quarta-feira, 4 de julho de 2018

Elegância Verde

Foi no início da viagem que a minha mania linguística começou a se manifestar. Era só cruzar uma rua arborizada ou avistar um pequeno jardim, que eu já concluía: “Como Londres é verde!”. Circulando pelas praças e pelas áreas externas dos museus, não me cansava de constatar: “Londres é tão verde, né?”. Mas eu realmente fiquei repetitiva nas visitas aos grandes parques da cidade. É que Londres tem uma coleção excepcional de espaços amplos, e verdes, e belamente planejados, disponíveis para a fruição das pessoas nos mais diferentes bairros. Muitos deles são chamados de parques reais por terem sido propriedades dos monarcas, e de uso exclusivo de seus familiares e amigos. Com o passar do tempo e o crescimento da área urbana, eles foram sendo, para a felicidade geral, incorporados à vida da população.

Um dos meus parques preferidos foi o Regent’s Park, com amplos gramados, trilhas para caminhada, um enorme lago repleto de aves e peixes, e jardins floridos dentro de outros jardins floridos. Já o Mário caiu de amores pelo St James’s Park, encravado entre palácios, numa das áreas mais clássicas da capital. Árvores majestosas, patos e marrecos, flores de todas as cores e alamedas sombreadas acolhem os visitantes. Olhando a vista do parque ao cruzar a ponte, logo entoei o bordão: “Que lindo! Londres é muito verde, mesmo!”.

St James's Park
Ainda visitamos o Holland Park, invadido por londrinos esticados no gramado ensolarado, e o Kensington Gardens que, além de toda beleza natural, também abriga fontes, estátuas e um memorial em homenagem à princesa Diana. Em cada passeio, as mesmas exclamações verdes me acompanhavam.

E de nada adiantou a Ângela, brasileira há anos morando na Inglaterra, e especialista em árvores e jardins, explicar que, tivesse eu chegado dois meses antes, durante o inverno, veria tons de marrom e cinza predominando na paisagem, e não toda a exuberância que me cativou. Ouvi o discurso com atenção, mas, teimosa, insisti: “Sabe que eu estou impressionada como a cidade é verde!”.

Depois de nos despedirmos de Londres, rumamos para o centro da ilha, e, embora o verde não tenha perdido lugar nas minhas manifestações, precisei temperá-lo com o amarelo das plantações de canola, o branco das centenas de ovelhas e o multicolorido das flores silvestres que se alastravam em meio aos prados. Nesta região rural, tudo me pareceu perfeitamente ordenado: árvores e arbustos em conjuntos harmônicos distribuídos pelos campos; ondulações discretas de altitude; sólidos muros de pedras riscando os espaços. “Que elegância tem o verde da Inglaterra!”, passei a analisar. Foi quando notei que um novo conceito tinha se intrometido na minha percepção, e na minha linguagem.
Avebury Stone Circle
Na volta da viagem, relendo Os Vestígios do Dia, de Kazuo Ishiguro (Prêmio Nobel de Literatura de 2017), descobri que tenho companhia nesta admiração pela natureza inglesa. O mordomo Stevens, personagem do romance, relata o quanto a beleza dos campos o impactou:

“Cheguei, então, a uma pequena clareira — sem dúvida, o local a que o homem havia se referido. Aí deparei com um banco, e, de fato, com uma vista das mais maravilhosas, dominando quilômetros e quilômetros de campos em torno. O que se via era sobretudo campo sobre campo, rolando até a distância. A terra subia e descia suavemente, e os prados eram delimitados por moitas e árvores. Em alguns lugares distantes havia pontos que supus que fossem carneiros.” (p.36)
Vista da Broadway Tower - Cotswolds
O que eu identifiquei como elegância na paisagem da Inglaterra, Stevens caracteriza como grandeza. “E, no entanto, o que é exatamente essa grandeza?”, pergunta-se ele, para logo em seguida responder:

“Diria que é a própria ausência de drama ou espetaculosidade óbvios que distingue a beleza da nossa terra. O que é perfeito é a calma dessa beleza, a sensação de contenção. Como se o país soubesse da sua própria beleza, e não sentisse nenhuma necessidade de proclamá-la.”(p.39)

Na narrativa de Ishiguro, recordei a minha jornada pelos discretos cenários ingleses, mas senti muita pena por Stevens não me acompanhar no restante da viagem pela Grã-Bretanha. Por força da profissão e do temperamento, ele não se afasta da familiaridade confortável da mãe-pátria. 

