terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Você já foi à Bahia, nega? Não? Então vá.

Eu fui. Com meus vinte e poucos anos, segui pela primeira vez o conselho de Caymmi. Fui a Salvador, mas também a Prado, Arraial da Ajuda e Trancoso numa road trip pelo Nordeste com as amigas. Depois de três décadas de intervalo, voltei pra visitar uma parte da família que emigrou pra capital e nem pensa em retornar ao Rio de Janeiro. Pois é, meus primos testemunham que a Bahia tem um jeito que nenhuma terra tem. Em seguida, já com os netos, regressei a Trancoso, uma vila muito diferente daquele lugarejo rústico que havia conhecido nos anos 80. Todas foram viagens marcantes, guardadas na memória com as minhas etiquetas de felicidade: sol brilhando, praia calma, camarão frito, água morna.

No mês de novembro, Caymmi, inconformado com as desventuras dos brasileiros nestes quase dois anos de pandemia, soprou no ouvido da minha cunhada que já era tempo de regressar à Bahia e recuperar a sorte natural a todos os viajantes que andam por lá. Ela, seduzida pelos dengos do baiano, organizou o roteiro e me convidou. Topei na hora! Resultado: semana passada, voltei de uma temporada na Península do Maraú, um território em que eu ainda não havia pisado, e distante duas horas (de carro) de Ilhéus. E não é que Jorge Amado foi nos encontrar na pracinha do Centro Histórico?! Muita sorte a nossa! Valeu, Caymmi.

Grafite - Rildo Foge

Ilhéus - em frente ao Restaurante Vesúvio
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Retorno às crônicas de viagem, depois de um longo e tenebroso inverno, quer dizer, dois invernos, duas perdidas primaveras e dois tristes outonos! Verões? Já são quase 3... 
Escrever me faz capturar o tempo, revê-lo, criar novos contextos, cultivar memórias – é uma forma de felicidade. Tomara que os leitores se alegrem também.

Para saber mais sobre a viagem, leia também: Longe de Casa

Na Rede:
Você Já Foi à Bahia? interpretada por Nana, Dori e Danilo Caymmi

domingo, 25 de abril de 2021

Choradeira

Eu chorava. E muito. Às vezes, o escarcéu começava ainda em casa quando eu desconfiava das intenções da minha mãe. Devia ser o rosto mais tenso dela, os gestos apressados ou a conversa curta no café da manhã. Lágrimas aos borbotões e pedidos de clemência não a comoviam, e só me restava a estratégia final. Escondia-me atrás da cortina, acreditando que, se eu não visse o perigo, o perigo também não me veria, e iria bafejar o seu hálito desagradável no cangote de outra criança. Demorei pra compreender o fracasso dessa lógica embora, ainda hoje, caia na tentação de fechar bem os olhos e esperar que o coração não sinta as agonias da vida.

Mas também acontecia de eu sair, inocente, para um passeio matinal e só começar a entender a situação lá pela esquina das ruas do Catete e Silveira Martins. Era por ali também que a minha mãe apertava o passo e só parava no portão do posto de saúde, onde poderia contar com a ajuda dos funcionários para domar a filha que começava a espernear. Agulhas eram o meu pavor. Dia de vacina, um verdadeiro tormento. O berreiro, no entanto, nunca teve efeito prático, pois a vacinação era um valor materno inegociável. Pode chorar, mas vai ter que encarar a injeção.

Como os adultos não costumam ser muito generosos com os medos das crianças, o meu desespero virou folclore na família. O caso mais emblemático aconteceu na campanha de vacinação contra a meningite, eu já entrando na adolescência. Em vez da mãe, acompanhou-me uma tia e a prima da mesma idade. No caminho, foram me tranquilizando: eu nem veria a agulha, a pistola de ar comprimido faria o serviço, sem dor e com rapidez – pá, pum, outro braço, por favor. Enfrentamos as filas no Maracanãzinho, o vai e vem das pessoas, o calor do dia, até que finalmente tomei, com os olhos secos, a dose que me cabia. A vitória durou pouco. Já na saída do estádio, fui ficando tonta, tonta, e pálida. Minha tia, apavorada que eu desmaiasse bem no meio da rua, fez com que nos sentássemos no meio-fio. Um senhor, sensibilizado com a cena, parou o carro e nos ofereceu carona. Desde então, em conversas ao longo da vida, nós rimos ao lembrar que fomos salvas por um cavaleiro andante, montado em seu garboso fusca verde.

