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terça-feira, 28 de março de 2017

Quero Ser Dorrit Harazim

Desço do táxi em frente à livraria do Leblon. O lançamento está marcado para às sete horas, ainda tenho alguns minutos de espera ansiosa. Outros interessados já se enfileiram diante da mesa preparada para os autógrafos. Dirijo-me ao caixa e, com meu exemplar nas mãos, junto-me aos admiradores da jornalista. 

Enquanto aguardo nosso primeiro encontro pessoal, folheio as páginas de O Instante Certo e confiro trechos das histórias, nascidas a partir de registros fotográficos. Das fotos impactantes, saltam histórias reais sobre os fotógrafos e seus fotografados, tendo como pano de fundo os principais temas sociais e políticos que os influenciaram. Pra completar, questões técnicas e estéticas da própria arte da fotografia. São todos textos novos para mim, embora já tivessem sido publicados em diferentes veículos nos últimos 20 anos. É pena, mas faz bem menos tempo que me encantei com o estilo de escrita da autora. Não tenho certeza de quando as colunas de O Globo começaram a fazer parte dos meus domingos, mas toda semana, mergulho fundo na narrativa elegante e inteligente da jornalista, hábil em tecer os múltiplos fios que o tema do dia sugere. Os assuntos variam, dos mais populares - terrorismo, eleições nos EUA, crise na política brasileira - aos mais prosaicos, como um esparadrapo no Museu do Amanhã. O fato é que sempre termino a leitura assaltada por um misto de sentimentos: uma enorme admiração e uma pontinha de inveja. Desejo, como naquele roteiro de cinema, quinze minutos pra entrar na mente de Dorrit Harazim, e, sendo a própria, capturar uma parcela de suas habilidades narrativas. A ousadia, mesmo que em devaneio, é imediatamente castigada: sou cuspida de volta à noite de autógrafos, bem no momento em que a senhora miúda e magra, tão alva na pele, cabelos, e até na blusa, toma posição à mesa. Parece frágil a mulher que correu mundo para cobrir guerras, ditaduras, atentados terroristas, jogos olímpicos, eleições. Um contraste enorme quando penso na robustez dos seus escritos. 

Ensaio um cumprimento para a hora h: Sou sua fã! (Fã, que ridículo! Ela vai me achar fútil). Ou, então: Gosto muito dos seus textos! (É óbvio, todos estão aqui pelo mesmo motivo!). Descarto, uma a uma, as frases feitas para me diferenciar nos parcos minutos em que estenderei meu livro no ritual da noite. Olhos livres no ambiente, reconheço uma pessoa que acompanha a autora - será uma assessora, ou parente? Tenho tempo pra recordar de onde a conheço; estou quase na pole position, quando a mulher se aproxima. Surpreende-se por me ver ali, ela comenta. Respondo que eu também. Pensei que trabalhasse com cinema, completo. Ela conta brevemente a sua relação com a jornalista e, em seguida, me apresenta à Dorrit. Vibro por já não ser uma reles leitora misturada à multidão e trato de me mostrar como tal. Em voz firme, proclamo: Sou sua fã! Gosto muito dos seus textos! Dorrit me olha, sorri levemente, rabisca o autógrafo e se deixa fotografar ao meu lado.
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Embora O Instante Certo já habite a minha biblioteca há alguns meses (a noite de autógrafos aconteceu em junho de 2016), o relato da minha experiência tinha ficado engavetado. Escrevi algumas versões, mas insatisfeita, acabei me dedicando à leitura do livro, bem mais interessante que qualquer texto que eu pudesse escrever. O tempo passou até que, na semana passada, a abertura da exposição Assis Horta Retratos me fez recordar o livro e, em especial, o capítulo referente ao fotógrafo mineiro que retratou a classe operária de Diamantina nas décadas de 40 e 50. Depois da visita, consegui parir o texto encruado, além de um novinho em folha, que pode ser conferido aqui.

3 comentários:

  1. Maravilha, Bia! Bola pra frente! Beijos

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  2. Crônica parece estilo em que você navega com fluidez e domínio. A gente embarca entre personagens e cenários de forma tão natural que se surpreende quando chega ao "the end".

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  3. Muito bom, Bia. Adoro ler seus textos. Eles falam do fundo do coração!

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