Fiquei curiosa sobre o que diria o formal mordomo ao se deparar com o exibicionismo das paisagens da Escócia: dramáticos vales, latitudes extremas, terras altas e tanta fartura de água. Talvez se escandalizasse diante da falta de comedimento escocês, ou, quem sabe, secretamente invejasse os arroubos das terras desavergonhadas dos vizinhos ao norte.


Para ver outras imagens, clique aqui: Galeria de Fotos - Elegância Verde

Para saber mais sobre a viagem, leia também: 1- Viagens e Histórias ; 3- ZDP

      terça-feira, 19 de junho de 2018

      Viagens e Histórias

      Cada viagem é uma história original, mas é também só uma parte da história. Um viajante experimenta a tradução subjetiva do lugar visitado, vivencia uma coleção de impressões influenciada por aspectos pessoais: o que gosta e valoriza, o que conhece e consegue enxergar. Cada viagem é ainda o resultado das suas próprias condições: os lugares escolhidos, o sol e a chuva, as pessoas que cruzam o caminho, os acasos. Maio foi mês de viagem para mim, momento de conhecer e interpretar, à minha maneira, diferentes lugares da Inglaterra e da Escócia. 

      Nos trinta dias passados fora de casa, além do Mário, tive um companheiro incondicional: o sol. Protagonista inesperado na primavera da ilha, seguia-nos pelos parques, castelos, lagos, cidades enfim. E até virou piada o fato de sempre escapulirmos das nuvens e da chuva, carregando o nosso sol portátil na mochila. Ou seria o astro um elemento cenográfico, puxado por cabos para o alto do palco a cada vez que entrávamos em cena? Só sei que adorei ver a alegria das pessoas, eufóricas com o tempo bom, correndo para os gramados para aquecer o corpo, ou reunidas nas portas dos pubs, e tagarelando sem parar: “What a lovely weather!”, “Oh! It´s really cool, it´s very sunny!”, “Enjoy these warm days!”.
      Holland Park - Londres
      We certainly enjoyed! Desfrutamos a cena urbana e o campo, os castelos e igrejas, a bela geografia da Grã-Bretanha. E também vivemos altas doses de adrenalina quando nos arriscamos na direção (Mário ao volante e eu de copiloto, claro!), desafiando o cérebro a seguir na mão esquerda mesmo que ele, volta e meia, insistisse em se rebelar. Os dois primeiros dias pelas estradas estreitas da região de Cotswolds foram tensos, foco total no mantra que repetia sem cessar: left, left, left... Depois de alguns sustos e poucos erros (felizmente inofensivos), a paz voltou a reinar no Toyota alugado por uma semana. 

      Ao final deste arroubo de autossuficiência na Inglaterra, embarcamos numa experiência ao avesso e nos deixamos levar, sentados no banco de trás, numa viagem dentro da viagem. Conhecemos a Escócia por intermédio do olhar de um escocês saudoso de sua terra, pupilas emocionadas pelas recordações, e ávido por nos contar histórias de séculos de heroísmo, sangue e lutas. Nesta jornada compartilhada e, por isso, cheia de vivências inaugurais, cheguei ao ponto mais ao norte em que estive no planeta (Ilha de Skye, latitude 57 graus); estabeleci meu recorde de subida em trilha na montanha (Monte Schiehallion, 900 metros); comi (e adorei) carne de veado; e aprendi a apreciar um bom whisky single malt.
      Ferry entre Corran e Ardgour - Escócia
      Se eu conseguir manter alguma regularidade na atualização do Blog, espero contar um pouco mais sobre nossa bela visita às terras da Rainha. Pena que não possa relatar detalhes do casamento real, pois descobri, em cima da hora da cerimônia, que meu chapéu verde limão com plumas roxas era igualzinho ao de Elizabeth II. Num gesto de benevolência, abri mão do convite para não ofuscar a soberana! Mas vocês, com certeza, vão me desculpar por esta falha narrativa, não vão?