Com o tempo, fui aprendendo a dominar o medo, a tranquilizar o espírito, e as agulhas pararam de me fazer chorar, dando espaço para novos sentimentos: caí de amores pela minha caderneta de vacinação. Nela coleto, orgulhosa, os carimbinhos das injeções contra febre amarela, tétano, hepatite, gripe. Quinta-feira passada, recolhi o meu mais esperado troféu. A fila pequena e bem organizada da Clínica de Família Santa Marta quase não me deu tempo para refletir sobre a importância do momento, mas foi só bater os olhos no pequeno cartaz grudado na parede - Viva o SUS, Viva a Ciência Brasileira – para ser tomada pela emoção. Segurei as lágrimas enquanto registrava telefone e CPF, e meus olhos chegaram até a sorrir no instante exato da vacinação. Na porta da rua, porém, não consegui fugir da choradeira.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Amélia

A distância é pequena. Amélia costuma contar os passos desde a saída da estação do Metrô: 46, 47, 48, 49, 50... Pronto, aperta o interfone, o porteiro responde destravando a porta. Cumprimentam-se brevemente. Vencendo os passos seguintes e os degraus da portaria, logo estará em casa. Bem mais rápido e prático do que morar no Grajaú, onde ela perdia as contas lá pelo segundo quarteirão depois de descer do ônibus. 

Revira a bolsa à procura do chaveiro entre ampolas de vitamina C e sachês de colágeno escapulidos da nécessaire. “Alexa, acenda as lâmpadas”, ela pede enquanto vai se livrando do blazer e dos saltos. A caixinha arredondada, muito delicada e bem acabada, desperta de seu sono; linhas coloridas dançam na circunferência superior num vai e vem alegre. Luzes iluminam o apartamento. Amélia circula entre os cômodos, recolhe a toalha de banho esquecida na cama, coloca na pia a xícara do café da manhã.
Senta-se no sofá branco - antigo desejo de consumo realizado pela designer contratada na última reforma - puxa o assento retrátil e descansa as pernas sobre ele. Apoia a cabeça na almofada, fecha os olhos por um momento. O silêncio da casa a incomoda. “Alexa, toca a playlist do Queen.” A casa se enche com o som da banda, e Amélia sorri. Ela ama essa satisfação automática. Sim, Alexa a tinha ouvido: sem delongas, sem cobranças, sem lamúrias. O céu! 

Vai dançando até o quarto, radio ga ga, radio goo goo, a procura do smartphone. Teria ficado no escritório? Um breve franzir de testa é substituído pela expiração aliviada; o aparelho largado ao lado da sacola da Le Lis Blanc. Dá uma conferida no vestido azul de renda, saia evasê, decote de ombro a ombro, tão sexy! Uma pequena fortuna, mas terá sido um bom investimento. Rodopia diante do espelho, oh, won't you take me home tonight

De volta ao sofá, prepara-se para o ritual de todas as noites. Busca, na tela, o atalho com a pequena chama branca e abre o aplicativo. Os dedos não obedecem à sua ansiedade. Segue-se uma pausa para encontrar os óculos, e, em seguida, a visão da caixa de mensagens sem novidades. Checa o wifi, reinicia o roteador, a internet no bairro anda péssima. Mas nada muda naquele país das possibilidades. Aliás, há dois meses vive de muitas deslizadas e poucos matches. Já seguiu todas as orientações para ser feliz no Tinder – duas revisões no texto da descrição, a foto do perfil é de cinco anos atrás, triplicou o raio de busca de usuários compatíveis. Até considerou rever a faixa etária desejada - dos 18 aos 75 anos, talvez? “Ridícula! Que coisa ridícula!”, fala, ao perceber o fiasco de tudo aquilo. Larga o celular na mesinha de centro. Se ao menos fosse uma pessoa autoconfiante... Autoconfiante como Fred Mercury, um indivíduo feio e dentuço que sabia ser sensual. I was born to take care of you, every single day of my life, cantarola baixinho Amélia, com ele, para ele. 

