quinta-feira, 29 de junho de 2017

Cinema: Birras, Lembranças e Deleites

Praticamente todo mundo já tinha assistido aos filmes que ganharam o Oscar em 2017, menos a galera aqui de casa. Finalmente, nas 2 últimas semanas, corremos atrás do prejuízo e vimos 3 longas premiados e bastante comentados. Escrever sobre eles, eu sei, pode ser até um desperdício do meu tempo, e do tempo dos meus possíveis leitores. Não pude, entretanto, combater as ideias que teimavam em se apresentar. Resolvi organizá-las em pequenos textos e publicar no Blog. São relatos, em primeira pessoa, de quem quer compartilhar as birras, lembranças e deleites que só os bons filmes sabem despertar.
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Antes do meio do filme, eu já estava me sentindo traída:
Pera aí! O Juan morreu? Mas ele não é o traficante que vira mentor e salva o Chiron da violência e do abandono? Eu li isso na sinopse! Que protetor é este que sucumbe antes da missão cumprida? 

Algumas cenas adiante, tive que me render: o roteiro de Moonlight não trata de superação e redenção. Conta, com amargor e uma tristeza profunda, as batalhas, e derrotas, de um jovem negro, pobre e desamparado.

Embirrei com a sinopse, pela propaganda que julguei enganosa. Quase embirro com o filme todo, entrando numa de questionar cada situação. Aos poucos, no entanto, o personagem foi me comovendo: a expressão solitária do olhar, a economia das palavras, o mal estar com o próprio corpo, mesmo depois de se metamorfosear de garoto franzino em colosso marombado. Com migalhas de amor e cuidado, Chiron sobrevive, apesar de tudo e de quase todos, apesar também da instituição escolar, que mostrada em poucas e absurdas cenas, revela-se totalmente alheia à vida dos jovens estudantes, suas necessidades, desejos e problemas. Numa escola descompromissada, o que importa realmente ao professor é o conceito de ácido desoxirribonucleico... Triste realidade! 

Já no fim do filme, a minha birra voltou. Ouve-se Caetano cantando Cucurrucucu Paloma, uma bonita canção, sem dúvida, mas que ficou totalmente atrelada ao enredo de Fale com Ela, de Almodóvar. Fosse eu a responsável pela trilha sonora, não teria dúvidas, escolheria como música-tema Gota D’Água, na voz de Chico Buarque: 
          Deixe em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa...
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Diferentemente de Moonlight, Manchester à Beira Mar me arrebatou desde o princípio. Já nas cenas iniciais, vivi uma espécie de déjà vu. A paisagem pareceu familiar: céu coberto de nuvens cinzentas, vento gelado, neve, e um frio de doer. Eu nunca estive em Manchester, moro entre os trópicos e começo a me agasalhar quando os termômetros atingem 20 graus, mas, de pronto, intuí a dramática força da história. Creio que as lembranças da minha viagem a Cape Cod, uma península no mesmo estado de Massachusetts onde o filme acontece, contribuíram para esta sintonia. Embora fosse outono, uma intensa frente fria nublou os nossos dias, dando um toque melancólico e introspectivo a cada experiência. Em tons existenciais similares, mas bem mais fortes, o roteiro do filme, organizado em flashbacks, vai, aos poucos, nos mostrando porque é sempre inverno no coração do protagonista. 

Lee Chandler é, como o cenário ao seu redor, um homem monocromático: rosto inexpressivo, raras palavras, movimentos econômicos, contenção poucas vezes quebrada em explosões de fúria. O comovente, no entanto, é perceber que, mesmo com toda a dor, ele não está sozinho. E é a instigante relação com o sobrinho - um personagem adorável, desejoso de ser feliz - que move o filme. Ao final, abre-se um pedacinho de azul no céu escuro; pode ser que o sol venha e transforme em luz e cor o que era tristeza e frio. Não há promessa de verão, só um pouco de esperança.
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Já tinha ouvido várias opiniões sobre La La Land antes de assistir ao filme. Muitos amigos adoraram o musical e tiveram ímpetos de sair bailando do cinema. Outros tantos, odiaram, e voltaram pra casa maldizendo o roteiro. Considerando a polêmica, não fui com muita sede ao pote hollywoodiano; esperava me divertir, e só. 