      Para saber mais sobre a viagem, leia também: 2- Elegância Verde ; 3- ZDP

      quinta-feira, 22 de março de 2018

      Bye Bye, America

      O nome oficial é United States of America, mas toda a grandeza da nação cabe em uma única palavra. Em qualquer conversação, basta referir-se a AMERICA para que a ideia de país impregnada nestas quatro sílabas seja imediatamente compartilhada: Here in America…; By the way, it’s America; God bless America! Parece óbvio que generalizações como esta ocorram no campo da linguagem, eu sei! Acontece que nos primeiros dias da viagem, enquanto buscava pescar uma ou outra palavra conhecida no mar de sons e significados estranhos, era fisgada pela sonoridade familiar e logo me sentia incluída: 
      - America? Presente! Eu sou América da cabeça aos pés. Let’s talk about ourselves. 
      No instante em que compreendi que, para os americanos, a South America não está no mesmo patamar linguístico, consegui estancar a sucessão de mal entendidos. Quem me salvou foi o Trump, veja só! Quando pairava alguma dúvida, corria a rememorar o slogan da campanha presidencial – Make America Great Again – pra constatar que não, definitivamente, eu e meu interlocutor não falávamos sobre a mesma América. Uma simplificação necessária a fim de me garantir um pouco mais de intimidade com a língua inglesa, já que, mesmo em um trivial bate-papo, sinto-me tão confortável quanto um faquir em sua cama de pregos.

      Depois da visita às montanhas, começamos a nos despedir de America. Os três últimos dias do percurso foram frenéticos: mil quilômetros a dirigir e mais duas cidades a conhecer, antes de fechar o nosso círculo geográfico. Ao final de cada longa jornada, me recriminava por ter planejado lugares demais pra tempo de menos, sentimento que, felizmente, Charleston e Atlanta fizeram o favor de espantar.

      À beira mar, Charleston concentra todo o peso da tradição sulista temperado com uma atmosfera arejada e praiana. No centro histórico não faltam referências ao passado escravocrata e à Guerra Civil - ruas com calçamento de pedra, construções inspiradas nas grandes fazendas algodoeiras, estátuas dos generais vitoriosos e até bandeiras dos Confederados – ao lado de lojas de grife, renomados restaurantes, antiquários e galerias. Os ares da modernidade também estão nos barcos e marinas, nas grandes avenidas e nas pontes cruzando o emaranhado de rios que desembocam no oceano. Tem água, muita água, em toda a região. Tanta água que transbordou do céu, em uma forte pancada na manhã da nossa visita. A chuva ajudou na seleção dos programas que coubessem no calendário apertado: nada de praia ou grandes passeios ao ar livre. Com isso, o dia inteiro que passamos em Charleston até que foi suficiente, mas a cidade merece pelo menos mais 24 horas de reconhecimento. Antes de voltar ao hotel, passamos no Melvin’s pra devorar um legítimo barbecue – pork ribs, BBQ sauce, green beans, cornbread. Ambiente simples e comida muito gostosa.

      No dia seguinte, malas prontas, pé na estrada mais uma vez. A fim de otimizar o roteiro, o pernoite em Savannah teve que ser cortado, mas, no caminho para Atlanta, demos uma passada pelo centro da cidade. Pelo que vimos, a alteração não foi uma grande perda, embora uma chuva forte tenha caído justamente durante o passeio e, talvez, tenha comprometido o nosso julgamento. Pra tirar a dúvida, só mesmo voltando por lá...