Não devia ter cedido aos conselhos das amigas, recrimina-se. Não tem vocação para relacionamentos virtuais, se expor assim, sem nenhum controle! Dá preguiça e medo ao mesmo tempo. Preguiça de começar uma conversa do zero: contar das viagens, da família e do trabalho; explicar mal entendidos; fazer graça, quando o humor não é sua praia; tentar ser interessante sem saber o que o outro considera interessante. E o medo de encontrar o serial killer mais próximo, tantas histórias de violência e golpes contra mulheres, e elas ali, impotentes. Teria ficado na zona de conforto, não fosse a exigência do coração solitário. Love of my life, love of my life, cadê você? 

Deita-se no sofá, dobra as pernas, aconchega-se em seus próprios braços. “Alexa, estou me sentindo muito só!”, confidencia meio sem pensar. Num instante, a música se cala, o círculo colorido volta a se agitar. E uma voz suave lhe responde: “Lamento saber disto. Assista a um filme engraçado ou tome um bom vinho”. 

Embora o timbre de Alexa a conforte, Amélia aguarda ansiosamente a voz de Samuel L. Jackson, uma promessa da Amazon por módicos noventa e nove centavos de dólar. É pena, ela suspira, que não se possa ter tudo. A novidade só ficaria perfeita se o corpo do novo assistente virtual tivesse uma forma máscula: um cubo de arestas solenes, moldado em bronze escuro. Ela o colocaria em lugar de destaque, um pedestal bem no meio da sala. O céu! 

“Alexa, um vinho cairia bem. Hoje tem alguma comédia no Sky? Mas, por favor, nada de comédias românticas, você já sabe que não me fazem bem.” A TV da sala se ilumina, as imagens irrequietas a distraem, até a fazem sorrir. O interfone não demora a tocar, Amélia recebe o Malbec: alto teor alcoólico, aquele mesmo que a havia interessado dias antes no site do Evino. 

No fim da noite, bem ao lado do celular sobre a mesinha de centro, descansam duas taças de vinho. O céu!

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  • A primeira versão de Amélia está completando hoje um ano de vida. Como presente de aniversário para a minha personagem, revisei o texto para aproximá-lo do gênero Conto. Hoje publico essa nova Amélia, com mais carne e osso, e que foi trabalhada na Oficina de Contos, da Estação das Letras, coordenada por João Paulo Vaz.
  • Completando o renascimento de Amélia, Eline de Medeiros criou uma nova ilustração.

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Futuro do pretérito

Não sei por que ainda me assombro. É a mesma cor exagerada, são os mesmos cachos que se repetem há décadas. Todo mês de julho. Desde quando me sento aqui apreciando o caramanchão do bouganville? Desde que pude dar os meus primeiros passos? Não, não; devo ter precisado de mais tempo para me livrar dos braços dos adultos e ter vontade própria, se bem que vontade própria mesmo não tenho até hoje, e também não sei se alguém é capaz de tê-la. A vontade própria se desmancha na propriedade da vontade dos outros, numa cadeia sem fim de desejos e resignações. Sorte tem o bouganville, exerce o seu direito inalienável e cíclico de ser. Como concorrente, apenas a moita de alamandas que, vez em quando, em seu amarelo pálido, se arvora em rival. Patética! Contra o solferino dos cachos em julho não há ser vegetal, nem animal, a bem dizer nem humano, que lhe faça frente. Se me ouvisse agora, Maíra riria, achando essa minha afirmação um exagero, menos, mãe, menos... 

Riria... Riríamos... 

Ela, cheia de convicções, nunca se admirou com folhas ou flores; sempre preferiu os pelos e as peles, as patas e as asas; tudo que se movesse por vontade própria. E eu? Mãe insegura, a não ser por uma única certeza: por mais desbotada que fosse a minha vida, raios de luz, como um arco-íris, se lançariam ao futuro, colorindo da frente para trás o meu caminho. Uma das pontas seria a minha existência antes da maternidade, e a outra, o destino de Maíra, seus atos, seus passos; até que também ela lançasse adiante a minha extremidade do arco-íris, e assim seria em continuidade, num movimento perfeito e permanente. 

Seria... Seríamos... 