Acontece que entrei pro clube dos que gostaram muito! La La Land é um musical, por certo, mas se esquiva com habilidade de algumas chatices próprias do gênero. Com exceção da longa cena inicial – a dos motoristas que, num enorme engarrafamento, saem dos carros para cantar e dançar como se fosse a coisa mais natural do mundo -, as coreografias e canções são enxutas e bem enganchadas às situações da história. Elas respeitam as capacidades dos atores principais, que embora não sejam exímios dançarinos ou talentosos cantores, saem-se bem na execução dos números musicais. 

Os personagens Mia e Sebastian são pessoas comuns em busca de seus sonhos, são “gente como a gente”. Têm certezas, dúvidas, medos, e tomam decisões que levam o filme a um final feliz, mas sem o “happy ending” típico das histórias de amor. Para mim, a grande sacada do roteiro foi o momento “E se...”, quando eles se reencontram tempos depois de separados e imaginam como teria sido a vida em comum se, nas encruzilhadas da vida, tivessem feito outras escolhas. A sequência de cenas idílicas é interrompida e um misto de sentimentos os invade: uma pontinha de tristeza somada à certeza de que viver este amor os ajudou a ser felizes. E daí seguem em frente, fortalecidos, e separados.
Fim.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

E se você ainda me amar

Não fala nada, não fala! Preciso recompor a respiração. Nem sei como tive fôlego pra escalar este lance de escadas. A idade pesou nestes últimos anos, mas deixa estar, este assunto não te interessa, eu sei. Ficou surpreso por me ver aqui? Não precisa disfarçar, a sala está vazia, somos só nós dois outra vez.

Você está diferente. Desculpe o riso, não pude me conter, acho que é nervosismo, mas a falta do bigode deu destaque aos lábios finos, tão apertados, quase imperceptíveis. Ficou engraçada esta ausência de boca num ser repleto de palavras. Os cabelos estão mais ralos e o corpo mais magro; aposto que precisou de auxílio para vencer os degraus do térreo até aqui. Você nunca vai dar o braço a torcer, embora não seja vergonha nenhuma precisar de ajuda nesta sua idade. Acha que eu esqueci? Sei o dia, o ano e até a hora em que você nasceu, e a minha cabeça ainda está boa para os cálculos.

Só não sei dizer direito porque fiz questão de logo vir te ver. Sabe quanto tempo faz? Eu contei cada dia, cada semana, cada mês. Dez anos! Não fala nada, por favor, não adianta tentar se explicar, já imagino todas as suas desculpas. São como frágeis bolhas que, no ar, se desmancham, respingam nos olhos e só me fazem chorar. 

Às vezes, eu penso ter sido orgulho o que te motivou. Um espírito iluminado encarnado num corpo vigoroso – era assim que você se percebia, não era? Superior a cada ser humano à sua volta - esposa, filhas, todos. Essa pose de macho confiante é só pose, só casca. Por dentro, um ego enorme ao lado de um buraco que nada tampa, nem a música, nem nenhuma mudança de endereço, de cidade, de planeta. Olha, é difícil admitir, mas preciso confessar: o orgulho foi meu também, eu amava a minha própria face refletida no seu carismático espelho. 

Incrível como você reage, sempre foi assim. É só eu começar a falar sobre mim, quer dizer, sobre nós, que você fica com esse ar distraído, alheio, como se nada te dissesse respeito. Finja o quanto quiser, hoje não vai me calar.

No início, eu não me preocupei muito, já tinha me acostumado a tocar a vida apesar da sua ausência. Meses e meses longe de casa por causa dos shows... Mas havia a certeza da volta, e do amor que você dizia sentir. Sem muita pressa, o tempo foi borrando as minhas convicções. Só me dei conta do real estrago quando a nossa vizinha, lembra, aquela beata que vivia nos atormentando com insinuações maldosas, tocou a campainha para me dar a notícia. Ela revirava os olhos e torcia as mãos enquanto pronunciava cada sílaba, num dissimulado constrangimento. Demorei pra compreender a mensagem – alguém havia visto você no Uruguai, numa estância perto de Montevidéu. A vizinha se manteve em pé, à porta, saboreando o baque no meu corpo, e os meus gritos: “No Uruguai! Uruguai?”. Talvez ela não tenha entendido o meu desespero, depois de tantos anos eu já não deveria estar anestesiada? Mas você entende: quebrou-se o espelho que nos refletia. Foi covardia o que te motivou, só pode ter sido covardia, fraqueza, baixeza mesmo, ir se refugiar num país em que tínhamos, um dia, sido felizes. 

