o Hugo na Praça Mauro Duarte, em Botafogo. Eu e ele fazemos parte do projeto "Adote 1 Aluno", fundado pelo professor Silvério Moron. Funciona assim: quem tem algo a ensinar senta em um banco da praça e divulga a sua matéria. Quem quer aprender é só se chegar e começar as aulas. Trabalhei, e fui feliz, no “Adote” de 2018 ao início de 2020, quando puf!... o mundo parou!

          Retornei em maio deste ano, e encontrei o Hugo, um menino cheio de ideias, super-inteligente, mas com algumas dificuldades na escola. Meu objetivo era ajudá-lo a canalizar toda a sua energia para as atividades de Português, especialmente as que envolviam escrita. Os assuntos que o interessavam viraram argumento para as redações que trabalhávamos em um passo a passo: leitura de imagens; definição de personagens; escrita de frases; até chegarmos à montagem do texto propriamente dito. Depois revisar e complementar se fosse necessário; todo esse processo a fim de que percebesse a natureza viva, e interessante, dos escritos.

          Avançamos nesse sentido, as notas subiram um pouco, mas, nos últimos dias de aula, a professora da escola em que ele cursa o 5º ano avisou que ele teria que fazer uma prova extra. Desta nota dependeria a sua aprovação. A notícia nos surpreendeu: Hugo ficou arrasado, e eu inconformada com uma avaliação tão drástica. Só me restava acalmá-lo, reafirmar a minha confiança nele e pedir que desse notícias logo que saísse da escola.

          O WhatsApp apitou logo depois das 5 da tarde e, num áudio, Hugo me explicou: “Professora Ana Beatriz, fiz uma redação levinha e passei de ano!" Me alegrei pela aprovação, mas vibrei mesmo com o adjetivo usado. Então, agora, uma redação poderia ser levinha, algo que não pesa, não sobrecarrega, um aconchego?! Uma sementinha lançada no cimento da praça, nascendo aos poucos...

          Por enquanto a nossa experiência termina assim, ano que vem continuaremos a conversar, ler e escrever, aprendizagem em mão dupla. Inspirada pelo que aprendi com o Hugo, resolvi escrever esta história, e finalizá-la com a minha mensagem de boas festas. Desejo a vocês, parentes e amigos, um Natal de amor suave, e que 2023 seja um ano muito, muito LEVINHO!


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          Texto postado em 24/12/2022, no Instagram @anabiap12, e posteriormente acrescentado ao Blog. 

          Passarinhando

          Os atos eram os mesmos, de refeição: nós, sentados na varanda da Pousada Paraíso, a desfrutar calmamente do café da manhã; eles, alvoroçados entre pedaços de banana e mamão, fatias de laranja, a se fartar no comedouro logo ali em frente. Não sei se os pássaros nos observavam, como nós a eles. Talvez se divertissem com o nosso encanto e, por isso, se esmerassem nos voos e nas poses. Ou quem sabe, numa forma de vingança da espécie, se deleitassem por nos terem aprisionado, capturando todas as nossas atenções e movimentos.

          Graças às lentes da máquina fotográfica, e à habilidade do fotógrafo, um pouco desta experiência pode ser revivida e ampliada. Os instantâneos são de diferentes saíras e sanhaçus (dentre outras aves que circulam pelas bem preservadas matas da propriedade), material produzido pelo Mario em novembro/22, durante a nossa estadia em Posse - distrito de Petrópolis. O conjunto das fotografias está publicado no Instagram, perfil @mariocso, com informações sobre as espécies, para quem quiser passarinhar virtualmente. Nosso agradecimento especial ao Bernardo (@bernardolacombe), que compartilhou conosco seu tempo e conhecimento.

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          Texto postado em 19/12/2022, no Instagram @anabiap12, e posteriormente acrescentado ao Blog.