Certezas costumam se esvanecer assim, de súbito, com um telefonema, ou uma mensagem de texto. Ninguém pensaria em cores, em potes de ouro prometidos, numa noite escura e opressora. Eu, sim; pensei em meio ao breu, em meio aos ferros retorcidos e às manchas de sangue. Pensei no meu arco lançado ao futuro, futuro do pretérito, cambaleando no céu sem elegância, e desabando bem longe do pé do bouganville. Daquele momento em diante, faltaria um desenho no céu. Sofri por mim, pela minha finitude, pela possibilidade morta de me perpetuar neste mundo. Eu acabei ali. 

Acabei. Acabamos.


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Texto finalizado na Oficina de Contos, da Estação das Letras, coordenada por João Paulo Vaz.

domingo, 2 de agosto de 2020

O Caso do Zé Armênio

Vem, minha filha, senta aqui pertinho de mim, mas antes chama os meninos, que eu quero contar uma história que aconteceu há muito tempo, eu ainda não era nascida, nem a minha mãe. Foi o meu bisavô que ouviu dizer sobre as aventuras de Zé Armênio, e contou pro meu avô, que contou pra mim quando eu era criança. A gente sentava em volta da fogueira e ele dizia: hoje eu vou contar a história do escravo mais tinhoso e retinto da fazenda.
Olha, agora faz de conta que eu acendi o fogo aqui bem no meio da sala, está ficando mais quente, sentiu? Foi assim que o menino nasceu, junto ao crepitar do carvão em uma noite escura, numa beira de rio perto da senzala. E foi o bebê escapulir da barriga da mãe, arregalar os olhos e começar a berrar um choro dos infernos. O pai, aflito com o chororô (pois se o sinhô acordasse...), banhou o menino nas águas do rio pra ele se acalmar. Dizem que foi a correnteza mansa que operou o milagre e, ao mesmo tempo em que o menino calou, sentiu o gosto pelo livre viver, sem que nenhum ferro o prendesse, sem que nenhuma gente o alcançasse, sem que nenhum tempo o escravizasse. 

Zé Armênio cresceu solto pelas terras da fazenda e ninguém podia com suas diabrites. Mamava nas cabras; subia até o último galho das árvores; usava estilingue pra azucrinar os cavalos; escondia a enxada e a foice dos trabalhadores – era arteiro como o próprio Saci-Pererê, só que completo das pernas. E também tinha a esperteza do Curupira, sumia das vistas do capataz que vivia atordoado atrás dos seus rastros. E nunca, nunquinha, chegou a trabalhar, nem na mais simples tarefa. 

Quando o rapaz fez treze anos, começou a se sentir preso naquele território cercado da fazenda. Abriu a porteira e botou o pé no mundo. Os pais não estranharam o sumiço do filho, com certeza ele ouvira o chamado da correnteza que o batizara. Souberam que ele andava pelas terras vizinhas como mascate, vendendo panelas, cortes de tecido e sabão em barra. Mas muita gente dizia que, só pra se divertir, roubava de uns e vendia pra outros, e gastava todo o dinheiro na taberna mais próxima. Foi neste tempo de atrevimento que conheceu as três mocinhas com quem se amasiou, tendo tido casa com cada uma delas, e gerado treze filhos, todos devidamente batizados nas águas dos rios da região. E os filhos, como o pai, seguiram livres por aquelas terras. 

Os anos correram e Zé Armênio, adiantado na idade, começou a se sentir aprisionado naquele corpo de homem velho. Entendeu que, desta vez, de nada ia adiantar abrir a porteira e sair pelo mundo. Resolveu, então, encurtar o mundo, condensar o mundo no seu menor tamanho. Entocou-se numa caverna e lá passou a viver sem que nenhum ferro o prendesse, sem que nenhuma gente o alcançasse, sem que nenhum tempo o escravizasse. 

Homem e caverna se entrelaçaram de tal modo que já não se reconheciam em separado. E embora Zé Armênio benquisesse cada um de seus dias, em qualquer estação do ano, eram as noites que o faziam sentir-se em total harmonia com a sua natureza de bicho livre. Acostumara-se ao escuro: distinguia as sombras, ouvia a presença dos morcegos, farejava o orvalho que adentrava pela boca de pedra. Tateava as paredes e as considerava como seu próprio corpo. Sabia que, em meio às trevas, ninguém seria capaz de invadir a casa. A exceção eram as noites de lua cheia, aquele imenso farol desnudando suas entranhas. 