Tive ganas de pegar o primeiro avião. Não pra te ver, não... Eu arrancaria e traria de volta o simbólico cadeado colocado na grade da fonte, vomitaria as carnes tenras e o vinho tinto das celebrações, apagaria cada pingo de alegria espalhado nas pradarias. Não fui. Tive medo de romper de vez o fio de seda que nos unia. E se você ainda me amasse, como nos meus sonhos mais secretos? E se me amasse, como naquela risível história tantas vezes repetida nos encontros da família? Lembra? O marido avisa à esposa: vou sair pra comprar cigarros. Volta seis meses depois, maço de Hollywood nas mãos, a chave da casa balançando do bolso da calça. Entra, beija a testa da mulher e a vida segue como se mais nada houvesse. Você ainda fuma? Não importa! Se ainda me amar, podemos brincar de comprar cigarros, e interpretar a família feliz como se mais nada tivesse havido. O beijo na testa eu posso te dar agora.

Estou me sentindo um pouco tonta, me deixe sentar ao seu lado. Deve ser a labirintite. Se as meninas estivessem aqui - não, elas não quiseram vir te ver - diriam que essa tonteira é o corpo reagindo às loucuras da mente. Que é uma total insanidade não arredar pé do nosso apartamento nem admitir trocar a fechadura da porta da frente. Elas zombariam de mim por você não ter mais a chave de casa.

Espera, não precisa falar nada, seus amigos estão chegando. Vou deixar que se aproximem e cantem as velhas canções, façam as orações, prestem as homenagens. O sol está forte, não pretendo seguir o cortejo, você me desculpará, por certo. Talvez nos reencontremos em outro tempo. Outro lugar? Quem sabe? Mas isso, por favor, só se você ainda me amar.

(Conto produzido como exercício da Oficina de Criação Literária
do professor Marcelo Spalding)

terça-feira, 28 de março de 2017

Assis Horta Retratos

Quando li O Instante Certo, de Dorrit Harazim, gostei em especial do capítulo dedicado a Assis Horta, fotógrafo mineiro com uma trajetória marcante na tarefa de dar visibilidade à classe trabalhadora brasileira. Ele teve a vida transformada por um novo campo de atuação aberto com o lançamento CLT: em toda Carteira de Trabalho deveria constar uma foto 3x4 identificando o portador. Por sua vez, ele resgatou e dignificou, com as fotografias identificatórias e os registros de família, as faces, e os corpos, de homens e mulheres pobres de Diamantina. A leitura me fez pensar nos retratos de meus avós e no meu próprio na Carteira de Trabalho, uma reflexão misturando história pessoal com história do país. Por tudo isto, quando soube da exposição Assis Horta Retratos, em cartaz no Espaço Cultural BNDES, corri para conhecer melhor este senhor de 99 anos e sua coleção de imagens.

Na exposição, fotos impressas em grande formato se espalham pelo salão. São retratos em tamanho real de homens, mulheres e crianças fotografados nas décadas de 40 e 50. Parecem pinturas pelos contrastes de luz e sombra, pelos olhares expressivos. O estúdio do fotógrafo, como se vê nas imagens, é bem simples em seus recursos: um invariável painel pintado serve de fundo, um tapete persa gasto, uma cadeira de palhinha e uma esguia mesinha lateral se revezam em possíveis composições com os personagens da vez.