      Depois de mais um estirão dentro do carro, chegamos à última parada: Atlanta, a capital da Geórgia. Uma cidade movimentada, entrecortada por eixos rodoviários que facilitam a circulação e o acesso aos bairros mais distantes. Quer um exemplo pra entender a importância econômica de Atlanta? Adivinha onde fica a sede da Coca-Cola? E a da Delta? Sem falar na AT&T, CNN... Mesmo poderosa, Atlanta foi bastante afetada pela crise de 2008 e os altos níveis de desemprego ainda não foram totalmente revertidos. Numa tarde, procurando vaga pra estacionar o carro e ir a uma cervejaria, acabamos passando numa região repleta de moradores de rua, gente em pobreza extrema que parecia aguardar por algo. O garçom do bar nos explicou que aquelas pessoas seriam atendidas por um abrigo, teriam acesso à comida e a um teto provisório. Na avaliação dele, a capital vinha se recuperando gradualmente, e, com a população melhorando de vida, já não eram necessários tantos abrigos quanto em anos anteriores. Não deve ter sido coincidência o fato de, em toda viagem, apenas em Atlanta termos sido abordados por pedintes, pessoas comuns que alegavam ter fome. 
      Se a luta atual da população é pelo resgate da economia, a batalha mais emblemática, encarnada por Martin Luther King, foi contra o segregacionismo racial e pelos direitos civis dos negros. A visita ao bairro onde nasceu o pastor, transformado em área histórica, é uma experiência forte. Há um centro de exposições com detalhes da vida, da morte e da luta de King; pode-se adentrar a igreja batista onde ecoam as suas principais pregações; ou circular pela vizinhança e conhecer as casas do início do século XX que compunham o cenário da sua infância. Além da emoção de ouvir o belo discurso “I Have a Dream” sentados nos bancos de madeira da Ebenezer Church, ficamos especialmente tocados por estarmos lá exatamente num 28 de agosto, o mesmo dia da Marcha de Washington em 1963, quando Martin Luther King convocou America a sonhar com ele. Cinco décadas depois de sua morte, é necessário reconhecer que, entre avanços e retrocessos, há ainda muito o que sonhar, e lutar, para que pessoas de todas as nações, de diferentes Américas, tenham direito à igualdade, à liberdade e à paz. 












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      Todo mundo sabe que quem conta um conto, aumenta um ponto... Eu, pelo tempo que levei pra contar um passeio de 14 dias, devo ter aumentado vários pontos! Mas juro que a minha intenção com os toques ficcionais, as ênfases subjetivas, os enfeites aqui e ali foi tornar mais colorido e sonoro o relato de nossa aventura. E, claro, conquistar mais alguns leitores para o Blog! 😇😇
      Espero que estejamos juntos em outras crônicas. Até lá.

      Para ver outras imagens, clique aqui: Galeria de Fotos - Bye Bye, America
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      quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

      Gente da Serra (2) - Dona Ana e Seu Clarindo

      Cruzamos a porteira da propriedade Brioschi quando rodávamos meio sem rumo pelas estradas à procura de estabelecimentos abertos em 1º de janeiro, dia bem ingrato para se fazer turismo. À frente das casas, numa cancha improvisada na rua de terra batida, um grupo de pessoas jogava bocha. Quase demos meia volta, constrangidos por atrapalhar o lazer da família em pleno feriado. Antes que escapássemos, um senhor interrompeu a partida e veio nos receber. Informou que a lojinha estava fechada, mas que teriam muito prazer em abri-la para que conhecêssemos o café gourmet, os laticínios e os defumados produzidos artesanalmente ali mesmo no sítio. E convocou a esposa para acompanhá-lo na tarefa. 

      Pelo acolhimento do casal, descendentes de imigrantes italianos, e com a conversa correndo solta, o nosso embaraço foi dando lugar a uma sensação de bem estar. A mim, mais que isso, senti uma empatia pela história de vida de Seu Clarindo e Dona Ana - a lida no campo, as dificuldades de se manterem com os recursos da produção rural, sem, no entanto, perder a alegria e o vínculo com a família. Ele, pele clara e faces muito coradas, lembrou-me meu avô Peixoto, fazendeiro e contador de causos, gentil e carinhoso como o Seu Clarindo. Quando comentei sobre esta semelhança, a voz ficou engasgada, mas me recuperei logo com outra provinha do defumado socol que a senhora me serviu.

      Dona Ana, setenta e tantos anos, tem a força das matriarcas. Foi dela a ideia de, há mais de 2 décadas, inscrever a propriedade num programa de agroturismo, criado no município como alternativa de renda para os produtores rurais. Hoje, ainda trabalha duro nos cuidados da casa e na linha de produção, mas reserva as suas tardes para uma de suas mais queridas atividades – o contato com os turistas. Ela aprecia a companhia e a prosa com os visitantes, e, embora tenha um jeito mais tímido que o marido, foi nos contando sobre suas preferências políticas, sobre filhos e netos, preocupações e orgulhos. Reconheci nela o que vivenciei em minha própria família - a determinação e o poder das mulheres simples do interior. Convivi com tias queridas que resistiram às dificuldades da vida isolada e com poucos recursos, mantendo o afeto e a generosidade, vibrando com a visita de parentes e amigos. As minhas “Anas” chamavam-se Inah, Odette, Alice, Olinda, Honorina, Yá... 

