terça-feira, 30 de setembro de 2025

Fragmentos de um Monólogo Amoroso

...

(tira o espelhinho redondo da bolsa, estica os lábios, verifica o batom)

Cadê você, Tom? Meu Deus, será que aconteceu alguma coisa: bateu com o carro?, tomou um tiro?!, a cidade tá violenta... Calma, não pira, notícia ruim chega logo, daqui a pouco ele vê as mensagens, diz que já vem, que pegou um engarrafamento, atrasou pra sair do trabalho, coitado...

(pega o copo, dá um gole, faz uma careta)

Chopp quente ninguém merece.

- Garçom!

Será que eu marquei com ele às 6 e meia, ou foi 7 horas?

(rola apressadamente as mensagens no celular)

Ele que marcou a hora, e o lugar, e eu batendo palma pra tudo que o Tom quer: no Aurora o chopp não ia estar quente assim..., veio com aquele papinho: o Bar do Alto é mais tranquilo, menos gente, só faltou dizer que é mais romântico. Eu não devia ter chorado no último encontro, homem não gosta de mulher melosa... é culpa minha; se eu chorar aqui ninguém vai notar, o casal mais próximo deve estar a um quilômetro de distância.

(inspira o ar, solta com força pela boca)

Tô meio tonta, um aperto no peito, deve ser sede:

- Garçom!

(apoia os cotovelos na mesa, sustenta a cabeça nas mãos)

É sina, pra mim é sempre assim, não adianta, praga de mãe: você não tem sorte, nunca teve, a voz fanhosa nos meus ouvidos: rosas não nascem pelo simples querer..., meu querer é fraco, o meu braço então, força nenhuma pra bater na cara de quem me azucrina, quem levou nas fuças fui eu, sempre.

(arruma a coluna, mexe a cadeira, fica bem de frente para a entrada)

Três meses?, é, três meses de Personal e não vejo diferença, braço mole, bunda mole, perna fina..., a Ju ficou sarada com bem menos tempo, vou pedir o contato pra ela, e se for mais caro?, vou ter que gastar, paciência. O Tom teve coragem de me chamar de mão de vaca..., na hora eu ri, burra, devia ter mandado ele pastar. Isso é coisa que se diga? Isso é coisa que se diga pra mulher com quem ele tá saindo? Ou será que era um toque?, um alerta sobre eu estar mesmo apegada ao dinheiro? Ele é um grosso, mas tem cuidado comigo...

(abana o rosto com o guardanapo, seca as têmporas, afrouxa a gola do vestido)

Nem ar-condicionado tem aqui, um calor do cão, parece o carro do Tom quando ele cisma de deixar as janelas abertas: tá tão fresco lá fora, fresco só se fosse nos Alpes, mas no Rio de Janeiro?! O que é que eu fiz pra merecer isso? 

Eu já prometi, vou mudar

                                                          desamar

                                                                                  desamarrar

em julho viajo pro Sul e chuto o Tom pro Deserto do Saara, é tão fresquinho lá...

(penteia a franja com as mãos, puxa o comprimento dos fios num coque)

Viajar sozinha? nem pensar, chamo a Claudinha, ai não, ela é chaaaataaaa..., a Lu, isso, a Lu é boa companhia, deu certo no Atacama, mas se ela cismar de chamar a Marta, ferrou, as duas não se largam; melhor eu entrar num grupinho desses de excursão, melhor pra quem, minha filha, só se for pro grupinho da excursão, que decadência, senhor! Com o Tom...

(roda o anel de pedra azul no dedo, raspa com a unha a parte descascando)

Merda de homem que tem bom gosto: anel, rasteirinha nude, buquê de rosas, eu amei...,

ele me ama... ama?

me amou?

(vira o braço, faz tilintar as pulseiras, consulta mais uma vez o relógio)

Quanto tempo é atraso pra você, mulher? Uma hora? Duas horas tá de bom tamanho? Merda de encontro, bosta de lugar,

(circula o olhar pelo ambiente)

quantos gatos tem aqui? Um, dois,... seis, sete. Sete?! Todos pretos! Foi de caso pensado, pra me jogar na cara que nunca viria aqui, tem pavor de gato preto, além de supersticioso é covarde. Burra, muito burra, só eu não vi; você é míope, sua louca, enxergar como? defeito de nascença, no olho e na alma, juntou com a falta de sorte, deu nisso... Mais um abandono, menos um, que diferença faz?, a pele sangra, mas cicatriza, vira couro; isso, Tom, faz como todo mundo; rosas não nascem pelo simples querer...

meu querer é fraco, eu só sei ficar.

(pega a bolsa pendurada na cadeira, estica o indicador para o alto)

- Garçom!

...

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Com um olho em Roland Barthes e outro em Aline Bei (metafórica e literalmente porque acabei de operar a catarata no olho direito; os dois olhos ainda não se acertaram), e estimulada pelo dispositivo O Ato da Espera (Escrita Matinal, 22/09 ), costurei as ideias neste novo texto.