Simples também são os retratados, que se apresentam sozinhos ou em grupos. Mulheres trajando vestidos discretos, cintados, sempre cobrindo os joelhos; grampos ou presilhas domando os cachos dos cabelos. Homens de terno e gravata, lenço no bolso, cabeleira gomalinada. O chapéu aparece como elemento indicador de respeitabilidade, além de compor elegantemente as fotografias. Os sapatos surrados chamaram-me a atenção. Dorrit conta que Assis Horta guardava no estúdio roupas masculinas para emprestar, já que os senhores chegavam para a sessão de fotos sem o apuro necessário, daí deduzo que os sapatos fossem dos próprios, com as marcas do tempo e do barro das ruas.
Nas paredes laterais, estão expostas inúmeras fotos tiradas para as carteiras de trabalho. Um apanhado de pessoas sérias, corpos eretos e plaquinhas com a data em que os takes foram feitos. Passear diante delas é tentar decifrar vivências e sentimentos escondidos. 
Objetos de trabalho e uma recriação do estúdio de Diamantina completam a exposição. Dá até pra brincar, ensaiando umas poses diante do painel e usando o celular em vez da Rolleiflex. O difícil mesmo é conseguir algum bom resultado com um click único, marca do estilo de Assis Horta, que nunca repetia o registro de uma cena. Fiquei imaginando o que deve pensar o velho fotógrafo sobre o nosso contemporâneo apego  pelo disparador...

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Assis Horta Retratos – de 15 de março a 5 de maio de 2017
Espaço Cultural BNDES – Rio de Janeiro
O guia impresso da exposição ajuda na compreensão dos detalhes, mas a leitura do capítulo de O Instante Certo amplia consideravelmente a experiência visual. Eu recomendo a dobradinha.
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Para ler a postagem sobre minha admiração pela jornalista Dorrit Harazim, clique aqui.

Quero Ser Dorrit Harazim

Desço do táxi em frente à livraria do Leblon. O lançamento está marcado para às sete horas, ainda tenho alguns minutos de espera ansiosa. Outros interessados já se enfileiram diante da mesa preparada para os autógrafos. Dirijo-me ao caixa e, com meu exemplar nas mãos, junto-me aos admiradores da jornalista. 

Enquanto aguardo nosso primeiro encontro pessoal, folheio as páginas de O Instante Certo e confiro trechos das histórias, nascidas a partir de registros fotográficos. Das fotos impactantes, saltam histórias reais sobre os fotógrafos e seus fotografados, tendo como pano de fundo os principais temas sociais e políticos que os influenciaram. Pra completar, questões técnicas e estéticas da própria arte da fotografia. São todos textos novos para mim, embora já tivessem sido publicados em diferentes veículos nos últimos 20 anos. É pena, mas faz bem menos tempo que me encantei com o estilo de escrita da autora. Não tenho certeza de quando as colunas de O Globo começaram a fazer parte dos meus domingos, mas toda semana, mergulho fundo na narrativa elegante e inteligente da jornalista, hábil em tecer os múltiplos fios que o tema do dia sugere. Os assuntos variam, dos mais populares - terrorismo, eleições nos EUA, crise na política brasileira - aos mais prosaicos, como um esparadrapo no Museu do Amanhã. O fato é que sempre termino a leitura assaltada por um misto de sentimentos: uma enorme admiração e uma pontinha de inveja. Desejo, como naquele roteiro de cinema, quinze minutos pra entrar na mente de Dorrit Harazim, e, sendo a própria, capturar uma parcela de suas habilidades narrativas. A ousadia, mesmo que em devaneio, é imediatamente castigada: sou cuspida de volta à noite de autógrafos, bem no momento em que a senhora miúda e magra, tão alva na pele, cabelos, e até na blusa, toma posição à mesa. Parece frágil a mulher que correu mundo para cobrir guerras, ditaduras, atentados terroristas, jogos olímpicos, eleições. Um contraste enorme quando penso na robustez dos seus escritos. 

Ensaio um cumprimento para a hora h: Sou sua fã! (Fã, que ridículo! Ela vai me achar fútil). Ou, então: Gosto muito dos seus textos! (É óbvio, todos estão aqui pelo mesmo motivo!). Descarto, uma a uma, as frases feitas para me diferenciar nos parcos minutos em que estenderei meu livro no ritual da noite. Olhos livres no ambiente, reconheço uma pessoa que acompanha a autora - será uma assessora, ou parente? Tenho tempo pra recordar de onde a conheço; estou quase na pole position, quando a mulher se aproxima. Surpreende-se por me ver ali, ela comenta. Respondo que eu também. Pensei que trabalhasse com cinema, completo. Ela conta brevemente a sua relação com a jornalista e, em seguida, me apresenta à Dorrit. Vibro por já não ser uma reles leitora misturada à multidão e trato de me mostrar como tal. Em voz firme, proclamo: Sou sua fã! Gosto muito dos seus textos! Dorrit me olha, sorri levemente, rabisca o autógrafo e se deixa fotografar ao meu lado.
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Embora O Instante Certo já habite a minha biblioteca há alguns meses (a noite de autógrafos aconteceu em junho de 2016), o relato da minha experiência tinha ficado engavetado. Escrevi algumas versões, mas insatisfeita, acabei me dedicando à leitura do livro, bem mais interessante que qualquer texto que eu pudesse escrever. O tempo passou até que, na semana passada, a abertura da exposição Assis Horta Retratos me fez recordar o livro e, em especial, o capítulo referente ao fotógrafo mineiro que retratou a classe operária de Diamantina nas décadas de 40 e 50. Depois da visita, consegui parir o texto encruado, além de um novinho em folha, que pode ser conferido aqui.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Eu choro pelo Patinho Feio