      Hora das despedidas, abraços apertados, palavras de agradecimento. Reunimos o café e os defumados comprados e recolocamos o pé na estrada. Circulando por lá, encontramos outras famílias tradicionais trabalhando juntas, além de nascidos na serra que, após um período de "exílio", voltaram a se estabelecer na região - como o Maurício, do Sítio dos Palmitos. Florescem pequenos negócios de produtos orgânicos e naturais, plantação de flores, apiário e cervejaria, tornando as localidades de Domingos Martins e Venda Nova do Imigrante destinos bacanas pra passear e viver.
      imagem da Internet - www.folhavitoria.com.br



      Em tempo: não choro mais pelo Patinho Feio! Com exceção da situação precária das rodovias (também no estado do Rio de Janeiro), a viagem pelo Espírito Santo foi de muito riso e alegria.

      Para ver imagens dos locais visitados, clique em Galeria de Fotos - Serra Capixaba
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      domingo, 21 de janeiro de 2018

      Gente da Serra (1) - Tiago

      Ele é ainda jovem, pela casa dos 30 anos. Filho da terra, cresceu e estudou em Domingos Martins. Já foi guia turístico nas trilhas do Parque Estadual da Pedra Azul, mas com a autorização de passeios independentes, sem necessidade de condutor, a clientela diminuiu e ele migrou para a área da segurança. Agora, faz plantão na entrada principal da reserva, principalmente fora dos horários de funcionamento regular. Foi lá que nos encontramos, no dia 31 de dezembro, depois de subirmos a pé uma estradinha de terra, com sol forte e ataque de mutucas, para descobrir que, por causa dos feriados de final de ano, o parque estava fechado. Mas Tiago salvou a pátria! Com conversa fácil, bom humor e gentileza, contou-nos inúmeros causos sobre a colonização e também sobre a grande formação rochosa de cor azulada que dá nome ao parque. 

      A história que mais gostei não foi inventada por ele, já faz parte do folclore da região, mas Tiago a contou tão compenetrado que, no início, até pensei ser verdade.

      - Já faz muito tempo, mas uma grande batalha se deu aqui. Um menino, com sua espingarda, caçou uma onça feroz. A luta foi tão sangrenta que suas marcas ficaram inscritas na pedra e ainda hoje estão visíveis – narrou com expressão séria e ênfases para sublinhar o suspense.

      - Vem cá, olha daqui – ele nos guiou a um descampado à frente da entrada. Tá vendo os buracos mais à esquerda na rocha? São as pegadas do menino e do bichão. A onça se debateu e estrebuchou diante da morte, por isso as ranhuras e a mancha de sangue ali na base. E o lagarto, coitado, que vinha subindo a pedra na hora em que se deu a peleja, de tão assustado, petrificou-se pelo medo!
      Acompanhamos cada lance da narrativa, e rimos muito, e puxamos mais assunto com o Tiago. Por fim, inebriados, pegamos a estradinha de volta, até com mais ânimo pra enfrentar o sol e as mutucas. 

      Foi muito bom perceber que o desenvolvimento econômico da serra capixaba tem permitido que jovens, como o nosso anfitrião, não precisem abandonar suas pequenas cidades para buscar trabalho e sustento. Encontramos rapazes e moças atuando em restaurantes, bares e pousadas, ou empreendendo em atividades de ecoturismo – como o Ricardo, do Ecoparque Pedra Azul. Tomara que eles continuem por lá, recebendo os visitantes com competência e carinho, o que, num círculo virtuoso, acaba trazendo novos turistas e mais crescimento.
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      terça-feira, 12 de dezembro de 2017