Foi numa dessas noites que ele pressentiu o perigo: um leve deslocar dos ares, talvez um bater de asas; um cheiro ácido que desconhecia orvalho; um vulto claro-escuro a espreitar o espaço. Zé Armênio não demorou a reconhecer a feroz inimiga de sua liberdade e, apavorado, se encolheu num canto. Um formigamento estranho lhe alcançou os pés, subiu-lhe devagar as pernas, tornou-se quente ao encontrar o ventre, ao espalhar-se às costas. O homem levantou-se num ímpeto, mas se viu sem pés, sem pernas... e sem ar. Uma sufocação tomou-lhe o peito; cambaleou entre as pedras e caiu de borco. Chegou a imaginar os verdes e os amarelos das plantações, vislumbrou os rebanhos brancos e marrons, mas, por fim, as cores foram se perdendo, uma a uma, no sumidouro da inconsciência. Zé Armênio quedou-se inerte, flácido, e deixou-se levar pelo vulto claro-escuro. 

Naquela noite, houve quem jurasse ter passado perto da caverna e visto a morte, tal qual uma pietá macabra, carregando o velho em direção ao rio. E que os dois desapareceram tragados pelo clarão de uma das luas mais lindas já vistas por aquelas bandas. 

O meu avô sempre terminava a história pedindo pra gente olhar em volta, além do clarão da fogueira, pra descobrir os rastros do Zé Armênio, pois, com certeza, o homem conseguira se livrar da morte e andava livre pelas matas, amigo do Saci-Pererê, comparsa do Curupira. 

Então, vem, minha filha, segura na mão dos meninos e vamos ao encalço do escravo mais esperto da fazenda. Faz de conta que a gente achou.

Fogueira - Foto de Clara Pereira 

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Exercício de escrita do curso Texto Puxa Texto
da Estação das Letras, coordenado pelo professor Juva Batella.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Deve ter sido

Deve ter sido a canção do Gil que perturbou a faxina na cozinha. Mirna estava ocupada com produtos e técnicas de limpeza, resolvera testar a sugestão de Rosa: ao invés da vassoura, usar o aspirador em todos os cômodos da casa. Funcionara – muito mais prático que o abaixa-levanta para alinhar a pá de lixo e o pique-pega com os arredios tufos de poeira. Os versos da canção a fizeram recordar o restante da conversa com a amiga na noite anterior. Falaram-se por WhatsApp sobre as descobertas domésticas da quarentena, a falta que as diaristas fazem, a compulsão de uma pelo chocolate, o vinho que seduzia a outra. Ao final, concluíram: “Tá difícil, né, amiga?”, “É, tá difícil pra caralho. Pra ca-ra-lho!”.

Deve ter sido o palavrão, ou a ênfase, que colocou Mirna em alerta. Rosa sempre fora educada e contida nas revelações. Observou-a pela câmera do celular: cabelos desalinhados, vestido estampado de malha retirado do fundo do armário, nenhuma bijuteria - o modelito típico das mulheres em isolamento social, não fossem os olhos irrequietos e o pescoço virando repetidas vezes para a porta, como se controlasse a entrada de alguém. Mirna decidiu ser direta e perguntar logo sobre o casamento com Daniel. Tinha presenciado tantas brigas durante o Carnaval...

Deve ter sido a franqueza da pergunta que desatou em Rosa a urgência da resposta: sentia-se sozinha, mais velha, mais flácida, menos amada; sentia-se tão cansada quanto inútil; sentia-se uma ingrata já que o marido até ajudava nas tarefas, coitado, só não gostava de limpar o banheiro ou lavar as panelas. Contou como abrira mão das lives da Teresa Cristina para acompanhar Daniel nas maratonas do Netflix; e de como restringira suas aulas de yoga pelo YouTube para que a música zen e as mensagens relaxantes não o irritassem durante o home office.

Deve ter sido a conexão ruim que fez a conversa travar justamente ali. Mirna ainda tentou uma nova ligação, mas Rosa teclou que Daniel tinha chegado. Falariam no dia seguinte, sem falta. Mirna completou: “Se cuida! Se precisar, me liga”.