Manhã de sábado, abro os olhos depois de uma noite difícil. Dormir com a bota ortopédica é um desconforto total: o peso da armação, o formigamento dos dedos, a falta de equilíbrio entre uma perna e outra... Lá pelas tantas da madrugada, arranco a bendita e consigo, entre uma virada de acomodação e outra, alguns cochilos providenciais.

Confiro o relógio e me dou conta que já passa das sete. Terão os policiais militares do Espirito Santo voltado ao trabalho? A semana no estado foi loucura: movimento das mulheres, situação de guerra, criminalidade em alta, população sitiada. Acompanhei as notícias com empatia adicional. Morei em Vitória nas décadas de 70 e 80, reconheço vários lugares mostrados nas imagens de TV - ruas, praças, o edifício do governo no centro da cidade. Imagino-me estudante da UFES, sem ônibus pra chegar lá, sem aulas... Sou outra vez professora de escola particular, vendo o espaço fechado e a grita dos pais que, mesmo com medo, precisam trabalhar. Com quem ficarão as crianças? Como funcionar sem segurança, sem os funcionários? Recordo que, na crise, todos perdem, é quase impossível conciliar interesses e necessidades. 

Reviro os pensamentos, levanto da cama e lamento que a greve tenha vindo logo agora que as coisas pareciam estar mudando. Eu via o Espírito Santo como o Patinho Feio da região sudeste: sem o charme do Rio de Janeiro, sem o poderio econômico de São Paulo, sem a grandeza cultural de Minas Gerais... O estado mais sem graça do pedaço, na rabeira da fila dos filhotes de Mamãe Pata. O pior para mim era perceber, enquanto morava por lá, que o bichinho estava conformado com a posição.

Quando, nos últimos anos, as belas penas do Cisne começaram a aparecer no noticiário, me senti tocada, orgulhosa pela virada de identidade do estado. Agora se apresentava como um dos poucos membros do galinheiro que mantinham as contas em dia. Respeito à lei, salários pagos, mesmo com o orçamento apertado. O Patinho em transformação aprendeu que o dinheiro do petróleo é incerto como ovo no fiofó da Mamãe. E foi animador ouvir os governantes grasnando as boas novas, relembrando que os contos brasileiros podem ter final feliz. Podem?? 

A semana foi especialmente triste pela volta da incerteza, pela percepção da frágil condição de “Cisne novo”. Mesmo com dificuldades e contradições, próprias destes momentos difíceis, torço para que o povo capixaba, governantes e instituições entendam a crise como motor de avanço, de aperfeiçoamento, sem abandono dos valores e das ações que tem contribuído para a metamorfose do Patinho. E que continuem a acreditar na utopia do Cisne. Nós aqui do estado vizinho, descrentes de tudo, constatamos que a realidade pode ser mais cruel do que contos e fábulas. No nosso enredo, o pato é guloso, inconsequente e tresloucado. Um ser sem cautela que vai parar na panela! 

Em tempo: fico sabendo que os policiais não interromperam a greve. Vontade de voltar pra cama, com bota ortopédica e tudo...