      Great Smoky Mountains

      Pra quem conhece Yosemite Park (na California), The Great Smoky Mountains não são lá uma Brastemp. Os bosques e trilhas do parque nacional (na divisa entre Tenessee e Carolina do Norte) são bonitos, mas falta a exuberância das águas e árvores, além do relevo pedregoso que confere imponência a outros santuários americanos. O adjetivo “smoky” vem da constante bruma nas áreas mais altas, compondo um ecossistema antigo, com espécies raras da flora e da fauna. Tudo bem que a presença da neblina dê um toque misterioso às montanhas, mas achei providencial que ela só tenha aparecido para nós por poucas horas da manhã, favorecendo bastante a visibilidade nos principais pontos turísticos.
      Apesar de, em um dia de passeio, não termos exclamado muitos Ohs! e Uaus!, testemunhamos a boa organização do lugar. Há centros de visitantes com funcionários solícitos em diferentes áreas; não faltam jornais, mapas e guias informativos; guardas florestais cuidam dos locais mais movimentados, instruindo as pessoas e zelando pela segurança do ambiente. Quando estávamos subindo a trilha para Clingmans Dome, o ponto mais alto nos “Smokies”, ouvimos um zumbido forte e constante. Pensei serem as abelhas que voavam por ali, mas logo alguém reconheceu o som: “é um drone!” A palavra, e o zumbido, despertaram os mais primitivos instintos de proteção no guarda que conversava a nossa frente. Com sangue nos olhos, subiu a trilha aos pulos, em direção ao infame invasor. Sem conseguir acompanhá-lo na subida, imaginei que, chegando ao topo, encontraria o dono do drone algemado e imobilizado, o equipamento aos pedaços a seus pés. Os poucos minutos de corrida ladeira acima devem ter trazido o policial à razão, pois, ao invés da cena imaginada, encontrei-o recomposto, explicando pacientemente a um rapaz os malefícios do veículo voador para a fauna local. Meio a contragosto, o jovem recolheu seu brinquedinho e a paz voltou a reinar entre os animais, e entre os guardas florestais.


      O principal habitante do parque, no entanto, é bem mais difícil de encontrar do que as abelhas. Embora 1.500 ursos negros vivam na reserva ecológica (segundo o Smokies Guide), só conseguimos ver um deles de relance, bem de relance mesmo, na área eleita por nós como a mais bonita: Cades Cove. O vale ensolarado e tranquilo tocou fundo o coração de Ana Paula, fascinada com os tons do céu em composição com o verde da pradaria. Enquanto escolhia os ângulos para fotografar cada detalhe, não se cansava de dizer o quanto estava feliz. Talvez em outras vidas tenha estado por lá, talvez relembrasse as cores e sons de um campo ancestral, ou antevisse um tempo futuro... O fato é que a estradinha em loop de Cades Cove, com veados e ursos, além de casas e igrejas rústicas dos primeiros moradores dos Apalaches, fechou com emoção e simplicidade nosso único dia na região.
      Consultando o material de divulgação, encontramos muitas atividades bacanas para quem fica uma estadia mais longa: pesca, camping, passeios a cavalo e de bicicleta, observação de animais, passeio à aldeia Cherokee, além de cursos com especialistas de Ciências, História e Artes. Esta variedade de possibilidades deve ser um dos motivos que tornam The Great Smoky Mountains o parque mais visitado do país. Mas eu aposto que a proximidade a duas cidades pitorescas contribui bastante para atrair a enxurrada de interessados. Numa das principais entradas da reserva está Gatlinburg, um conglomerado de hotéis, restaurantes de grandes redes, cervejarias, parques de diversão, pistas de Kart, teleférico e milhares de lojinhas de souvenir. À noite, a rua principal (e quase única da pequena localidade) ferve com as famílias divertindo-se aqui e ali. 
      Esgotadas as possibilidades em Gatlinburg, basta dirigir por uns 20 minutos e encontrar a cidade mais desvairada que já conheci - Pigeon Forge, uma mistura de Disneylândia com Las Vegas, às margens de uma longa avenida. Os estabelecimentos, letreiros luminosos piscando para capturar a atenção dos passantes, fazem referência ao cinema de Hollywood (King Kong, Titanic) e aos mitos americanos como Elvis, Marilyn e John Wayne. E ainda oferecerem experiências temáticas com os caipiras da família Buscapé ou numa casa-brinquedo simulando a ação de um tornado. As excentricidades de Pigeon Forge estão longe do nosso gosto turístico, mas não deixamos de parar o carro para fotografar, e rir muito, a cada surpresa no caminho. Mais fotos da aventura podem ser acessadas no link no final da postagem. Vale a diversão!

      Para ver outras imagens, clique aqui: Galeria de Fotos - Great Smoky Mountains
      Para saber mais sobre a viagem, leia também: Entre Luz e SombraChattanooga Choo-Choo; Alegria e Música em Nashville e Enfim, o Eclipse.

      domingo, 19 de novembro de 2017

      Enfim, o Eclipse

      Ainda era cedo naquela segunda-feira de agosto - dez da manhã, se tanto. Havíamos saído de Nashville com antecedência, movidos por uma soma de ansiedades – a nossa, trazida desde o Brasil, e a que piscava incessantemente nos painéis luminosos espalhados pela cidade, avisando sobre prováveis engarrafamentos no dia do eclipse.