Deve ter sido a voz rouca do Gil se espalhando pela cozinha – o seu amor, ame-o e deixe-o ser o que ele é, ser o que ele é - que interrompeu os devaneios de Mirna, para, em seguida, ouvir o interfone. Era o porteiro, avisando que um policial queria falar com ela. “É sobre uma mulher, Rosa Junqueira, a senhora conhece?”

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Texto produzido para o curso Texto Puxa Texto, da Estação das Letras, coordenado pelo professor Juva Batella.

Na Rede:
O Seu Amor, canção de Gilberto Gil. Clique abaixo para ouvir:

terça-feira, 16 de junho de 2020

Eu, Izaltina de Almeida Guimarães Modesto

O meu nome soa pomposo, isso eu sei. Não duvido nem quando estou um pouco fora de mim, como agora, num limbo sem tempo nem lugar. Gosto de repeti-lo devagar e bem baixinho. Falo comigo mesma, pois já não há ninguém a impressionar com sobrenomes de fazendeiros de outros tempos. Quem se importaria com a viúva do filho do barão do café quando já se vão mais de sessenta anos que o ouro verde se derramou? Acaricio os sons do meu nome. As sílabas ostentosas escandidas em cantilena me fazem bem, é como rezar um terço, repetir uma oração pedindo proteção, e coragem.

O galo no terreiro já começou a função, empurrando com seu canto as galinhas para fora do poleiro, como em todos os dias. Devo seguir os sinais da natureza e levantar-me da cama, embora hoje desejasse uma trégua, algumas horas apenas de descanso e devaneio. Raios de sol entram pelos vidros da janela e pelas frestas da madeira envelhecida, combinam-se com os grãos de poeira que dançam no ar. Eles dançam, eu continuo imóvel. 

Desenhados com o pó das memórias, bailam os móveis de palhinha da sala de estar, o retrato do barão, os castiçais, a mesa de jantar. Chego a escutar o relógio batendo as horas, o rebuliço das crianças, o vaivém dos empregados, as rodas das carroças circulando do cafezal para o terreiro de secagem bem em frente à varanda principal. Lembranças que saltitam pelos espaços vazios do quarto. Mas de que me valem, hoje, as lembranças? Mudarão a penúria em que me encontro, a falta de esperança, esse vazio?
É triste ter que viver restrita à antiga ala de serviço, espremida nos cômodos adaptados à vida simples – alpendre; saleta e quarto; fogão a lenha instalado no quintal para não fumaçar a habitação. Seu Eleutério ficou de vir ver o telhado da casa-grande, me garantiu dar jeito nas cumeeiras corroídas pelo tempo e pelos cupins. Não deve haver remédio para aquela carcaça podre, mas me iludo. 

Nunca fui à escola, deve ser por isso que eu não entendo bem como cheguei nesta situação. A pobreza veio vindo pé ante pé, disfarçando as consequências, levando para longe um filho de cada vez, até que só me sobrasse Salomé. Eu e Salomé a calejar as mãos, eu e Salomé a empurrar a vida, silenciosamente. O que seria de mim não fosse a presença dela? E ainda que o Velho Titonho tenha decidido continuar na propriedade, trabalhando por casa e comida, o homem é de pouca valia, quase tão desgastado e desiludido quanto eu. 

Lanço mais um olhar para os raios de sol na janela, admiro o balé de poeira que já vai se dissipando, me viro na cama com cuidado para não prejudicar os costados. Percebo os sons da fazenda invadindo o aposento. Não se conformam com a minha desatenção, cobram a minha presença no curral, no galinheiro. Até as árvores do pomar andam a clamar por mim. Também pudera, é para hoje a encomenda de Sinhá Maria: sequilhos de araruta, compotas de goiaba e tabletes de doce de leite para os sobrinhos que chegam do Rio de Janeiro. 

Respiro fundo, reúno o que me resta de forças e levanto-me. Diante do pequeno oratório, ajoelho-me. Aperto os dedos - polegar e indicador acariciando as contas do terço -, e sigo repetindo a oração: i-zal-ti-na-de-al-mei-da-gui-ma-rães-mo-des-to; i-zal-ti-na-de-al-mei-da; gui-ma-rães-mo-des-to; gui-ma-rães-mo-des-to... Amém.

Ilustração: Angela Cotrim, aquarela e grafite sobre papel, 2020

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Texto finalizado no curso Texto Puxa Texto, da Estação das Letras, coordenado pelo professor Juva Batella.