Ilustração do artista alemão Theo van Hoytema (1893) para o livro de Andersen “O Patinho Feio”.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

A Medida do Inesperado

Quarto dia do mês.                                                      
                Até o Carnaval, eu boto a vida em ordem.
Treze horas e vinte minutos.                                   
                Intervalo pro almoço, finalmente!
Um buraco na calçada.                               
                40 centímetros de frente e 20 de profundidade. 
Dois segundos de distração.                                    
                2 míseros segundos e tudo muda. Rebobina a fita, por favor!
Um tornozelo torcido.                                                
                Virou uma bola de pingue-pongue. Tô ficando tonta...
Dois joelhos doloridos, uma das mãos ferida.            
                Podia ter sido só isso.
Duas mulheres solidárias.                                         
                Deu vontade de chorar. Não pela dor, por gratidão.
Um copo de água e uma bolsa de gelo.               
                Remédios pra tudo. Quase tudo...
Doze reais para o táxi.                                                
                Menos 1 hora de curso.
Duas horas na emergência.                                      
                Menos 3 horas de curso. Menos 200 reais no bolso.
Três radiografias, um laudo.                                     
                Quero ir pra casa!
Quinze dias com bota ortopédica. 
                Até a Páscoa, eu boto a vida em ordem...

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Não É Tarde

Ando pela cidade. Tenho pressa, sei que devo chegar a algum lugar. Mas qual? Olho ao redor, longas ruas se cruzam, embaralhando a direção a seguir. Escolho a larga avenida. Enquanto caminho, observo vitrines e letreiros. Aperto o passo, os quarteirões se sucedem. Viro a esquina e o grande parque se deixa ver. Será por aqui?

Sim. Lembro-me que é verde o almejado território e passo a perseguir, aqui e ali, as frondosas árvores. Elas me ajudarão! Quando me aproximo, esperançosa, o vento sacode as copas mais altas e uma chuva de folhas coloridas se desprende delas. São amarelas, laranjas, vermelhas, e cobrem o chão. Não é mais verão, não há mais o verde. Não vai dar tempo, eu sei.

Talvez este meu lugar esteja mais ao sul, imagino, quando um som de pisadas no tapete de outono me atrai a atenção. Um homem se diverte com o croc croc vegetal. Reconheço-o. Muita sorte ver o Nelson Motta por aqui. Corro para perguntar-lhe como chegar ao sul. - É fácil, ele me diz. Basta seguir as torres do World Trade Center. E se vai, rindo, antes que possa questioná-lo.

Sem sul, sem verde, retomo a caminhada errante. Tenho pressa, mas as pernas pesam. Arrasto-me pelas alamedas a procura do tal destino. Qual destino? Qual?

A resposta me vem num clarão, no instante em que reconheço o vulto ao longe. Descarto a busca geográfica, pois, agora sei, há alguém que eu preciso finalmente encontrar. Aperto os olhos, quase não consigo distingui-lo no aglomerado que o cerca. Aproximo-me com passos lentos, planejando a melhor abordagem. Tanto mal já me havia feito.

Viro-me, subitamente, ao ouvir a voz da mulher ao meu lado: - Ele não sabe, não sabe! Então, que culpa tem? Recuo por um momento. Talvez ele nem saiba mesmo o que representa pra mim.

Pessoas caminham na direção contrária, obrigando-me a desviar. Com dificuldade, aproximo-me um pouco mais. Alcanço-o ali no meio do Central Park e descubro, atônita, que tornara-se um ser imóvel. Imóvel como nunca antes. Vacilo. Eu o conheci tão cheio de pressa e aflição, amarrado às urgências cotidianas, olhos fixos nos ponteiros do grande relógio. Está inerte. Só pode ser um disfarce para me confundir.

Crianças o cercam sem cerimônia, escalando, num sobe e desce ininterrupto, o seu corpo entorpecido. A presença das crianças não me intimida, ao contrário. Preciso impedir que ele saia a perseguir mais alguém, como a mim, com seu bordão irritante: é tarde, é tarde, é tarde... Tarde por quê? Tarde para quem? Como ousa tentar comandar o meu destino? 

Respiro fundo, finalmente serei senhora de meu próprio tempo. Nem Lewis Carroll poderá salvá-lo! Que amargue seus dias como um mero coelho de bronze! Grito e salto para alcançar-lhe a garganta.

Desperto assustada, mãos para o alto. Imagens fugidias preenchem o quarto do hotel. Viro-me na cama. Está escuro em Nova York, todos dormem. É cedo para a vida. Não é tarde, ainda.