      A viagem de quarenta minutos até a cidadezinha de Gallatin, tantas vezes ensaiada no Google Maps, durou, vejam só, exatos quarenta minutos. E não foi difícil encontrar um lugar para parar o carro, apesar dos pontos oficiais de estacionamento no parque já estarem tomados por americanos ainda mais precavidos. Orientados pelo pessoal do evento, estacionamos num grande descampado gramado, no qual as fileiras de automóveis iam rapidamente se formando. De posse de nossas modestas tralhas (três cangas, garrafinhas de água mineral e algumas frutas), seguimos a pé até o ponto central do Triple Creek Park, acompanhando as famílias que levavam seus incríveis equipamentos de camping – cadeiras e mesinhas dobráveis; geladeiras com rodinhas; tendas tamanho XGG, entre outros apetrechos considerados totalmente indispensáveis para um dia ao ar livre.

      Enquanto caminhávamos, fomos percebendo que o parque, que nos parecera, em visitas pelo Street View, um local ermo e sem atrativos, tinha sido transformado para receber os visitantes. Voluntários davam as boas vindas, distribuíam informativos sobre as atrações do encontro e ofereciam óculos especiais para a observação do eclipse. Reforçamos o estoque de água mineral, distribuída gratuitamente, localizamos a área de banheiros químicos e nos instalamos à sombra de uma fileira de árvores, nossas canguinhas estiradas providencialmente no gramado.
      As duas horas de espera até que o eclipse começasse passaram aos pulos, no ritmo da nossa felicidade. Eu não esperava me sentir tão envolvida, mas o clima alegre das pessoas ao nosso redor, a música (James Taylor, Bob Dylan e afins) ao vivo no palco, o céu praticamente sem nuvens, a organização e o cuidado com os detalhes do encontro, foram me fazendo dar graças por poder estar ali. E o Mário, sorriso brilhando, andando de lá pra cá no meio de lunetas e telescópios poderosos, falando com gente apaixonada por astronomia, vinda, de perto e de longe, para ver o espetáculo do dia.

      Depois que a lua começou a sombrear o sol, não arredamos mais pé do nosso ponto de observação. Olhos colados no céu, acompanhamos as mudanças na natureza e a reação das pessoas:
       - Não tira os óculos, pode cegar! - Acho que a sombra já está na metade, vê só! - Tá ficando mais fresco, né?- Pode me emprestar o seu binóculo? - De onde vocês são? ... Brasil! Tão longe!


      Escureceu quando o eclipse total se desenhou, e ouviram-se palmas e cigarras cantando, e vozes em alvoroço. Olhos livres e corajosos, assim como as câmeras fotográficas, procuravam capturar os 2 minutos e 40 segundos de círculo negro. Foi uma beleza o clarão que anunciou o final da sobreposição perfeita! Lua e sol se despediram, e continuaram em seus caminhos plenos de luz, assim como nós. 
      No retorno para o estacionamento, seguimos as famílias que, além da emoção e dos equipamentos de camping, levavam também o lixo que produziram. Ao fim da tarde, deixamos o parque lá atrás, de volta à sua essência: um local ermo e sem atrativos, mas, definitivamente, o mais marcante da nossa viagem.



      Para ver outras imagens, clique em Galeria de Fotos - Eclipse
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      Na Rede:
      • Eclipse MegaMovie Project - promovido por uma associação entre a Astronomical Society of the Pacific, a Universidade da Califórnia em Berkeley e o Google. O objetivo do projeto foi produzir um vídeo a partir de imagens coletadas por fotógrafos voluntários ao longo do caminho do eclipse. O resultado, que inclui uma foto feita pelo Mario 😊😊, pode ser visto em https://eclipsemega.movie/
      • Dentre os vários vídeos produzidos durante o The Gallatin Eclipse Encounter, selecionei este que, apesar de não ter boa resolução nas imagens do eclipse propriamente dito, mostra bem a reação emocionada das pessoas no parque na hora H.  https://youtu.be/4IXg3aPLHaw